“A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936 |
Nota de editor:
Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O presente texto “Um Banqueiro Central de Mãos Atadas? Marriner S. Eccles e a Política da Reserva Federal, 1934-1951“, insere-se no conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte “1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.
Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.
É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”
Dada a extensão do presente texto, o mesmo será publicado em duas partes.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
20 m de leitura
1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal
1.13. Um Banqueiro Central de Mãos Atadas? Marriner S. Eccles e a Política da Reserva Federal, 1934-1951 (2ª parte)
Por Matías Vernengo, em Maio de 2006
Publicado em
(A Hands-off Central Banker? Marriner S. Eccles and the Federal Reserve Policy, 1934-1951 , ver aqui)
(continuação)
A Guerra e o Acordo Reserva Federal–Tesouro
John K. Galbraith (1977, p. 221) notou, de forma que ficou célebre, que “Hitler tendo acabado com o desemprego na Alemanha, tinha acabado com ele para os seus inimigos“. O New Deal colocou a economia a funcionar mas não levou ao pleno emprego (20). Embora o crescimento acumulado do Produto Interno Bruto (PIB) real entre 1933 e 1939 tenha sido de uns impressionantes 41,2 por cento, o desemprego permaneceu ainda nos 17,2 por cento em 1939. As taxas de crescimento do New Deal seriam ofuscadas pelo esforço de guerra, e o desemprego cairia para um mínimo de 1,2 por cento em 1944.
Desde o início da edificação do caminho para a guerra, Eccles mostrou preocupação com o financiamento da guerra e o grande risco de inflação. Em Abril de 1942 Eccles discutiu um programa anti-inflacionista com Roosevelt, e transmitiu as suas preocupações sobre os perigos de uma inflação crescente (21). Em relação à nova preocupação de Eccles com a inflação, Meltzer (2003, pp. 636-7) argumenta que:
“Os pontos de vista económicos de Eccles parecem confusos. Na década de 1930 não viu razão para uma ação da Reserva Federal porque a política monetária era ineficaz quando as taxas de juro eram baixas numa recessão. Em 1946, um período de expansão antecipada, parte do seu argumento era que a política teria pouco efeito a menos que a Reserva Federal realizasse operações de grande escala e aumentasse substancialmente as taxas de juro“.
De facto, mesmo antes de 1946, como notámos, Eccles mostrou sérias preocupações com a inflação e sugeriu que se tomassem medidas orçamentais e monetárias para evitar uma inflação excessiva. Para Eccles, o principal instrumento para controlar a inflação era a política orçamental. Ele argumentou “que a medida anti-inflacionista mais eficaz tem sido e deve continuar a ser um programa orçamental rigoroso para assegurar que o maior excedente orçamental possível seja consistente com as obrigações do Governo no país e no estrangeiro” (Marriner S. Eccles Papers, Box 4, Pasta 10).
A imprensa progressista também observou que a mudança de circunstâncias exigia uma nova linha de ação, e que não havia contradição nisso. O editorial de The Nation de 11 de Janeiro de 1941 argumentou que “em alguns quadrantes a proposta de Marriner Eccles e dos seus colegas está a ser tratada como uma bofetada à Administração e uma confissão de erros passados. Isto, é claro, simplesmente não faz sentido. Podem ser levantadas objeções pelo Tesouro e outros departamentos governamentais a certos detalhes do relatório da Reserva Federal, mas os apoiantes informados do New Deal não irão certamente criticar o princípio geral de que um sistema monetário sob controlo deve conter a inflação bem como combater a deflação” (Marriner S. Eccles Papers, Box 4, Folder 1).
É de notar que durante a guerra John M. Keynes (1940) também se preocupou com a inflação. Keynes argumentou que, com pleno emprego, se a procura agregada aumentasse, a produção não poderia aumentar devido a restrições de oferta. O excesso de procura significaria que o nível de produção que seria determinado pelo processo multiplicador seria superior ao nível de pleno emprego, e, por conseguinte, esse nível de produção não seria alcançável. Keynes referiu-se à diferença entre a produção de equilíbrio do mercado e a produção do pleno emprego como sendo o hiato inflacionista. Uma vez que os salários nominais ficariam para trás face aos preços de ajustamento, o aumento dos preços levaria, portanto, a uma redução do salário real e a uma redistribuição dos rendimentos a desfavor dos assalariados. Além disso, uma vez que os trabalhadores têm normalmente mais propensão para consumir do que os capitalistas, a redistribuição do rendimento induzida pelo desvio inflacionista levaria a uma menor procura agregada e a uma redução do hiato referido.
