A Guerra na Ucrânia — “Imaginados Varegos”, por José Pretto

Seleção de Francisco Tavares 

Com a devida vénia e agradecimento a José Pretto

8 m de leitura

 

Imaginados varegos [1]

 

 Por José Pretto

Publicado por VK.com em 21 de Março de 2022 (ver aqui)

 

A direcção militar da operação especial na Ucrânia estaria talvez à espera de oficiais ucranianos de conduta parecida à de 2014. Recordo, por exemplo, a junta de Kiev a nomear um novo Chefe de Estado Maior da Marinha e este a reagir pedindo imediatamente o ingresso (concedido) nas fileiras russas.

Visivelmente, oito anos de política radical, com a vontade clara de eliminação física da população de Língua Russa – e não raros esforços nesse sentido, com ataque sistemático às populações civis – tiveram os seus efeitos, seja pela purga do corpo de oficiais, seja pelo comprometimento generalizado de quem ali ficou, com a política assassina.

Se bem vejo, este foi o resultado: enquanto as Forças Armadas russas, nos primeiros dias, se entregavam ao exercício de rigor de bombardear as instalações militares sem tocar nas casernas para não fazer baixas escusadas, os ukros [ucranianos] aplicavam a doutrina da CIA visando matar tantos russos quanto possível, sem outro objectivo que não fosse esse; -“they must pay”, como disse um dia um director daquela coisa, a propósito da intervenção russa na Síria. Não foram bem sucedidos nesse propósito e naquele teatro de operações. Já na Ucrânia tenho as minhas dúvidas.

Por outro lado e na bacia do Don – cuja libertação é um dos objectivos prioritários – uma concentração apreciável de homens e armamento havia sido concretizada para a ofensiva contra as repúblicas populares.

E depois do choque inicial, os ukros – militares e milícias nazis – meteram-se nas cidades, grandes e pequenas, usando a população como escudo, posicionando artilharia e carros de combate no meio de bairros residenciais e impedindo a evacuação dos civis. Isso dificultou e muito as operações, designadamente em Mariupol, do ponto de vista do comando russo que insiste em não ferir a sua gente e o tem geralmente conseguido.

Na guerra de imprensa, verdadeira guerra e a dever ser tratada (militarmente, diria) em conformidade, a imprensa otanasca [dos mexericos e da confusão] só «noticia» de um lado e mente despudoradamente, ao ponto do La Stampa (um exemplo só) apresentar fotografias do bombardeamento ucraniano a civis de Donetsk, como se fossem civis atingidos pelos russos. E isso merece um processo criminal, por si mesmo. Entre mil outras coisas.

Uma dessas coisas é a conduta de Bergoglio – a quem nunca mais reconhecerei dignidade sacerdotal – bramando pela santidade da vida, coisa que lhe não ocorreu com o massacre das populações civis do Don pela junta de Kiev, massacre a exigir a intervenção em (evidente) legítima defesa (de terceiro) das Forças Armadas russas.

Teme Bergoglio, visivelmente, o desenlace político e militar desfavorável a uma operação da CIA que terá chegado a parecer-lhe bem sucedida – usando instrumentalmente Bartolomeu de Constantinopla – e visando a fusão dos cismáticos (um “exército de generais”) com os greco-católicos (igreja dos nazis locais), confundidos já nas barbaridades várias, cometidas contra as comunidades paroquiais da Igreja do Sínodo do Metropolita Onofre.

O “quadro legal” oferecido é o da proibição das Línguas que não sejam o Yiddish do Sudeste (um dialecto) e o ucraniano (vários dialectos) que aqueles loucos reivindicam como língua dos varegos, “proto-germânicos”, “legítimos donos da terra” a quem devem subordinar-se outros que ali vivam, a começar pelos eslavos. É como imaginam pensar os do batalhão azov e congéneres. Eslavos delirantes, imaginando-se varegos. E é evidente que estas “convicções” se expandiram no aparelho administrativo da junta de Kiev.

