MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal: 1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (4/5). Por Henk Verweij

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. O presente texto “O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939, insere-se no conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte 1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Em virtude da grande extensão desta tese de mestrado de Henk Verewij (cerca de 100 páginas), e porque se autonomizam as conclusões finais, a mesma será publicada em 5 partes. Hoje é publicada a 4ª parte.


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

35 m de leitura

 

1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal

1.15. O Sistema da Reserva Federal e o New Deal – 1933/1939 (4ª parte)

Por Henk Verweij

Tese de Mestrado em Estudos Norte-Americanos, Universidade de Leiden – em 15 de Janeiro de 2016

Supervisor: Dr. Eduard van de Bilt

Segundo leitor: Dr. Jeroen Touwen

Publicado em Teses de Estudantes da  (ver aqui)

 

Introdução.

Capítulo 1. A visão “radical lógica ” de Marriner S. Eccles.

Capítulo 2. “Uma fraca base sobre a qual apoiar-se”. Eccles e os historiadores sobre o fracasso do Sistema da Reserva Federal

Capítulo 3. Reconstrução da economia e “estar no banco de trás”. O Sistema da Reserva Federal na década de 1930.

Capítulo 4. A Luta com Henry Morgenthau e a “Recessão de Roosevelt” de 1937.

Conclusão: Legado de Eccles. O Sistema “no banco da frente” e a teoria padrão do “financiamento compensatório”

Bibliografia.

 

(continuação)

 

Capítulo 4. A Luta com Henry Morgenthau e a “Recessão de Roosevelt” de 1937

 

“A situação atual é demasiado grave para que possamos confiar em pensamentos que não passam de desejos. Uma recessão drástica e prolongada neste momento desacreditará todo o New Deal. … Se uma ação eficaz for novamente adiada neste momento, as repercussões em toda a nossa estrutura social, política e económica poderão ser desastrosas [143]“. Eccles escreveu este forte aviso ao Presidente Roosevelt em 31 de outubro de 1937. Foi a sua salva de abertura no que Stein, de forma um tanto melodramática, chama a “luta pela alma de FDR”. No seu memorando com este aviso, Eccles deu conselhos sobre como a Administração deveria reagir à recessão que tinha começado em Setembro de 1937 [144].

Havia vários pontos de vista diferentes sobre as causas da recessão, e tantas outras ideias para a sua solução. Stein distingue cinco possibilidades anti-recessão que são mais ou menos congruentes com as cinco abordagens ou grupos que Brinkley e Meltzer descrevem. O Presidente tentaria todas elas antes de, após seis meses agonizantes, se fixar numa só, a abordagem defendida por Eccles.

A opinião mais comummente encontrada nas organizações empresariais era que os impostos punitivos, especificamente o imposto sobre os lucros não distribuídos, bem como a legislação restritiva e uma atitude anti-negócio da Administração é que eram os culpados. Para os empresários, a solução era clara: desmantelar todos os elementos do New Deal que restringiam a liberdade da empresa privada. Esta foi a única solução que o Presidente desde logo se recusou a aplicar.

Em contraste com a comunidade empresarial, havia a opinião que atribuía a recessão aos “poderes monopolistas”, acusando-os de aumentar artificialmente os preços e manter os salários baixos. Esta opinião sustentava que o governo tinha de restringir ainda mais a livre iniciativa através de mais regulamentação.

Um terceiro ponto de vista era que o problema resultava de uma concorrência excessiva, considerada um desperdício na maior parte das suas formas. A solução apresentada era a cooperação entre empresas, trabalho e governo, quer voluntariamente quer sob a orientação do governo através de um conselho de planeamento. O Presidente Hoover tinha tentado a versão voluntária. A versão do conselho de planeamento tinha produzido a Administração Nacional de Recuperação, até que o Supremo Tribunal a declarou inconstitucional.

A quarta opinião era que para a recuperação o orçamento deveria estar em equilíbrio. As despesas não deveriam exceder as receitas. Deste ponto de vista, Morgenthau foi o principal proponente. Em contraste, [a quinta] e última opinião era a de que as despesas excederiam as receitas, caso fossem consideradas necessárias para a recuperação da economia. Esta era a opinião que Eccles defendia.

Seis meses mais tarde, em Abril de 1938, o Presidente Roosevelt ficou do lado de Eccles. Primeiro numa mensagem ao Congresso e mais tarde numa Conversa à Lareira [na rádio], anunciou um programa de ação envolvendo mais de 4 mil milhões de dólares em despesas governamentais. Tudo isto soou verdadeiramente “à Eccles ” quando disse que a causa da recessão era a falta de poder de compra do povo. Em Janeiro de 1939, o Presidente apresentou um orçamento para o ano fiscal de 1940, declarando que a Administração se tinha confrontado com a recessão no ano anterior através do aumento das despesas e, uma vez mais, canalizando o espírito de Eccles, Roosevelt disse que um orçamento equilibrado não poderia ser alcançado através da redução das despesas ou do aumento dos impostos [145].

Morgenthau sofreu a sua mais devastadora derrota às mãos de um homem cuja carreira governamental ele próprio tinha influenciado decisivamente. Como foi possível que Morgenthau tenha sido o homem que primeiro nomeou Eccles como seu assistente, e depois o nomeou Governador do Sistema da Reserva Federal, quando Eccles era um homem com opiniões sobre política orçamental tão diferentes das suas?

Quando, em Novembro de 1933, Morgenthau se tornou Secretário do Tesouro, os partidários do New Deal que, no mesmo mês, tinham ouvido as opiniões de Eccles, quiseram rodear Morgenthau com pessoas que representvaam os seus pontos de vista sobre as despesas financiadas pelo défice. Assim, chamaram a atenção de Morgenthau para Eccles, ele que procurava desesperadamente pessoas com boas qualidades. Após algumas discussões difíceis, Eccles tornou-se o assistente de Morgenthau em questões monetárias e de crédito. As discussões foram difíceis, não porque as suas opiniões sobre como resolver os problemas económicos fossem diferentes, mas devido à imprecisão do trabalho que Morgenthau ofereceu a Eccles. Aparentemente, iniciaram a sua cooperação sem terem efetivamente falado, um ao outro, sobre os seus pontos de vista sobre política orçamental. Nem Eccles nem Morgenthau escrevem sobre qualquer discussão sobre as suas diferentes ideias naquela altura. Blum somente escreveu que Eccles veio para Washington como “assistente especial de Morgenthau sobre habitação”. [146]

Hyman conclui que “deste início tenso” Morgenthau e Eccles “estavam destinados a ter uma relação longa e em constante mudança um com o outro… cheia de acordos, de tensões cruzadas, de felicidades e duras lutas internas, que deixaram as suas marcas na vida económica e política da nação durante a duração da presidência de Roosevelt, e depois também [147]“. Em breve seria evidente que a causa mais importante da sua relação tensa era a visão de cada um deles, diametralmente opostas, sobre que política orçamental deveria ser adotada para combater a Depressão e isto, sem qualquer dúvida, exacerbado pelas suas personalidades.