Robert Skidelsky (2000, p. 88) argumenta que:
“A aceitação pelo Tesouro [britânico] da lógica de Keynes para lidar com a inflação não implicava a aceitação dessa lógica para lidar com o desemprego. A ideia de utilizar o orçamento para “equilibrar as contas” da nação não se estendeu ao aumento do poder de compra quando aumenta o ‘hiato do produto’. Para o problema da inflação, a lógica ortodoxa e keynesiana coincidiram: para o problema do desemprego, divergiram“.
Além disso, Skidelsky (2000, pp. 120-1) argumenta que “os Keynesianos americanos tinham todos lido How to Pay for the War [de Keynes], mas estavam mais preocupados com a estagnação do que com a inflação. (…) Os keynesianos americanos queriam continuar o New Deal na guerra, enquanto Keynes queria converter a produção da economia de tempo de paz para produção em tempo de guerra“. Como foi referido acima, não foi claramente esse o caso, e alguns defensores do New Deal, incluindo Eccles, estavam tão preocupados com o financiamento da guerra e a inflação como os seus homólogos britânicos.
Eccles (1944, p. 226), ao contrário de muitos Keynesianos (22) que pensavam que havia um grande risco de depressão após a guerra, argumentou que “a nossa frente interna terá de continuar a luta contra a inflação durante um tempo considerável após o fim da guerra“. Ele pensava que “as necessidades em atraso acumuladas” implicariam que durante muito tempo após a guerra o consumo excederia de longe a capacidade produtiva. No entanto, a preocupação com a inflação não significava esquecer a centralidade da manutenção do pleno emprego. Para Eccles (1944, p. 237) era claro que “subjacente a tudo o que disse está o propósito fundamental de evitar quer a inflação quer a deflação – por outras palavras, o que gostaríamos de ter é uma produção e emprego plenos e sustentados“. Assim, seria injusto argumentar [N.T., como o faz Meltzer] que a preocupação de Eccles com a inflação ofuscou o seu compromisso com o pleno emprego.
No entanto, Meltzer (2003, p. 671), argumenta que “Eccles mostrou que se tinha esquecido porque razão veio para Washington em 1933“. A razão para este comentário está novamente relacionada com o facto de que em Fevereiro de 1949, quando o Conselho reconheceu os sinais de uma recessão, Eccles sugeriu que alguma deflação “era necessária e desejável para que a economia voltasse a um período de estabilidade” (ibid.). Eccles, como notámos, pensou que, em geral, o problema do pós-guerra seria a inflação e não o desemprego. Além disso, o facto não mencionado por Meltzer é que quando Eccles foi para Washington – em 1934 e não 1933 – as taxas de desemprego estavam acima dos 20% (em 1933 era de 24,9%, e um ano depois 21,7%), enquanto que em 1949 o desemprego era apenas de 5,9%. Eccles não tinha esquecido porque é que tinha ido para Washington; ele já tinha cumprido os seus objetivos. Não só o desemprego foi praticamente eliminado, mas também a Lei do Emprego de 1946 estabeleceu a importância do pleno emprego para a gestão macroeconómica (23).
Durante a guerra, e no seu rescaldo imediato, quando a desmobilização levou a uma queda do PIB de 11,1%, Eccles manteve a opinião de que era necessária uma política monetária flexível. Argumentou em 1947 que “nas condições atuais e prospetivas é essencial manter o estabelecido 2½ por cento sobre títulos públicos negociáveis a longo prazo,” (Marriner S. Eccles Papers, Box 4, Folder 10). No entanto, em 1950 – quando Eccles era membro do Conselho, mas já tinha sido demitido do cargo de presidente – ele tinha mudado de ideias. Numa carta ao The American Banker em Março de 1950, em resposta a críticas sobre a sua mudança de opinião, Eccles observou que “a perspetiva em 1948 era de que o boom do pós-guerra se esgotaria; a perspetiva hoje em dia é de pressões inflacionistas contínuas durante um futuro indefinido” (Marriner S. Eccles Papers, Box 61, Folder 7).
