A Guerra na Ucrânia – para lá dela — “Da Economia de Pacotilha a Uma Falsa Visão da História – Onde a Civilização Ocidental Tomou o Caminho Errado”.  Por Michael Hudson

Seleção e tradução de Francisco Tavares

18 m de leitura

Da Economia de Pacotilha a Uma Falsa Visão da História – Onde a Civilização Ocidental Tomou o Caminho Errado

 Por Michael Hudson

Publicado por     em  8 de Julho de 2022 (original aqui)

 

Abaixo está o texto de um artigo que Michael Hudson apresentou no encontro em França para antropólogos e outros sobre David Graeber. Construire des passerelles: Autour de l’oeuvre de David Graeber foi organizado pela esposa de Graeber, Nika, e destina-se a tornar-se um evento anual. A palestra de Hudson sobre como as fantasias destrutivas da economia moderna não só deturpam a história do desenvolvimento da fiscalidade, do dinheiro e da propriedade da terra, como também produzem desigualdade e servidão da dívida, liderou a conferência de 3 dias.

 

Yves Smith

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Pode parecer estranho convidar um economista para dar um discurso de abertura a uma conferência das ciências sociais. Os economistas têm sido caracterizados como autistas e anti-sociais na imprensa popular por uma boa razão. Eles são treinados para pensar de forma abstracta e usar uma dedução a priori – com base na forma como pensam que as sociedades devem desenvolver-se. Os economistas da corrente dominante de hoje consideram que a privatização neoliberal e os ideais do mercado livre conduzem a que o rendimento e a riqueza da sociedade se estabelecem num equilíbrio óptimo sem qualquer necessidade de regulamentação governamental – especialmente de crédito e dívida.

O único papel reconhecido ao governo é o de fazer respeitar a “santidade dos contratos” e a “segurança da propriedade”. Com isto significam a execução de contratos de dívida, mesmo quando a sua execução expropria um grande número de proprietários de casas endividados e outros proprietários. Esta é a história de Roma. Assistimos hoje à mesma dinâmica da dívida. No entanto, esta abordagem básica levou os economistas da corrente dominante a insistirem que a civilização poderia e deveria ter seguido esta política pró-credores desde o início.

A realidade é que a civilização nunca poderia ter descolado se algum economista do mercado livre tivesse entrado numa máquina do tempo e viajado no tempo cinco mil anos para a Idade Neolítica e de Bronze. Suponhamos que ele teria convencido os antigos chefes ou governantes a organizar o seu comércio, dinheiro e posse de terras com base no “a ganância é boa” e qualquer regulamentação pública é má.

Se algum Milton Friedman ou Margaret Thatcher tivesse persuadido os governantes da Suméria, Babilónia ou outros governantes antigos a seguir a filosofia neoliberal actual, a civilização não poderia ter-se desenvolvido. As economias teriam-se-iam polarizado – como Roma fez, e como as economias ocidentais de hoje estão a fazer. Os cidadãos teriam fugido, ou então apoiado um reformador ou revolucionário local para derrubar o governante que ouvisse tais conselhos económicos. Ou teriam desertado para atacantes rivais que prometessem cancelar as suas dívidas, libertar os escravos e redistribuir a terra.

No entanto, muitas gerações de linguistas, historiadores e até antropólogos absorveram a visão de mundo individualista e anti-social da disciplina económica e imaginam que o mundo deve ter sido sempre assim. Muitos destes não-economistas adoptaram inconscientemente os seus preconceitos e abordaram a história antiga e moderna com preconceito. O nosso discurso diário é tão bombardeado com a insistência de políticos americanos recentes que o mundo está a dividir-se entre “democracia” com “mercados livres” e “autocracia” com regulamentação pública, que há muita fantasia em acção no que diz respeito à civilização primitiva.

David Graeber e eu procurámos expandir a consciência de como o mundo era diferente antes de a civilização ocidental ter tomado o caminho romano das oligarquias pró-credoras em vez de economias palacianas protegendo os interesses da população endividada em geral. Na altura em que publicou o seu Debt: The First Five Thousand Years em 2011, o meu grupo de Harvard de assiriologistas, egiptólogos e arqueólogos ainda estava no processo de escrever a história económica do antigo Próximo Oriente de uma forma radicalmente diferente da forma como a maioria do público imaginava que tivesse ocorrido. A ênfase que David e eu dávamos à forma como as proclamações reais de Lousa Limpa cancelavam as dívidas, libertavam os escravos e redistribuíam a terra, era um papel normal e esperado dos governantes mesopotâmicos e faraós egípcios ainda não era acreditado nessa altura. Parecia impossível que tais Lousas Limpas fossem o que preservava a liberdade dos cidadãos.

