Da histeria na diabolização à necessidade em silenciar as vozes discordantes – Reflexões sobre a atual cacofonia em torno da guerra na Ucrânia — Texto 6. A História julgará os Estados Unidos e os seus aliados.  Por John J. Mearsheimer

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

25 m de leitura

Texto 6. A História julgará os Estados Unidos e os seus aliados

 

 Por John J. Mearsheimer

Publicado por  em 02/07/2022 (aqui)

Este texto foi também publicado The National Interest em 23/06/2022 sob o título de “As Causas e Consequências da Crise na Ucrânia” (aqui) e por Russia Matters em 23/06/2022 sob o título de “As Causas e Consequências da Guerra na Ucrânia” (aqui)

 

Nota da edição: Esta conferência foi proferida no Instituto Universitário Europeu (EUI), em Florença, na quinta-feira, 16 de Junho de 2022

Disponível em You Tube  https://www.youtube.com/watch?v=qciVozNtCDM&t=125s

 

 

John Mearsheimer é Professor Honorário de Ciência Política na Escola Superior de Relações Internacionais. É o R. Wendell Harrison Professor de Serviço Distinto de Ciência Política na Universidade de Chicago. Mearsheimer é mais conhecido por desenvolver a teoria do realismo ofensivo, que descreve a interação entre grandes potências como sendo principalmente impulsionada por um desejo racional de alcançar a hegemonia regional num sistema internacional anárquico.

O discurso seguinte foi proferido por John Mearsheimer na Universidade Europeia (EUI) em Florença, a 16 de Junho. O cientista político americano John Mearsheimer, na sua palestra internacional, afirma que os Estados Unidos e a NATO são os principais responsáveis pelo derramamento de sangue na Ucrânia. Agora estão a tentar derrotar a Rússia e não vão parar antes da escalada do conflito. “A História condenará severamente os Estados Unidos pela sua política marcadamente insana em relação à Ucrânia”, conclui o autor.

 

A guerra na Ucrânia é uma catástrofe multifacetada que provavelmente se agravará num futuro previsível. Quando uma guerra é bem sucedida, pouca atenção é dada às suas causas, mas quando o seu resultado se torna catastrófico, a compreensão de como ela aconteceu torna-se primordial. As pessoas querem saber: como é que nos metemos numa situação tão terrível?

Já testemunhei este fenómeno duas vezes na minha vida – primeiro durante a Guerra do Vietname e depois durante a Guerra do Iraque. Em ambos os casos, os americanos queriam saber como é que o seu país pôde ter feito um tal erro de cálculo. Dado que os Estados Unidos e os seus aliados da NATO desempenharam um papel decisivo nos acontecimentos que conduziram ao conflito militar na Ucrânia, e estão agora a desempenhar um papel central nesta guerra, é apropriado avaliar a responsabilidade do Ocidente por esta catástrofe colossal.

Hoje vou apresentar dois argumentos principais.

Primeiro, os Estados Unidos são os principais culpados pelo surgimento da crise ucraniana. Isto não nega que Putin lançou uma operação militar especial na Ucrânia, e ele é também responsável pelas ações que os militares russos estão a levar a cabo naquele país. Mas isto também não nega que os aliados também têm uma certa quota-parte da culpa pela Ucrânia, embora na sua grande maioria simplesmente sigam cegamente os Estados Unidos neste conflito. O meu principal argumento é que os Estados Unidos têm prosseguido e estão a prosseguir uma política em relação à Ucrânia que Putin e outros líderes russos veem como uma ameaça existencial para a Rússia. E têm-no afirmado repetidamente ao longo dos anos. Refiro-me especialmente à obsessão da América em arrastar a Ucrânia para a NATO e transformá-la num bastião do Ocidente na fronteira com a Rússia. A administração Biden não quis eliminar esta ameaça com a ajuda da diplomacia e, de facto, em 2021 confirmou o compromisso dos Estados Unidos em aceitar a Ucrânia na NATO. Putin respondeu com uma operação militar especial na Ucrânia, que teve início a 24 de Fevereiro deste ano.

Em segundo lugar, a administração Biden reagiu ao início da operação especial duplicando praticamente os seus esforços anti russos. Washington e os seus aliados ocidentais estão determinados a conseguir a derrota da Rússia na Ucrânia e a aplicar todas as sanções possíveis para enfraquecer significativamente o poder russo. Os Estados Unidos não estão seriamente interessados em encontrar uma solução diplomática para o conflito, o que significa que é provável que a guerra se arraste durante meses, se não anos. Ao mesmo tempo, a Ucrânia, que já sofreu terrivelmente, será ainda mais prejudicada. De facto, os Estados Unidos estão a ajudar a Ucrânia a seguir o falso caminho das “vitórias” imaginárias, de facto, levando o país ao colapso total. Além disso, existe também o perigo de uma nova escalada do conflito ucraniano, uma vez que a NATO pode estar envolvida no mesmo, e as armas nucleares podem ser utilizadas durante as hostilidades. Vivemos em tempos cheios de perigos mortais.

Deixem-me agora expor a minha argumentação de forma mais detalhada, começando com uma descrição das ideias geralmente aceites sobre as causas do conflito ucraniano.