Eccles não estava sozinho nas suas crescentes preocupações com as pressões inflacionistas (24). Em Novembro de 1950 uma longa lista de economistas – nomeadamente vários Keynesianos, como James Dusenberry, John K. Galbraith, Seymour Harris, Charles Kindleberger, Kenneth Kurihara, Hyman Minsky, Tibor Scitovsky, Arthur Smithies e Lorie Tarshis para citar alguns (25) – assinaram uma declaração intitulada “An Economist’s Statement on Anti-inflationary Measures”, favorecendo políticas orçamentais e monetárias contracionistas, e também “controlos governamentais sobre salários, preços, produção e distribuição” (Senado dos Estados Unidos, 1951, p. 1531) (26). A política monetária contracionista perturbaria o acordo implícito entre a Reserva Federal e o Tesouro, o que implicaria que o Fed estabilizaria o mercado de títulos do governo.
Neste contexto, Eccles juntou-se a Allen Sproul, o governador da Reserva Federal de Nova Iorque, para libertar a Reserva Federal das suas obrigações para com o Tesouro. Numa carta a Milton Friedman, em Fevereiro de 1951, Eccles argumentou que:
“A insistência do Tesouro em manter no período pós-guerra e para o período de defesa a mesma taxa de juro artificialmente baixa e fixa que era inevitável [Eccles riscou com a sua caneta a palavra “justificado”] durante as condições da Segunda Guerra Mundial é, evidentemente, muito infeliz. Nos primeiros meses após a Guerra, havia justificação para uma política de contenção sobre alterações significativas da “baixa taxa de juro”, uma vez que se acreditava amplamente que a transição do período de guerra para o período de paz seria muito mais difícil do que acabou por ser. Mas quando a força das forças inflacionistas no país se tornou evidente, era tempo de tomar medidas monetárias apropriadas” (Marriner S. Eccles Papers, Box 62, Folder 1).
Alguns argumentaram que esta posição implicava uma viragem total em relação às posições anteriores de Eccles. Meltzer (2003, 723) enfatiza a importância de Eccles na promoção da independência do banco central e avalia que as posições de Eccles nos “últimos dias [na Reserva Federal] estavam entre as suas melhores” (ibid., p. 705, n. 222).
A opinião de que a independência do banco central é essencial para alcançar a estabilidade de preços tornou-se dominante nos círculos profissionais. Alternativamente, Gerald Epstein e Juliet Schor (1995) desenvolveram uma teoria de “terreno contestado” do banco central, e utilizam extensas provas de arquivo para sugerir que o conflito distributivo é central para estabelecer regimes de política económica (27). Na sua opinião, aqueles que queriam a independência do Sistema da Reserva Federal em relação ao Tesouro acabaram por querer manter taxas de retorno reais adequadas para os rentistas, apoiar lucros mais elevados para os bancos e, impedindo o pleno emprego, reduzir o poder de negociação do trabalho. Na sua opinião:
“A política monetária flexível e um Sistema de Reserva Federal totalmente independente foram componentes principais da estrutura política keynesiana conservadora desenvolvida na era pós-guerra. Tal como o “acordo” implícito entre os elementos conservadores do trabalho e do capital estabelecia as regras para a negociação direta do trabalho e do capital, o Acordo entre o Tesouro e a Reserva Federal fixava os termos do ambiente macroeconómico mais amplo dentro do qual essa negociação teria lugar. E ao libertar a política monetária do controlo governamental, desempenhou um papel importante no estabelecimento dos termos em que o capital obteria uma vitória significativa contra o trabalho nas décadas de 1980 e 1990, nomeadamente através de uma política monetária rigorosa” (Epstein e Schor, 1995, p. 8).
A teoria “terreno contestado” de Epstein e Schor fornece um bom enquadramento para compreender as disputas entre a Reserva Federal e o Tesouro. A principal preocupação do Secretário do Tesouro, John Snyder, como tinha sido o caso dos seus antecessores, era com o custo do serviço da dívida pública, que tinha inchado durante a guerra e correspondia a 93,9 por cento do PIB em 1950. John D. Clark, o vice-presidente do Conselho de Consultores Económicos (CEA) argumentou em Fevereiro de 1951 que “consideramos o custo do capital [a taxa de juro] como não sendo diferente de qualquer outro custo de produção e que é sempre desejável que os custos de produção, incluindo o custo do capital, sejam considerados tão baixos quanto a política social o permita” (Marriner S. Eccles Papers, Caixa 62, Folder 8) (28).
