Espuma dos dias – A UE e a eleição de Macron no atual contexto da guerra na Ucrânia — “Os becos sem saída da política europeia”. Por Alastair Crooke

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

12 m de leitura

Os becos sem saída da política europeia

 Por Alastair Crooke

Publicado por  em 2 de maio de 2022 (original aqui)

 

As crises sucedem-se, cada vez mais rapidamente, bem para além das capacidades de reação das estruturas rígidas e mentalidades da UE.

 

O resultado das eleições francesas voltou a demonstrar a rigidez da sociedade europeia, que torna quase impossível a perspectiva de que surja um governo forte e orientado (ou seja, transformador), do tipo, digamos, como um de De Gaulle, hoje em dia a nível nacional. No entanto, quando tais rigidezes nacionais se combinam com a supranacional rigidez europeia e do tipo “tamanho único” para responder às especificidades de situações complexas, obtemos um imobilismo “total” – a impossibilidade de mudar a política de qualquer forma significativa, na maioria dos estados da UE.

A Europa tem vindo a engolir durante uma década o seu “Merkelismo” de gestão, que pode ser definido como uma relutância arraigada em tomar decisões difíceis; em repelir os problemas espalhando liberalmente “molho”; e em inclinar-se – de uma forma ou de outra – para a esquerda ou para a direita em conformidade, conforme sopra o vento. Tem sido uma época de decisões fáceis, por cima de decisões fáceis, e de poucas soluções de problemas estruturais.

No entanto, isto levou a UE a um beco sem saída – precisamente quando enfrenta uma guerra na Europa, e quando os fogos da inflação grave já foram acesos, com chamas a lamber o céu, expondo os eleitorados domésticos às suas duras vicissitudes.

Macron é amplamente impopular em França. É visto como distante e arrogante, e como tendo falhado em provocar uma mudança política ou económica significativa. No entanto, apesar disso, e apesar de ter conseguido apenas 4 em cada 10 votos franceses na primeira volta, ele ganhou a Presidência de forma convincente. Porquê? E porque é que, neste contexto, Le Pen, que melhorou a sua posição, nomeadamente na maioria das comunas em França, não se saiu melhor na segunda volta, onde perdeu depois o apoio? Ela dirigiu uma campanha competente e não deu nenhum passo em falso importante no debate televisivo.

Aqui reside a rigidez estrutural (uma não confinada à França, sozinha): Le Pen tem este ‘rótulo’ colado – ela é de ‘extrema-direita’, insistem incessantemente os media dominantes. Aqui, não se trata de concordar, ou não, com as suas políticas específicas, mas sim de assinalar o paradoxo de que – objectivamente – as suas políticas, tal como apresentadas, se assemelham mais às do rival Mélenchon vindo da nova esquerda francesa, do que às do status quo de Macron.

A esquerda está mais próxima da direita (Le Pen), do que do centro (Macron). No entanto, os dois primeiros não se podem ligar – a Esquerda em França está psicologicamente condicionada a unir-se ao Centro contra a Direita, por mais díspares que sejam os seus programas. Os principais meios de comunicação social comprados são invariavelmente coniventes neste ‘arranjo’ centrista.

O resultado da segunda volta de Le Pen também não foi o resultado principalmente por ela ser vista como pró-Putin – sobre a Rússia, a NATO, a Ucrânia e Putin, havia pouco que a distinguisse de Mélenchon.

O rótulo foi suficiente: 42% dos eleitores de Mélenchon apoiaram Macron na segunda volta, embora na sua maioria o detestem. A política de identidade (inventada pela primeira vez pelos franceses no século XVIII), e popularizada de novo por Hillary Clinton em 2016, é a arma: a Esquerda não se pode levar a votar num candidato de “extrema-direita”, aconteça o que acontecer. O Centro e a Esquerda são compelidos a unir-se contra ela. Este é o facto estrutural de grande parte da política europeia.

Mélenchon, ao que parece, quer prevalecer nas eleições de Junho para a Assembleia, e pensa-se que tem aspirações a ser Primeiro-Ministro, onde, naturalmente, irá co-habitar com o Presidente do status quo. O Parlamento pode ter uma representação mais forte, mas essencialmente seria: quanto mais muda … [mais é a mesma coisa]!