 

Ideias confusas do Ocidente

Existe uma forte convicção generalizada no Ocidente de que Putin tem plena responsabilidade pela crise na Ucrânia e, claro, pelas hostilidades em curso no território deste país. Dizem que ele tem ambições imperiais, ou seja, procura conquistar a Ucrânia e outros países – e tudo isto com o objetivo de criar uma grande Rússia que tenha alguma semelhança com a antiga União Soviética. Por outras palavras, a Ucrânia é o primeiro objetivo de Putin, mas não o seu último. Como disse um cientista, ele “persegue um objetivo sinistro e duradouro: apagar a Ucrânia do mapa do mundo”. Dados estes alegados objetivos de Putin, é bastante lógico que a Finlândia e a Suécia adiram à NATO, e que a aliança aumente o número das suas forças na Europa de Leste. A Rússia imperial, afinal de contas, deve ser contida.

No entanto, é de notar que embora esta narrativa seja repetida vezes sem conta nos principais meios de comunicação social ocidentais e por praticamente todos os líderes ocidentais, não existem provas que a apoiem. E quando os apoiantes deste ponto de vista geralmente aceite no Ocidente tentam representá-los, verifica-se que não têm praticamente nada a ver com os motivos de Putin para enviar tropas para a Ucrânia. Por exemplo, alguns enfatizam as palavras repetidas de Putin de que a Ucrânia é um “estado artificial” ou não um “estado real”. No entanto, tais declarações opacas da sua parte nada dizem sobre a razão da sua campanha na Ucrânia. O mesmo se pode dizer da declaração de Putin de que ele vê os russos e os ucranianos como “um só povo” com uma história comum. Outros notam que ele chamou ao colapso da União Soviética “a maior catástrofe geopolítica do século”. E que Putin também afirmou: “Aquele que não se lembra da União Soviética não tem coração. Aqueles que a querem de volta não têm cérebro”. Ainda outros apontam para um discurso em que ele afirmou que “a Ucrânia moderna foi inteiramente criada pela Rússia ou, mais precisamente, pela Rússia bolchevique, comunista”. Mas no mesmo discurso, falando hoje sobre a independência da Ucrânia, Putin disse: “É claro que não podemos mudar acontecimentos passados, mas devemos pelo menos reconhecê-los aberta e honestamente”.

Para provar que Putin procura conquistar toda a Ucrânia e anexá-la à Rússia, é necessário fornecer provas de que, em primeiro lugar, ele o considera um objetivo desejável, em segundo lugar, que o considera um objetivo realizável, e, em terceiro lugar, que pretende perseguir este objetivo. No entanto, não existem provas em fontes públicas de que Putin iria, e mais ainda, de que tencionava acabar com a Ucrânia como Estado independente e torná-la parte de uma Rússia maior quando lançou uma operação especial na Ucrânia, a 24 de Fevereiro.

Na realidade, tudo é exatamente o oposto. Há fortes indícios de que Putin reconhece a Ucrânia como um país independente. No seu artigo sobre as relações russo-ucranianas, datado de 12 de Julho de 2021, ao qual os apoiantes da opinião popular no Ocidente se referem frequentemente como prova das suas ambições imperiais, ele diz ao povo ucraniano: “Quer criar o seu próprio Estado? Só o saudamos”. E quanto à forma como a Rússia deve tratar a Ucrânia, ele escreve: “Só há uma resposta: com respeito”. E Putin termina este longo artigo com as seguintes palavras: “E como será a Ucrânia, é aos seus cidadãos que cabe decidir”. É difícil conciliar estas declarações com declarações no Ocidente de que quer incluir a Ucrânia na “grande Rússia”.

No mesmo artigo datado de 12 de Julho de 2021, e novamente num importante discurso por ele proferido em 21 de Fevereiro deste ano, Putin salientou que a Rússia aceita “a nova realidade geopolítica que se desenvolveu após o colapso da URSS”. Repetiu-o pela terceira vez a 24 de Fevereiro, quando anunciou que a Rússia estava a lançar a sua operação militar especial na Ucrânia. Em particular, declarou que “a ocupação do território ucraniano não faz parte dos nossos planos”, e deixou claro que respeita a soberania da Ucrânia, mas apenas até um certo ponto: “A Rússia não pode sentir-se segura, desenvolver-se e existir, estando sob constante ameaça do território da Ucrânia de hoje”. Na verdade, isto sugere que Putin não está interessado em que a Ucrânia se torne parte da Rússia. Ele está interessado em assegurar que não se torne um “trampolim” para a agressão ocidental contra a Rússia, sobre a qual vos falarei mais tarde.

Poder-se-ia argumentar que Putin, dizem, está a mentir sobre os seus motivos, que está a tentar disfarçar as suas ambições imperiais. Aconteceu que uma vez escrevi um livro sobre mentiras na política internacional – “Why Leaders Lie: the Truth about Lies in International Politics” – e é claro para mim que Putin não está a mentir. Em primeiro lugar, uma das minhas principais conclusões é que os líderes não mentem uns aos outros com frequência, mentem mais vezes ao seu povo. Quanto a Putin, não importa o que as pessoas pensam sobre ele, não há provas na história de que ele alguma vez tenha mentido a outros líderes. Embora alguns afirmem que ele mente frequentemente e não se pode confiar nele, há poucas provas de que tenha mentido a um público estrangeiro. Além disso, ao longo dos últimos dois anos, ele expressou repetidamente publicamente os seus pensamentos sobre a Ucrânia e salientou constantemente que a sua principal preocupação são as relações da Ucrânia com o Ocidente, especialmente com a NATO. Ele nunca insinuou que quer fazer da Ucrânia parte da Rússia. Se tal comportamento faz parte de uma gigantesca campanha enganadora, então não tem precedentes na história.