O livro de David Graeber resumiu o meu inquérito sobre o cancelamento da dívida real no antigo Próximo Oriente para mostrar que a dívida remunerada originalmente era adoptada com controlos e equilíbrios para evitar que polarizasse a sociedade entre credores e devedores. De facto, ele salientou que as tensões criadas pela emergência da riqueza monetária em mãos pessoais levaram a uma crise económica e social que moldou a emergência dos grandes reformadores religiosos e sociais. Como ele resumiu “o período central da era axial de Jasper … corresponde quase exactamente ao período em que a cunhagem foi inventada. Além disso, as três partes do mundo onde as moedas foram inventadas pela primeira vez foram também as próprias partes do mundo onde esses sábios viveram; de facto, tornaram-se os epicentros da criatividade religiosa e filosófica da Era Axial”[1]. Buda, Lao-Tzu e Confúcio, todos eles procuraram criar um contexto social no qual se inserisse a economia. Não existia o conceito de deixar “os mercados trabalharem” para atribuir riqueza e rendimento sem qualquer ideia de como a riqueza e o rendimento seriam gastos.

Todas as sociedades antigas tinham uma desconfiança da riqueza, sobretudo da riqueza monetária e financeira nas mãos dos credores, porque geralmente tendia a ser acumulada à custa da sociedade em geral. Os antropólogos descobriram que esta era uma característica das sociedades de baixos rendimentos em geral.

Toynbee caracterizou a história como uma longa dinâmica de desenvolvimento de desafios e respostas às preocupações centrais que moldam as civilizações. O maior desafio tem sido de carácter económico: quem beneficiaria dos excedentes obtidos à medida que o comércio e a produção aumentam em escala e se tornam cada vez mais especializados e monetizados. Acima de tudo, como organizaria a sociedade o crédito e a dívida necessários para a especialização das actividades económicas – e entre funções “públicas” e “privadas”?

Quase todas as primeiras sociedades tinham uma autoridade central encarregada de distribuir a forma como o excedente era investido, de modo a promover o bem-estar económico global. O grande desafio era evitar que o crédito conduzisse ao pagamento de dívidas de uma forma que empobrecesse os cidadãos, por exemplo, através de dívidas pessoais e usura – e mais do que a perda temporária de liberdade (de servidão ou exílio) ou direitos de posse de terra.

O grande problema que a Idade do Bronze no Próximo Oriente resolveu – mas a antiguidade clássica e a civilização ocidental não resolveram – foi como lidar com as dívidas a serem pagas, especialmente juros, sem polarizar as economias entre credores e devedores, e finalmente empobrecendo a economia, reduzindo a maior parte da população à dependência da dívida. Comerciantes empenhados no comércio, tanto para si próprios como como agentes dos governantes dos palácios. Quem obteria os lucros? E como é que o crédito seria concedido mas mantido em linha com a capacidade de ser pago?

 

Teorias Públicas vs. Teorias Privadas sobre a Origem da Propriedade da Terra

As sociedades antigas repousavam sobre uma base agrícola. O primeiro e mais básico problema para a sociedade resolver era como atribuir a posse da terra. Mesmo às famílias que viviam em cidades que estavam a ser construídas em torno de templos e centros cívicos e administrativos eram atribuídas terras auto-sustentadas – tal como os russos têm dachas, onde a maior parte da sua alimentação era cultivada na era soviética.

Ao analisarmos as origens da posse da terra, como qualquer fenómeno económico, encontramos duas abordagens. Por um lado, temos um cenário em que a terra é atribuída pela comunidade em troca de obrigações laborais de corveia e serviço militar. Por outro lado, temos um cenário individualista em que a posse da terra é originada por indivíduos que agem espontaneamente por si próprios limpando terras, tornando-as suas próprias propriedades e produzindo artesanato ou outros produtos (mesmo metal para usar como dinheiro!) para trocar entre si.