A facilidade com que matam civis no Donbass assentará nesta “convicção” do menor valor da vida dos que “devendo ser escravos” não têm direitos contra seus “amos naturais”.

Bergoglio desperta então, com o seu longo noviciado de cumplicidades com Videla e vem em socorro disto. E a isto chamam os estados europeus dos vassalos unidos, a «democracia ucraniana».

Lembro o que disse Maritain [2] -“é lícito o uso da violência que visa libertar a comunidade de violência maior”. É Tomás de Aquino.

Há violência? Ei-la:

— quatorze mil civis mortos ao longo de oito anos no Donbass,

— a visível preparação da tentativa (iminente) de esmagamento militar das Repúblicas do Don,

— o anúncio de instalação de armas nucleares na fronteira com a Rússia,

— a enunciação da adesão da Ucrânia à OTAN (aliança agressiva, hostil e nociva)

— a disseminação de laboratórios de guerra biológica no território ucraniano,

— a enunciação em voz alta de “teses” de perfeitos anormais a defender a pretensa superioridade de uma raça que não existe,

— a proibição das Línguas Russa e Húngara (e das suas escolas),

— a expulsão violenta de cristãos ortodoxos das suas igrejas entregues a greco-católicos e cismáticos,

— chegando à proibição da Ortodoxia em Lvov,

— com a ignorância reiterada, sarcástica, até, das advertências russas.

 

Parece portanto que a alternativa era, para a Rússia, a guerra, ou a guerra.

A gentileza russa durante a operação especial — terceira via, pela qual rejeita ainda a guerra — custou-lhe tempo.

E o tempo é exposição à propaganda inimiga. Ninguém, a não ser a própria Russia, teve intervenções militares mais rápidas. Ainda não passou um mês e talvez se consiga libertar a Ucrânia num mês. Lembro que, para destruir a Sérvia, a cobardia otanasca precisou de dois meses e meio. Ainda assim, espero que o tempo consiga poupar-se com o maior empenho.

Imaginei sempre que ali começaria por fazer-se o que sempre fazia o bom velho Zhukov: o bombardeamento massivo antes do avanço.

É agora que isso está a fazer-se, pelos vistos, com o rigor hoje possível, mas também com a eliminação de efectivos militares, cujas vidas se visava poupar antes.

Não pode deixar de se notar a habitualidade da utilização como arietes, pelos «states», de grupúsculos de vocação terrorista, com convicções aberrantes. Acolhem, financiam, propiciam-lhes o crescimento e usam… Foi assim no contexto islâmico — e mesmo na Europa, porque a Bósnia existe — tem sido assim com o «nacional-racismo» (não se reivindica socialista, preferindo-se ali o esclavagismo) porque já o foi na Guerra da Croácia, voltou a ser em Maidan e mantém-se até agora. Espero que caiam em combate, como almejam. E as valquírias lhes expliquem duas ou três coisas em voz clara.

Claro que na Ucrânia se joga tão simplesmente a liberdade do mundo.

Vencido ali, o supremacismo americano ficará vencido por décadas. E a inversa também seria (porque não vai ser) verdadeira.

 

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Notas de editor

[1] N.E. Os Varangianos, Varegos, Varengos ou Varyágs (do Nórdico antigo: Væringjar; grego: Βάραγγοι, Βαριάγοι, Varangoi, Variagoi; russo e ucraniano: Варяги, Varyagui/Varyahy) eram na sua maioria vikings suecos que foram para leste e para sul através do que é hoje a Rússia, Bielorrússia, Ucrânia e Balcãs em direção ao Império Bizantino, principalmente nos séculos IX e X (ver wikipedia aqui).

[2] N.E. Jacques Maritain [1882-1973] filósofo católico francês, principal expoente do humanismo cristão (ver wikipedia aqui).

 

 

 

 

 

 

 

 

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