Talvez o melhor indicador de que Putin não procura conquistar e absorver a Ucrânia seja a estratégia militar que Moscovo tem utilizado desde o início da sua operação especial. O exército russo não tentou conquistar toda a Ucrânia. Isto exigiria uma estratégia clássica de blitzkrieg destinada a capturar rapidamente todo o território do país por forças blindadas com o apoio da aviação tática. Esta estratégia, contudo, não era viável porque o exército russo, que lançou a operação especial, tinha apenas 190.000 soldados, um exército demasiado pequeno para ocupar a Ucrânia, que não só é o maior país entre o Oceano Atlântico e a Rússia, como também tem uma população de mais de 40 milhões de pessoas. Sem surpresas, os russos seguiram uma estratégia de objetivos limitados que se centravam na criação de uma ameaça para capturar Kiev, mas principalmente na conquista de uma parte significativa do território no leste e sul da Ucrânia. Em suma, a Rússia não teve a oportunidade de subjugar toda a Ucrânia, para não falar de outros países da Europa Oriental.

Como foi assinalado por Ramzi Mardini (um conhecido cientista político americano, investigador sénior no influente Instituto Americano da Paz, professor na Universidade de Chicago) outro indicador dos objetivos limitados de Putin é a falta de provas de que a Rússia estava a preparar um governo fantoche para a Ucrânia, tivesse alimentado líderes pró-russos em Kiev, ou tivesse tomado quaisquer medidas políticas que lhe permitissem ocupar todo o país e, eventualmente, integrá-lo na Rússia.

Se desenvolvermos este argumento, é de notar que Putin e outros líderes russos provavelmente compreenderam, a partir da experiência da Guerra Fria, que a ocupação de países na era do nacionalismo é invariavelmente uma receita para problemas intermináveis. A experiência soviética no Afeganistão é um exemplo vivo disto, mas as relações de Moscovo com os seus aliados na Europa Oriental são mais relevantes para esta questão. A União Soviética manteve uma enorme presença militar na região e esteve envolvida na política de quase todos os países ali localizados. No entanto, estes aliados foram frequentemente um espinho para Moscovo. A União Soviética reprimiu uma grande revolta na Alemanha Oriental em 1953, e depois invadiu a Hungria em 1956 e a Checoslováquia em 1968 para os manter na sua órbita. Surgiram graves problemas na URSS e na Polónia: em 1956, 1970 e novamente em 1980-1981. Embora as próprias autoridades polacas tenham resolvido estes problemas, serviram como um lembrete de que a intervenção soviética pode, por vezes, ser necessária. A Albânia, a Roménia e a Jugoslávia causavam geralmente problemas a Moscovo, mas os líderes soviéticos tendiam a suportar o seu “mau” comportamento porque a sua localização geográfica os tornava menos importantes para dissuadir a NATO.

E quanto à Ucrânia moderna? Do artigo de Putin de 12 de Julho de 2021, é claro que ele compreendeu então que o nacionalismo ucraniano é uma força poderosa e que a guerra civil no Donbas, que tem vindo a decorrer desde 2014, envenenou largamente as relações entre a Rússia e a Ucrânia. Ele sabia, evidentemente, que o exército russo não seria acolhido pelos ucranianos de braços abertos e que seria uma tarefa “hercúlea” para a Rússia subjugar a Ucrânia, mesmo que tivesse as forças necessárias para conquistar todo o país, o que Moscovo não tinha.

Finalmente, vale a pena notar que quase ninguém afirmou que Putin tinha ambições imperiais desde o momento em que tomou as rédeas do poder em 2000 até à primeira eclosão da crise ucraniana, a 22 de Fevereiro de 2014. Além disso, vale a pena lembrar que o líder russo foi convidado na cimeira da NATO em Abril de 2008 em Bucareste, onde a aliança anunciou que a Ucrânia e a Geórgia acabariam por se tornar seus membros. As críticas de Putin a esta declaração quase não tiveram efeito em Washington, porque a Rússia era considerada demasiado fraca para impedir uma maior expansão da NATO, tal como era demasiado fraca para impedir as ondas de expansão da aliança em 1999 e 2004.

A este respeito, é importante notar que a expansão da NATO até Fevereiro de 2014 não se destinava a dissuadir a Rússia. Dado o deplorável estado do poder militar russo na altura, Moscovo não estava em condições de prosseguir uma política “imperial” na Europa de Leste. Falando abertamente, mesmo o antigo embaixador dos EUA em Moscovo, Michael McFaul, observa que a tomada da Crimeia por Putin não estava planeada antes da crise “Maidan” eclodir em 2014. Foi a reação impulsiva de Putin ao golpe que derrubou o líder pró-russo da Ucrânia. Em suma, a expansão da NATO ainda não se destinava a conter a ameaça russa, mas fazia parte de uma política mais vasta de extensão da ordem internacional liberal à Europa Oriental e de transformação de todo o continente numa Europa “Ocidental”.

