Da histeria na diabolização à necessidade de silenciar as vozes discordantes -Reflexões sobre a atual cacofonia em torno da guerra na Ucrânia — Texto 1. 1989-2001: O Longo Fim-de-semana Perdido pela América.  Por Walter Shapiro

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

25 m de leitura

Texto 1. 1989-2001: O Longo Fim-de-semana Perdido pela América

 Por Walter Shapiro

Publicado por , em 27 de junho de 2022 (original aqui)

 

ILUSTRAÇÃO DE SEAN MCCABE

 

Desde a queda do Muro de Berlim até ao 11 de Setembro, tivemos relativa paz e prosperidade. Foi uma oportunidade para curar algumas feridas nacionais. Desperdiçámo-la completamente – e ajudámos a dar origem às crises que hoje enfrentamos.

Na noite de 9 de Novembro de 1989, milhares de alemães de Leste – incluindo uma química de 35 anos chamada Angela Merkel – atravessaram pacificamente para Berlim Ocidental no meio do caos e da confusão no Muro de Berlim. Em poucas horas, os portões do símbolo mais notório da Guerra Fria abriram definitivamente, à medida que o champanhe corria e os alemães jubilosos com picareta começavam a fazer saltar grandes pedaços do muro.

Estávamos a meio da tarde na Casa Branca quando Brent Scowcroft, o conselheiro de segurança nacional, entrou na Sala Oval para dizer a George H.W. Bush (pai) que os relatórios iniciais sugeriam que o muro tinha sido aberto. Mas qualquer regozijo público foi temperado pelo princípio orientador da carreira de Bush – a prudência. Como o biógrafo de Bush Jon Meacham relata em Destiny and Power, “Utilizando, por empréstimo, uma frase de Scowcroft, Bush estava determinado a não ‘se regozijar'”. Reunido com repórteres na Sala Oval, Bush assumiu um tom tão moderado que a repórter da CBS Lesley Stahl disse: “Esta é uma espécie de grande vitória para o nosso lado na grande batalha Leste-Oeste, mas não parece estar exultante”. A resposta de Bush neste ponto de viragem épico da história moderna: “Eu não sou um tipo emotivo”.

Mesmo quando o presidente se encontrou com Mikhail Gorbachev em Malta, em Dezembro desse ano, para ratificar simbolicamente o fim da Guerra Fria, as palavras de Bush foram de grande discrição. Durante mais de quatro décadas – através de guerras por procuração na Coreia e no Vietname e de um confronto nuclear de olhos nos olhos durante a Crise dos Mísseis Cubanos – o mundo tinha estado à beira do abismo. Mas ao longo da sua presidência, Bush nunca demonstrou sobre o colapso do comunismo metade do entusiasmo que ele tinha como primeira base de Yale cada vez que a sua equipa derrotava Harvard. A contenção de Bush foi elogiada por especialistas em política externa – mas também privou os americanos de um momento emocionante de unidade nacional sobre o fim da Guerra Fria e os receios do Armagedão nuclear.

Na atual era de pandemia, polarização, insurreição, guerra na Ucrânia, mudanças climáticas dramáticas, e o desgaste da democracia, é difícil imaginar como eram os Estados Unidos durante o glorioso período de quase 12 anos que começou em 9 de Novembro de 1989. Com a Rússia encostada às cordas e a China ainda a sair do seu sono maoísta, os Estados Unidos dominaram o mundo. Como Michael Mandelbaum, professor emérito da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, afirma no seu novo livro, The Four Ages of American Foreign Policy, “A posição internacional que os Estados Unidos assumiram na sequência da Guerra Fria foi uma posição que nenhum outro país deteve ou alguma vez deteve“. E, sim, isso inclui a Roma antiga e o Império Britânico.

Este período também trouxe consigo, na sua maioria, tempos de boom em casa. Apesar de uma curta recessão em 1990 e de um colapso da bolsa de valores dot-com em 2000, a época foi marcada por um declínio constante da taxa de desemprego, que atingiu os 4% em 2000, o valor mais baixo em três décadas. O milénio terminou com orçamentos equilibrados – de facto, Bill Clinton legou a George W. Bush um excedente de 236 mil milhões de dólares – e um discurso generalizado de pagar a totalidade da dívida nacional. Em Abril de 2001, o Presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan – que não era adepto de “exuberância irracional” – previu num discurso importante que, “Embora as magnitudes dos futuros excedentes orçamentais federais unificados sejam incertas, é muito provável que se mantenham consideráveis durante algum tempo“.

