Uma nota sobre a Internacionalização das Universidades num mundo em que parecer ser vale como ser (1/3). Por Júlio Marques Mota

Nota do editor:

Em virtude da extensão deste texto, e conforme acordado com o seu autor, o mesmo será publicado em três partes.


 Júlio Marques Mota

Coimbra, 6 de Dezembro de 2021

 

Palavra de ordem dos poderes estabelecidos: Internacionalizar as Universidades

Internacionalizar é a palavra de ordem nas Universidades europeias e americanas. No caso dos americanos, e antes da crise Covid, cerca de um terço dos seus estudantes em cursos de mestrado e doutoramento eram estrangeiros, maioritariamente da Ásia. No caso inglês, a situação é bem mais curiosa: o governo inglês financia o pagamento das nada amigáveis propinas que se situam entre 8000 e 12.000 libras ano. Por seu lado, o estudante liquidará a sua dívida quando entrar na vida ativa mas somente se tiver uma remuneração razoavelmente alta, cujo valor não me recordo. A ideia que tenho disto é que o valor de referência foi calculado no tempo das vacas gordas mas hoje as vacas estão magras, muito magras, pelo que muitos dos estudantes financiados dificilmente atingirão o patamar de rendimento a partir do qual terão de pagar a dívida acumulada. A conclusão imediata é que se tem um sistema de ensino superior financeiramente falido, facto que notícias como as publicadas por The Guardian e outros nos confirmam. Diz-nos o The Economist:

As universidades inglesas há muito que foram definidas pela sua arquitetura, desde os pináculos sonhadores de Oxford, às universidades de tijolos vermelhos construídas após a Revolução Industrial, até aos politécnicos de betão que brotaram por toda a parte após os anos 60. Aqueles que visitam um campus hoje em dia, provavelmente verão outra grande ronda de edifícios em progresso. Desta vez, o vidro e o aço são os principais meios de comunicação, por vezes acompanhados de um revestimento em cores garridas.

A pressa de construir reflete uma batalha para atrair estudantes, o que está a colocar uma tensão crescente nas finanças das universidades. As universidades recebem o dobro do dinheiro por estudante que recebiam há duas décadas. Mas um aumento das despesas significa que, no entanto, elas estão a acumular dívidas. As cerca de 130 velhas universidades britânicas devem quase 12.000 milhões de libras, contra cerca de 5.000 milhões de libras em 2012, de acordo com estimativas compiladas pela Reuters. Em 2016-17, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis, 19 universidades apresentaram défices, em comparação com seis no ano anterior. Diz-se que algumas delas estão perto da falência. “

Pelo lado americano a situação não é melhor. Diz-nos a Forbes :

Todos nós ouvimos os muitos especialistas e investigadores afirmar que o atual modelo educacional do nosso país não é simplesmente sustentável para a grande maioria dos estudantes e famílias que se querem envolver nele, agora e no futuro.

Os custos estão a aumentar e a dívida dos estudantes está a aumentar, com a dívida do empréstimo nacional de estudantes em 1,41 milhões de milhões de dólares, deixando-nos a pensar exatamente por que razão os preços do ensino superior são tão exorbitantes e se o retorno do nosso investimento será realmente suficiente para preparar eficazmente os nossos filhos para a vida após a faculdade. E perguntamo-nos se os nossos filhos estarão a aprender o que é necessário hoje para se tornarem profissionais de alto rendimento neste novo mundo digital.”

À custa deste sistema, a Inglaterra exporta serviços. O estudante estrangeiro precisa de alugar quarto, normalmente caro, o estudante precisa de comer, precisa de utilizar serviços, como lavandaria e outros. Em suma, o estudante precisará de gastar cerca do equivalente a 1000 euros por mês. São divisas que entram. O estudante filho da média burguesia, aguentará, os outros caem pelo caminho ou vão trabalhar para bares, cafés, restaurantes, para pagar os seus estudos. Mão de obra barata e assim temos os serviços de restauração e similares preenchidos com esta coorte de pessoas de bom nível de educação e remuneradas ao nível do salário mínimo.