Além disso, o Tesouro, tal como o Conselho da Reserva Federal, era permeável a influências políticas. Para além da sua intenção de minimizar o pagamento de juros, não é claro que Snyder e outros no Tesouro ou no CEA fossem os portadores padrão da política monetária democrática (29). De facto, Eccles mostrou consideravelmente maior consciência do conflito distributivo envolvido na fixação das taxas de juro do que os seus homólogos no Tesouro. Eccles sabia que aos primeiros sinais de recuperação haveria exigências de taxas de juro mais elevadas. Como ele observou, “no final de 1936 e no início de 1937, alguns círculos financeiros exerceram fortes pressões para taxas de juro mais elevadas” (Ecles, 1951, p. 293). A esse respeito, ele sabia que as exigências de taxas de juro mais elevadas em 1950 eram também gritos de lucros mais elevados para os bancos, e os interesses dos rentistas em geral (30).
Num discurso proferido no Clube de Executivos de Chicago em Março de 1951, Eccles defendeu que:
“O Sistema da Reserva Federal tem sido acusado de procurar taxas de juro mais elevadas, o que enriquece principalmente os bancos e outras empresas. A Reserva Federal não está interessada em taxas de juro mais elevadas enquanto tal, mas apenas na medida em que ajudam a travar as vendas de títulos do Governo que se somam às reservas e depósitos do sistema bancário. A fim de travar tais vendas de títulos do Estado, é necessário que o mercado para eles se torne mais autossuficiente e menos dependente das compras da Reserva Federal. O resultado incidental de tal desenvolvimento, nas condições atuais, será taxas de juro um pouco mais elevadas” (Marriner S. Eccles Papers, Box 62, Folder 5).
Por outras palavras, Eccles não estava interessado em aumentar as taxas de juro per se, e na realidade o eventual aumento era pequeno. A sua principal preocupação era preservar a capacidade da Reserva Federal para controlar o excesso de reservas, e torná-la menos responsável pela estabilização do mercado de obrigações públicas, uma vez que acreditava que ambas as atividades poderiam ter sido incompatíveis. Eccles também defendeu um certo poder discricionário para os banqueiros centrais, e tanto como lutou pela independência do banco central em relação aos interesses de Wall Street na Lei Bancária de 1935, centralizando o poder em Washington, e reduzindo o papel da agência de Nova Iorque, lutou contra o controlo direto do Tesouro. Em última análise, o que Eccles queria era que a Reserva Federal tivesse poder discricionário para lidar com o desemprego e a inflação.
Além disso, as relações entre Eccles e a comunidade bancária nunca foram particularmente boas (Meltzer, 2003, p. 656). Por essa razão, é difícil argumentar que ele era um campeão da independência do banco central, em particular, se com isso se quer sugerir que “a razão duradoura para a separação dos poderes monetário e de gestão da dívida era o fracasso patente dos programas de dinheiro barato e de baixa taxa de juro para alcançar resultados aceitáveis” (Timberlake, 1999, p. 67).
A luta pela independência do banco central para Eccles não era uma retratação das políticas do New Deal que ele defendia antes. Para ele, a questão era como criar as condições para implementar a sua filosofia económica em condições de pleno emprego e pressões inflacionistas. Eccles (1951, p. 316) definiu a sua filosofia económica nos seguintes termos:
“Creio, contudo, que o direito mais básico de todos é o direito a viver, e junto a isso, está o direito ao trabalho. Não penso que estômagos vazios levem a que se ganhe caráter, nem penso que se substituirmos o ócio e um subsídio de desemprego por um apoio ao trabalho útil se venha a degradar quer a dignidade quer o carácter das pessoas visadas com essa substituição. Não podemos esperar preservar as nossas instituições livres neste país se condenarmos uma proporção substancial do nosso povo ao desemprego prolongado, a um baixo nível de subsistência. Para além do direito a comer e do direito a uma posição social, penso que o indivíduo, rico ou pobre, tem direito a um lugar decente para viver. Penso que ele tem direito à segurança na velhice e à proteção contra o desemprego temporário. Penso que tem direito a cuidados médicos adequados e à igualdade de oportunidades educativas com o resto dos seus compatriotas. As despesas governamentais (…) têm sido em grande medida o meio de traduzir estes direitos básicos em realidades“.