 

É claro que havia problemas que apodreciam – relações entre raças, desigualdades crescentes, o aumento das guerras culturais, a política tornando-se um desporto de sangue, e uma nação que adorava a riqueza como se tivéssemos regressado à Idade do Ouro. Mas para a maioria dos americanos que então estavam vivos, os anos 90 foram os melhores anos das nossas vidas. Sem receios de guerra nuclear, uma sensação de que a prosperidade permanente estava ao alcance da mão e um sentimento de satisfação de que o mundo estava prestes a entrar no seu segundo século americano. Titanic, o filme mais grandioso da década de 1990, dizia tudo: estávamos inundados de luxo e de auto-confiança até que chocámos com o iceberg em 11 de Setembro de 2001.

Olhando para trás desde a perspetiva desta década sombria, podemos agora ver os anos de glória dos Estados Unidos pós-Guerra Fria como uma tragédia. Tantos problemas hoje em dia (desigualdade maciça de rendimentos, aquecimento global, o governo belicoso unipessoal de Vladimir Putin na Rússia, e a ameaça de autoritarismo aqui em casa) poderiam ter sido atenuados por uma acção governamental inteligente e agressiva durante estes 12 anos de paz e prosperidade. Em vez disso, o período entre a queda do Muro de Berlim e o 11 de Setembro foi uma época de oportunidades perdidas.

Apesar do apelo político de Fleetwood Mac a cantar “don’t stop thinking about tomorrow“, o ethos dominante da época era Think Small. Parte deste apelo era devido à liderança do status quo da época – que, na sua maioria, incluía Bill Clinton – e outra parte era um eleitorado inquieto que queria mudança mas não conseguia definir o que isso significava. Mas o fracasso conceptual transcendeu a política e as eleições. Esta foi a idade de Seinfeld [1] – 12 anos sobre nada para além de uma crença mal definida num futuro tecnológico glorioso. Parte do problema era que os americanos, após mais de uma década de retórica anti-governamental sob Ronald Reagan e George H.W. Bush, tinham uma visão truncada do que poderia ser alcançado por um presidente ambicioso. Quando Clinton declarou no seu discurso de 1996 sobre o Estado da União, “A era do grande governo acabou”, estava a refletir as sondagens e o sentimento público.

Há um ponto mais importante do que estar a lamentar-se ao revisitar estes anos perdidos de triunfalismo pós-Guerra Fria. Esta época serve como um lembrete cauteloso de que se os eleitores exigirem pouco do governo para além de impostos mais baixos, isso é tudo o que vão ter. Os anos 90 também trouxeram consigo um lembrete da loucura de esperar que o mercado livre e as empresas e financiadores em busca de lucro elevassem a sociedade e transformassem o mundo. Para compreender onde a nação errou durante este período crucial de 12 anos, examinarei o que “poderia ter sido” em três arenas cruciais – a economia, o mundo e a sociedade americana.

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A ECONOMIA

O final dos anos 80 e a década de 1990 constituíram o ponto culminante do governo pela elite e muitas vezes para a própria elite. Havia, em particular, uma insularidade bem educada nas duas presidências Bush – uma sensação de que os Estados Unidos eram povoados por pessoas (na sua maioria homens) que vinham das famílias certas, frequentavam as escolas certas, e dirigiam as empresas certas.

No seu discurso de aceitação na Convenção Nacional Republicana de 1988, Bush Sr. tentou convencer os conservadores da sua fé no Reaganismo, declarando, em palavras criadas para ele por Peggy Noonan, “Leiam nos meus lábios: não a novos impostos”. Esta linha politica funcionou, quando Bush esmagou Michael Dukakis nas eleições de 1988, com todo o Partido Republicano  atrás de si. Mas a antiquada ética do orçamento equilibrado de Bush (que em tempos o levou a denunciar a teoria do lado da oferta como “economia vudu“) prevaleceu em finais de 1990. Preocupado com o planeamento da guerra do Golfo para libertar o Kuwait após a invasão de Saddam Hussein, Bush aceitou um compromisso orçamental no Congresso que aumentou a taxa marginal mais alta de impostos de 28% para 31%. Pode ter sido uma governação responsável, mas teve um preço que o país ainda está a pagar. Os republicanos da Câmara liderados por Newt Gingrich revoltaram-se quando Bush concordou em aumentar os impostos. A promessa contra novos impostos de Grover Norquist tornou-se um evangelho religioso para os congressistas republicanos. E com algumas exceções muito pequenas, os republicanos no Congresso não apoiaram um único aumento de impostos em três décadas.

