A GALIZA COMO TAREFA – utopias – Ernesto V. Souza

A morte cruel, prematura e inesperada, de Dario Xohán Cabana, um dos bardos da literatura galega atual, levou-me a re-ler, no fim de semana, O cervo na Torre (Vigo, Xerais, 1994). Dos três romances que tinha de mão (junto com Galván en Saor e Candido Branco e o Cavaleiro Negro) era o que menos lembrava a detalhe.

O cervo na Torre é uma epopeia post-apocalíptica e revolucionária, numa Galiza rota que ressurge (apoiando o que fica de Portugal e de costas a Castela) pela sorte, a situação geográfica, a reação das suas gentes, a sua ligação às formas de trabalho e de produção antigas, combinada com os ideais revolucionários. Tudo situado umas décadas adiante no futuro (que corresponde com o hoje), num mundo devastado por uma guerra mundial atómica fulminante, concentrada nas cidades, nos centros produtivos, nos subministros de energia e recursos estratégico-militares, acontecida nos anos em que se publicou o romance.

Completa este, os outros seus romances, artúricos e medievalizantes, os seus contos de presente, numa narrativa de propaganda, de corte soviético-revolucionário do mais clássico e maniqueísta. Os muitos episódios, mesmo os bélicos, as personagens, as descrições e memórias do passado imediato definem um catálogo de ideais e atuações revolucionárias, de corte didático, que se complementam com os outros romances e com a sua poesia também épica, popular. Em conjunto conformam uma mensagem de utopia, que vai desenhando uma Galiza sonhada, um independente república labrega de mil paróquias e comarcas, na que se formulam os ideais do comum e a revolução.

Conta-se o momento final da ressurreição de uma Galiza dividida, sem Vigo, Pontevedra, Arousa, nem Ferrol, partida a leste pela cicatriz da auto-via, terra de ninguém que a liga à Meseta, feudal e devastada; sem as terras da chaira, as marinhas e terras altas Luguesas mas federada com Portugal e aliada das Repúblicas Cântabras; com uma capital levantada ex-nihilo no Minho de nome Grândola nova; e com uma Crunha – derradeira cidade salvada por acaso das bombas com a sua refinaria e comarca – cantonalista e ocupada pelas forças da reação.

Kazimir Malévich : “Carga da cavalaria Vermelha”, óleo sobre tela, 1928-32 (fonte Wiki)

Os líderes revolucionários misturam também os protótipos fílmicos e ecos da vida real militante da Galiza,  o professoral e conspirador clandestino Fidel Carballo, o ferrinesco Castromao, o arcangélico herói Garcia (descendente de reis e continuando a narrativa de Morte de Rei), a Laura, a Marinha, a Aldara, as personagens secundárias o Reinaldo, o Xurxo, os diversos soldados, marinheiros, operários, taberneiros, mestres, os agentes clandestinos; que parecem tirados todos, da iconografia branco e preto, da pintura realista soviética e dos paisanos de feira e transporte coletivo que podiam ter pintado Cunqueiro ou Manuel Maria. O malvado antagonista, Ramon Amado, compartilha a estética do mal fascista, com a simbologia artúrica e o final do Mordred. As máquinas resgatadas e inventos, as comidas, o café de contrabando, o comboio, e os cavalos e, nestes, o protagonismo, por vezes irónico que agacha a poderosa figura do combatente revolucionário da iconografia soviética, a cavalaria vermelha dos cartazes, romances e filmes.

Combinam todos os elementos nesta narrativa nacional revolucionária sem fissuras, naif, de bons e maus, que se projeta como aventuras, sobre um cenário de ruínas urbanas, de áreas condenadas ou resgatadas da barbárie e canibalismo, e estradas saídas de um filme tipo Mad-Max. Os romances de Cabana são como partes soltas de uma mesma narrativa mítica, fundacional, revolucionária, popular, que se plasma na descrição dos episódios, na narrativa dos sucessos e da organização, dos trabalhos e do partido, a conspiração, as sabotagens, infiltração, a preparação meticulosa, a espionagem, a produção, a recuperação, no repovoamento das vilas e as terras destruídas pelas bombas, a radiação e o inverno nuclear.