Esta última visão individualista da posse da terra foi popularizada desde que John Locke [n.t. 1632-1704] imaginou indivíduos que se propunham limpar a terra – terra aparentemente desocupada – com o seu próprio trabalho (e presumivelmente o das suas esposas). Esse esforço estabelecia o seu direito de propriedade sobre a terra e o rendimento das suas colheitas. Algumas famílias teriam mais terra do que outras, ou porque eram mais fortes a desbravá-la ou porque tinham uma família mais numerosa para as ajudar. E havia terra suficiente para todos limparem terreno para a plantação de culturas.

Nesta perspectiva, não há necessidade de nenhuma comunidade estar envolvida, nem mesmo de se protegerem de ataques militares – ou de ajuda mútua em tempos de cheias ou outros problemas. E não há necessidade de envolvimento do crédito – embora na antiguidade essa fosse a principal alavanca que distorcia a distribuição da terra ao transferir a sua propriedade para credores ricos.

Em algum momento da história, é certo, esta teoria vê os governos a entrar em cena. Talvez tenham tomado a forma de exércitos invasores, que é como os antepassados normandos dos proprietários de terras nos tempos de John Locke adquiriram terras inglesas. E como em Inglaterra, os governantes teriam forçado os proprietários de terras a pagar parte das suas colheitas em impostos e a prestar serviço militar. Em qualquer caso, o papel do governo foi reconhecido apenas como “interferindo” com o direito do cultivador a utilizar a cultura como achasse melhor – presumivelmente para trocar por coisas de que precisava, feitas pelas famílias nas suas próprias oficinas.

O meu grupo de assiriologistas, egiptólogos e arqueólogos patrocinado por Harvard encontrou uma génese completamente diferente da posse da terra [2]. Os direitos de terra parecem ter sido atribuídos em parcelas padronizadas em termos de rendimento da sua cultura. Para fornecer alimentos a estes membros da comunidade, as comunidades do Neolítico tardio e do início da Idade do Bronze desde a Mesopotâmia ao Egipto atribuíram terras às famílias em proporção com o que necessitavam para viver e ao quanto poderiam entregar às autoridades palacianas.

Este rendimento fiscal entregue aos colectores do palácio foi a renda económica original. A posse da terra veio como parte de um quid pro quo [n.t. uma coisa em troca de outra] – com uma obrigação fiscal de prestar serviços laborais em determinados períodos do ano, e de servir no exército. Foi assim a tributação que criou os direitos de posse de terra, e não o contrário. A terra era de carácter social, não individualista. E o papel do governo era o de coordenador, organizador e planificador, e não meramente predatório e extractivo.

 

Origens públicas e privadas do dinheiro

Como é que as primeiras sociedades organizaram a troca das suas colheitas por produtos – e o mais importante, para pagar impostos e dívidas? Era simplesmente um mundo espontâneo de indivíduos “transportando e permutando”, como Adam Smith o disse? Os preços teriam sem dúvida variado radicalmente, já que os indivíduos não tinham qualquer referência básica quanto ao custo de produção ou aos graus de necessidade. O que aconteceu quando alguns indivíduos se tornaram comerciantes, levando o que produziam (ou os produtos de outros povos em consignação) para obterem lucro? Se viajavam grandes distâncias, eram necessárias caravanas ou navios – e a protecção de grandes grupos? Teriam esses grupos sido protegidos pelas suas comunidades? Teriam a oferta e a procura desempenhado algum papel? E mais importante, como surgiu o dinheiro como denominador comum para estabelecer preços para o que era negociado – ou pago em impostos e para liquidar dívidas?

Um século depois de Adam Smith, o economista austríaco Anton Menger desenvolveu uma fantasia sobre como e porquê os indivíduos antigos podem ter preferido manter as suas poupanças sob a forma de metais – principalmente prata, mas também cobre, bronze ou ouro. Dizia-se que o metal tinha a vantagem de não se estragar (ao contrário dos grãos transportados no bolso, por exemplo). Assumiu-se também que era de qualidade uniforme. Assim, as peças de metal tornaram-se gradualmente no meio pelo qual outros produtos passaram a ser medidos à medida que eram permutados em troca – em mercados em que os governos não desempenhavam qualquer papel!

