A propósito da divulgação de um texto de Victor Hill sobre a COP26: Uma incursão sobre a problemática esquerda, direita – “O Pecado Original de Obama”, por Eric Rauchway

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

O Pecado Original de Obama

 Por Eric Rauchway

Publicado por  em 22 de Abril de 2019 (original aqui)

 

O Diretor do Conselho Económico Nacional Larry Summers, o Secretário do Tesouro Timothy Geithner, e o Diretor do Gabinete de Gestão e Orçamento Peter Orszag olham para o Presidente Barack Obama durante uma reunião económica na Sala Roosevelt da Casa Branca, 24 de Março de 2009. Imagem: Casa Branca Oficial, foto de Pete Souza

 

Um novo relato de informação privilegiada revela como o atabalhoado acordo de resgate feito pela administração Obama não só reforçou o neoliberalismo à Clinton como também pressagiou um fracasso contínuo no cumprimento das promessas de campanha.

 

 A Crisis Wasted: Barack Obama’s Defining Decisions (Uma Crise Desperdiçada: as decisões determinantes de Barack Obama), por Reed Hundt; Rosetta Books

 

Em Novembro de 2008, como um deslizamento de lama financeira que tinha vindo a acelerar lentamente durante meses, acumulando comparações cada vez mais convincentes com o colapso que desencadeou a Grande Depressão em 1929, a revista Time publicou uma capa onde se mostra a cara sorridente de Barack Obama inserida no lugar da cara de Franklin Delano Roosevelt. Aquele que seria, em breve, o quadragésimo quarto presidente senta-se no carro de trinta e dois, de capota aberta, usando o chapéu de campanha de Roosevelt, com o seu sorriso nos lábios, a segurar a cigarreira característica de Roosevelt. A imagem sugeria que Obama, o presidente eleito que prometeu esperança e mudança, poderia seguir as pegadas do seu antecessor democrata. Roosevelt que enfrentou a crise económica com enormes programas de obras públicas que deram a dignidade de ter um emprego a milhões de americanos, e – o que é mais importante nessa era de ascensão do fascismo – ajudou a restaurar a fé destes na capacidade do governo dos EUA em satisfazer as suas necessidades.

Durante a maior parte de meio século, o Partido Democrata tem estado numa crise multigeracional sobre o seu passado.

O artigo do Time sobre Obama-enquanto-Roosevelt aparece uma semana depois de uma reportagem do New Yorker que apresentava uma ilustração semelhante, mas que tinha uma visão mais moderada. Aí, o jornalista George Packer citava Cass Sunstein, antigo colega académico e conselheiro político de Obama, descrevendo o recém-eleito presidente como pós-partidário e um “visionário minimalista” – um homem pouco dedicado a grandes mudanças. Esta atitude, observou Packer, tornava Obama “distintamente não-Rooseveltiano”. Em pouco tempo, a visão mais cautelosa de Packer estava justificada. Em 2009, quando o historiador William E. Leuchtenburg lançou uma nova edição do seu livro sobre a presidência pós-1945, In the Shadow of FDR (1983), acrescentando um capítulo sobre os primeiros cem dias de Obama, Leuchtenburg já podia notar a frequência com que “Obama expressava um grau de separação da era de Roosevelt”. Ele até citou o novo presidente como dizendo: “O meu interesse é encontrar algo que funcione… quer venha de FDR, quer venha de Ronald Reagan”.

Durante a maior parte de meio século, o Partido Democrata tem estado nesta crise multigeracional sobre o seu passado. A fazer campanha contra Ronald Reagan em 1980, Jimmy Carter distanciou-se do esforço do New Deal para subordinar Wall Street a Washington, declarando “acreditamos que devemos tirar o nariz do Governo das empresas privadas deste país. Desregulamentámos … para nos certificarmos de que temos um sistema de livre iniciativa que é competitivo”. Bill Clinton assimilou plenamente o Reaganismo em 1996, dizendo “a era do grande governo acabou”. E agora alguns candidatos progressistas à presidência – com uma base de democratas da geração do milénio [1980/1996] – estão a denunciar a presidência de Obama como a última emanação da síntese Carter-Reagan-Clinton, uma recauchutagem do neoliberalismo cujo débil programa de recuperação da crise económica de 2008 assegurou quase uma década de estagnação do emprego que ajudou à ascensão de Donald Trump.

 

Duas representações de Obama como Roosevelt em 2008, na Time e em The New Yorker, respetivamente. Créditos da capa: Time, Arthur Hochstein, Lon Tweeten; The New Yorker, Richard Thompson.