Foi apenas quando a crise da praça Maidan eclodiu em Fevereiro de 2014 que os Estados Unidos e os seus aliados começaram subitamente a chamar a Putin um líder perigoso com ambições imperiais, e a Rússia uma séria ameaça militar que deve ser contida. O que causou esta mudança? Esta nova retórica pretendia servir um propósito importante: permitir ao Ocidente culpar Putin por desencadear a agitação na Ucrânia. E agora que esta crise de longa data se transformou numa guerra em grande escala, o Ocidente precisa de afirmar que Putin é o único culpado por esta viragem catastrófica dos acontecimentos. Este “jogo da culpa” explica porque é que Putin é agora amplamente retratado no Ocidente como um “imperialista”, embora não haja praticamente provas que sustentem este ponto de vista.

Permitam-me agora que me debruce sobre a verdadeira causa da crise ucraniana.

 

A verdadeira causa dos problemas

A raiz principal da atual crise na Ucrânia são os esforços dos Estados Unidos no sentido de transformar este país num bastião do Ocidente nas fronteiras da Rússia. Esta estratégia tem três direções: A integração da Ucrânia na UE, a transformação da Ucrânia numa democracia liberal pró-ocidental e, mais importante ainda, a inclusão da Ucrânia na NATO. A estratégia foi posta em marcha na cimeira anual da NATO em Bucareste, em Abril de 2008, quando a aliança anunciou que a Ucrânia e a Geórgia iriam “tornar-se seus membros”. Os líderes russos reagiram imediatamente com indignação, deixando claro que encaravam esta decisão como uma ameaça existencial e que não tinham a intenção de permitir a adesão de nenhum país à NATO. De acordo com um respeitado jornalista russo, Putin “ficou furioso” e avisou que “se a Ucrânia aderir à NATO, ficará sem a Crimeia e muitas das suas regiões orientais. Vai simplesmente desmoronar-se”.

William Burns, que é agora o chefe da CIA, e durante a cimeira da NATO em Bucareste era o embaixador dos EUA em Moscovo, escreveu um memorando à então Secretária de Estado Condoleezza Rice [administração de George W. Bush], no qual descreve sucintamente os pontos de vista da Rússia sobre esta questão. Segundo Burns: “A adesão da Ucrânia à NATO é a mais contrastante de todas as linhas vermelhas para a elite russa (e não apenas para Putin). Em mais de dois anos e meio de conversas com atores-chave russos, desde patriotas nos cantos escuros do Kremlin até aos mais duros críticos liberais de Putin, não encontrei ninguém que não considerasse a Ucrânia na NATO senão como um desafio direto aos interesses da Rússia”. Segundo ele, a NATO “será considerada… como uma estrutura militar que lança um desafio estratégico a Moscovo. E a Rússia de hoje irá responder. As relações russo-ucranianas irão simplesmente congelar… Isto irá criar um terreno fértil para a interferência russa nos assuntos da Crimeia e da Ucrânia oriental”.

Burns, claro, não foi o único político que compreendeu que a adesão da Ucrânia à NATO estava repleta de perigos. De facto, na cimeira de Bucareste, tanto a chanceler alemã Ângela Merkel como o presidente francês Nicolas Sarkozy opuseram-se à promoção da adesão da Ucrânia à NATO, porque compreenderam que isso iria causar alarme e a cólera da Rússia. Merkel explicou recentemente o seu desacordo na altura da seguinte forma: “Tinha a certeza absoluta de que Putin simplesmente não o permitiria. Do seu ponto de vista, seria uma declaração de guerra”.

A administração Bush, contudo, pouco se importou com as “linhas vermelhas mais contrastantes de Moscovo”, e pressionou os líderes da França e Alemanha a concordarem em fazer uma declaração pública de que a Ucrânia e a Geórgia acabariam por se juntar à aliança.

Sem surpresas, os esforços liderados pelos EUA para integrar a Geórgia na NATO levaram a uma guerra entre a Geórgia e a Rússia em Agosto de 2008 – quatro meses após a cimeira de Bucareste. No entanto, os Estados Unidos e os seus aliados continuaram a avançar com os seus planos de transformar a Ucrânia num bastião do Ocidente nas fronteiras da Rússia. Estes esforços acabaram por desencadear uma grande crise em Fevereiro de 2014, depois de um golpe de Estado norte-americano em Kiev ter forçado o presidente pró-russo da Ucrânia, Viktor Yanukovych, a fugir do país. Foi substituído pelo primeiro-ministro pró-americano Arseniy Yatsenyuk. Em resposta, a Rússia tomou a Crimea da Ucrânia e ajudou a desencadear uma guerra civil entre separatistas pró-russos e o governo ucraniano no Donbas, no leste da Ucrânia.

Ouve-se frequentemente o argumento de que nos oito anos entre o início da crise em Fevereiro de 2014 e o início da guerra em Fevereiro de 2022, os Estados Unidos e os seus aliados prestaram pouca atenção à entrada da Ucrânia na NATO. Dizem que esta questão foi de facto retirada do debate e, portanto, a expansão da NATO não poderia ser uma razão séria para a escalada da crise em 2021 e o subsequente início da operação especial russa no início deste ano. Este argumento é falso. De facto, a reação do Ocidente aos acontecimentos de 2014 foi de redobrar os seus esforços na atual estratégia e de aproximar ainda mais a Ucrânia à NATO. A Aliança começou a treinar os militares ucranianos em 2014, treinando anualmente 10.000 militares das Forças Armadas da Ucrânia ao longo dos oito anos seguintes. Em Dezembro de 2017, a administração Trump decidiu fornecer a Kiev “armas defensivas”. Em breve outros países da NATO juntaram-se aos Estados Unidos na ajuda militar à Ucrânia, fornecendo à Ucrânia ainda mais armas.

