CARTA DE BRAGA – “da moral e do rever a História” por António Oliveira

 

O nigeriano Wole Soyinka, prémio Nobel da literatura em 1986 e bem conhecido pelos esforços a favor da paz em África, afirmou recentemente ‘Venho de uma religião prevalecente na minha comunidade, a adoração a Orisha, a religião mais humanista que conheço e a mais tolerante. O cristianismo e o islamismo, ao pretenderem ser as religiões mundiais que se assumem saber de tudo, especialmente os extremistas, exercem uma grande e perniciosa influência, incluindo o uso do medo; deviam aprender connosco, mas olham-nos de cima, com condescendência. É a razão de ser muito crítico com essas duas religiões’. 

Não muito longe de Soyinka está o padre e doutor em filosofia, Anselmo Borges, que numa das suas crónicas semanais no ‘DN’, escreveu há pouca semanas, ‘Uma religião que conduz à menoridade mental, que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, pelo menos, melhor do que nós. Ora, um ser humano sadio, não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade’.

Sem me querer afastar do tema, devo dizer que me ensinaram há muito e foram repetindo-mo ao longo dos anos, que a religião, a política e o futebol, eram assuntos onde raramente havia conversas tranquilas, por terem na base e, em causa, convicções e ‘fezadas’ pessoais, que se ‘incendiavam’ rapidamente e sem controlo. 

Mas também sei, como escreveu, não há muito, o filósofo Santiago Alba Rico, ‘Os três gestos que mantêm mal cosida a humanidade, são: saudar, agradecer e pedir perdão; saudar é o reconhecimento mínimo entre seres humanos e agradecer não é só cortesia, mas uma atitude gratidão por termos nascido e, por fim, pedir perdão, tem a ver com um outro milagre, o de ter capacidade para medir as consequências dos nossos actos e, julgando-os irremediáveis, tentar repará-los através de um acto de linguagem. 

Na verdade, diz Alba Rico ‘O grande argumento de Dostoievski a favor da existência de Deus, era na realidade muito débil: se Deus não existir tudo está permitido, mas deveríamos acrescentar, se Deus não existir, nada pode ser perdoado’.

Isto quer dizer que, de qualquer modo, todos temos sempre algum motivo para pedir perdão, para agradecer e para saudar, mas convém não esquecer que a espiritualidade é estritamente pessoal e, se estiver estruturada e alavancada como parte da vivência da comunidade, dizer e compartilhar experiências individuais, é fundamental para o decorrer, pelo menos agradável, da vida civil, com todas as obrigações que ela impõe. 

Por isso, volto a salientar aqui o teólogo Leonardo Boff, ‘Talvez seja bom não olhar a fé só como um acto ao lado de todos os outros, por ser uma atitude que os engloba a todos, a pessoa toda, o sentimento, a inteligência, a vontade e as opções de vida’ razão pela qual a fé ‘não é só boa para a eternidade, mas também para este mundo e, neste sentido, a fé engloba também a política com P maiúsculo (política social) e com p minúsculo (política partidária)’.

E num outro escrito, em ‘A viagem dos Argonautas’ de 14 de Novembro último, Leonardo Boff escreve também, ‘Quase nunca se fala de justiça social, do drama dos milhões de desempregados, do grito dos oprimidos e do grito da Terra. Neste campo precisa-se de um compromisso, de assumir um lado, para escapar do cinismo face à realidade com tantas iniquidades’.

Uma necessidade prejudicada por até parecer estar na moda, rever a realidade de tudo o que aconteceu na história de cada povo e de cada comunidade, tantos nos regimes ditos democráticos, como naqueles outros que o dizem ser, só para dissimular o seu inegável autoritarismo e li algures, não há muito tempo, que o presidente Xi Jimping, também ressuscitou Confúcio, ao atribuir-lhe a sentença ‘Para destruir um país, há que erradicar primeiro toda a sua história’, tal como tentam agora, por todo o mundo, os discursos dos nacionalismos xenófobos e excludentes. 

El Roto, ‘El País’, 20.01.22

Aparentemente, uma apresentação da nova ‘moral’ que quer, nestes tempos, implantar-se em tudo quanto é sítio, sempre e quando houver alguém com pretensões ou arrogâncias de ‘senhor’, que defenda a institucionalização de uma moral por grupos, qualquer coisa como ‘nós’ somos ou representamos o bem e ‘eles’, os ‘outros’, serão o mal, talvez  um resquício das lutas pela sobrevivência de grupos, clãs, tribos e comunidades, por ajudar à coesão, à unidade e para se poderem marcar objectivos comuns. 

Este tipo de ‘moral’, aparentemente consequência também da evolução natural, leva a que conflitos e guerras sejam sempre considerados como lutas entre o ‘bem’ e o ‘mal’, com exemplos bem visíveis e contáveis na história do mundo ocidental, com as inevitáveis respostas no resto todo, onde até um ‘neutro’ como o ‘coronavírus’, pode ter ‘nomes’ diferentes, dependendo do lado de quem o pena, de quem o nega, ou de quem lucra com ele. 

Tudo porque, o excesso de informação ao dispor de todo o mundo, tanto nos mais diversos meios de comunicação como nas redes sociais, é uma ameaça real e espúria contra qualquer tentativa de defesa frente ao erro e à mentira, bem como frente a uma outra mais subtil e suave -a manipulação- que, de acordo com Jean Baudrillard, resulta da ‘Desinformação da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos, que cria um campo de percepção vazio’, para pouco depois ter reforçado esta afirmação ao acrescentar, ‘Com a instantaneidade da informação, deixou de haver tempo para a História’. 

Tudo facilmente explicável para o filósofo francês de origem búlgara, Tzvetan Todorov , pois ‘Entender o inimigo também significa descobrir como nos parecemos com ele’ e, por isso terá de haver um enorme conflito entre a recuperação do passado e a sua utilização nas políticas do presente e, também por isso, não se podem esquecer as palavras de Walter Benjamin ao referir o fascismo, quando fugia dos nazis, e antes de se suicidar na fronteira de Espanha, por os espanhóis lhe negaram a entrada no país, ‘Nem sequer os mortos estarão a salvo do inimigo, se este vencer’. 

E foi a mesma História a dar também toda a razão a esta sentença, a este lamento, mas também a este alerta para os dias e tempos que seguiram, e que uns tantos tentam agora voltar a fazer-nos viver

Lembro-me de ter lido, do sociólogo alemão Max Weber, que quem procurasse salvar a alma, nunca o deveria fazer através da política, mas por não me querer em campos que aqui, até parecerão excessivos, também recordo um amigo que, quando as conversas pareciam chegar a um ponto de não entendimento, pedia mais uma cerveja para logo sair do lugar, por nunca quere alinhar em conversas “morais”, mas só depois de uma frase singular, “Oxalá Deus nos apanhe já confessados!’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

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