 

Reed Hundt, que foi presidente da Comissão Federal de Comunicações de Clinton e membro da equipa de transição de Obama, apresentou efetivamente a argumentação dos progressistas no seu novo livro A Crisis Wasted. Obama, pensa Hundt, tomou decisões ainda enquanto senador dos Estados Unidos e depois como presidente eleito, que determinaram o curso da sua presidência. No Inverno pós-eleitoral, a seguir às eleições de 2008-2009 e antes da tomada de posse de Obama, os normalmente enlouquecidos e seguros de si-mesmos titãs das finanças – os mesmos que, no início do ano, aconselharam a inação do governo no interesse de deixar o mercado disciplinar-se a si próprio – passaram de repente, e de forma convincente, a profetizar a desgraça, a menos que Washington fizesse algo dramático para evitar a catástrofe económica. Enquanto muitos eleitores esperavam que as políticas de Obama pudessem representar uma mudança dramática seguindo a linha do New Deal, em vez disso, Obama aceitou considerações de emergência e lisonjas ideológicas destinadas a atenuar as expectativas e a dar-se um regresso à “normalidade”.

A adoção do neoliberalismo à Clinton pela embrionária administração Obama foi não só uma resposta inadequada à crise económica, mas também um fracasso do novo presidente em cumprir as suas promessas de campanha.

Obama rapidamente mudou de um FDR revisto para um Clinton renascido, porque, segundo Hundt, ele procurou conselheiros experientes para o pessoal da sua administração ainda a compor-se, e os democratas mais habituados à Casa Branca eram os que tinham estado ao serviço de Bill Clinton. Obama nomeou o chefe de pessoal de Clinton, John Podesta, para chefiar a sua equipa de transição, e Podesta trouxe consigo outros nomeados de Clinton que pensavam que o seu trabalho agora era o de restauração. Como Hundt escreve, “As pessoas são política”, e a nova equipa de Obama queria trazer de volta as políticas dos anos 90 e, com elas, a prosperidade dessa época. O pessoal de Clinton partilhava uma visão mais Reaganiana do que Rooseveltiana, acreditando que o seu sucesso no final do século XX resultava de “uma redução na dimensão, na capacidade e nas finalidades do sector público”. O grupo que rodeava Clinton, seguindo Carter, acreditava que o New Deal acabara por conduzir a uma regulamentação excessiva e à inibição das grandes energias do capitalismo, e que o longo boom dos anos 90 se devia ao facto de terem afastando o governo do caminho dos negócios e da banca, mantendo ao mesmo tempo os programas estatais necessários para promover oportunidades para a maioria dos americanos.

No entanto, independentemente do que se possa pensar dos efeitos das políticas de Clinton nos anos 90, o início do século XXI e as suas calamidades económicas exigiam uma abordagem profundamente diferente. A adoção do neoliberalismo à Clinton pela administração embrionária de Obama não foi apenas uma resposta inadequada à crise económica. Constituiu também, argumenta Hundt, um fracasso do novo presidente em cumprir as suas promessas de campanha. Obama poderia ter escolhido “alinhar-se com a democracia, e depois ter como objetivo ajudar diretamente a grande massa dos americanos”, diz Hundt, mas não o fez. Uma massa crítica de eleitores que tinham escolhido a esperança e a mudança chegou a acreditar que o seu presidente e o seu governo não os representavam ou nem sequer os ouvia – com consequências que agora conhecemos bem.

O livro de Hundt dá uma contribuição inestimável para o conhecimento deste momento crítico em 2008-2009. Porque Hundt esteve lá na sede de transição de Obama, ele pode recordar o que ele próprio viu e ouviu. Desde então, ele teve acesso a figuras-chave que também lá estiveram. As notas de Hundt atestam entrevistas com mais de uma dúzia de altos funcionários que desempenharam papéis importantes na elaboração da resposta política democrata à crise. Por vezes, os seus testemunhos entram em conflito uns com os outros, e Hundt deixa-os assim, o que provavelmente retrata com considerável precisão a incerteza e desacordo que permeiam o tempo.

A lei de apoio à banca, por exemplo, representa a rapidez com que a política foi feita durante estas semanas de crise. A administração de George W. Bush tinha apoiado o projeto de lei em Setembro de 2008, num esforço para evitar um colapso completo do sistema bancário; permitiu ao presidente gastar grandes somas de dinheiro para salvar o sector financeiro. Os apoiantes da lei, incluindo o Secretário do Tesouro Hank Paulson e o Presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque Timothy Geithner, pouco fizeram para sensibilizar o Congresso, acreditando que a emergência autoevidente deveria constituir a sua própria defesa. Geithner considerou: “Só queria que o Congresso o aprovasse o mais rapidamente possível mexendo nele o menos possível”.