Os militares ucranianos começaram a participar em exercícios militares conjuntos com as forças da NATO. Em Julho de 2021, Kiev e Washington conduziram conjuntamente a Operação Sea Breeze, um exercício naval no Mar Negro em que participaram as forças navais de 31 países e que foi diretamente dirigido à Rússia. Dois meses mais tarde, em Setembro de 2021, o exército ucraniano liderou os exercícios Rapid Trident 21, que o exército norte-americano descreveu como “exercícios anuais destinados a melhorar a interoperabilidade entre países aliados e parceiros para demonstrar a prontidão das unidades para responder a qualquer crise”. Os esforços da NATO para armar e treinar as forças armadas ucranianas explicam em grande parte porque é que as Forças Armadas ucranianas colocaram uma resistência tão forte às forças armadas russas nas fases iniciais da operação especial. Como dizia o título do The Wall Street Journal no início da operação especial: “O segredo do sucesso militar da Ucrânia”: Anos de treino na NATO ” (o artigo apareceu no The WSJ a 13 de Abril de 2022, The Wall Street Journal ” The Wall Street Journal “The Secret of Ukraine’s Military Success: Years of NATO Training “, seguido da derrota esmagadora das Forças Armadas Ucranianas em Mariupol, Kherson e Severodonetsk – Aprox. InoSMI).

Para além dos esforços em curso da NATO para transformar as forças armadas ucranianas numa força de combate mais poderosa, a política relacionada com a adesão da Ucrânia à NATO e a sua integração no Ocidente mudou em 2021. Tanto em Kiev como em Washington, o entusiasmo pela concretização destes objetivos foi reavivado. O Presidente Zelensky, que nunca demonstrou muito zelo pela adesão da Ucrânia à NATO e foi eleito em Março de 2019 numa plataforma que apelava à cooperação com a Rússia para resolver a crise em curso, mudou de rumo no início de 2021 e não só decidiu expandir a NATO, como também tomou uma posição dura em relação a Moscovo. Tomou uma série de medidas, incluindo o encerramento de canais de televisão pró-russos e a acusação de traição a um grande amigo de Putin, que deve ter enfurecido Moscovo.

O Presidente Biden, que se mudou para a Casa Branca em Janeiro de 2021, há muito que está empenhado na adesão da Ucrânia à NATO e tem sido também muito agressivo em relação à Rússia. Não é surpreendente que em 14 de Junho de 2021, na sua cimeira anual em Bruxelas, a NATO tenha emitido o seguinte comunicado:

“Confirmamos a decisão tomada na Cimeira de Bucareste em 2008 de que a Ucrânia se tornará membro da Aliança com o Plano de Ação para a Adesão (MAP) como parte integrante do processo. Confirmamos todos os elementos desta decisão, bem como as decisões subsequentes, incluindo que cada parceiro será avaliado com base nos seus próprios méritos. Apoiamos firmemente o direito da Ucrânia a determinar independentemente o seu futuro e o curso da política externa sem interferência externa”.

A 1 de Setembro de 2021, Zelensky visitou a Casa Branca, onde Biden deixou claro que os Estados Unidos estavam “firmemente empenhados” nas “aspirações euro-atlânticas” da Ucrânia. Depois, a 10 de Novembro de 2021, o Secretário de Estado Anthony Blinken e o seu homólogo ucraniano Dmitry Kuleba assinaram um documento importante – a Carta sobre Parceria Estratégica entre os Estados Unidos e a Ucrânia. O objetivo de ambas as partes, diz o documento, é “enfatizar… o empenho da Ucrânia em levar a cabo reformas profundas e abrangentes necessárias à plena integração nas instituições europeias e euro-atlânticas”. Este documento baseia-se claramente não só nos “compromissos para reforçar as relações de parceria estratégica entre a Ucrânia e os Estados Unidos, proclamados pelos presidentes Zelensky e Biden”, mas também confirma o compromisso dos Estados Unidos com a “Declaração da Cimeira de Bucareste de 2008”.

Em suma, poucos duvidam que, desde o início de 2021, a Ucrânia tenha começado a avançar rapidamente para a adesão à NATO. No entanto, alguns defensores desta política argumentam que Moscovo não se deveria ter preocupado, uma vez que “a NATO é uma aliança defensiva e não representa uma ameaça para a Rússia”. Mas não é assim que Putin e outros líderes russos pensam sobre a NATO e, aqui, o que importa é exatamente o que eles pensam. Não há dúvida que a adesão da Ucrânia à NATO permaneceu para Moscovo “a linha vermelha mais contrastante e perigosa”.

Para contrariar esta ameaça crescente, Putin destacou um número crescente de tropas russas para a fronteira com a Ucrânia entre Fevereiro de 2021 e Fevereiro de 2022. O seu objetivo era forçar Biden e Zelensky a mudar de rumo e parar os seus esforços para integrar a Ucrânia no Ocidente. A 17 de Dezembro de 2021, Moscovo enviou cartas separadas à administração Biden e à NATO exigindo garantias escritas: 1) a Ucrânia não aderirá à NATO, 2) as armas ofensivas não serão utilizadas perto das fronteiras da Rússia, 3) as tropas e o equipamento militar da NATO deslocados para a Europa de Leste desde 1997 serão devolvidos à Europa Ocidental.

