Espuma dos dias, As voltas que o mundo dá — “França, Alemanha e Itália abrem o diálogo com Putin e rompem o consenso com a União Europeia”. Por Patricio Porta

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

 

França, Alemanha e Itália abrem o diálogo com Putin e rompem o consenso com a União Europeia

Preocupados com a dependência energética e uma crise de alimentação, Macron, Scholz e Draghi retomam o contacto com Moscovo.

 

 Por Patricio Porta

Publicado por  em 31/05/2022 (original aqui)

 

O Presidente francês Emmanuel Macron com o Presidente do Conselho Europeu Charles Michel e o Primeiro Ministro italiano Mario Draghi. Europa Press

 

O espírito de consenso na UE está a mostrar sinais de desgaste. Quando Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia em finais de Fevereiro, os 27 cerraram fileiras e acordaram sanções contra o Kremlin. Mas as medidas para forçar a retirada das tropas russas levaram ao aumento dos preços dos alimentos e da energia, enquanto que os países mais afins a Moscovo, como a Hungria, ou os mais prejudicados pela dependência do petróleo e do gás da Rússia, atrasaram a aprovação de certas decisões.

Foi o que aconteceu com o sexto pacote de sanções: em troca da preservação da sua unidade, a UE deixou a Hungria, a Eslováquia e a República Checa fora do embargo petrolífero. Sem esta excepção, a falta de unanimidade teria ficado exposta. Os principais líderes europeus compreendem a situação e estão, portanto, a seguir uma estratégia de aproximação em relação a Putin.

O Presidente francês Emmanuel Macron e o Chanceler alemão Olaf Scholz falaram com o Presidente russo durante o fim-de-semana para o convencer a desbloquear a partida dos navios de cereais ucranianos do Mar Negro, uma via também explorada por Recep Tayyip Erdogan. Exortaram-no mesmo a abrir o diálogo com o governo ucraniano, depois de ambos os líderes terem abandonado a retórica combativa das primeiras semanas da guerra.

“A França e a Alemanha não querem mais guerra, por causa da crise alimentar e energética e por medo de um cenário de contágio. Um entendimento é um longo caminho ainda a percorrer porque para a Rússia e a Ucrânia é uma guerra de sobrevivência. E também não há uma grande potência que esteja disposta a mediar. Os EUA querem sufocar a Rússia, e a China e a Índia nem sequer condenaram a invasão. “Temos de descartar por agora um cessar-fogo”, diz Pablo Del Amo, historiador da Universidade Complutense de Madrid e analista internacional, à LPO.

Ainda assim, um plano de paz é essencial se Bruxelas quiser descomprimir os efeitos da guerra na vida quotidiana dos europeus. Dias antes da conversa com Scholz e Macron, Putin atendeu o telefonema de Mario Draghi. O primeiro-ministro italiano levantou a questão de uma crise alimentar iminente e o presidente russo respondeu que tudo está dependente das sanções impostas por Bruxelas.

O chanceler alemão Olaf Scholtz

 

A Itália tem sido um dos países mais relutantes ao boicote energético devido ao impacto que teria na sua indústria, o que explica porque Draghi é o líder mais entusiasta com a possibilidade de acabar com a guerra. Roma já tem uma proposta de paz pronta que inclui a ONU, a UE e a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), e Draghi chegou ao ponto de se juntar ao seu homólogo húngaro Viktor Orbán para pressionar o Conselho Europeu a exigir um cessar-fogo na Ucrânia.

A UE baixou as suas próprias directrizes ao permitir às empresas energéticas do continente pagar o gás russo em euros depois de Putin ter cortado o fornecimento à Polónia, Bulgária e Finlândia. A Europa procura fornecedores alternativos e acelera a transição para as energias renováveis, embora o momento não seja propício a estes esforços. Como o LPO salientou, empresas do sector na Alemanha, Áustria, França, Hungria, Itália, República Checa, Eslováquia e Eslovénia abriram contas no Gazprombank com autorização de Bruxelas.