Com o país a recuperar com muita dificuldade de uma recessão, nada sobre a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 sugeria uma continuação do zelo da administração Bush em matéria de redução dos défices. Mas a grande reviravolta deu-se a partir de uma reunião na Mansão do Governador em Little Rock cerca de duas semanas antes mesmo da investidura de Clinton. No dia anterior, os conselheiros de Bush, tinham divulgado a notícia de que se previa que os défices seriam superiores a 300 mil milhões de dólares por ano durante todo o primeiro mandato de Clinton. Como Bob Woodward diz na The Agenda, Clinton explodiu à medida que lhe foi dito repetidamente pelos seus principais conselheiros económicos que Wall Street precisava de ser cortejada com a redução do défice. Com o rosto vermelho de cólera, Clinton perguntou amargamente: “Querem dizer-me que o sucesso do meu programa e da minha reeleição depende da Reserva Federal e de um bando de negociantes especuladores no mercado das obrigações?

Este foi o momento em que os ambiciosos sonhos keynesianos da campanha de Clinton se esfumaram. Se o presidente tivesse seguido os seus próprios instintos iniciais e os conselhos dos seus conselheiros políticos, a sua agenda económica teria sido muito mais corajosa do que uma tentativa sem convicção de aprovar um pacote de estímulos e de tentar e não aprovar um plano de cuidados de saúde. No final de 1993, segundo Woodward, um Clinton frustrado descrevia-se a si próprio de forma ridícula como um republicano de Dwight Eisenhower, o que sublinhava até que ponto se tinha deslocado até para o centro.

Os anos Clinton trouxeram com eles uma governação liberal por parte daqueles que dispunham de boas classificações como estudantes (o chamado rating SAT). Poucos na órbita de Clinton – para além do próprio presidente – tinham um sentido visceral da classe trabalhadora branca, que em tempos foi um elemento dominante na coligação do New Deal. Isto pode ajudar a explicar estes números económicos: De 1991 a 2000, os rendimentos dos que se encontravam nos 5 por cento do topo aumentaram a uma taxa anual de 4,1 por cento. Para aqueles que se encontravam entre os 20 por cento, foi de 2,7 por cento anualmente. E para todos os outros (80 por cento da população ativa), os rendimentos cresceram a uma taxa estagnada de 1 por cento. Isto foi a desigualdade económica já em marcha.

Clinton teve sempre uma agenda política secundária – para tardiamente desarmar os ataques de Ronald Reagan contra os Democratas. Apesar de todo o palavreado da campanha de Clinton sobre “construir uma ponte para o século XXI”, grande parte da sua administração estava voltada para o passado, num esforço para retomar e finalmente vencer as batalhas dos anos 80.

Isto explica a linha dura do projeto de lei do crime de 1994 (defendida na altura pelo Senador Joe Biden), e a assinatura de Clinton sobre legislação de 1996 que reorganizou e endureceu as disposições do Estado Providência. O texto de um desenho caricatura de 1996 da autoria de Jules Feiffer capturou a essência deste lado de Clinton: “Estou moralmente perturbado com o projeto de reforma do Estado Providência porque este projeto castiga os fracos … que, pensando bem, não votam, enquanto todos os que se ressentem, votam! Por isso, é melhor que eu me contenha e assine o projeto de lei da reforma do Estado Providência. Porque, se eu não for reeleito, quem é vai defender os pobres?

Apesar da oposição dos trabalhadores, Clinton apoiou relutantemente o Acordo de Comércio Livre Norte-Americano com o Canadá e o México, negociado pela administração Bush, no final da campanha de 1992. Uma vez no cargo, porém, Clinton emergiu como um ardente defender da livre-troca, apelando a mais de 200 membros da Câmara para pressionar no sentido da ratificação do tratado. George Stephanopoulos, nas suas memórias da Casa Branca, All Too Human, escreveu na altura que o NAFTA era “uma paulada nos olhos dos nossos sindicalistas apoiantes mais leais“. Ao assinar o NAFTA na Sala Oval, no final de 1993, Clinton defendeu: “Bons empregos, carreiras gratificantes, horizontes alargados para os americanos da classe média só podem ser assegurados através da expansão das exportações e do crescimento global“. Quanto àqueles que inevitavelmente seriam deixados para trás pela globalização, Clinton ofereceu estas palavras tranquilizadoras: “Cada trabalhador deve receber a educação e formação de que necessita para colher as recompensas da concorrência internacional em vez de suportar o seu fardo.”

A globalização aliada a uma vasta mudança tecnológica foram, evidentemente, forças imparáveis, e o protecionismo grosseiro teria sido tão ineficaz como o Rei Canuto a enfrentar as marés. Mas o fracasso da administração Clinton e dos democratas defensores da livre-troca teve as suas raízes na incapacidade de compreender como comunidades inteiras do Midwest industrial seriam devastadas pela transição dolorosa. “Claro que todos sabiam que haveria perdedores na passagem à livre-troca“, disse Elaine Kamarck, uma colega sénior da Brookings Institution que trabalhou na equipa de Al Gore durante os anos Clinton. “Mas eles acreditavam que a ajuda ao ajustamento comercial e a formação profissional os ajudariam a ultrapassar isso. Essa era a grande falácia. Os trabalhadores siderúrgicos não queriam tornar-se técnicos de raios X, mesmo que pudessem“.