Durante este período, Putin fez inúmeras declarações públicas que não deixaram dúvidas de que via a expansão da NATO para a Ucrânia como uma ameaça existencial. Falando na direção do Ministério da Defesa, a 21 de Dezembro de 2021, disse ele: “O que eles estão a fazer, a tentar ou a planear fazer na Ucrânia, não acontece a milhares de quilómetros da nossa fronteira nacional. Isto está a acontecer à nossa porta. Eles precisam de compreender que simplesmente não temos para onde recuar mais. Será que eles pensam realmente que não vemos estas ameaças? Ou será que pensam que ficaremos de braços cruzados, assistindo às crescentes ameaças à Rússia?” Dois meses mais tarde, numa conferência de imprensa a 22 de Fevereiro de 2022, apenas alguns dias antes do início da operação especial, disse Putin: “Somos categoricamente contra a adesão da Ucrânia à NATO, porque ela constitui uma ameaça para nós, e temos argumentos onde apoiamos esta posição. Tenho dito isto repetidamente nesta Sala”. Depois deixou claro que acredita que a Ucrânia já está a tornar-se um membro de facto da NATO. De acordo com Putin, os Estados Unidos e os seus aliados “continuam a bombear as atuais autoridades de Kiev com tipos modernos de armas”. Disse ainda que se isto não for impedido, Moscovo “será deixada sozinha com um país Anti Rússia armado até aos dentes. Isto é completamente inaceitável”.

A lógica de Putin devia ser perfeitamente clara para os americanos, que desde há muito tempo se empenham em aplicar a doutrina Monroe, segundo a qual não é permitido a nenhuma grande potência, mesmo que longínqua, implantar no Hemisfério Ocidental as suas tropas.

Poderia salientar que em todas as declarações públicas de Putin durante os meses que precederam a operação especial, não há a mínima evidência de que ele iria tomar a Ucrânia e torná-la parte da Rússia, para não mencionar o ataque a outros países da Europa Oriental. Outros líderes russos, incluindo o Ministro da Defesa, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros e o Embaixador russo em Washington, também sublinharam o papel fundamental da expansão da NATO na emergência da crise ucraniana. O Ministro dos Negócios Estrangeiros Sergey Lavrov expressou-o sucintamente numa conferência de imprensa a 14 de Janeiro de 2022, quando afirmou: “A chave para tudo é garantir que a NATO não se expandirá para Leste”.

No entanto, as tentativas de Lavrov e Putin de forçar os Estados Unidos e os seus aliados a abandonarem as tentativas de transformar a Ucrânia num bastião do Ocidente na fronteira com a Rússia fracassaram completamente. O Secretário de Estado Anthony Blinken respondeu às exigências da Rússia em meados de Dezembro dizendo simplesmente: “Nenhuma mudança. Não haverá mudanças”. Depois Putin lançou uma operação especial na Ucrânia para eliminar a ameaça que viu da NATO na Ucrânia.

 

Onde estamos agora e para onde vamos?

As operações militares na Ucrânia têm sido violentas desde há quase quatro meses. Agora gostaria de apresentar algumas observações sobre o que aconteceu até agora e para onde a guerra pode ir. Irei concentrar-me em três questões específicas: 1) as consequências da guerra para a Ucrânia, 2) as perspetivas de escalada – incluindo a escalada nuclear, 3) as perspetivas do fim da guerra num futuro previsível.

Esta guerra é uma verdadeira catástrofe para a Ucrânia. Como já referi anteriormente, Putin deixou claro em 2008 que a Rússia destruiria a Ucrânia para a impedir de aderir à NATO. Ele cumpre essa promessa. As tropas russas capturaram 20% do território ucraniano e destruíram ou danificaram gravemente muitas cidades e vilas ucranianas. Mais de 6,5 milhões de ucranianos deixaram o país, e mais de 8 milhões tornaram-se pessoas deslocadas internamente. Muitos milhares de ucranianos, incluindo civis inocentes, foram mortos ou gravemente feridos, e a economia ucraniana está em profunda crise. De acordo com estimativas do Banco Mundial, a economia da Ucrânia irá diminuir quase 50% durante 2022. Segundo os especialistas, a Ucrânia foi danificada em cerca de 100 mil milhões de dólares, e será necessário cerca de um milhão de milhões de dólares para restaurar a economia do país. Agora Kiev precisa de cerca de 5 mil milhões de dólares em ajuda todos os meses apenas para manter o governo em funcionamento.

Parece haver pouca esperança agora de que a Ucrânia seja capaz de restaurar a utilização dos portos nos mares Azov e Negro num futuro próximo. Antes da guerra, cerca de 70% de todas as exportações e importações ucranianas e 98% das exportações de cereais passavam por estes portos. Esta é a situação atual, após menos de 4 meses de combates. É até assustador imaginar como será a Ucrânia se esta guerra se arrastar por mais alguns anos.

Então, quais são as perspetivas para a conclusão de um acordo de paz e o fim da guerra nos próximos meses? Infelizmente, pessoalmente não vejo a possibilidade de que esta guerra termine num futuro próximo. E esta opinião é partilhada por políticos proeminentes como o General Mark Milley, Presidente do Estado-Maior Conjunto dos EUA, e o Secretário-Geral da NATO Jens Stoltenberg. A principal razão do meu pessimismo é que tanto a Rússia como os Estados Unidos estão profundamente empenhados no objetivo de ganhar a guerra, e é impossível alcançar um acordo em que ambos os lados ganhassem agora. Mais especificamente, a chave do acordo do ponto de vista da Rússia é a transformação da Ucrânia num estado neutro, o que porá fim à perspetiva da integração de Kiev com o Ocidente. Mas um tal resultado é inaceitável para a administração Biden e uma parte significativa do poder estabelecido da política externa americana, porque significaria uma vitória para a Rússia.