Não me vou alongar sobre o ensino britânico, onde chega a haver cursos superiores com uma carga horária semanal de 12 horas. Contaram-me em tempos, uma pequeníssima história que reconstituída será mais ou menos isto, uma vez que já não me lembro nem dos detalhes nem da fonte. Dois alunos estrangeiros fizeram queixa à direção de uma Faculdade que dois professores terão sido injustos com as notas que lhes foram dadas. Estes dois professores foram chamados à direção e foi-lhes dito apenas isto: não se esqueçam de que quem paga os vossos salários são os estudantes! No final do ano, um dos professores visados, preferiu regressar a Portugal. Assim, não! Tudo dito.

No caso português, a internacionalização do ensino superior terá sido acelerada, por um lado, pelo programa Erasmus e pela máquina administrativa para esse efeito criada, e, por outro lado, por uma trajetória ostensivamente virada para o exterior, e independente do programa Erasmus, que se terá iniciado com a Universidade Nova de Lisboa e os seus cursos na variante em inglês. Duas vias de expansão que se dinamizam entre si e cujo efeito foi o aprofundamento da internacionalização do ensino superior. Um processo que lentamente se foi depois espalhando no imaginário dos estudantes e das suas famílias, um pouco como a nódoa de azeite em pano de linho branco. Mas fala-se mal português nas nossas Universidades e será que nelas se irá falar melhor em inglês, nestes cursos de variante em inglês?

Um exemplo das Faculdades abertamente chegadas a este processo de internacionalização é-nos dado agora pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, FEUC. Com efeito, diz-nos o diretor da FEUC no Diário das Beiras, de 2 de Dezembro de 2021:

No ano letivo de 2022–23, no primeiro semestre, daremos início a um curso de pós-graduação em Relações Económicas Internacionais, lecionado em língua inglesa, que construímos em parceria com a City University de Macau na sequência de negociações estabelecidas com apoio da Reitoria da UC. Além disso, estamos a preparar um curso de mestrado, também em inglês, na área das Relações Internacionais (um Erasmus+) e vamos renovar os planos de estudos das licenciaturas e mestrados em Economia e Gestão no sentido da sua acreditação internacional, que é muito exigente e supõe um claro aumento das dinâmicas de mobilidade internacional dos estudantes. Além destes processos de renovação, estamos a concluir a acreditação internacional do MBA Executivos, cuja qualidade é cada vez mais reconhecida, e vamos criar, já em setembro de 2022, uma Pós-Graduação em Marketing Digital no âmbito do Mestrado em Marketing, que está a ser renovado para esse fim. Em breve, teremos também um salto de renovação da oferta formativa numa área em que a FEUC tem um fortíssimo reconhecimento, a Economia Social.” Fim de citação.

A via da internacionalização desejada é aqui mais que evidente na esteira do que outros também já fizeram. Nada a dizer deste ponto de vista quanto à FEUC em particular.

Bem, um amigo meu de longa data teve a filha na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa na versão com aulas em inglês. O que ele me dizia era que se falava aí, um lugar de elite e para as elites, um inglês macarrónico. E como é que se ensina em inglês macarrónico? Como será nos outros lugares?

Aqui, dou-vos uma explicação. Há três línguas de inglês, o inglês original, com as suas variantes históricas, há o inglês falado da União Europeia, repleto de neologismos de difícil entendimento, e há o inglês macarrónico de múltiplas variantes, de múltiplas docas, de múltiplos bordeis ou ainda de muitos espaços em que continuamente se simula estar a trabalhar para se poder viver continuamente em festa.

Serão as Universidades portuguesas clones das docas no que se refere ao inglês e ao seu modo de encarar o mundo ou alternativamente clones dos parques de estacionamento social onde jovens universitários adultos à espera de empregos precários pretendem continuamente viver em festa, enquanto se lhes vai vendendo cursos de pós-graduação ? Vejam-se de forma rápida três exemplos:

1. Um primeiro exemplo: a Queima das Fitas em pandemia ou em fim de pandemia e de abertura de um outro período de pandemia que terá ajudado a promover, porque os estudantes têm sempre direito à festa, é desta visão do mundo um bom exemplo.