Morgenthau acreditou ao longo de toda a sua vida que um orçamento equilibrado seria o instrumento a utilizar para a recuperação da economia. “O progresso para um orçamento equilibrado… ganharia a confiança do setor privado (que resultaria) numa retoma do investimento privado que sustentaria uma nova prosperidade”. Morgenthau via um orçamento equilibrado não só como uma necessidade económica ou financeira, mas também como uma exigência moral. Um orçamento nacional era ainda um fenómeno relativamente novo durante os anos da Depressão. Foi um dos últimos resultados do Movimento Progressista, que o promoveu como um meio de ter um governo melhor, mais transparente, mais eficiente e aberto. Os défices de guerra que cresceram com a I Guerra Mundial foram o último impulso para o Congresso adotar a Lei do Orçamento e Contabilidade de 1921. O movimento de reforma orçamental também influenciou profundamente Morgenthau e Franklin Roosevelt. Um orçamento equilibrado tornou-se para Morgenthau não só um sinal da saúde económica da América, mas também a medida de um bom governo. Para ele, equilibrar o orçamento da nação não era diferente de equilibrar o orçamento da sua quinta. Era um sinal seguro de boa gestão [148].

Morgenthau combinou esta ortodoxia económica com “humanitarismo na política social”. Quando ele analisava uma depressão ou recessão, ele também abordava o sofrimento humano que ela trazia. Apoiou programas de assistência social, regulamentos laborais e assistência aos agricultores. Foi um dos arquitetos da legislação da segurança social. Esta compaixão tornou-o sensível aos programas de ajuda de tal forma que, anos mais tarde, Harry Hopkins expressaria a sua gratidão a Morgenthau por ser um grande amigo daqueles que tinham pouco na vida [149]. Ele ganhou esta responsabilidade social quando trabalhou na Henry Street Settlement em Nova Iorque [150]. Assim, Morgenthau era um homem com ”Zwei Seelen in einer Brust” [duas almas dentro de um mesmo peito], que viu nisso uma obrigação moral de evitar défices, mas que também demonstrou grande atenção com os necessitados. Deve tê-lo entristecido profundamente que nunca, durante o seu mandato, tenha tido um orçamento em equilíbrio.

O núcleo da sua diferença de opinião era de enquanto Morgenthau pensava que a recuperação ou prosperidade viria de um orçamento equilibrado, Eccles argumentava que um orçamento equilibrado seria antes o resultado da recuperação ou da prosperidade alcançada. Ambos os homens exacerbaram as suas diferenças em matéria de política orçamental pela sua propensão para as personalizar. Por detrás de cada diferença de opinião, eles viam motivos pessoais. Embora “rapidamente consciente dos grandes talentos de Eccles”, Morgenthau viu Eccles como confiante, autoafirmativo, ambicioso, enérgico e como tendo “um impulso insaciável para ganhar poder pessoal”. Quando se confrontaram aquando do primeiro aumento dos requisitos de reserva, Morgenthau confidenciou no seu diário: “Não me referiria a Eccles se este não tivesse uma enorme vontade de ser importante e de mostrar a sua independência”. Eccles atribuiu as suas dificuldades com Morgenthau às “peculiaridades da (sua) personalidade”, apenas para desvendar que ele tinha os mesmos problemas com os sucessores de Morgenthau. O que eram exatamente estas peculiaridades, nem Eccles nem Hyman jamais deixaram isso claro [151].

Certamente na altura em que sugeriu a Roosevelt que nomeasse Eccles para ser Governador do Sistema da Reserva Federal, Morgenthau tinha adquirido mais conhecimentos sobre as opiniões e a personalidade de Eccles. Nem Eccles nem o seu biógrafo Hyman, nem Morgenthau e o seu biógrafo Blum, escrevem qualquer coisa sobre os motivos de Morgenthau na nomeação de Eccles. Seria para promover Eccles a uma posição em que já não pudesse incomodar Morgenthau com os seus incansáveis argumentos de despesa pública financiada pelo défice? Seria porque Eccles teria apenas um poder limitado em questões monetárias na Reserva Federal devido à Lei do Ouro? Seria porque Morgenthau, como afirma Blum, “acima do nível administrativo… fazia do mérito a base para as suas escolhas [152]“?

Talvez Morgenthau tivesse todas estas considerações na sua mente. Mais provável ou plausível, porém, é que Morgenthau tenha simplesmente visto Eccles como o homem que foi capaz de realizar o seu profundo desejo: a reforma do Sistema da Reserva Federal. Para manter os custos dos juros dos títulos do governo tão baixos quanto possível, Morgenthau precisava da cooperação do Sistema da Reserva Federal, especificamente do Comité de Política de Mercado Aberto [sigla em inglês, OMPC]. A OMPC recusava-se a cooperar. Tal como Eccles, Morgenthau pensava que não conseguia essa cooperação porque os bancos privados de Nova Iorque dominavam a OMPC e o Conselho da Reserva Federal. Como vimos, após apenas alguns meses no Departamento do Tesouro, Eccles ficou convencido da necessidade da reconstrução do Sistema de Reserva. Não é demasiado especulativo supor que não só Currie, mas também Morgenthau influenciaram Eccles neste processo. Assim, não é surpreendente que Morgenthau nomeasse um homem que ele via como aliado e que o poderia ajudar a controlar o Sistema da Reserva Federal. O facto de o Presidente Roosevelt ter concordado com a nomeação de Eccles e de o ter nomeado deve-se à relação especial de Morgenthau com o Presidente, como Blum deixa claro em The Morgenthau Diaries. Morgenthau era uma das poucas pessoas em quem Roosevelt confiava completamente. Além disso, o facto de Eccles ser da costa ocidental, um empresário, e um banqueiro que tinha salvo os seus próprios bancos dava ao Presidente uma oportunidade de mostrar que nem todos os partidários do New Deal eram “cabeças no ar e visionários … que nunca tinham conhecido uma inscrição na folha salarial [153]“.