Esta atitude contrasta com a da Polónia e dos países Bálticos, que historicamente se têm oposto à Rússia. Varsóvia, tal como Budapeste, poderia ter aproveitado a excepção ao embargo petrolífero a Moscovo, mas rejeitou-o a fim de aumentar ainda mais a pressão sobre os parceiros do bloco. Ao contrário da França ou da Alemanha, a Polónia refere-se a Putin como um criminoso de guerra e define as acções da Rússia na Ucrânia como genocídio, em linha com a administração Biden e o presidente ucraniano Volodimir Zelenski.

O Kremlin acabou por dinamitar o grupo de Visegrado, um bloco dentro do bloco. “Sempre houve esta divisão em relação a Moscovo”, diz Del Amo. “A Polónia é hostil e a Hungria está mais próxima da Rússia. Mas a Polónia ganhou muito peso, é uma das mais envolvidas na guerra devido ao seu apoio à Ucrânia e é o país que mais refugiados recebeu. A Comissão Europeia vai aprovar o fundo de recuperação polaco em troca de reformas muito cosméticas. A Polónia é agora um estado-membro importante dentro da UE”, continua.

O presidente polaco André Duda ao lado do seu homólogo ucraniano Volodomir Zelenski em Kiev.

 

Paradoxalmente, e após desacordos públicos entre Varsóvia e Bruxelas – um possível ‘Polexit’ foi sugerido pouco antes da guerra – o governo polaco é o principal apoiante da linha dura de Ursula von der Leyen. Embora a França, a Alemanha e a Itália façam apelo a acordos dentro da UE, a chefe da Comissão Europeia observa que estes países estão a seguir uma política própria guiada pelos seus interesses.

O Presidente polaco Andrzej Duda censurou Scholz pela demora na entrega de veículos blindados para substituir os que Varsóvia está a entregar à Ucrânia através de um mecanismo que permite ao exército polaco modernizar a sua capacidade militar. Duda falou de desilusão e desconfiança, apontando directamente para a posição ambígua de Scholz desde o início da invasão. A Estónia, a Lituânia e a Letónia também não acreditam que a Alemanha esteja interessada em bater com demasiada força em Putin.

As dificuldades em aprovar o último pacote de sanções, e em particular as concessões, são bastante reveladoras para as autoridades da UE. “Esta ruptura tem vindo a produzir-se há já algum tempo. Para além da Hungria, há outros países que não querem avançar com as sanções, mas exerceram mais pressão sobre eles, como é o caso da Áustria”, salienta o analista.

Macron, Scholz e Draghi perguntam-se se as sanções estão a ter o efeito pretendido na economia russa e durante quanto tempo a população europeia suportará os danos colaterais da guerra. A inflação está a comer os seus rendimentos e a falta de hidrocarbonetos russos está a comprometer o crescimento dos países do bloco.

Os líderes da França, Itália e Alemanha não subscrevem a “linha Kissinger”, que insinua sem eufemismo uma cessão territorial a favor da Rússia, mas concordam com o antigo Secretário de Estado norte-americano que uma maior humilhação de Putin no campo militar poderia acabar por cristalizar o conflito na região, mas desta vez para além do Donbas.

Putin joga com o desgaste e ganha tempo para consolidar a posição das suas tropas no Donbas ocupado, reabrindo ao mesmo tempo canais de comunicação com os líderes europeus e forçando os seus clientes a pagar indirectamente pelo gás em rublos. Pedro Sánchez passou de descrever o massacre de Bucha como genocídio a admitir na terça-feira a necessidade de diálogo com Putin. Trata-se de uma mudança de perspectiva e também de uma adaptação às circunstâncias. Em Bruxelas eles sabem que à medida que a guerra se arrasta, tornar-se-á cada vez mais difícil manter o consenso.

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O autor: Patricio Porta é um jornalista argentino especializado desde 2012 em política internacional. Publicou o seu primeiro livro, La Nueva Generación, em 2021, uma série de diálogos com dez jovens dirigentes progressistas da América Latina. Desde 2021 é jornalista do La Politica Online. Anteriormente trabalhou como colunista em Voces del Mundo (2018/21), especialista em comunicação interna na Confederação Argentina da Média Empresa (2015(/18), jornalista no El Mundo (2013/15). Licenciado pela Universidade de Buenos Aires.

 

 

 

 

 

 

 

 

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