Os líderes ucranianos, evidentemente, têm uma certa liberdade de ação, e pode-se esperar que possam adotar a neutralidade para salvar o seu país de mais destruição. De facto, Zelensky mencionou brevemente esta possibilidade nos primeiros dias da operação especial, mas nunca desenvolveu seriamente esta ideia. Contudo, é improvável que Kiev possa aceitar a neutralidade, porque os ultranacionalistas na Ucrânia, que têm um poder político significativo, não estão interessados em ceder pelo menos a qualquer exigência russa, especialmente uma que dite a orientação política da Ucrânia nas relações com o mundo exterior. É muito provável que a administração Biden e os países do flanco oriental da NATO, como a Polónia e os Estados Bálticos, apoiem os ultranacionalistas ucranianos nesta questão.

Complicar significativamente a situação é a questão de saber o que fazer com grandes áreas do território ucraniano que a Rússia conquistou desde o início da guerra, bem como o que fazer com a Crimeia? É difícil imaginar que Moscovo abdicaria voluntariamente de qualquer dos territórios ucranianos que agora ocupa, e ainda mais de toda a parte conquistada da Ucrânia, uma vez que os atuais objetivos territoriais de Putin são provavelmente diferentes dos que ele perseguia antes do início da operação especial. Ao mesmo tempo, é igualmente difícil imaginar que qualquer líder ucraniano concordaria com um acordo que permitisse à Rússia manter qualquer território ucraniano, com a possível exceção da Crimeia. Espero estar enganado, mas é precisamente por estas razões que não vejo o fim deste destrutivo conflito militar.

Permitam-me agora que me debruce sobre a questão da sua possível escalada. É amplamente reconhecido entre os estudiosos internacionais que existe uma forte tendência para a escalada de guerras prolongadas. Com o tempo, outros países estão normalmente envolvidos na luta, e o nível de violência aumenta. A probabilidade de isto acontecer na guerra na Ucrânia é real. Existe o perigo de os Estados Unidos e os seus aliados da NATO serem arrastados para hostilidades, que até agora conseguiram evitar, embora na realidade já estejam a travar uma guerra indireta por procuração contra a Rússia. Existe também a possibilidade de armas nucleares poderem ser utilizadas na Ucrânia, o que poderia mesmo levar a uma troca de ataques nucleares entre a Rússia e os Estados Unidos. A principal razão pela qual isto pode acontecer é que as apostas no conflito ucraniano na sua refração global revelaram-se tão elevadas para ambos os lados que nenhum deles se pode dar ao luxo de perder.

Como já sublinhei, Putin e os seus colaboradores pensam que a adesão da Ucrânia ao Ocidente representa uma ameaça existencial para a Rússia que precisa de ser eliminada. Na prática, isto significa que a Rússia tem de ganhar a guerra na Ucrânia. A derrota é inaceitável para Moscovo. A administração Biden, por outro lado, salientou que o seu objetivo não é apenas infligir uma derrota decisiva à Rússia na Ucrânia, mas também infligir enormes danos à economia russa com a ajuda de sanções. O Secretário da Defesa Lloyd Austin salientou que o objetivo do Ocidente é o de enfraquecer a Rússia a tal ponto que esta não possa voltar a entrar na Ucrânia. De facto, a administração Biden está a tentar fazer com que a Rússia saia das grandes potências. O próprio Presidente Biden chamou à guerra da Rússia na Ucrânia “genocídio” e acusou Putin de ser um “criminoso de guerra” que, após a guerra, deveria ser julgado por “crimes de guerra”. Tal retórica dificilmente é adequada para negociações sobre o fim da guerra. Afinal de contas, como negociar com um Estado que está a levar a cabo um genocídio?

A política americana tem duas consequências importantes. Primeiro, aumenta significativamente a ameaça existencial que Moscovo enfrenta nesta guerra, e torna a sua vitória na Ucrânia mais importante do que nunca. Ao mesmo tempo, esta política dos EUA significa que os Estados Unidos estão profundamente empenhados em que a Rússia perca. A administração Biden investiu agora tanto na sua guerra por procuração na Ucrânia – tanto material como retórica – que uma vitória russa significaria uma derrota esmagadora para Washington.

Obviamente, ambos os lados não podem ganhar ao mesmo tempo. Além disso, existe uma séria possibilidade de uma das partes começar em breve a perder fortemente. Se a política americana for bem sucedida e os russos perderem para os ucranianos no campo de batalha, Putin poderá recorrer a armas nucleares para salvar a situação. Em Maio, Evril Haines, Director dos Serviços Secretos Nacionais dos EUA, disse ao Comité dos Serviços Armados do Senado que esta é uma das duas situações que podem levar Putin a utilizar armas nucleares na Ucrânia. Para aqueles que pensam que isto é improvável, lembrem-se que a NATO planeou utilizar armas nucleares em circunstâncias semelhantes durante a Guerra Fria. É impossível prever agora como reagiria a administração Biden se a Rússia utilizasse armas nucleares na Ucrânia. Mas uma coisa é certa: Washington estará sob grande pressão e tentada a retribuir com a Rússia, o que aumentará a probabilidade de uma guerra nuclear entre as duas grandes potências. Há aqui um paradoxo perverso: quanto mais bem sucedidos forem os Estados Unidos e os seus aliados na realização dos seus objetivos, maior será a probabilidade de a guerra se tornar nuclear.