Se Morgenthau tinha de facto a ilusão de que assim que Eccles se tornasse presidente do Conselho de Governadores, ele não iria ou já não poderia incomodá-lo com os seus pontos de vista, então sofreu uma grande desilusão. Em 1935, Eccles estava ocupado com a adoção da Lei Bancária e com o preenchimento dos lugares do Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal com homens que considerasse adequados para ele, para o Presidente e para o Senador Glass.

Em Janeiro de 1936, o Supremo Tribunal declarou inconstitucional o imposto que fornecia à Agricultural Adjustment Administration os fundos para pagamentos aos agricultores. Além disso, apesar do veto do Presidente, o Congresso decidiu pagar o bónus prometido aos veteranos da Primeira Guerra Mundial. Isto criou um buraco de mais de 600 milhões de dólares no orçamento. Fiel à doutrina do orçamento equilibrado, o Tesouro teve de encontrar novas receitas e assim propôs a cobrança de impostos sobre os lucros não distribuídos. Os lucros não distribuídos eram lucros não pagos como dividendos pelas empresas aos seus acionistas. Por conseguinte, não estavam sujeitos ao imposto sobre o rendimento. De acordo com Meltzer, a crença “peculiar” era que as empresas não utilizavam estes lucros não distribuídos [154]. O Tesouro assumiu que, ao tributar esses lucros, as suas receitas aumentariam, quer quando esses lucros ficassem por utilizar através do novo imposto, quer quando fossem pagos através do imposto sobre o rendimento. Eccles apoiou este novo imposto não por causa dos pressupostos do Tesouro, mas porque iria estimular as despesas [155].

A Câmara dos Representantes apresentou um projeto de lei segundo o modelo do Tesouro, que apenas visava obter mais receitas e nada mais. Quando este projeto de lei encontrou resistência no Senado, Eccles propôs emendas, que o Presidente Roosevelt enviou prontamente ao Senado, sugerindo assim que a versão de Eccles do projeto de lei substituiria a versão do Tesouro. Como Eccles admitiu, Morgenthau ficou profundamente ofendido com esta intrusão no seu território. No final, em Maio de 1936, o Presidente tinha assinado uma lei que não satisfazia ninguém, acima de tudo não satisfazia Eccles. Especificamente incómodo para ele o facto de entre o seu nome e o imposto existir agora uma ligação inextricável. O confronto seguinte com Morgenthau ocorreu alguns meses mais tarde. A ocasião foi o aumento dos requisitos de reserva, discutido no capítulo anterior.

No final de 1936, o palco estava preparado para o ato final na batalha entre Eccles e Morgenthau. Em Dezembro, Eccles soube pelo Presidente que planeava apresentar um orçamento equilibrado para o ano fiscal de 1938. Eccles expressou imediatamente a sua discordância e enviou um memorando em que explicava as suas objeções. Quando, alguns dias mais tarde, Morgenthau visitou a Casa Branca, o Presidente, como Blum escreve, atirou-lhe para cima da mesa o memorando de Eccles com a indicação de fazer alguma coisa com ele. Morgenthau concluiu que tinha de destruir o ponto de vista de Eccles, caso contrário Eccles tornar-se-ia o mais importante conselheiro orçamental do Presidente. Felizmente para Morgenthau, ele foi capaz de o fazer. As estimativas orçamentais revistas mostraram que era possível um orçamento equilibrado. O Presidente ficou muito satisfeito com esta saída. Significou a derrota do Eccles. O Presidente Roosevelt apresentou um orçamento que estaria em equilíbrio se a reforma da dívida não fosse tida em conta, e se o Congresso aceitasse que as despesas de ajuda permanecessem abaixo dos 1,5 mil milhões de dólares. O Presidente previu que o orçamento estaria completamente em equilíbrio no ano fiscal de 1939 [156].

Morgenthau parecia ter vencido Eccles definitivamente. A 12 de Abril de 1937, Eccles emitiu uma declaração, que parecia ser a sua rendição completa. Referindo-se ao já anunciado aumento das reservas mínimas, cujo segundo passo teria lugar a 1 de Maio de 1937, declarou que, após o aumento das reservas mínimas, haveria fundos suficientes para encorajar a recuperação. Além disso, declarou que, “nas condições atuais … uma recuperação equilibrada deve ser acompanhada de um rápido equilíbrio do Orçamento Federal” [157].

Esta declaração veio uma semana depois de Morgenthau, segundo Blum, ter contado com êxtase à sua equipa sobre a forma como o Presidente tinha repreendido Eccles em 5 de Abril sobre o equilíbrio do orçamento. No dia seguinte a esse evento, Eccles supostamente foi ter com Morgenthau para lhe dizer que estava convertido, e para lhe pedir que se juntasse a ele para impressionar o Presidente com a urgência de um orçamento equilibrado. Para Morgenthau, isto foi uma “efémera retratação [158]“. Esta história é demasiado boa para ser verdadeira. Como Stein corretamente argumenta, é “difícil de conciliar com … as atas (do) Comité Federal do Mercado Aberto de 13 e 15 de Março [159]“. Nessas reuniões, o Comité Federal do Mercado Aberto (FOMC) discutiu as consequências do primeiro passo do aumento dos requisitos de reserva. Durante uma parte das discussões, durante a qual Morgenthau esteve presente, Eccles disse que era imperativo equilibrar o orçamento em 1938. A 15 de Março, Eccles deixou a reunião para ter uma conversa telefónica com Morgenthau. Quando voltou, relatou aos seus colegas que sobre o tema da perene preocupação de Morgenthau – o preço dos títulos do governo – Morgenthau não discordou da sua opinião de que “se o governo equilibrasse o orçamento e lidasse eficazmente com problemas de trabalho e armamento não haveria dúvidas… que o preço dos títulos do governo aumentaria ou diminuiria [160]“. Assim, a declaração de Eccles de 12 de Abril de 1937 está em consonância com as atas do FOMC de 13 e 15 de Março. Além disso, quando concordou com Morgenthau que o governo também tinha de lidar com problemas laborais, estava a referir-se à sua discussão com o Presidente em 11 de março.

