A GALIZA COMO TAREFA – picaresca – Ernesto V. Souza

A personagem era tentadora para romance. Um desses homens que se vai aprochegando desconfiante sem terminar de estar tão perto como parece, mas que insiste em não se ir de arredor até ser notado. Uma dessas pessoas que num discurso ininterrupto de viraeversa vai fazendo que a conversa, sem debater, vaia ficando no seu rego e interesse.

Não sei se era vendedor, um caloteiro, ou talvez um empresário ou político. Perfeitamente podia ser um tertuliano ou um jornalista televisivo. Manejava de cor e eficazmente todo o repertório. O que era evidente é que andava meio bêbado e em horas baixas, a precisar proximidade e companhia. Não fosse o terno desarrumado, os sapatos secos e a gravata com nódoas podia passar perfeitamente por alguém importante.

A cousa é que eu aguardava num barzinho e ele insistia em me convidar a conversa. Repassava a política local, regional, nacional e internacional num momento, mas vendo que o meu desinteresse era sincero, passou a futebol, e como também não, a râguebi – que tem muita torcida local. Também não, ora essa. Daquela vinhos, mulheres, festas populares… ? afinal eu tinha um sotaque que não era local e terminou por se cansar do meu revês e resposta retranqueira, dizendo com um ponto de desdenho… ah, galego!?

Iluminou-se-lhe o rosto. Eu pensei, não. Mas sim… Aí foi que apareceu Feijóo a rodopiar na conversa. Tudo bem, o monólogo já não foi interrompido. Os meus sorrisos rotos não contavam. Afinal a minha cita vinha com demora e nada me custava dizer que sim com a cabeça. As admirações pelo novo líder da direita opositora são muito comuns ultimamente. Fascina-me. Mas afinal é um reino em ruínas de pícaros, caloteiros e pretensos fidalgos.

Por vezes parece-me que Valladolid continua no século XVII. Talvez a cidade nunca saiu da sua própria fantasia de cabeça de império frustrada e declinante pela que os galegos com poder passam.

Ouço a voz como de longe. Mas a minha imaginação não tem paradura e dou em fantasiar as personagens do bar arredor, fardadas como no teatro clássico castelhano. Com aqueles lances populares de honor, fé e arrebatado patriotismo justiceiro de macho.

Chega a minha cita e aproveito para escapar arrastando-a. Despido-me cortesmente aludindo que estamos tarde para outra parte e imagino-me, a imitar Fernando Fernán Gomez, fazendo uma reverência, com capa, de mão no pomo da roupeira, e arrastando quase até o chão o chambergo com altas penas.

Leave a Reply