“A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936 |
Nota de editor:
Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. Com o presente texto “Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro“, conclui-se a publicação do conjunto de 17 textos que compõem a 1ª parte “1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal”.
Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.
É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”
Em virtude da extensão do texto, apresentá-lo-emos em 3 partes.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
12 m de leitura
1. Alguns textos sobre Marriner Eccles, sobre o espírito de 33 e sobre os homens do New Deal
1.17. Sobre a vida de Marriner Eccles e o seu legado macroeconómico duradouro (1ª parte)
Marriner Eccles teve muitos pontos de vista pioneiros sobre as finanças públicas e a política monetária, e muitas das suas ideias ainda hoje são relevantes.
Entrevista conduzida por David Beckworth do Mercatus Center
Publicado por
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em 28 de Setembro de 2020 (Thorvald Grung Moe on the Life of Marriner Eccles and His Lasting Macroeconomic Legacy, ver aqui)
Pode ouvir a entrevista aqui,

Thorvald Grung Moe é um veterano de 30 anos do Norges Bank, o banco central da Noruega, e também trabalhou no Ministério das Finanças da Noruega, no Banco Mundial e no FMI. Thorvald junta-se à Macro Musings para falar sobre Marriner Eccles e de um artigo que escreveu sobre ele, intitulado * Marriner Eccles no Acordo do Tesouro-Federal Reserve de 1950: Lições para banqueiros centrais. David Beckworth e Thorvald Moe discutem especificamente as opiniões de Eccles sobre a política monetária anticíclica e finanças públicas, o seu papel na reforma e centralização do Fed e as muitas outras lições que podem ser aprendidas com a sua vida, especialmente no domínio da macroeconomia.
David Beckworth: Thorvald, bem-vindo ao nosso Centro.
Thorvald Grung Moe: Muito obrigado, David.
Beckworth: Ótimo tê-lo aqui connosco. Agora, o senhor foi-nos proposto por um amigo do Centro, Sam Bell. Sam Bell leu o seu artigo sobre Marriner Eccles. E foi uma muito boa leitura e indicaremos um link para esse texto nas notas do programa. Mas uma carreira espantosa, a sua! O senhor trabalhou no banco central da Noruega durante três décadas, trabalhou no FMI, no Ministério das Finanças da Noruega. Também trabalhou no BIS. Fale-nos um pouco sobre a sua trajetória . É realmente fascinante.
Grung Moe: Bem, obrigado. Entrei na economia no início dos anos 70, na verdade, depois de terminar o meu serviço militar. E eu não tinha nota para ir para a escola de negócios como o meu pai queria. Então comecei com economia e tive a sorte de haver, na época, um bom programa na Universidade de Oslo. Você deve ter ouvido falar de Trygve Haavelmo, que foi um dos economistas que ganhou o Prémio Nobel logo no início, juntamente com Ragnar Frisch. Sim. Frisch já tinha morrido mas Haavelmo era um dos meus professores. E era um programa forte em macro e econometria. E então escrevi a minha tese sobre economia do desenvolvimento. Assim, eu sempre tive uma certa tendência, um certo interesse, em desenvolver problemas teóricos. Consegui o meu primeiro emprego no Ministério das Finanças. Mas então fui chamado pelo Banco Mundial e fui aceite no seu programa para jovens profissionais.
Grung Moe: Então mudei-me para os Estados Unidos e trabalhei durante cinco anos no Banco Mundial, principalmente sobre África como economista de país. Voltei depois em meados dos anos 80 e comecei a trabalhar no banco central. Na verdade, fiquei lá por todos esses anos, a trabalhar sobre várias questões, desde a política monetária até às questões de estabilidade financeira, principalmente. Fui chefe do grupo de relatórios de estabilidade financeira durante algum tempo. Fui chefe do gabinete de planeamento estratégico do governador durante um curto período. Mas acabei por trabalhar bastante tempo em sistemas de pagamento e questões relacionadas, que eu sei que muitos dos seus convidados também já fizeram, e isto é como andar a dissecar o que é um banco central, se assim nos podemos expressar.
Grung Moe: Mas durante todos esses anos, devo corrigi-lo, nunca trabalhei para o FMI, mas tenho trabalhado como consultor para eles sobre como organizar bancos centrais em muitas partes do mundo. E então aposentei-me em 2016 e sou académico freelancer desde então, uma das poucas vezes que digo isto porque tenho a minha pensão de reforma e não preciso de andar a concorrer a subsídios ou bolsas. E também sou freelancer para o FMI. Mas continuo a trabalhar nessas questões e como discutimos antes da abertura desta conversa, quer dizer, muitas dessas questões são realmente antigas. E um dos meus escritores favoritos é Henry Thornton. E li o seu livro sobre o papel-moeda e crédito de 1802, que é fabuloso. Então apercebemo-nos que falamos hoje de problemas que estão connosco desde há muito tempo.