No início de Março de 1937, era evidente que no primeiro trimestre as receitas seriam inferiores às estimativas. Em Abril, o Presidente ordenaria às agências governamentais que detivessem as despesas. O presidente perguntou a Eccles o que pensava da situação económica. Eccles advertiu que “aumentos de preços injustificáveis, lucros excessivos e exigências de trabalho despropositadas” ameaçavam as perspetivas de estabilidade. Ele até disse a mesma coisa numa declaração à imprensa alguns dias depois de ter tido a sua conversa com o Presidente, porque a imprensa tinha tirado conclusões erradas da sua reunião [161].

Eccles e Hyman não são muito claros sobre o que aconteceu precisamente. Nem escrevem uma palavra sequer sobre uma discussão ou uma reprimenda a 5 de Abril, nem mencionam a declaração de 12 de Abril. Hyman relata que Eccles disse a Morgenthau que era imperativo ter um orçamento equilibrado, mas dá a data errada para este evento, e não dá qualquer razão para Eccles dizer tal coisa. O próprio Eccles não se pronuncia sobre este tópico em Beckoning Frontiers. Como discutido no capítulo anterior, quando os preços das obrigações diminuíram após o primeiro aumento dos requisitos de reserva, Eccles precisou da intervenção do Presidente para evitar que o papel do Sistema da Reserva Federal na política monetária fosse totalmente assumido pelo Tesouro. O apaziguamento de Morgenthau seria a razão para a admissão provisória da derrota por parte de Eccles, e a sua “conversão” temporária?

Não foi essa a razão, se se aceitar a opinião de Mark Nelson, segundo o qual Eccles esteve no campo dos defensores do equilíbrio orçamental durante todo o ano de 1937. Descrevendo o que aconteceu em 1937, Nelson argumenta: “O facto é … que Eccles esteve com Morgenthau em assuntos orçamentais desde o início da recessão e durante todo o resto de 1937 [162]“. Nelson acusa Eccles de tentar esconder isto em Beckoning Frontiers, para salvaguardar a sua reputação e queimar a sua imagem como voz dissidente em 1937. No entanto, Nelson refere-se a relatos da imprensa sobre um discurso de Eccles proferido em Novembro de 1936, e não ao discurso em si. Nesse discurso, Eccles disse a uma assembleia de banqueiros de Boston que acreditava que “um orçamento equilibrado será alcançado até 1938 [163]“. A interpretação de Nelson é que Eccles não foi sincero em Beckoning Frontiers quando escreveu que na primavera de 1937, “parecia que o movimento de recuperação estava seguro … (e) o motor económico privado tinha ganho impulso suficiente para avançar sem a ajuda de um reboque governamental [164] ” Eccles escreve isto quando está a discutir o memorando que deixou com o Presidente após a sua reunião de 11 de Março. Nelson argumenta que, ao deixar de fora a primeira frase da citação deste memorando – “o movimento de recuperação está agora assegurado e não requer mais estímulos positivos por parte do governo,” – Eccles deu a entender que eram outros que já não viam a necessidade do governo como carro de reboque, mas que ele não estava entre eles [165].

A interpretação de Nelson é questionável. No seu discurso aos banqueiros de Boston, Eccles também disse que, “nós deveríamos estar prontos a incorrer num défice orçamental” quando o desemprego aumenta [166]. No seu memorando de 11 de Março ao Presidente, ele escreveu que não havia necessidade de estimular mais a economia. Não disse que não havia necessidade de nenhum estímulo. Nelson parece esquecer que Eccles sempre defendeu que em tempos prósperos, quando o desemprego estava em níveis baixos, o orçamento não só deveria estar em equilíbrio, como deveria ter um excedente para pagar a dívida nacional [167]. Ele aludiu a esta mesma ideia no seu discurso aos banqueiros de Boston.

Como Blum conclui, “O Verão de 1937 foi a estação mais soalheira que Morgenthau conheceu durante muitos anos [168]“. A 20 de Abril de 1937, o Presidente, com base no conselho de Morgenthau, disse ao Congresso “Estou convencido de que o sucesso de todo o nosso programa e a segurança permanente do nosso povo exigem que ajustemos todas as despesas dentro dos limites da minha estimativa orçamental”. May chama a isto “a declaração mais forte que o Presidente alguma vez fez sobre a importância de equilibrar o orçamento [169]“. O Presidente parece ter dado a Morgenthau tudo o que ele pediu. Confiante de que ele era agora o “principal modelador da política orçamental do New Deal “, Morgenthau aceitou um convite para se dirigir à Academia de Ciências Políticas em Novembro, uma reunião de empresários, políticos e académicos. Ele pensou que seria o fórum ideal para pronunciar que um orçamento equilibrado era a principal premissa do governo em matéria de política orçamental [170].

O Verão soalheiro de Morgenthau terminou no final de Setembro de 1937. Em Agosto, a economia começou a contrair-se. Em Outubro, essa contração atingiu o mercado bolsista. A 19 de Outubro, “Terça-feira Negra”, o Presidente Roosevelt teve o seu próprio Colapso de Wall Street. Era 1929 de novo. Tal como em 1929, a queda da bolsa de valores foi acompanhada por uma queda económica dramática. No final de 1937, a produção industrial diminuiu em 40% e o rendimento nacional em 13%. 4 milhões de pessoas foram adicionadas aos registos da ainda grande massa de desempregados [171].

Até 19 de Outubro, Morgenthau regozijou-se pelo facto de o Presidente ter mantido a fé. Uma semana antes desta data, Morgenthau tinha recebido números perturbadores da sua Divisão de Investigação. Um financiador de confiança de Nova Iorque tinha-lhe falado de desenvolvimentos sinistros na bolsa de valores. Morgenthau optou por ignorar esta e outras más notícias. Isso tornou-o até mais determinado. Fortemente apoiado por Morgenthau, o Presidente também permaneceu determinado em ter o seu orçamento em equilíbrio no ano fiscal de 1938, escrevendo a 14 de outubro ao seu Secretário da Agricultura, Henry Wallace, para lhe dizer que deve evitar “um programa que desequilibrasse o orçamento [172]“.