Vamos virar a mesa de jogo e perguntar o que acontece se se verificar que os Estados Unidos e os seus aliados da NATO estão a caminho da derrota, o que acontece se os russos derrotarem o exército ucraniano, e o governo em Kiev negociar um acordo de paz destinado a salvar o máximo possível da parte restante da Ucrânia. Neste caso, os Estados Unidos e os seus aliados serão tentados a tomar uma parte ainda mais ativa nos combates. É improvável, mas é bem possível que as tropas americanas ou talvez polacas estejam envolvidas em hostilidades, o que significa que a NATO estará em guerra com a Rússia no sentido literal da palavra. Segundo Evril Haines, este é outro cenário em que os russos podem recorrer a armas nucleares. É difícil dizer exatamente como irão evoluir os acontecimentos se este cenário for implementado, mas não há dúvida de que existe um sério potencial de escalada, incluindo a escalada nuclear. A própria possibilidade de um tal resultado deveria dar-nos a todos arrepios.

Esta guerra poderá provavelmente ter outras consequências desastrosas, que não posso discutir em pormenor por falta de tempo. Por exemplo, há razões para acreditar que a guerra conduzirá a uma crise alimentar global, na qual muitos milhões de pessoas morrerão. O Presidente do Banco Mundial David Malpass afirma que se a guerra na Ucrânia continuar, iremos enfrentar uma crise alimentar global que se tornará uma “catástrofe humanitária”.

Além disso, as relações entre a Rússia e o Ocidente estão tão gravemente envenenadas que serão necessários anos para as restabelecer. E esta profunda hostilidade irá alimentar a instabilidade em todo o mundo, mas especialmente na Europa. Alguém dirá que há um lado bom: as relações entre países do Ocidente melhoraram acentuadamente devido ao conflito na Ucrânia. Mas isto só é verdade de momento. Mesmo agora, existem fissuras profundas sob a superfície da unidade externa ocidental, e com o passar do tempo irão declarar-se de forma muito urgente e dolorosa. Por exemplo, é provável que as relações entre os países da Europa Oriental e Ocidental se deteriorem à medida que a guerra se arrasta, uma vez que os seus interesses e opiniões sobre o conflito não coincidem.

Finalmente, o conflito já está a causar sérios danos à economia global e, com o tempo, esta situação é suscetível de piorar seriamente. Jamie Diamond, CEO da JPMorgan Chase, diz que nos devemos preparar para um “furacão” económico. Se ele estiver certo, então a atual turbulência económica irá afetar a política de cada país ocidental, minar a democracia liberal e fortalecer os seus opositores, tanto à esquerda como à direita. As consequências económicas do conflito ucraniano irão afetar os países de todo o planeta, e não apenas o Ocidente. De acordo com um relatório da ONU publicado na semana passada, “as consequências do conflito irão espalhar o sofrimento humano muito para além das suas fronteiras”. A guerra em todos os seus aspetos exacerbou uma crise global sem precedentes, pelo menos para a geração atual, pondo em perigo vidas, meios de subsistência e as nossas aspirações a um mundo melhor na década de 2030“.

 

Conclusão

Em termos simples, o conflito em curso na Ucrânia é uma catástrofe colossal, o que, como observei no início desta minha intervenção, obrigará pessoas de todo o mundo a procurar as suas causas. Aqueles que acreditam em factos e lógica descobrirão rapidamente que os Estados Unidos e os seus aliados são os principais responsáveis por este descarrilamento do nosso comboio comum. A decisão tomada em Abril de 2008 sobre a adesão da Ucrânia e da Geórgia à NATO estava destinada a conduzir a um conflito com a Rússia. A administração Bush foi o principal arquiteto desta escolha fatídica, mas as administrações Obama, Trump e Biden intensificaram e agravaram esta política em cada curva, e os aliados da América seguiram obedientemente Washington. Apesar do facto de os líderes russos terem deixado bem claro que a adesão da Ucrânia à NATO significaria cruzar as “linhas vermelhas mais contrastantes” da Rússia, os Estados Unidos recusaram-se a aceitar as profundas preocupações da Rússia em matéria de segurança e, em vez disso, moveram-se incansavelmente para transformar a Ucrânia num bastião ocidental na fronteira com a Rússia.

A trágica verdade é que se o Ocidente não tivesse procurado expandir a NATO para a Ucrânia, é improvável que hoje em dia tivesse havido uma guerra na Ucrânia, e a Crimeia ainda faria muito provavelmente parte da Ucrânia. De facto, Washington desempenhou um papel central na condução da Ucrânia para o caminho da destruição. A história condenará severamente os Estados Unidos e os seus aliados pela sua política estúpida em relação à Ucrânia.

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O autor: John J. Mearsheimer [1947-], é Professor de Ciência Política na Universidade de Chicago e um conhecido teórico das relações internacionais. Em certo sentido, é considerado como membro da escola neorealista em relações internacionais. Principalmente é conhecido o seu livro, pioneiro sobre o “realismo ofensivo”, The Tragedy of Great Power Politics, assim como o livro escrito em co-autoria The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy. (ver wikipedia aqui).

 

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