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O pensamento a longo prazo não foi completamente abandonado em Washington, mas a tónica foi colocada sobre os problemas futuros errados. Havia uma obsessão entre os decisores políticos de elite de ambas os partidos de que o Fundo Fiduciário da Segurança Social não seria capaz de fazer pagamentos completos nos anos 2030 sem subsídios adicionais do Congresso. (Ainda é esse o caso.) Mas de modo nenhum isto foi considerado como um problema nacional urgente durante o segundo mandato de Clinton. Confrontado com um crescente coro republicano exigindo grandes cortes fiscais, Clinton no seu discurso de 1999 sobre o Estado da União respondeu com o contra-argumento politicamente mais apelativo que ele poderia apresentar: “Salvar Primeiro a Segurança Social”. O presidente propôs que 60% do excedente orçamental para os próximos 15 anos fosse diretamente para o fundo fiduciário. Clinton argumentou: “Deveríamos colocar a Segurança Social numa base sólida para os próximos 75 anos”.

Mas graças a George W. Bush, nada em Washington foi deixado numa base sólida – mesmo antes dos ataques de 11 de Setembro. Em Junho de 2001, Bush assinou orgulhosamente uma redução de impostos de $1,35 milhões de milhões de dólares, mas a maior parte desta redução foi dirigida para os americanos mais ricos, e promulgou outra redução de impostos para os ricos em 2003. Mesmo sem as guerras mal geridas de Bush no Iraque e no Afeganistão, a austeridade relutante de Clinton foi aniquilada assim que os republicanos assumiram a presidência.

 

O MUNDO

Olhando para trás, para o período inebriante após a queda do Muro de Berlim e a queda da União Soviética em 1991, pode ser tentador perguntar: “Quem é que perdeu a Rússia? A verdade era, evidentemente, que a Rússia nunca foi nossa para a perdermos. Mas regressando aos anos de George H.W. Bush, os Estados Unidos, com miopia e negligência, tomaram consistentemente medidas que minaram a transição da Rússia para a democracia e uma economia de mercado saudável. O economista e perito na economia russa Anders Aslund há muito que defendeu que em Novembro de 1991 se deu um momento crucial, quando os Estados Unidos e os outros países do G-7 se recusaram a perdoar as dívidas internacionais da extinta União Soviética. Esta foi uma história que nunca ganhou a cobertura de primeira página nos Estados Unidos, mas que incomodou muito em Moscovo. Num documento publicado em 2000, Aslund argumentou que o único “interesse do G-7 era assegurar a satisfação das suas exigências sobre a União Soviética, o que também fizeram de uma forma insustentável. Os jovens reformadores russos ficaram chocados e consternados com o desinteresse total do G-7 pelos seus planos de reforma”.

Sob Clinton, a Rússia – tal como todos os outros aspectos da política externa – ficou enredada com preocupações e crises políticas internas. Até mesmo escândalos insignificantes movidos ou incentivados pela imprensa e mantidos vivos pelo partido Republicano durante anos após investigações terem encontrado buracos secos, como um negócio imobiliário falhado do Arkansas chamado Whitewater [2], lançaram um manto de sombra. Na primeira viagem de Clinton a Moscovo, no início de 1994, lembro-me de o corpo de imprensa itinerante ter sido instruído enquanto fazíamos o check-in no Metropol Hotel à noite: “Chaves de quarto à direita. Declarações sobre Whitewater para a esquerda”.

Se houve um momento crucial na deterioração das relações com a Rússia, foi provavelmente o facto de Clinton ter encorajado a expansão da NATO para os países do antigo bloco soviético como a Polónia, Hungria e República Checa, o que ocorreu formalmente em 1999. Mas as sementes tinham sido plantadas muito antes, como Clinton tinha salientado ao Presidente polaco Lech Walesa, numa visita a Varsóvia em 1994, onde declarou que apoiava fortemente a integração da Polónia na aliança. Mas ao longo de todo o longo processo, Clinton demonstrou continuamente um ouvido de surdos sobre as preocupações da Rússia com a sua segurança e o seu prestígio. Na sua autobiografia, My Life, Clinton admite que foi apanhado desprevenido por um discurso de 1994 de Boris Yeltsin atacando a expansão da NATO e os Estados Unidos por quererem uma “paz fria” em substituição da Guerra Fria. Clinton passou alegremente por cima deste discurso como sendo mera política interna russa: “Os conselheiros de Ieltsin tinham-no convencido de que a NATO iria admitir a Polónia, a Hungria e a República Checa em 1996, precisamente quando ele iria concorrer à reeleição contra os ultranacionalistas que odiavam a expansão da NATO”.