Estas tácticas de imobilização centrista por parte das elites europeias são amplamente prosseguidas. Em Itália, uma coligação centrista impopular é formada pelos partidos eleitoralmente mais fracos, com os quais se pode contar para que se mantenha afastado o teste das eleições gerais. Estes partidos unem-se com uma classe de cosmopolitas de gestão-profissional de esquerda – o Centro – que beneficiam do status quo – a fim de manter os Populistas e a Direita em baixo – e fora. Macron fez o voto 3:1 em Paris. Na Grã-Bretanha, 90% dos círculos eleitorais de Londres eram “Remainers” sólidos.

O resultado, tipicamente – políticos europeus impopulares persistem com o seu impopular status quo político estatal-corporativo.

Os turpulines – Espuma dos dias, FGT

 

Então, não será “apenas política” como é habitual? Sim, mas tem o seu preço: imobilismo, e crescente alienação. O poder e o dinheiro gravitam para o centro metropolitano à custa das comunas, e de lá, são drenados para Bruxelas, insensíveis à inquietação popular, ao protesto e ao empobrecimento.

Anos de política excludente por parte dos praticantes do status quo têm privado muitos Estados europeus da perspectiva de fazer qualquer mudança significativa. Os recipientes para uma transformação propositada foram deliberadamente ressequidos; os próprios “blocos do centro” estão frequentemente obsoletos e exaustos; e a política de cor vermelha é rejeitada.

O Integracionismo empresarial actual é intencionalmente criado em oposição directa e antagónica a todas as formas de nacionalismo, como se fossem anti-europeias. No entanto, existe uma coisa como a Cultura Europeia que de alguma forma nos une, na nossa diversidade, nem que seja apenas como memória alojada nas camadas mais profundas do nosso ser.

Esta última não é a estepe plana das actuais mensagens monolíticas e concertadas da UE. No final do século XV, a Renascença (que se estendeu por toda a Europa) nasceu da renovação do contacto com o espírito da Antiguidade (Cultura Europeia em geral) – não apenas para o copiar, mas como solo fértil no qual o novo poderia criar raízes.

No entanto, historicamente, a Europa foi mais forte quando diversos Estados competiam culturalmente.

Macron venceu de forma convincente – e vai partir para Bruxelas como o primus inter pares claro, particularmente com a Alemanha no seu estado actual enfraquecido, e faccioso. Lá, ele descobrirá que, embora dominante, o problema é que nem todos os países do bloco partilham a visão de Macron sobre a Europa. Como disse um diplomata: As credenciais europeias de Macron nunca estiveram em dúvida; antes pelo contrário: ele pode ser mais “europeu que a Europa” (após a sua vitória eleitoral, foi o hino da UE que tocou).

É só que para os políticos franceses ao longo dos anos, “A Europa é La France”, mas escrito em grande. E Macron provavelmente vai continuar nesta veia jupiteriana.

Macron desde cedo adotou a iniciativa de embargo ao petróleo e gás russos. Um movimento, na sequência do fim do Nordstream 2, que pressagiava a desindustrialização da Alemanha – e a sua forte separação da Rússia. A Alemanha, como resultado do projeto da Ucrânia de Biden, foi introduzida na corte de Washington, como uma sombra do seu antigo eu (mesmo que mantenha o acesso ao gás russo barato por mais algum tempo).

Agora a França será preeminente e espera construir as estruturas militares no seio da UE para lhe dar também o predomínio na segurança militar, como única potência nuclear e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Que Macron atinja os seus elevados objetivos dependerá da sua capacidade de convencer e persuadir os outros líderes a seguir o seu exemplo, a forjar consensos, e a intermediar acordos concretos, em vez de se limitar a agitar e discutir. Entre os obstáculos que Macron poderá enfrentar nos próximos anos está a resistência instintiva coletiva à perspetiva da hegemonia francesa.

E é aqui que a segunda ordem de rigidez estrutural desempenha o seu papel. A Europa enfrenta duas grandes crises: A Ucrânia e a inflação (com os seus incêndios já a arder intensamente). E esta rigidez limitará muito a possibilidade da UE de gerir estas questões de forma competente – ou, se é que o fará, de todo.