2. Um segundo exemplo: alguém é convidado para lecionar uma disciplina na área da Filosofia, imaginemos, em inglês, numa Universidade deste nosso país. A pessoa recusa porque não sabe inglês para dar aulas na língua de Shakespeare. Ah, não saber bem inglês não é problema, dizem-lhe. E continuam a explicar-lhe: “Os alunos também não sabem inglês. Nós fazemos-lhe os seus powerpoints em inglês e isto é o que interessa. Se não os ler bem, não faz mal, porque eles também não os entendem bem mesmo que os lesse corretamente, eles não sabem bem inglês” Talvez o diálogo não tenha sido literalmente este, o que é possível, mas o sentido foi exatamente este. E a remuneração vinha condigna: 15 euros a hora. Se considerarmos que cada hora da aula exige pelo menos uma hora de preparação, temos então uma remuneração de 7,50 euros por hora. Mas isto seria um valor calculado de forma enviesada. Se considerarmos ainda que há o trabalho burocrático e há trabalho de avaliação, se a estas tarefas imputarmos uma carga de ¼ do tempo letivo em aula, teremos então que por cada aula lecionada, há 2,5 horas de trabalho do docente efetuadas. Em suma o docente ganha então 15 euros por hora de trabalho em sala de aula mas isso corresponde a 6 euros por hora de trabalho efetuado, um valor mágico, o valor que recebe a empregada doméstica por hora de trabalho.

No mundo baralhado de hoje onde tudo se compara, tudo se avalia, é assim nas Universidades, não sei se se está a depreciar fortemente o trabalho complexo de um docente ou a sobreavaliar o trabalho da empregada doméstica. Entendamo-nos: economicamente estamos perante dois tipos de trabalho, o do docente, classificado como trabalho complexo, e o da empregada doméstica, classificado como trabalho simples. A remuneração como se demonstrou é a mesma, daí que se possa dizer que no mercado estes dois tipos de trabalho profundamente diferentes têm o mesmo valor, 6 euros hora, isto é, são trabalhos qualitativamente iguais, igualdade esta determinada via mercado. A conclusão a tirar é imediata: a precariedade é um bom nivelador das remunerações no sentido da baixa tornando igual o que estruturalmente é profundamente desigual! E isto passa-se com o silêncio das autoridades ou com o seu consentimento, uma vez que quem cala consente. 

Não quero desenvolver o que está por baixo da resposta acima referida, é um mundo de uma brutal desonestidade e insensatez, ressaltando aqui um facto: podíamos substituir o professor por um computador a ler os ditos powerpoints. Existem aplicações que já fazem isto e assim, como disse um Secretário de Estado do Ensino Superior (não, do Ensino Inferior) deste país, os professores ficariam com mais tempo para investigar! E, depois, o Ministro das Finanças poderia reduzir as verbas alocadas ao Ensino dito Inferior, porque seriam necessários menos professores.

Mas de toda esta história a precariedade de quem precisa quase sempre faz o resto, torna igual o que é desigual, a hora de trabalho complexo de um docente colocada como igual á hora de trabalho simples de uma qualquer empregada doméstica ou de um empregado à experiência num serviço de bar.

3. Terceiro exemplo. O programa Erasmus não foi sequer suspenso durante o período duro da pandemia, sendo certo que os estudantes isoladamente ficavam confinados sem quaisquer condições de sociabilidade, a menos que furassem o confinamento, o que foi feito a torto e a direito. Mas sejamos claros: coloquemos um filho nosso em Milão. Teve aulas à distância e normalmente ou em italiano, ou em inglês macarrónico. Se em italiano, esta é língua que o estudante não poderá perceber- são estadias de menos de seis messes e ninguém aprende uma língua nestas condições e num tão curto intervalo de tempo para poder receber aulas em italiano! Se as aulas não são lecionadas em italiano sê-lo-ão então no inglês mais macarrónico que se possa imaginar. Mas podemos sair de Itália e falar de um qualquer outro país, sobretudo, a Leste, nos jovens países entrados na União Europeia, e encontraremos situações ainda bem piores. Naturalmente assim. Mas publicita-se que se trata de ensino em qualidade e de tão grande qualidade que justifica a tal deslocação em confinamento, em sofrimento e isso torna-se na verdade aceite socialmente. Quem não aceitar esta verdade oficialmente afirmada é então um negacionista.