19 de Outubro de 1937 foi o primeiro dia de um período de seis meses que terminaria com a derrota mais devastadora para Morgenthau durante o seu mandato como Secretário do Tesouro. Para Morgenthau, os acontecimentos de 19 de outubro “precipitaram uma crise política (que) abalou a fé de Roosevelt no equilíbrio orçamental e ganhou uma audiência para os defensores das despesas contracíclicas”. Um dos “pregadores deste evangelho” foi, naturalmente, Marriner Eccles [173].

Quando Morgenthau notou a mudança de opinião do Presidente, ficou determinado a resolver o assunto no seu discurso à Academia de Ciências Políticas a 10 de Novembro. Ele passou muitas horas com a sua equipa na elaboração deste discurso, e eles construíram uma mensagem prevendo que a recuperação iria continuar e que o orçamento estaria em equilíbrio, não só no ano fiscal de 1938, mas também nos restantes anos fiscais do mandato do Presidente Roosevelt. Após 19 de Outubro, Morgenthau teve de decidir se iria proferir o discurso agora que uma recessão total estava em curso. O ano fiscal de 1938 e mesmo o ano fiscal de fiscal 1939 ameaçavam não estar em equilíbrio. Tomou a decisão de sublinhar que era necessário um orçamento equilibrado para combater a recessão. Ele apostaria o seu pescoço e declararia que a Administração via um orçamento equilibrado como um compromisso, sem “ses nem mas”. Sentia que isso iria criar a base de confiança que as empresas necessitam para realizarem as despesas necessárias para a recuperação da economia [174].

Depois, a 3 de Novembro, o Presidente perguntou a Morgenthau se este tinha visto o programa de Marriner Eccles. Eccles tinha oferecido um programa de ações concretas poucos dias antes, a 31 de Outubro. No dia seguinte, Eccles e Morgenthau tiveram uma reunião. Sobre várias questões, eles concordaram, mas não sobre o conteúdo do discurso. Para Eccles era necessário acelerar as despesas para parar a deflação. Insistiu que o discurso era deflacionista e que Morgenthau não o deveria proferir. Apoiado pela sua equipa, Morgenthau decidiu ignorar as objeções de Eccles. O único homem que poderia impedir Morgenthau de proferir o discurso era o Presidente. A 6 de Novembro, o Presidente reviu o projeto final e fez várias emendas, inserindo precisamente os “se e os mas” que Morgenthau tinha querido evitar. Ele aceitou as correções presidenciais e proferiu o discurso alguns dias mais tarde.

O discurso foi um desastre. Precedeu Morgenthau o senador Harry Byrd. Este gerou aplausos quando criticou fortemente o governo pelos seus desastrosos défices. Criou uma atmosfera negativa para Morgenthau ao afirmar que o Departamento do Tesouro tinha disfarçado a verdade da situação financeira ao deturpar deliberadamente as despesas e a dívida nacional [175].

Sendo um representante daquilo que o Senador Byrd tinha descrito como uma instituição fraudulenta, Morgenthau estava em desvantagem quando chegou a sua vez de falar. Houve risos cínicos quando Morgenthau disse: “Utilizámos deliberadamente um Orçamento Federal desequilibrado durante os últimos quatro anos para enfrentar uma grande emergência. Essa emergência … já não existe …. Estou ainda consciente de que algumas pessoas afirmam que outro grande programa de despesas é desejável para afastar o risco de outra depressão empresarial… Os problemas internos que hoje enfrentamos são essencialmente diferentes dos que enfrentámos há quatro anos…. são necessárias muitas medidas para as suas soluções. Uma destas medidas, mas apenas uma na atual conjuntura é um movimento determinado no sentido de um orçamento equilibrado [176]…. Acreditamos que muito do desemprego remanescente irá desaparecer à medida que os fundos de capital privado forem sendo cada vez mais empregados. … Uma das formas mais importantes de alcançar estes fins neste momento é continuar o progresso no sentido de um de um Orçamento Federal equilibrado”. Interpretando o riso como o símbolo do temperamento e descrença do seu público, Morgenthau ficou confundido com a receção dos homens que estava a tentar ajudar. Um dos seus assistentes concluiu que era inútil tentar trabalhar com aqueles que pareciam ser os típicos líderes das finanças americanas [177]. De acordo com Stein, o riso não foi coincidência. O mundo empresarial simplesmente não acreditava que a promessa de um orçamento equilibrado alguma vez se concretizaria. Além disso, um orçamento equilibrado não era a sua maior prioridade. A revogação do imposto sobre lucros não distribuídos e uma política laboral moderada eram sim prioridades para estas figuras presentes na sala [178]..

O discurso de Morgenthau foi um choque profundo para Eccles. Ele não compreendeu porque é que o Presidente tinha permitido que Morgenthau o proferisse. Eccles pensou ter convencido o Presidente a aceitar a sua opinião apenas dois dias antes. Quando escreveu Beckoning Frontiers em 1951, Eccles percebeu que o Presidente ainda estava incerto nessa altura quanto à direção certa e, por isso, tinha concordado com duas políticas contraditórias [179].

No entanto, a partir do memorando de 31 de Outubro de 1937, Eccles tinha semeado dúvidas junto do Presidente sobre a veracidade do equilíbrio orçamental. Essa mensagem apelava ao Presidente porque dava conselhos sobre o que fazer, ao contrário do que se passava com Morgenthau que nada mais apresentou do que rascunhos do seu discurso. O memorando de Eccles era um programa de ação. Sem ação, dizia o memorando, um orçamento equilibrado em 1939 seria impossível, a recessão continuaria, e desacreditaria o New Deal, derrubando com ele o Partido Democrata, tal como tinha acontecido com o Partido Republicano em 1929-1933. As repercussões sociais, políticas e económicas seriam desastrosas.

A primeira ação que Eccles aconselhou foi a criação de uma atmosfera psicológica adequada através de garantias à comunidade empresarial e o estabelecimento de um aumento dos salários para refletir o aumento da produtividade. Em segundo lugar, Eccles pensou que o governo deveria manter o rendimento dos consumidores e o poder de compra através do aumento das despesas governamentais. Em terceiro lugar, recomendou um programa de habitação que visasse reduzir os custos de construção e fornecer hipotecas a custos mais baixos, a fim de estimular as despesas privadas. Eccles promoveu outro estímulo: uma alteração temporária ao imposto sobre os lucros não distribuídos, isentando 90% das empresas. Isto estava no memorando que Roosevelt atirou para a frente de Morgenthau a 3 de Novembro [180].