É uma experiência rica e frustrante reviver estas discussões litigiosas, e, ao relacioná-las, Hundt é brilhante.

 

Este estilo de diplomacia inicialmente não conseguiu influenciar a Câmara dos Representantes, que rejeitou o projeto de lei. Mas o Senador Obama e outros apoiantes do projeto de lei contactaram a Casa Branca para dar o seu apoio, e depois fizeram lobby junto dos membros do Congresso, mudando um número suficiente de cabeças para fazer passar a Lei de Estabilização Económica de Emergência pela Câmara, com uma maioria de Democratas e quase metade dos Republicanos a alinharem-se por detrás dela. Quando Obama e o seu opositor republicano, John McCain, votaram ambos a favor do projeto de lei dos seus lugares no Senado, a opinião de Obama de que uma questão de preocupação nacional imperiosa poderia reunir o apoio bipartidário foi assim confirmada. Foi uma esperança que prosseguiu no esforço de elaborar um projeto de lei para salvar toda a economia.

Obama, entre muitos outros, apoiou os resgates dos bancos porque os credores privados são eles que bombeiam o sangue vital de uma economia capitalista, e no Outono de 2008 tinham quase parado por completo de o fazer. Com o encerramento dos mercados financeiros, seguiram-se as compras de habitação e a abertura de novas empresas; o desemprego começou a aumentar. Levaria tempo a limpar os balanços bancários e a fazer circular o crédito, uma vez mais – tempo durante o qual os americanos se veriam sem trabalho, a desfazerem as suas poupanças para viverem, incapazes de pagar as suas contas ou, por fim, de manterem um abrigo e obterem comida para si próprios e para as suas famílias. Também eles precisavam de assistência.

O método de fornecer tal ajuda era bem conhecido em economia e na história: o governo deveria gastar dinheiro para compensar a falta de rendimentos nas famílias, assegurando assim o emprego dos americanos, continuando os seus empréstimos e despesas, e estimulando o relançamento da economia em desaceleração. Como regra geral, gastar 2 por cento do PIB reduziria a taxa de desemprego em 1 por cento. Os economistas em 2008 e início de 2009 perceberam que, tendo em conta os números do desemprego, um pacote de despesas adequado custaria pelo menos $1 milhão de milhões de dólares e possivelmente mais. Paul Krugman, o economista que tinha acabado de ganhar o Prémio Nobel, explicou como fazer os cálculos na sua coluna e blogue amplamente lido do New York Times.

O livro de Hundt é do melhor que se escreveu para demonstrar como a legislação de estímulos – a Lei do American Recovery and Reinvestment – acabou num valor muito longe deste número. Hundt falou com Larry Summers, Christina Romer, Peter Orszag, e outros que desempenharam um papel crítico na determinação da estratégia de pré-administração de Obama para obter aprovação do Congresso sobre os dinheiros a gastar com os estímulos à economia. Hundt consegue colocar os seus leitores no meio da trama dos personagens decisivos nesta questão. Romer, uma professora de economia da Universidade da Califórnia, Berkeley, que tinha escrito consideravelmente sobre a Grande Depressão, tentou vigorosamente fazer com que a equipa apoiasse um número maior; os seus próprios cálculos sugeriam que o estímulo deveria rondar os $1,7 milhões de milhões de dólares. Summers, o antigo secretário do Tesouro sob Clinton e um estimado economista académico por direito próprio, não contestou as suas conclusões substantivas; simplesmente achou a soma demasiado assustadora para passar no Congresso. Orszag, também antigo conselheiro económico de Clinton e então diretor do Gabinete de Orçamento do Congresso, compreendeu que Obama queria manter o seguro de saúde como uma prioridade e estava preocupado com os enormes aumentos dos défices.

A comparação com Roosevelt ainda assombra a equipa Obama.

 

É uma experiência rica e frustrante reviver estas discussões litigiosas, e ao relacioná-las, Hundt é simplesmente brilhante. Ele deixa as suas fontes falar por si próprias, diferindo por vezes não só sobre o que dizem que deveria ter acontecido, mas sobre o que dizem que aconteceu. O livro aqui é cativante e aterrador em medida aproximadamente igual. Hundt simpatiza claramente com Romer e a sua aritmética. Também compreende claramente que a questão de género (Romer é uma mulher) era parte da razão pela qual a opinião dela não prevaleceu sobre a opinião dos restantes atores. A certa altura da sua narrativa, Romer tenta impressionar, na defesa das suas posições, jurando perante o presidente eleito. Obama usa-a como uma ocasião para dar uma pequena gargalhada chamando-a, e Hundt nota que esta observação coloca Romer de fora frente ao “grupo dominado por homens”. (A entrevista de Hundt com Romer, tal como outras, sugere que a blasfémia não é estranha a Romer). Havia um espírito de clube entre os homens que tinham antes servido no governo e que podiam reivindicar o duro pragmatismo da experiência.