A ampla filosofia dos direitos económicos de Eccles, e o papel crucial que desempenhou na implementação do New Deal, sugere que Eccles deve ser considerado entre as figuras centrais da Revolução Keynesiana na arena política. A sua preocupação com as pressões inflacionistas após a guerra, e a sua defesa nos últimos dias do Acordo da Reserva Federal com o Tesouro eram perfeitamente compatíveis com o seu compromisso para com o pleno emprego e uma sociedade mais equitativa e civilizada.
Observações Finais
A sabedoria convencional sobre a política monetária durante a Grande Depressão sugere que esta foi passiva, e que não contribuiu para a recuperação. As suas posições durante e após a guerra, quando Eccles ficou preocupado com a inflação, foram por vezes consideradas inconsistentes. O seu apoio à independência da Reserva Federal em relação ao Tesouro é visto como uma confirmação da inconsistência das suas opiniões. O presente documento sugere que, em parte, estas perceções resultam de uma compreensão incorreta das posições políticas de Eccles.
Em vez de um banqueiro central passivo, que submeteu o Fed aos desígnios do Tesouro, uma representação mais adequada do mandato de Eccles no Fed seria a de um presidente da Main Street, do americano comum. Ou seja, ele considerou como essencial o papel da Reserva Federal como agente orçamental do Tesouro, numa situação em que só uma política orçamental expansionista poderia colocar a economia numa trajetória de expansão.
Também, tal como Keynes, uma vez alcançado o pleno emprego durante a guerra, Eccles ficou preocupado com a inflação. Considerou que medidas orçamentais e políticas de rendimentos eram necessárias para conter a inflação, mas acreditou que a política monetária, que para ele era bastante ineficaz numa recessão, seria um pouco mais eficaz na trajetória ascendente da economia. Estas preocupações com a inflação, e a sua predileção pelas medidas discricionárias em vez de regras, estavam por detrás da sua defesa da independência do banco central. Ele não favoreceu o aumento das taxas de juro, e previu uma recuperação em que a dívida pública iria gradualmente dar lugar à expansão da dívida privada, mantendo ao mesmo tempo o pleno emprego. Em muitos aspetos, a opinião de que Eccles se tornou mais conservador no final da sua carreira faz lembrar a resposta de Keynes a um amigo que, após ouvir falar da nomeação de Keynes para o Banco de Inglaterra, disse que ele se estava a tornar ortodoxo na velhice. Keynes respondeu: “Está enganado. A ortodoxia é que me alcançou “(31).
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Referências
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NOTAS
(20) Isto levou alguns keynesianos como Hansen a acreditar que foi a experiência da guerra, e não a recessão de 1937-8 que levou ao domínio das ideias keynesianas (Colander e Landreth, 1996, pp. 104-6). Samuelson, por outro lado, argumenta que “é completamente falso que o New Deal não tenha funcionado até que a Segunda Guerra Mundial chegou e o salvou”, (ibid., p. 160). Stein (1969) tem uma visão mais longa, e sugere que as ideias keynesianas não triunfaram completamente até à Administração Kennedy.
(21) O diretor de investigação, Emanuel Goldenweiser, argumentou nessa altura que “o maior perigo que enfrentamos na frente económica é o perigo de inflação galopante”, (Marriner S. Eccles Papers, Caixa 6, Folder 12).
(22) Samuelson argumentou que “a profissão em geral (…) pôs um grande ovo pelo qual pagaram em aclamação, desrespeito, recriminação. Esta é a famosa previsão de que haveria desemprego em massa após a guerra, a menos que o governo abrandasse o regresso dos soldados e criasse um grande défice” (Colander e Landreth, 1996, p. 173).
(23) A Lei do Emprego de 1946 per se não era garantia de pleno emprego ou de emprego máximo, tal como definido na Lei. Leon Keyserling, presidente do Conselho de Consultores Económicos (CEA), uma instituição criada pela Lei do Emprego, na administração Truman, observa que era difícil definir pleno emprego ou máximo emprego. Recorda que Alvin Hansen temia “que os economistas [tomassem] uma definição cada vez mais alta para o que constitui pleno emprego” (Colander e Landreth, 1996, p. 233). Ver também De Long (1996).