A 8 de Novembro, Eccles esteve na Casa Branca para outra reunião com o Presidente para discutir um memorando sobre as causas da recessão e as suas curas. Isadore Lubin do Departamento do Comércio, Leon Henderson da Works Progress Administration, e o assistente de Eccles, Laughlin Currie, tinham sido os autores deste memorando. May está certo quando conclui que este memorando era “muito semelhante em tom e análise” ao memorando de 31 de Outubro de Eccles, incluindo até as suas recomendações. A explicação mais plausível para a semelhança nos dois documentos, isso é claro, é que Currie foi co-autor de ambos os documentos. Mais importante ainda, mostra que Eccles tinha aliados em outras instituições governamentais. Para Eccles o Presidente parecia aceitar os argumentos destes memorandos e as ações aconselhadas. Então a 10 de Novembro, dia do discurso de Morgenthau, o Presidente também deu a sua aprovação ao programa de habitação de Eccles, dando a Eccles todos os motivos para pensar que tinha ganho “a Alma de FDR [181]“.

Na opinião de Eccles, quais eram as causas da recessão? Certamente, não foi o aumento dos requisitos de reserva, porque com o aumento não houve restrição de crédito nem houve aumento das taxas de juro. A recessão deveu-se à diminuição das despesas governamentais. Em 1936, o governo pagou aos veteranos um montante de 1,7 mil milhões de dólares. Em 1937, entrou em vigor a Lei da Segurança Social, retirando aos consumidores 2 mil milhões de dólares em impostos da segurança social. Estas duas medidas tomadas em conjunto reduziram o rendimento dos consumidores em quase 4 mil milhões de dólares em 1937. Em 1936, as empresas tinham acumulado os seus stocks porque receavam aumentos de preços futuros e problemas de entrega devido à Lei Nacional das Relações Laborais, adotada em 1935. Em 1937, lançaram esses stocks no mercado, e como resultado, tiveram de restringir a produção [182].

Meltzer não está de acordo com esta leitura. Sustenta que as vendas diminuíram porque a oferta de dinheiro diminuiu, o que levou a uma diminuição dos stocks. Além disso, Meltzer pensa que a retórica anti-negócio em que o Presidente se empenhou e as ações regulamentadoras foram fatores importantes. Friedman e Schwartz culpam a recessão de 1937 por políticas monetárias erradas, das quais o aumento dos requisitos de reservas foi o mais importante [183]. Embora esta opinião seja amplamente aceite, houve e ainda há desacordo a esse respeito. Em 1951, Philip Bell concluiu, “a culpabilidade das autoridades da Reserva Federal não pode ser demonstrada [184]”. Charles Calomiris e David Wheelock, num estudo realizado ainda em 2011, apoiam a interpretação de Eccles sobre os não efeitos dos requisitos de reserva mais elevados, concluindo que a duplicação dos requisitos de reserva não foi uma das principais causas da recessão de 1937 [185].

Tanto para Eccles como para Morgenthau, os meses após 10 de Novembro foram angustiantes. Morgenthau temia que o Presidente aprovasse novas despesas. Eccles teve medo que ele esperasse demasiado tempo para que fosse feito exatamente isso. Ambos continuaram a enviar memorandos com os seus argumentos ao Presidente. May observa que com estes documentos Eccles pelo menos manteve o Presidente consciente de que existiam alternativas ao equilíbrio orçamental, medidas anti-monopólio, planeamento central ou cooperação voluntária. Mais importante ainda, como sustenta May, Eccles tornou-se o líder ideológico de um grupo, que se reunia regularmente para discutir a forma de resgatar o New Deal. Além de Eccles, embora nem sempre presente, o membro mais importante foi Harry Hopkins, chefe da organização de auxílio a Administração do Progresso das Obras (WPA). Já conselheiro de confiança do Presidente quando Roosevelt era governador de Nova Iorque, Hopkins tornar-se-ia em breve o seu principal conselheiro. O seu acesso a Roosevelt correspondia ao de Morgenthau. Por causa disso, veio a desempenhar um papel fulcral na decisão final de Roosevelt. Outros membros deste grupo foram os três autores do memorando de 8 de Novembro, o senador Robert LaFollette, Henry Wallace e Harry Dexter White, o futuro homólogo de Keynes nas negociações sobre o Fundo Monetário Internacional. O objetivo do grupo era desenvolver uma abordagem comum sobre a qual todos pudessem concordar e representar um espectro tão amplo no seio do governo que qualquer argumento por ele apresentado convenceria o Presidente. Outro aliado importante foi o filho do Presidente, James, que na altura era o seu secretário. James Roosevelt e Eccles encontravam-se semanalmente [186].

Em meados de Fevereiro de 1938, Eccles enviou ao Presidente um “Esboço de um Programa de Tentativo de Combate à Recessão”. Ele já o tinha enviado a James Roosevelt para discutir com Hopkins. Neste documento, confirmou a posição que tinha assumido no memorando de 31 de Outubro, reafirmando que uma depressão grave era possível e que uma recuperação natural da economia não iria acontecer. Afirmou que os acontecimentos verificados desde Outubro tinham reforçado a sua posição. “Parece que estamos a ser lançados sobre uma grave depressão”. Voltou a defender que o Governo tinha de inverter a maré, e que a liderança só poderia vir da Administração através da disponibilização ao Congresso de um programa de estímulo à economia. Eccles estava claramente a jogar com o medo crescente que o Presidente tinha do fascismo. Referindo-se à ascensão do fascismo e à sua forte liderança, Eccles disse que a democracia também tinha de ter liderança forte para mostrar que podia funcionar. Alguns meses antes, Getulio Vargas tinha tomado conta do Brasil e Hitler exigia o “Anschluss [187]” da Áustria.

O Presidente tomou a decisão de retomar a despesa pública como estímulo à economia no final de Março de 1938 no seu retiro em Warm Springs, Geórgia. A 12 de Março, a Áustria passou a fazer parte da Alemanha. A 25 de março, a bolsa de valores caiu a pique. As eleições de 1938 estavam próximas. O presidente sentiu que tinha de agir antes da pausa do Congresso. Elementos cruciais nesta decisão foram a ausência de Morgenthau e a presença de Hopkins em Warm Springs. Apoiado por três peritos, Hopkins persuadiu ou, como Morgenthau o viu, “carimbou” Roosevelt para colocar a América fora da recessão.