Romer tinha razão mas de alguma forma ter simplesmente razão era basicamente também pouco sério. Summers disse-lhe para não mencionar o valor de 1,7 milhões de milhões de dólares; convenceu-a a descer mesmo de 1,2 milhões de milhões de dólares para algo em torno de 800 mil milhões de dólares – o que deixaria o desemprego algures à volta dos 8%, acreditavam então os planeadores. Mesmo com uma lei de gastos tão grande, escreve Hundt, o “objetivo estratégico da equipa era acabar com a recessão, mas não garantir um crescimento robusto e um aumento do nível de vida”. O consenso anti-Romer dominou então, com a opinião de que os Democratas deveriam demonstrar responsabilidade orçamental: “Um pacote de recuperação excessiva poderia assustar os mercados ou o público e ser então contraproducente”. O Congresso deu-lhes essencialmente o que eles pediram, mas  uma fonte anónima  disse a Hundt. “Conseguir esses 800 foi muito difícil. Esse valor quase que ia abaixo várias vezes. Krugman e toda a gente estão sempre a dizer disparates”.

No final, o estímulo revelar-se-ia mais fraco do que até Romer pensava. O desemprego permaneceria acima dos 9% até finais de 2011. A medíocre recuperação contribuiu certamente para a enorme mudança dos eleitores para os Republicanos nas eleições intercalares de 2010 e levou estes ao controlo da Câmara dos Representantes; a lenta e dura marcha de regresso à prosperidade deixou muitos eleitores ainda amargos mesmo em 2016. Na medida em que a decisão de pedir um estímulo menor foi o resultado , como David Axelrod diz a Hundt, de “juízos políticos e não económicos”, o resultado foi um tiro pela culatra. Os Democratas não obtiveram qualquer apoio evidente com a sua demonstração de contenção na elaboração de um pacote de despesas, e a sua aparente inépcia no combate à recessão enfraqueceu-os quando, posteriormente, procuraram uma legislação vital em matéria ambiental e de cuidados de saúde.

A questão, então, é o que é que a equipa Obama poderia, ou deveria, ter feito de forma diferente. Poderiam ter pedido um valor mais alto como estímulo à economia no início; mesmo que possa ser verdade que poderiam não ter conseguido mais, pelo menos teriam ficado registados como tendo acreditado que era necessário mais. Al Gore-entre outros-avisaram que seria muito mais difícil obter uma segunda ronda de estímulo à economia depois de um primeiro pacote de estímulo ter falhado do que obter um grande valor no início. Romer queria pelo menos gerir as expectativas e explicar a que ponto um estímulo de 800 mil milhões de dólares à economia se poderia mostrar como sendo muito modesto. “Porque é que não podemos realmente dizer a verdade”, pergunta ela, a dada altura. Em vez disso, a equipa Obama negociou contra si própria, escolhendo um número mais baixo, e depois dizendo que acreditava que este novo valor era suficiente.

Em vez de procurar a quimera da cooperação bipartidária, Obama poderia ter feito mais para preservar as suas promessas de campanha de esperança e mudança progressiva.

Hundt argumenta também que na altura em que a equipa de Obama estava a considerar uma lei de estímulo, já se encontravam numa má posição de negociação. Antes das eleições, Obama tinha apoiado a lei de apoio à banca sem sequer discutir a necessidade de alívio dos mutuários. Na altura, a Presidente da Câmara Nancy Pelosi, diz Hundt, reagiu ao projeto de lei de apoio aos bancos dizendo: “Devem estar a brincar”, e exortando a que houvesse “dinheiro para a Main Street [o americano comum], como também para Wall Street”. Mas a administração Bush, com o apoio de Obama, adiou a discussão dos estímulos e, acredita Hundt, assim “capturou” Obama. O bipartidarismo que tinha dado tanta energia a Obama desapareceu assim que Wall Street conseguiu o seu salva-vidas.

 

No final, a comparação com Roosevelt ainda assombra a equipa Obama. O economista Austan Goolsbee diz a Hundt que o grupo de Obama escolheu conscientemente não imitar Roosevelt que, na sua opinião, “deixou as coisas ficarem tão más” ao não cooperar com o presidente cessante Herbert Hoover nos meses que antecederam a sua tomada de posse, que chegou à Casa Branca com um Congresso prostrado disposto a aprovar qualquer uma das suas propostas de relançamento da economia. Roosevelt, na sua opinião, sacrificou os seus compatriotas para obter vantagens políticas.