Como Clinton rapidamente soube, Ieltsin era – mesmo nos seus melhores dias – um parceiro instável na democracia. Nos seus piores dias, o presidente russo era um bêbado descontrolado que uma vez, enquanto estava na Blair House do outro lado da rua da Casa Branca, tentou chamar um táxi a meio da noite em roupa interior. Mas apesar de todas as falhas de Ieltsin, nunca houve um momento em que a administração Clinton abordasse seriamente a legitimidade de algumas das preocupações do presidente russo quanto ao empurrar da NATO para leste. Num artigo de 1997, George Kennan, o arquiteto nonagenário da contenção durante a Guerra Fria, chamou amargamente à expansão da NATO “o erro mais fatídico da política americana em toda a era pós-guerra fria”.

Um erro igualmente grave dos EUA com a Rússia foi o de aplaudir desde os corredores dos meios políticos americanos a privatização dos ativos da ex-União Soviética, ajudando muito pouco para suavizar a transição para uma economia de mercado livre. O colapso económico russo no final dos anos 90, a par do  colapso financeiro asiático, condenou Ieltsin e talvez até toda a experiência democrática russa. Como Mandelbaum resume em The Four Ages of American Foreign Policy, “O governo americano e os conselheiros americanos não tinham tido influência decisiva sobre as políticas económicas russas, mas o público russo criticava-os por causa das deficiências das reformas“.

Sem qualquer missão dos EUA no mundo para além de um idealismo difuso, Clinton concluiu provavelmente com razão que os eleitores não tolerariam quaisquer baixas militares americanas. Quando 18 soldados americanos morreram em Mogadíscio, em Outubro de 1993, durante uma missão de manutenção da paz iniciada sob o comando de Bush, Clinton retirou rapidamente todas as tropas americanas restantes da Somália. Ao longo dos dias mais negros da guerra na Bósnia, Clinton citou repetidamente o livro de Robert Kaplan, Balkan Ghosts, como prova de que seria fútil tentar resolver estas antigas inimizades. Só depois de Richard Holbrooke ter negociado os Acordos de Dayton em finais de 1995 é que os Estados Unidos envolveram 20.000 tropas para manter a frágil paz nos Balcãs. Havia virtudes na política externa de Clinton, como o Acordo da Sexta-feira Santa que trouxe a paz à Irlanda do Norte. Ele chegou a estar muito perto de um acordo de paz no Médio Oriente. E ele estava suficientemente sério acerca do terrorismo para tentar derrubar Osama bin Laden com um míssil de cruzeiro. Em consonância com o temperamento da época, os ataques com mísseis no Afeganistão e Sudão foram ridicularizados como sendo uma distração em comparação com os negócios vitais da nação – a responsabilização do presidente pelo seu comportamento sexual descontrolado.

Clinton, um estudante de história, ansiava por grandeza na política externa. Em The Clinton Tapes : Conversations with a President, 1993-2001, o biógrafo Taylor Branch, um amigo de Clinton desde a década de 1970, descreve a luta do presidente para criar um rótulo melhor para a década de 1990 do que a “era pós Guerra Fria”. Mas o melhor que Clinton conseguiu reunir foi a “era da democracia global”, ingenuamente esperançosa.

 

SOCIEDADE AMERICANA

As eleições de 1992 raramente são consideradas um ponto de viragem na política dos EUA. Mas, olhando para trás, muitos dos rumores que deram origem ao Trumpismo tiveram as suas origens em duas revoltas populistas distintas contra o elitismo da primeira presidência Bush.

Enraivecido com a apostasia de Bush sobre os impostos, Pat Buchanan (um incendiário colunista de direita e antigo escritor de discursos da Casa Branca de Richard Nixon e Ronald Reagan) concorreu contra o presidente como candidato de protesto nas primárias de 1992. Deliberadamente, tomou emprestado o slogan isolacionista de Charles Lindbergh, “América Primeiro”, Buchanan fez campanha como inimigo feroz da livre-troca e dos americanos nascidos em berço de ouro, e foi também um tribuno da pureza anti-impostos do reaganismo. Na noite das primárias de New Hampshire, ao ganhar quase 40% dos votos contra um presidente em exercício, Buchanan afirmou : “O que começou como uma pequena rebelião emergiu numa revolução de pleno direito da classe média americana. Vamos retomar o nosso partido face àqueles que se afastaram de nós e se esqueceram de nós“.