Beckworth: Então já trabalhou com alguns de nossos convidados anteriores, nomeadamente Peter Stella, certo? Mencionou que o conhece do trabalho no FMI.
Grung Moe: Sim. Nós conhecemo-nos numa missão no Azerbaijão há muito tempo. Isso aconteceu depois de os países do Bloco de Leste terem começado a pedir conselhos ao FMI. E foi aí que me juntei a ele para uma missão nesse país. E depois trabalhámos juntos em missões em muitos outros países como a Jordânia, Palestina, Paraguai, Bolívia, em torno do mundo. Peter é um bom amigo. E é muito boa pessoa. Eu sei que ele também esteve no seu programa.
Beckworth: Sim. E poderíamos passar o tempo de que dispomos para esta conversa a falar do seu trabalho sobre sistemas de pagamento, sistemas operacionais, até mesmo falando sobre o Norges Bank, porque é um banco central muito fascinante. Administra o fundo de pensões, não é assim? Se bem entendi.
Grung Moe: Absolutamente.
Grung Moe: Sim. Deixe-me apenas apresentar-lhe um pouco dos antecedentes e deixe-me referir, primeiro que tudo, que este foi um documento de trabalho que na realidade foi escrito há já bastante tempo atrás. Foi revisto mais tarde. Mas foi um trabalho que fiz enquanto estava no Levy Economics Institute em sabática em 2011-12. E a razão pela qual comecei a trabalhar nisto foi dupla. Uma delas foi porque estive no Instituto Levy para estudar Minsky, Hyman Minsky. Ele passou lá os seus últimos anos e o Instituto está de certa forma a preservar a sua herança. E a pessoa que realmente me meteu em Minsky foi Bill White no BIS. Mencionei-lhe que fiz algum trabalho para o BIS no final dos anos 90 sobre políticas macroprudenciais. E, enquanto lá estive, Bill White estava a trabalhar sobre Keynes. Assim, discutimos Keynes *Tract on Monetary Reform* e coisas do género. E depois ele apontou-me Minsky e a sua hipótese de fragilidade do sistema. E foi essa a razão pela qual fui para o Instituto Levy.
Grung Moe: A outra razão era que enquanto trabalhava no sistema bancário sombra, durante vários anos, na verdade, tinha trabalhado em políticas de resolução de crises e em políticas de crédito de emprestadores de último recurso no Norges Bank. E estas questões voltaram a surgir repetidamente. E, quero dizer, obviamente que li sobre política orçamental e estudei a crise anterior. E depois, quanto mais pensava nisso, sentia que havia alguma tensão na forma como a política oficial era retratada e as exigências do mercado. E relendo agora o meu trabalho, na verdade, surpreende-me o quão bem ele está desde que foi escrito. Porque uma das questões que coloquei foi que os bancos centrais precisam de ter muito cuidado para não serem arrastados para outras operações. Isto foi escrito em 2012, analisando as várias facilidades criadas nessa altura para responder aos problemas a esse nível criados.
Grung Moe: Desta vez, eles foram ainda mais agressivos e foram ainda mais longe. E é irónico que eu tenha terminado um dos meus textos dizendo que os bancos centrais podem ter resolvido os problemas dos bancos “demasiado grandes para falir” para as instituições financeiras, mas podem ser arrastados por outros “criadores de mercado” com operações de último recurso que não estarão tão dispostos a fazer. Quero com isto dizer, penso que os acontecimentos indicaram de certa forma a minha conclusão. E as questões são mais relevantes do que nunca, como já se discutiu anteriormente no seu programa. E a questão é realmente até onde deve o Fed ir em termos de validação dos mercados? E quais são os limites? E discuti isto no texto, incluindo as questões colaterais, o que é mais ou menos como Paul Tucker salientou, um pouco inconsistente porque os bancos centrais argumentaram que todas as suas operações deveriam ser colateralizadas.
Grung Moe: Mas se olharmos para a extensão da operação ou do apoio à liquidez, obviamente que temos de falar sobre a qualidade das garantias, a fim de satisfazer a procura do mercado. E assim a minha reflexão foi que de alguma forma os mercados podem estar à nossa frente. E, obviamente, numa crise, é muito difícil fazer algo mais do que aquilo que o Fed tem feito. E eles receberam grandes elogios pelo que fizeram, sendo tão agressivos. Mas penso que as lições do meu texto e também inspiradas por Minsky, é que talvez tenhamos de pensar na forma como estruturamos o sistema financeiro para que isso não volte a acontecer. Quero dizer, como podemos chegar a um sistema financeiro mais robusto sem que esta necessidade de criador de mercado de último recurso se repita, mais e mais? Essa era a essência do meu texto.