Em relação a esta última (inflação), o Tratado de Maastricht conferiu independência absoluta ao Banco Central Europeu, que opera sem qualquer dos contrapesos – Congresso, Casa Branca, Tesouro – que rodeiam o Fed dos EUA, inserindo-o num cenário político em que é publicamente responsável. Ao contrário de qualquer outro banco central, a independência do BCE não é meramente estatutária, as suas regras ou objectivos não podem ser alterados por decisão parlamentar – está sujeita apenas à revisão do Tratado.

Mesmo que “a introdução do Euro numa zona monetária fundamentalmente defeituosa tenha sido um enorme erro, o mesmo se aplica a qualquer anulação desse erro”, uma vez que a dissolução da zona Euro seria “equivalente a um tsunami de regressão económica bem como política”. Daí a “armadilha” em que se encontra a Europa: Não pode avançar, nem recuar. O BCE não pode acabar com a Flexibilização Quantitativa (sem criar uma crise para Itália e França), nem pode aumentar as taxas de juro para combater a inflação crescente (sem criar uma crise de dívida soberana, conhecida como “o spread”).

Em relação à inflação, a França desempenha o papel de ser um dos “homens doentes da Europa” (os sobreendividados). Não está, portanto, em melhor posição para liderar – e, em qualquer caso, uma verdadeira reforma exigiria uma renegociação do Tratado da UE que é um “não-não” para a maioria dos Estados.

O que distingue a UE como uma estrutura política diferente de qualquer outra, porém, é a presunção de consenso (e os protocolos que daí decorrem) um sistema concebido para excluir a imprevisibilidade do debate público ou do desacordo político. O mesmo padrão mantém-se nos níveis superiores quando as decisões passam para o Conselho, onde a decisão resultante deve ser ungida com fotografias de família e comunicados unânimes.

O imperativo do consenso é tudo. Isto explica porque é que a elaboração de políticas da UE é tão secreta, e falta o que é elementar à vida política a nível nacional – disputa política aberta e normal. É também a razão pela qual a UE é tão rígida, e incapaz de se reformar fundamentalmente.

É no Conselho que Macron teria de pisar com ligeireza. Ele não poderá dar por adquirido o “consenso” sobre uma questão tão carregada de emoções como a Ucrânia ou a Rússia. Embora todos os estados-membros sejam tecnicamente iguais, e possam bloquear decisões de acordo com os interesses nacionais, a realidade, evidentemente, é que com grandes disparidades entre países, a Alemanha e a França comandam de facto os procedimentos devido à sua dimensão e poder. Uma vez que nem sempre estão de acordo, e quando estão, nem sempre podem insistir, nem todas as decisões do Conselho são uma tradução da sua vontade. Nada é “um dado adquirido”.

O conflito na Ucrânia, em particular, põe em evidência uma maior rigidez. Como George Friedman deixou claro, em questões de política de segurança, Washington não lida com a “Europa” – ela passa por cima dela: lidamos antes com Estados: com uma Polónia ou uma Roménia”: Não fazemos uma ‘Europa’ colectiva.

Complicado! Os EUA, juntamente com certos estados europeus, estão a despejar (ou pelo menos a tentar despejar) armas pesadas e sistemas de mísseis na Ucrânia. Sim, estes estados também estão a alargar o conflito, criando “pontos quentes” na Transnístria, Moldávia, Arménia, Nagorno-Karabakh, Geórgia, Cazaquistão, Quirguizistão, e Paquistão – para distrair Moscovo. E aprofundar a guerra por procuração (alegando, entre os outros, que a sua informação em tempo real dos serviços secretos fez cair um avião russo de transporte de tropas – “matando centenas”).

Em suma, eles estão a definir o rumo da guerra. Será que a UE tem um papel importante numa situação destas? Provavelmente não.

Estas crises sucedem-se, cada vez mais rapidamente, muito para além das capacidades de resposta das estruturas rígidas e das mentalidades da UE. A UE “funciona” institucionalmente, se é que funciona, melhor em “tempo de paz”. Está a ser posta à prova até ao ponto de ruptura, com a aparição do mau tempo, para o qual simplesmente não está adaptada nem a nível supranacional nem nacional.

Os eventos, os eventos, meus caros, estão no comando.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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