Tudo, través de uma voz não isenta de lirismo e paixão revolucionária, mas talvez constringida por um exibicionismo de léxico rural e popular, cheio de arcaísmos e de variantes dialetais e diferencialismos que se enquadra na sua – e de mais gente – ideia de uma língua galega, independente, popular, de seu, criada e destinada a ser a fala do povo.

Mas, mesmo doutra perspetiva do que pode ser a língua, como não gostar das utopias revolucionárias, medievalizantes, labregas e post-apocalípticas, dessa Galiza das raízes ressurgente, da Irmandade do Cervo, da propaganda do Dario Xohan Cabana? Reconheço que ri a reler. Ultimamente gosto mais do que releio que das novidades. E, francamente, sempre calhou em mim este discurso à contra do capitalismo, religião moderna, e da destruição por consumo, a prol das utopias do século XIX e os romances de sci-fi; e sempre gostei da construção, da organização e dessa épica narrativa dos primeiros soviéticos, da sua utopia de igualdade, fraternidade, lógica e heroísmo revolucionário.

Dá para ver, porém, de 1994 a hoje, o muito que mudou o mundo e a Galiza. Não pelo esquecimento daquele perigo da Guerra Nuclear. Não apenas pela questão ideológica. O desmantelamento e bombardeamento à que se submeteu a esquerda clássica e como se arrumou e bestializou no imaginário o comunismo no seu pior. Senão também que daquela talvez ainda era possível conectar rapidamente com o passado, reativar a memória e por em andamento de novo, os ofícios e trabalhos tradicionais.

É tremenda a distância que fomos apanhando ultimamente contra a memória coletiva, como deixamos de saber tanta cousa ainda útil e aproveitável, como fomos contra essa Galiza rural, um verdadeiro mundo regrado, que durou milheiros de anos, e hoje está no último ocaso. E deixamos ir, abourados em mares de plástico, confiados no click globalizado e no imediato das redes. Consumo, capitalismo no seu pior, 45 anos de norte-americanização cultural, ideológica, social fazendo efeito.

Fantasiamos com a ecologia e sonhamos que nos defendemos da mudança climática, num mundo impossível, frágil, dependente dos sistemas, cheio de carros, grandes superfícies, e com um desenho urbano de filme, deixamos medrar as mega-cidades, esquecemos a medida humana, o comercio de bairro, as pequenas hortas, a qualidade do trabalho artesão, o tempo, e a independência pessoal, produtiva, a solidariedade coletiva, a proximidade.

Recuperar a iniciativa, criar bancos de memória e espaços experimentais de trabalho e educação alternativos, pioneiros, deveria ser uma prioridade. Reconectar com William Morris com os projetos dos galeguistas dos anos 20, 30, com a esquerda internacionalista de entre-guerras, com o Seminário de Estudos Galegos, com os projetos, desenhos e ideias de Issac Diaz Pardo e Luis Seoane, com o IGI e o Laboratório de formas. Teria de ser um objetivo nacional.

Seria importante criar tanta cousa: um Arquivo Nacional, um Museu – ampliando e na linha do Museu do Povo Galego, um outro da emigração. Escolas próprias, liceus, universidades, independentes das do Estado Espanhol, com projetos, ritmos e filosofias próprias. E deveria existir um Politécnico de ofícios tradicionais, trabalhos agrícolas, artesanais e de máquinas sem motor elétrico, com a sua biblioteca de livros e planos em papel e modelos, que funcionasse como um banco de memória, não apenas por se chega o colapso, quanto como alternativa hoje de utilidades e de caminhos.

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