Beckworth: Sim. Um documento de trabalho muito interessante. E vamos fornecer um link para ele nas notas do programa. Mas quando o li, pareceu-me muito, quase profético que estivesse a delinear estes problemas e eles ressurgiram aqui nesta crise a uma escala ainda maior. Quer dizer, o Fed teve de intervir, o financiamento em dólares estava sob stress em todo o mundo. E, se alguma coisa se fez, foi apenas o reforço de todo o sistema bancário sombra. Portanto, há alguma necessidade de refletir sobre como lidar com isto no futuro.
Grung Moe: Posso acrescentar um ponto?
Beckworth: Sim.
Grung Moe: Porque existem duas versões do artigo. Um era o texto de trabalho original. E depois há outro publicado um pouco mais tarde. Acho que pelo desenvolvimento que tive, mencionei que trabalhei em vários comités no BCE e na Europa na definição do sistema bancário paralelo, e em como obter melhores perceções sobre o mesmo e assim por diante. E uma das minhas conclusões foi que a distinção inicial entre sistema bancário e sistema bancário paralelo era falsa ou enganosa. E muitos outros apontaram isso e trabalharam também nisso. Estes sistemas estão intensamente integrados. E seria um erro separar o sistema bancário paralelo do setor bancário geral enquanto tal. E isto relaciona-se muito mais com o que Mohammed Singh e Peter Stella escrevem há muito tempo, de que existe esse espaço colateral, que é composto de transações de mercado Repo de re-hipotecas, as regras de falência favoráveis, etc., etc., que atualmente facilitam esse desenvolvimento. E então precisamos de olhar para isso como um todo coerente, ao invés de entidades separadas ou questões separadas. Isso leva-me de novo à necessidade de regular tanto os bancos, assim como os bancos paralelos.
Beckworth: Sim. Acabámos de ter no programa, uma anterior convidada Carolyn Sissoko, e ela escreveu um artigo sobre este mesmo assunto sobre a a forma como o…
Grung Moe: Sim. Ela é muito boa. Ainda não ouvi esse programa. Vou ouvi-lo.
Beckworth: Então, Carolyn tem um artigo onde fala sobre a história do mercado monetário, como evoluiu de uma base de fundos em grande parte federais não garantidos para um mercado monetário quase inteiramente baseado em acordos de recompra, mercado repo. E o que isso fez foi precisamente o ponto que acaba de levantar sobre a importância das garantias e sobre o que fez com que os bancos-sombra e os bancos comerciais ficassem ligados. Por isso, vamos também fornecer um link a esse programa, mas ela concorda completamente com o ponto que acabou de mencionar, basta olhar para os desafios aí existentes.
(continua)
O entrevistado: Thorvald Grung Moe é consultor especial no Norges Bank, o banco central da Noruega, onde trabalha desde 1985. Ocupou aí uma vasta gama de posições, cobrindo tópicos como controlo cambial, estabilidade financeira, política monetária, política de sistemas de pagamento, e planeamento estratégico. Anteriormente, foi director de departamento na ala de Estabilidade Financeira e representou o banco central no conselho da Autoridade de Supervisão Financeira da Noruega. Foi também observador no Comité das Autoridades Europeias de Supervisão Bancária. Antes de se juntar ao Norges Bank, Moe trabalhou no Banco Mundial e no Ministério das Finanças norueguês. Realizou numerosas consultas com o Fundo Monetário Internacional no Médio Oriente, América Latina, e Europa de Leste. Publicou livros e artigos sobre regulação bancária, bancos transfronteiriços e a crise financeira. A sua investigação recente centra-se na independência do banco central, nas políticas de concessão de empréstimos de última instância, nos bancos-sombra e na interface entre a estabilidade financeira e a política monetária.
O entrevistador:
David Beckworth, é investigador Sénior no Centro Mercatus da Universidade George Mason e um antigo economista internacional no Departamento do Tesouro dos EUA. É o autor de Boom and Bust Banking: As Causas e Curas da Grande Recessão. A sua pesquisa centra-se na política monetária, e o seu trabalho foi citado pelo Wall Street Journal, o Financial Times, o New York Times, a Bloomberg Businessweek, e o Economist. Aconselhou os funcionários do Congresso sobre política monetária e escreveu para Barron’s, Investor’s Business Daily, the New Republic, the Atlantic, e National Review. David é o autor do blog Macro Musings e é também anfitrião do podcast semanal Macro Musings.