Um quarto de século mais tarde, a populaça populista derrotou o establishment do Partido Republicano. Mas em 1992, New Hampshire foi o ponto alto para as Brigadas Buchanan. Num esforço insensato para estimular a unidade do partido, as forças Bush ofereceram ao colunista incendiário um espaço para falar em horário nobre na Convenção Nacional Republicana em Houston. Buchanan proferiu um duro discurso sobre o tema “Guerra da Cultura” ao qual Molly Ivins se referiu, ridicularizando-o: “provavelmente soava melhor no seu alemão original”. Apelando à ala intolerante em rápido crescimento do Partido Republicano, Buchanan invocou tanto Bill como Hillary Clinton enquanto trovejava, “A agenda que Clinton & Clinton imporia à América – aborto à vontade, um teste decisivo para o Supremo Tribunal, direitos dos homossexuais, discriminação contra as escolas religiosas, mulheres em unidades de combate – isso é uma mudança, tudo bem. Mas não é esse o tipo de mudança… que podemos aceitar numa nação a que ainda chamamos o país de Deus”.

O maior aviso sobre a fragilidade do sistema político bipartidário teve origem durante o estranho programa de entrevistas de Larry King na CNN, no final de Fevereiro de 1992. O seu convidado naquela noite foi Ross Perot, um bilionário texano de voz fortemente nasalada. No final da entrevista, Perot disse que se candidataria à presidência se os voluntários pusessem o seu nome no boletim de voto em todos os 50 estados. Três meses mais tarde, com pouco aparato de uma campanha normal, Perot estava à frente de Bush e de Clinton numa sondagem da revista Time para a corrida presidencial a três candidatos.

Aqui estavam dois candidatos presidenciais tradicionais não ameaçadores – um candidato presidencial em exercício cauteloso (Bush) e um atraente governador jovem (Clinton). No entanto, mais de um terço dos eleitores quiseram sair do duopólio bipartidário na crença errada de que um bilionário excessivamente confiante poderia salvar a nação.

Explicar Perot três décadas mais tarde é tão difícil como decifrar outros fenómenos da década de 1990, como a Macarena. Na verdade, tendo entrevistado Perot em Maio de 1992, considerei-o difícil de perceber nessa altura. Embora Perot fosse apaixonado por um orçamento equilibrado e tivesse advertido dramaticamente que o Acordo de Comércio Livre Norte-Americano levaria a um “grande ruído de sucção” de empregos a serem exportados, a sua candidatura independente baseava-se muito mais na sua pessoa do que em questões especiais da sociedade americana. Parte dessa motivação provinha do apelo da fortuna ganha por ele próprio, uma vez que os  eleitores caem continuamente na verdade expressa por Tevye em Fiddler on the Roof: “Quando se é rico, eles pensam que se sabe realmente”. Perot mostrou ser partidário de instrumentos autoritários como referendos nacionais instantâneos para decidir questões políticas. Perot afirmou repetidamente que os problemas políticos complicados tinham uma “resposta simples” óbvia para ele, mas que estava para além do parentesco dos políticos comuns. Perot teve um desdém particular por Bush, afirmando a certa altura que forças sombrias ligadas ao presidente tinham planeado perturbar o casamento da sua filha.

Perot retirou-se dramaticamente da campanha de 1992 no meio da Convenção Nacional Democrata e depois voltou à corrida nas presidenciais no início de Outubro, murmurando sombriamente sobre a família Bush. Os seus 19 por cento do voto popular (ele não tinha um único Estado) foi o melhor resultado obtido por um candidato de um terceiro partido desde Teddy Roosevelt, concorrendo na linha dos Bull Moose em 1912. Segundo as sondagens , Perot ganhou o apoio de 17 por cento dos republicanos e 13 por cento dos democratas. Mas os analistas políticos têm discutido desde então se Perot inclinou as eleições para Clinton ou se Bush estava inevitavelmente condenado pela sua própria inépcia política. O legado duradouro de Perot foi a ridicularização por ele feita sobre a livre-troca e a sua crença quase-religiosa de que Deus deveria ter esculpido um orçamento equilibrado nos Dez Mandamentos.

Enquanto que o medo de Perot aos números vermelhos sobre o orçamento encaixava na opinião dos pensadores das elites, os seus avisos sobre os custos do comércio livre foram postos de lado como loucuras anti-progresso, pelos líderes de ambos os partidos.

Outro marco na erosão das normas democráticas veio com o descalabro do Partido Republicano no congresso de 1994 e a subida de Newt Gingrich a uma posição de poder. O bombástico Gingrich durou apenas quatro anos como Presidente da Câmara dos Representantes, mas a sua ascendência marcou um ponto de viragem para o Partido Republicano. Gingrich, um antigo professor de história, expressava a essência da política universitária – maldade e mordacidade, mesmo quando o que estava em jogo eram questões relativamente irrelevantes. Tudo para Gingrich era uma questão de princípio, para além das suas finanças pessoais emaranhadas (ele tentou, por exemplo, escapar com um acordo sobre a publicação de um livro de 4,5 milhões de dólares imediatamente após as eleições de 1994) e da sua história conjugal (não pergunte).