De regresso a Washington, o Presidente começou a trabalhar numa mensagem ao Congresso, na qual iria desdobrar o seu programa. A 10 de Abril de 1938, Roosevelt contou a um Morgenthau desconcertado o que se propunha dizer ao Congresso alguns dias mais tarde. Em vão, Morgenthau tentou dissuadir Roosevelt dos seus planos. Morgenthau ameaçou demitir-se, magoado justamente pelo facto de o Presidente ter decidido uma política orçamental sem o consultar, e que, mais precisamente, o repudiava. O Presidente não cedeu. Embora a visse como a hora mais negra da sua carreira, Morgenthau não se demitiu, de facto. Percebeu que ele e Roosevelt concordaram na maioria das outras questões gerais [188].

A 14 de Abril, o Presidente anunciou o seu programa ao Congresso. No mesmo dia, numa Conversa à Lareira [na rádio], a sua primeira em seis meses, informou o povo americano da sua decisão. O montante total envolvido no pacote fiscal foi superior a 4 mil milhões de dólares, para gastar em ajuda através da WPA, em obras públicas e na expansão do crédito através de uma redução dos requisitos de reserva e de um aumento da oferta monetária. Sobre este último ponto Eccles concordou relutantemente e Morgenthau acolheu-o com entusiasmo. Por enquanto, um orçamento equilibrado estava fora de vista. Para o resto da sua vida, Morgenthau lamentaria o facto de o Presidente não ter dado uma oportunidade a um orçamento equilibrado em 1938. Em Junho, o Congresso aprovou as propostas de Roosevelt. Apesar das objeções de Roosevelt, reduziu também o imposto sobre as mais-valias e os lucros não distribuídos, e desde que o imposto sobre lucros não distribuído expirasse no final de 1939 [189].

Claramente, os “despesistas” tinham triunfado e os “equilibradores orçamentais” tinham sido derrotados. Significa isso que o triunfo foi tão total que apenas os princípios keynesianos a partir de então determinariam a política orçamental? Certamente, como Stein argumenta, “a experiência de 1937 e 1938 foi fundamental para o desenvolvimento da política orçamental americana. … Demonstrou o poderoso efeito das mudanças na posição orçamental sobre a economia [190]“. Era a última vez que um Presidente tentaria reduzir as despesas durante uma recessão. A partir de 1938, a ideia aceite era que para combater uma recessão o governo tinha de expandir o seu orçamento e cortar nos impostos.

Na segunda metade de 1938, teve início uma recuperação, embora não tenha conduzido ao pleno emprego. O próprio Roosevelt pensou que era necessário mais para atingir esse objetivo. As despesas governamentais eram apenas uma parte da solução. Ao mesmo tempo que propôs o seu programa de recuperação, o Presidente ordenou ao Departamento de Justiça que investigasse a Concentração do Poder Económico. Ele também continuou interessado na cooperação voluntária. Sentiu mesmo culpa pelos défices que tinha produzido todos os anos da sua presidência. Roosevelt continuou a ter dúvidas quanto à importância das despesas públicas alimentadas pelo défice e Morgenthau continuou a reforçar esses receios. No Outono de 1938, o Presidente ficou chocado ao ver a previsão das despesas para o ano fiscal de 1940. Os défices permaneceram um assunto sensível não só para o Presidente, mas também para o público em geral. A fé do público num orçamento equilibrado persistiu. Num inquérito de Março de 1939, uma maioria de 61% afirmou que o governo deveria reduzir as suas despesas para um nível que permitisse o equilíbrio do orçamento. Além disso, as eleições de 1938 foram um desastre para o Partido Democrático. Perdeu 80 lugares na Câmara e 8 no Senado. O Congresso tinha-se tornado conservador. A crença de que existiam outras formas de estimular a economia do que de aumentar a despesa pública financiada pelo défice, ganhou força. Quando, na Primavera de 1939, o Presidente voltou a pedir para aumentar as despesas do governo, o Congresso recusou. Não ajudou que se pedisse ao Congresso que financiasse projetos a um custo inferior ao que os credores privados teriam feito. O Congresso estava preparado para aceitar défices para sair de uma recessão, mas não para permitir que o governo substituísse os investidores privados. Foi a primeira derrota de Roosevelt em matéria de política orçamental [191].

Em Beckoning Frontiers, Eccles admite um pouco amargamente que não tinha ganho o que queria. A sua conceção era que um governo “utilize o seu sistema de impostos e despesas… com o objetivo de manter a estabilidade económica através da máxima produção e emprego. Nos anos da depressão, uma política orçamental adequada exigia grandes … défices. … No entanto, ao longo da década, permanecemos num estado de semidepressão porque não estávamos dispostos a ter … despesas suficientes para empregar o nosso poder e recursos humanos não ocupados. … Em nenhum momento tivemos menos de oito a dez milhões de desempregados. Nunca fomos capazes de assumir a grande quantidade de folga que existia em toda a economia [192]“.

Brinkley é claro. O programa de despesas de 1938 não foi uma vitória total para a visão de Eccles. Foi, contudo, um passo importante na direção da política orçamental compensatória de Eccles. Foi apenas “um augúrio da forma tímida e sem convicção com que os americanos abraçariam o keynesianismo durante a maior parte dos quarenta anos seguintes”. As reformas institucionais necessárias para permitir ao governo estimular a economia muito rapidamente nunca foram feitas [193].

Em 1933, Eccles tinha perguntado à Comissão de Finanças do Senado, porque é que um orçamento desequilibrado não era um problema durante a Primeira Guerra Mundial, porque é que uma dívida nacional de 27 mil milhões de dólares não prejudicava o crédito do governo, e porque é que nessa altura não havia desemprego. Deve ter sido uma experiência frustrante e triste para Eccles ver que a Segunda Guerra Mundial tornou novamente aceitáveis os défices e uma dívida nacional em rápido crescimento, e que só com essa guerra é que o desemprego quase desapareceu, mostrando assim o potencial de uma política orçamental deficitária.

 

(continua)

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Notas

[143] Marriner S. Eccles, “A Program to Combat the Recession.” (October 31, 1937) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah, 3.

[144] Stein, The Fiscal Revolution, 91.