(24) Leeson (1997) mostra como as ideias de Alvin Hansen evoluíram da noção de que a inflação era um problema perigoso para a ideia de que alguma inflação poderia ser aceitável e que poderia ser trocada por níveis mais baixos de desemprego.
(25) Surpreendentemente, dada a defesa do controlo de preços e salários, a declaração foi também assinada por economistas que estariam associados ao monetarismo como Arnold Harberger e George Stigler.
(26) Os receios de inflação estavam também ligados à experiência internacional. Num memorando interno da Reserva Federal intitulado “Lições de Experiência Estrangeira”, foi explicitamente analisado o medo de indexação das taxas de juro a níveis baixos. Foi argumentado que “em condições de pós-guerra, as tentativas das autoridades monetárias para fixar ou baixar as taxas de juro reforçaram as pressões inflacionistas e contribuíram para dificuldades na balança de pagamentos” (Marriner S. Eccles Papers, Box 62, Folder 3). O principal exemplo do fracasso das políticas de dinheiro barato foi o de Hugh Dalton na Grã-Bretanha entre 1945 e 1947.
(27) A sua teoria é uma alternativa à sabedoria convencional dominada pelo modelo de credibilidade Barro-Gordon do comportamento do banco central, segundo o qual a independência do banco central é uma forma de ultrapassar os problemas de inconsistência temporal. Para uma descrição dos pontos de vista modernos sobre a banca central, ver Blinder (1998).
(28) A esse respeito, Clark parece indicar que as taxas de juro são um custo de produção. Assim, o aumento das taxas de juro levaria a preços mais elevados, algo a que Keynes se referiu como o Paradoxo de Gibson, e que ficou conhecido nos Estados Unidos como o efeito Patman, um congressista populista texano de nome Wright Patman.
(29) A esse respeito, o Congressista Wright Patman é o que está mais próximo de se encaixar no projeto de lei. Patman quis claramente comprometer a Reserva Federal com uma política de taxas de juro baixas. Por exemplo, em Fevereiro de 1951, no meio dos debates que conduziram ao Acordo entre a Reserva Federal e o Tesouro, ele argumentou que “não devemos aumentar a taxa de juro a não ser que seja absolutamente necessário”. (…) Não há razão para pagarmos mais do que 2½ por cento em papel de longo prazo, e se o Sistema Bancário da Reserva Federal cooperar, não teremos de pagar mais” (Marriner S. Eccles Papers, Caixa 61, Folder 9.
(30) Como notado por Epstein e Schor (1995, pp. 16-17) a comunidade financeira e industrial favoreceram o que eles chamam “keynesianismo conservador”, o que significa “políticas que mantinham uma procura agregada suficiente para manter a rentabilidade e resistir a desafios radicais ao capitalismo, ao mesmo tempo que resistiam à intervenção governamental que interferiria com a rentabilidade ou prerrogativas dos capitalistas”.
(31) A história é citada no orbituário de Keynes’ em The Economist, April 27, 1946 (Marriner S. Eccles Papers, Box 111, Folder 2).
O autor: Matias Vernengo, é professor catedrático de Economia na Faculdade de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Bucknell, Pensilvânia, desde agosto de 2013. É co-editor da Review of Keynesian Economics desde 2012 e co-editor chefe no New Palgrave Dictionary of Economics desde 2016. Gestor de Investigação Senior no Banco Central de Argentina em 2012-2013. Foi professor associado no departamento de Economia da Universidade de Utah de 2003 a 2013. Foi professor assistente no Kalamazoo College em 2001-2003. Foi consultor externo na Organização Internacional do Trabalho (OIT), no Programa de Desenvolvimento da ONU, na Comissão Económica para a América latina e Caraíbas (CEPAL) e na Conferência sobre Comércio e Desenvolvimento da ONU (UNCTAD). Autor de numerosos artigos (ver aqui) e de:
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2017 Why Latin American Nations Fail: Development Strategies in the 21st Century, Berkeley: University of California Press. Co-editor: Esteban Pérez Caldentey
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2006 Dollarization and Financial Integration: No Panacea. Cheltenham: Edward Elgar.
2006 The Means to Prosperity: Fiscal Policy Reconsidered. London: Routledge. Coeditor: Per Gunnar Berglund.
2000 Credit, Interest Rates and the Open Economy. Aldershot: Edward Elgar. Co-editor: Louis-Philippe Rochon.