Uma paralisação de atividade governamental de três semanas durante as férias de Natal de 1995-1996 serviu de introdução a um Partido Republicano renascido que se preocupava mais com birras de temperamento ideológico do que com uma governação eficaz. Durante as prolongadas negociações orçamentais que começaram durante o Outono, muitas vezes parecia como se Clinton e Bob Dole, o líder da maioria do Senado, estivessem a fazer de adultos responsáveis e Gingrich estivesse a desempenhar o papel de criança petulante. Gingrich nunca recuperou totalmente da zombaria que inspirou depois de se ter queixado da indignidade de ter de se sentar nas traseiras do Air Force One – ignorado pelo presidente – no voo de regresso a Washington do funeral do primeiro-ministro israelita Yitzhak Rabin. E, sim, o pobre Newt também teve de sair pela escada traseira da Base da Força Aérea de Andrews.

A ironia é que muitas das pirotecnias que dramatizaram a relação entre Clinton e Gingrich eram desnecessárias. Os dois homens com grandes apetites partilharam alguns dos mesmos objetivos – quer se tratasse de reformar o bem-estar ou de criar uma trajetória para se alcançar um orçamento equilibrado. Mas em vez de considerar o compromisso como o produto lógico do trabalho de um governo dividido, Gingrich tratou cada acordo legislativo como uma pausa momentânea num choque titânico de civilizações.

Em retrospetiva, parece desconcertante que Clinton – um democrata centrista que presidiu em bons tempos com poucas desventuras estrangeiras – tenha inspirado tal fúria republicana. A “vasta conspiração de direita” foi mais uma realidade do que uma fantasia paranoica de Hillary Clinton. Enquanto que os Clintons podiam ser imprudentes com a verdade exata, muitos escândalos dos anos 90 foram inventados a partir de alguns pedaços de papel e de uma rajada de vento. Uma medida imprudente de 1993 para eliminar sete empregos no gabinete de viagens da Casa Branca foi tratado como uma espécie de Teapot Dome. O suicídio de Vince Foster, o conselheiro adjunto da Casa Branca, desencadeou um conjunto de teorias de conspiração malucas sobre conspirações de assassinatos. E Whitewater transformou-se no procurador especial Kenneth Starr, interpretando o Inspector Javert, num exame jurídico exagerado da vida sexual do presidente, o que acabou por conduzir ao impeachment de Clinton em 1998 – um exemplo precoce de utilização indevida da Constituição pelo partido Republicano tão somente para apaziguar a base republicana.

Há um mito de que a campanha republicana para impugnar Clinton impediu o presidente de realizar grandes feitos no seu segundo mandato. Mas o seu discurso sobre o Estado da União de 1997 – proferido quase um ano antes de os americanos alguma vez terem ouvido o nome de Monica Lewinsky- sugere  que a agenda do segundo mandato de Clinton era quase semelhante à de Bush na sua falta de ambição. A peça central do discurso estava nesta frase: “Primeiro, temos de avançar rapidamente para concluir os assuntos inacabados do nosso país – para equilibrar o nosso orçamento, renovar a nossa democracia, e terminar o trabalho de reforma do Estado Providência“.

Esse era o assunto inacabado da nação?

A mensagem inequívoca dos anos 90: Washington só se preocupa com os problemas a longo prazo  e com as boas sondagens. Durante este período – em parte devido à desinformação conservadora – os eleitores estavam apáticos acerca dos riscos do aquecimento global. Uma sondagem da NBC News/Wall Street Journal de Julho de 1999 revelou que apenas 23% dos americanos acreditavam que as alterações climáticas eram “um problema grave e que era necessária uma ação imediata”. Em contraste, 43% dos inquiridos ou estavam inseguros quanto aos dados ou convencidos de que “a preocupação com as alterações climáticas globais é injustificada”.

Mais do que ninguém na vida pública americana, Al Gore, o nomeado democrata de 2000, estava equipado tanto com paixão como com conhecimentos para levar o caso aos eleitores para uma ação urgente. Mas regressando à campanha de 1992, quando Bush denunciou o candidato Clinton como “Homem do Ozono“, o zelo ambiental de Gore foi considerado por alguns Democratas como um passivo político. No seu discurso de aceitação na Convenção Nacional Democrata de 2000 em Los Angeles, Gore dedicou exatamente uma frase à causa da sua vida: “Temos de inverter a maré crescente silenciosa do aquecimento global, e podemos”. Elaine Kamarck, que trabalhou para Gore nessa campanha, disse numa entrevista: “Culpo os consultores políticos que se opuseram a que ele falasse sobre as alterações climáticas. Disseram que era demasiado complicado e que todos sabiam que Al Gore era contra as alterações climáticas”.