[145] May, From New Deal to New Economics, 138, 154.

[146] Hyman, Marriner S. Eccles, 131-136; Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers 136-143; Blum. From the Morgenthau Diaries, 279. Obviously, Blum is wrong regarding Eccles’s assignment. 147 Hyman, Marriner S. Eccles, 136.

[147] Hyman, Marriner S. Eccles, 136.

[148] May, From New Deal to New Economics, 28-30. Blum. From the Morgenthau Diaries, 280.

[149] Arthur M. Schlesinger Jr., The Age of Roosevelt, The Coming of the New Deal (Boston: Houghton Mifflin, 1958), 244; May, From New Deal to New Economics, 23; Brinkley, The End of Reform, 25; Julian E. Zelizer, “The Forgotten Legacy of the New Deal: Fiscal Conservatism and the Roosevelt Administration, 1933-1938.” Presidential Studies Quarterly 30-2 (2000), 343.

[150] Arthur M. Schlesinger Jr., The Age of Roosevelt, The Politics of Upheaval (Boston: Houghton Mifflin, 1960), 25.

[151] Blum, From the Morgenthau Diaries 279, 357; Hyman. Marriner S. Eccles 207-208.

[152] Blum, From the Morgenthau Diaries, 49.

[153] Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 175-176.

[154] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 522.

[155] Eccles claramente não partilhava a crença “peculiar” a que Meltzer se refere. Ele compreendeu muito bem porque é que as empresas não pagaram todos os seus lucros como dividendos. Desta forma, a gestão de uma empresa adquiria fundos para ampliar uma fábrica ou para absorver um concorrente sem a necessidade de pedir aos seus acionistas fundos adicionais ou novos fundos. Eccles e Hyman, Beckoning Frontiers, 259. O interbellum foi a era em que a propriedade e a gestão de empresas se tornaram cada vez mais separadas. Era a era da ascensão da classe empresarial ou, como escreveu o historiador de negócios Alfred Chandler, a “Mão Visível”. Adolf Berle e Gardiner Means descreveram este fenómeno em The Modern Corporation and Private Property. Brinkley, The End of Reform, 37. Hoje em dia, lucros não distribuídos ou lucros retidos, como é o nome mais familiar hoje em dia, é uma prática comum e geralmente aceite. O payout ratio, a percentagem dos lucros que uma empresa paga como dividendo, é um dos rácios mais utilizados por um investidor quando tem de decidir quais as ações a comprar, vender ou deter.

[156] O memorando que o Presidente atirou a Morgenthau não consta dos arquivos da Universidade de Utah. Hyman teve de usar o resumo de Morgenthau para descrever os argumentos do Ecles ao Presidente. Hyman. Marriner S. Eccles, 226-227; Blum, From the Morgenthau Diaries, 279-282; May, From New Deal to New Economics, 87; Stein, The Fiscal Revolution, 93-95.

[157] Marriner S. Eccles, “Statement for the Press” Fraser Federal Reserve Archive, Federal Reserve Bank of St.Louis, St. Louis, Missouri (April 12, 1937), 2.

[158] Blum, From the Morgenthau Diaries, 282-283

[159] Stein, The Fiscal Revolution, 479 note 12.

[160] Federal Operating Market Committee Meeting Minutes, Fraser Federal Reserve Archive, Federal Reserve Bank of St.Louis, St. Louis, Missouri. (March 13, 1937) 4; Minutes (March 15, 1937) 19.

[161] Hyman, Marriner S. Eccles 231-232; Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 295-299

[162] Nelson, The Abyss, 476.

[163] Marriner S. Eccles, “Address before the Seventh New England Bank Management Conference of the New England Council.” (November 13, 1936), Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah, 11

[164] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 296.

[165] Nelson, The Abyss, 457.

[166] Eccles, “Address before the Seventh New England Bank Management Conference,” 15.

[167] Ibid., 13.

[168] Blum, From the Morgenthau Diaries, 296.

[169] May, From New Deal to New Economics, 88-89.

[170] Ibid., 92.

[171] Brinkley, The End of Reform, 28-29.

[172] Blum, From the Morgenthau Diaries, 384-385.

[173] Ibid., 386-387.

[174] Blum, From the Morgenthau Diaries, 388.

[175] Harry F Byrd, “Expenditures of the Federal Government,“ Proceedings of the Academy of Political Science 17-4 (1938) 115-127.

[176] Henry Morgenthau, “Federal Spending and the Federal Budget,” Proceedings of the Academy of Political Science 17-4 (1938) 129-131. Uma suposição lógica é que uma das pessoas que alegava a implementação de programa de despesas muito significativo, de que Morgenthau troçava, era Eccles. Nelson, logicamente, rejeita essa insinuação, dada a sua opinião sobre Eccles e a sua posição sobre o equilíbrio orçamental. Nelson, The Abyss, 476.

[177] Blum, From the Morgenthau Diaries, 397.

[178] Stein, The Fiscal Revolution 106.

[179] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 304

[180] Eccles, “A Program to Combat the Recession,” 2, 3.

[181] Hyman, Marriner S. Eccles, 240, Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 303-304

[182] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 293-295.

[183] Meltzer, a History of the Federal Reserve, 528-529; Friedman and Schwartz, A Monetary History, 545

[184] Philip H. Bell, “Federal Reserve Policy and the Recession of 1937-38,” The Review of Economics and Statistics 33-4 (1951), 350.

[185] Calomiris and Wheelock. “Did Doubling Reserve Requirements Cause the Recession of 1937-1938? 2, 28.

[186] May, From New Deal to New Economics, 122-125

[187] Marriner S. Eccles, “Outline of a Tentative Program to Combat the Recession.” (February 1, 1938) Papers. University of Utah, Salt Lake City, Utah,1-3.

[188] Blum, From the Morgenthau Diaries 420-425; May, From New Deal to New Economics, 136-137; Stein, The Fiscal Revolution, 111.

[189] Blum, From the Morgenthau Diaries 425-426, 449-450; May, From New Deal to New Economics, 138; Stein, The Fiscal Revolution, 111-114.

[190] Stein, The Fiscal Revolution, 114.

[191] Stein, The Fiscal Revolution, 115-123.

[192] Eccles and Hyman, Beckoning Frontiers, 393, 394.

[193] Brinkley, The End of Reform, 104-105.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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