Curiosamente, parece-nos que implicitamente todos na União Europeia têm consciência de que os ganhos com o Erasmus não valem os custos e por isso há que colocar os custos baixos porque os ganhos em termos de ensino também serão poucos. Naturalmente assim para um espaço integrado que decide sacrificar o seu grande objetivo da Cimeira de Lisboa, de Março de 2000, de querer ser a “economia baseada no conhecimento mais dinâmica e competitiva do mundo, capaz de garantir um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos, e com maior coesão social e respeito pelo ambiente” no altar da austeridade e da reforma de Bolonha.

Se olharmos para a tabela das bolsas de mobilidade e para o que representam estes números em termos de custo de vida, é claro que juventude europeia é pura e simplesmente humilhada. Olhemos então para as “bolsas” de mobilidade dos estudantes. Estas variam consoante o país de destino e de acordo com a seguinte tabela :

Grupo 1: Dinamarca, Finlândia, Irlanda, Islândia, Liechtenstein, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido, Suécia – 400 euros

Grupo 2: Alemanha, Áustria, Bélgica, Chipre, Espanha, França, Grécia, Itália, Malta, Países Baixos, Portugal – 350€

Grupo 3: Bulgária, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia, República Checa, Macedónia do Norte, Roménia, Sérvia, Turquia – 300 euros.

Mas o leitor atento perguntar-se-á: face ao que diz o autor do texto, se este tiver um familiar a seu cargo, apoiaria a sua ida para o estrangeiro em programa Erasmus? A minha resposta é clara: claro que sim, mas com três pressupostos:

    1. Deve ir, mas deve ir com a ida programada a um ano de distância e com conhecimento da língua do país de origem dado a estadia ser apenas de 6 meses.
    2. Não se deve preocupar com o número de disciplinas a que obtém equivalência. Deve também conhecer o país em que está como visitante, não apenas as vistas, mas o viver e sentir da população com quem convive ou com quem deve conviver, daí a necessidade do conhecimento prévio da língua. Tem muito tempo pela frente para recuperar as disciplinas em que não teve equivalência.
    3. Deveria obrigatoriamente ter algumas disciplinas de humanidades (2 a 3, não mais) num leque de disciplinas de humanidades opcionais de matriz cultural e relativas ao país em que se deve inserir como estudante.

Estes três pressupostos, significam que os ganhos maiores com essa estadia seriam não tanto nas disciplinas curriculares em que teria equivalência nacional, seriam os ganhos culturais obtidos, e isso custa dinheiro, e o ganho na maturidade alcançada que pode significar anos de crescimento, dado estar fora da sua zona de conforto e relativamente protegida. Foi isso que constatei em muitos dos meus estudantes que estiveram em Erasmus e quando este era de um ano, salvo erro. Ainda me lembro de uma estudante alemã, da Baviera, que teve comigo duas disciplinas de economia, Economia Marxista e Economia Internacional, as mais difíceis disciplinas do curso segundo se dizia, juntamente com disciplinas na Faculdade de Letras, entre as quais Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira! Mas nada disto tem a ver com o Programa Erasmus tal como ele é, mas terá talvez muito mais a ver com o espírito Erasmus, penso eu.

 

Estes três exemplos mostram que basta fingir que se é para se ser. Basta afirmar a qualidade para que esta exista, basta considerar que a quantidade é intrinsecamente a expressão da qualidade para se dizer, viva a internacionalização do ensino, e esta – que se calem os negacionistas – é bem expressa pelos enormes fluxos estudantis.

 

(continua)

 

 

Leave a Reply