Goolsbee está aqui a fazer eco de Geithner e do próprio Obama, que fizeram observações semelhantes em sua defesa ao longo dos anos. A sua história do comportamento de Roosevelt nos primeiros meses muito maus de 1933 é tão semelhante, que devem tê-la obtido de uma fonte comum. Em todo o caso, Roosevelt não fez tal coisa: Hoover não ofereceu cooperação ao seu sucessor que estava à espera de tomar posse; pelo contrário, exigiu-lhe capitulação. Escrevendo ao Presidente eleito Roosevelt, Hoover explicou que o seu sucessor só podia combater a Depressão renunciando à inflação, aos défices orçamentais, e aos pesados programas de obras públicas que tinha prometido na campanha, provando assim ser um democrata orçamentalmente responsável. Só fazendo estas promessas, disse Hoover, poderia Roosevelt restaurar a confiança e permitir que os motores facilmente perturbados das finanças e dos negócios retomassem as suas próprias operações. Em privado, para um colega republicano, Hoover admitiu não estar a procurar qualquer empreendimento conjunto; pelo contrário, estava a pedir a Roosevelt que trocasse a sua própria agenda pela de Hoover: “Compreendo que se estas declarações forem feitas pelo presidente eleito, ele terá ratificado todo o programa principal da administração republicana; isso significa o abandono de 90 por cento do chamado New Deal.”

Roosevelt recusou o pedido de rendição feito por Hoover. Evitando assim a armadilha que Hoover lhe tinha colocado, Roosevelt assegurou que poderia cumprir as suas promessas de campanha. A democracia em todo o mundo estava numa má posição, acreditava Roosevelt, e o seu objetivo era restaurá-la. Foi por isso que tinha dito aos eleitores que faria com que o Congresso adotasse leis sobre desemprego e seguro de velhice, salários mínimos e horários máximos, subsídios para os agricultores, e também para proporcionar empregos em obras públicas – não apenas para que os americanos tivessem rendimentos, mas para que sentissem que o seu governo trabalhava para eles. Ao construir uma barragem ou um aeroporto ou uma estrada, ao fazer funcionar linhas elétricas através de uma paisagem para pessoas que nunca tinham tido acesso à energia moderna, literalmente trazendo poder ao povo, Washington “ajudaria a restaurar a relação estreita com o seu povo que é necessária à nossa forma democrática de governo”.

Em vez de procurar a quimera da cooperação bipartidária, Obama poderia ter feito mais para preservar as suas promessas de campanha progressista de esperança e de mudança. Ao fazê-lo, ele poderia ter feito algo para restaurar a confiança dos americanos nas nossas instituições e na nossa forma democrática de governo. Infelizmente, como observa Hundt, esta crise foi uma crise desperdiçada.

Hundt retoma a comparação entre Obama e Roosevelt numa prolongada análise no final do seu livro. Infelizmente, ele comete um erro ao tratar os anos 30, erro que ele evitou ao lidar com os anos 2000, e conta com uma fonte única – e invulgarmente pouco fiável; Hundt baseia-se quase inteiramente nas memórias do antigo, descontente, assistente de Roosevelt, Raymond Moley, para o seu relato do New Deal. É como se Hundt tivesse confiado exclusivamente nas memórias de Geithner para compreender a administração de Obama. Mas ninguém vai ler o livro de Hundt pela sua análise da era Roosevelt. As pessoas deveriam lê-lo quando refletem sobre que partes do passado do Partido Democrata devem ser salvas, e quais as que é melhor deixar para trás.

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O autor: Eric Rauchway [1970-], estado-unidense, é professor de história na Universidade da Califórnia, Davis, e escreveu seis livros de história dos EUA e um romance. É mais conhecido pelo seu livro de 2008, The Great Depression and the New Deal, e pelo comentário associado sobre as políticas económicas de Franklin Roosevelt, que enfatizou a eficácia do New Deal como um programa de recuperação económica e redistribuição do poder político. Este livro foi considerado como um dos livros a ler para compreender a Grande Recessão. Apareceu na National Public Radio e no C-SPAN e contribuiu para o Financial Times e o Suplemento Literário do Times, assim como para o New York Times. Obra mais recente: Winter War: Hoover, Roosevelt, and the First Clash Over the New Deal. Licenciado em História pela Universidade de Cornell, doutorou-se em 1996 pela Universidade de Stanford.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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