As eleições de 2000 tiveram outras ironias: George W. Bush filho – que em breve seria o arquiteto da invasão cataclísmica do Iraque – argumentou com veemência no seu segundo debate com Gore: “Não creio que as nossas tropas devam ser usadas para aquilo a que se chama construção da nação”. Pat Buchanan, concorrendo como candidato de terceiro partido, pode ter inadvertidamente dado as eleições a Bush. Um “boletim de voto” mal concebida no condado fortemente democrata de Palm Beach, na Florida, levou a que cerca de 2.000 eleitores votassem por engano em Buchanan – o que foi mais do que suficiente para virar a Florida e a eleição a favor de  Bush.

A lição desta década perdida é contraintuitiva. Durante tempos de boom como os anos 90, a nossa cultura política foi demasiado míope e demasiado obcecada com joguinhos táticos menores para enfrentar problemas a longo prazo. Só quando as coisas se tornaram terríveis (durante a Depressão para a construção da rede de segurança social e durante a turbulenta década de 1960 para a legislação dos direitos civis) é que os Estados Unidos agiram  corajosamente. De certa forma, o mantra para aqueles que procuram mudanças sociais nos próximos anos pode muito bem ser: “Que vivam em tempos conturbados”.

Mas a ressaca palpitante dos anos despreocupados do pós Guerra Fria perdura. Num universo alternativo a este, a administração Clinton teria dado um bálsamo duradouro à classe trabalhadora em luta; os Estados Unidos, a partir de 1991, teriam feito da promoção da democracia na Rússia uma prioridade em vez de tratar Moscovo com uma negligência benigna; a campanha presidencial de 2000 teria alertado os americanos para a necessidade de agir corajosamente sobre as alterações climáticas; e as rebeliões de Perot e Buchanan de 1992 teriam recordado à classe política a fragilidade da democracia, mesmo nos melhores momentos. Em vez disso, tivemos um interminável fim-de-semana perdido que se prolongou por 12 anos, desde a queda do Muro de Berlim até aos escombros do World Trade Center. E, olhando para trás com tristeza, os Estados Unidos provavelmente nunca mais terão um período tão dourado como esse para ser desperdiçado com ambições minimalistas e com políticas de baixo nível sem conteúdo.

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Notas

[1] N.T. Referência à comédia estado-unidense criada por Larry David e Jerry Seinfeld para a NBC, frequentemente descrita como um espetáculo sobre nada já que muitos dos seus episódios são sobre as minudências da vida quotidiana (ver Wikipedia aqui).

[2] N.T. A controvérsia Whitewater, o escândalo Whitewater, ou simplesmente Whitewatergate, foi uma controvérsia política americana durante os anos 90, envolvendo os investimentos imobiliários de Bill e Hillary Clinton e dos seus associados, Jim McDougal e Susan McDougal, na Whitewater Development Corporation. Este empreendimento empresarial falhado foi incorporado em 1979 com o objectivo de desenvolver propriedades de férias em terrenos ao longo do Rio Branco, perto de Flippin, Arkansas. (ver wikipedia aqui)

 


O autor: Walter Shapiro, jornalista norte-americano, licenciado em História pela Universidade de Michigan, é professor de ciências políticas na Universidade de Yale. Shapiro começou a sua carreira jornalística como repórter de Washington para o Congress Quarterly (1969 a 1970). Escreveu para várias publicações, incluindo USA Today, servindo como colunista duas vezes por semana “Hype & Glory” a partir de 1995; The Washington Post, Time (escritor sénior de 1987 a 1993, cobrindo a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992), Newsweek (escritor político, 1983 a 1987), Esquire (coluna mensal “Our Man in the White House”, 1993 a 1996), o Washington Monthly (editor, 1972 a 1976), Salon. Com, e Politics Daily. Também escreveu para The American Prospect e foi colunista para Yahoo News e Roll Call. Ganhou o Prémio Sigma Delta Chi 2010 da Society of Professional Journalists na categoria de Escrita de Coluna Online (Independente) pela sua peça “The Societal Costs of Our Shrill, Hyperactive and Partisan Media Culture“, publicada no Politics Daily. Foi secretário de imprensa do Secretário do Trabalho dos EUA, Ray Marshall, de 1977 a 1978, e redactor de discursos do Presidente Jimmy Carter em 1979. Cobriu nove eleições presidenciais nos Estados Unidos. Shapiro é bolseiro do Centro Brennan para a Justiça da Universidade de Nova Iorque. Escreveu a One-Car Caravan: On the Road with the 2004 Democrats Before America Tunes In (PublicAffairs, 2003) e Hustling Hitler: How a Jewish Vaudevillian Fooled the Fuhrer (Blue Rider Press, 2016).

 

 

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