O facto de esta teoria austríaca ter sido ensinada há quase um século e meio é uma indicação de como os economistas ingénuos estão dispostos a aceitar uma fantasia em desacordo com todos os registos históricos de toda a história mundial registada. Para começar, a prata e outros metais não são de forma alguma de qualidade uniforme. A contrafacção é antiga, mas as teorias individualistas ignoram o papel da fraude – e, por conseguinte, a necessidade da autoridade pública para a evitar. Esse ponto cego é a razão pela qual o Presidente da Reserva Federal dos EUA, Alan Greenspan, estava tão despreparado para enfrentar a enorme crise dos bancos de lixo hipotecário que atingiu o seu pico em 2008. Onde quer que o dinheiro esteja envolvido, a fraude é omnipresente.

É o que acontece em mercados não regulamentados – como podemos ver a partir das actuais fraudes bancárias, evasão fiscal e crime que paga muito, muito bem. Sem um governo forte para proteger a sociedade contra a fraude, a violação da lei, o uso da força e a exploração, as sociedades polarizar-se-ão e tornar-se-ão mais pobres. Por razões óbvias, os beneficiários destas garras procuram enfraquecer o poder regulador e a capacidade de impedir tal apropriação.

Para evitar a fraude monetária, a prata e subsequentemente a cunhagem de ouro desde a Mesopotâmia da Idade do Bronze até à Grécia clássica e Roma, a cunhagem era feita em templos para santificar a sua qualidade estandardizada. É por isso que a nossa palavra para dinheiro vem do templo de Juno Moneta em Roma, onde a cunhagem era feita. Milhares de anos antes da cunhagem do lingote, este era fornecido em tiras metálicas, pulseiras e outras formas cunhadas em templos, em proporções de liga estandardizadas.

A pureza dos metais não é o único problema com a utilização de dinheiro de lingote. O problema imediato que teria enfrentado qualquer pessoa que trocasse produtos por prata é como pesar e medir o que estava a ser comprado e vendido – e também como pagar impostos e dívidas. Desde a Babilónia até à Bíblia encontramos denúncias contra comerciantes que utilizam pesos e medidas falsos. Os impostos envolvem um papel de governo, e em todas as sociedades arcaicas foram os templos que supervisionaram pesos e medidas, bem como a pureza dos metais. E a denominação de pesos e medidas indica a sua origem no sector público: fracções divididas em 60 décimos na Mesopotâmia, e 12 décimos em Roma.

O comércio de bens de primeira necessidade tinha preços ou pagamentos habituais normalizados para os palácios ou templos. Os impostos e as dívidas eram os mais importantes utilizados para o dinheiro. Isto reflecte o facto de que “dinheiro” sob a forma de mercadorias designadas era necessário principalmente para pagar impostos ou comprar produtos dos palácios ou templos e, no final da época da colheita, para pagar dívidas para liquidar tais compras.

A actual corrente económica neoliberal dominante criou um conto de fadas sobre a civilização existente sem qualquer supervisão regulamentar ou papel produtivo para o governo, e sem qualquer necessidade de cobrar impostos para fornecer serviços sociais básicos, tais como a construção pública ou mesmo o serviço militar. Não há necessidade de impedir a fraude, ou o confisco violento de propriedade – ou a confiscação de direitos de posse de terra a credores em resultado de dívidas. Mas como Balzac observou, a maioria das grandes fortunas familiares têm sido o resultado de alguns grandes roubos, perdidos na bruma do tempo e legitimados ao longo dos séculos, como se tudo isto fosse natural.

Estes ângulos mortos são necessários para defender a ideia de “mercados livres” controlados pelos ricos, sobretudo pelos credores. Afirma-se que isto é o melhor, e que é a forma como a sociedade deve ser gerida. É por isso que a Nova Guerra Fria de hoje está a ser combatida pelos neoliberais contra o socialismo – combatendo com violência, e excluindo o estudo da história do currículo dos programas universitários de economia, consequentemente, da consciência do público em geral. Como disse Rosa Luxemburgo, a luta é entre o socialismo e a barbárie.

 

Origens Públicas vs. Privadas da Dívida Remunerada

As taxas de juro foram reguladas e estáveis durante muitos séculos a fio. A chave era a facilidade de cálculo: 10º, 12º ou 60º.

Os escribas babilónicos foram treinados para calcular qualquer taxa de juros como um tempo de duplicação. As dívidas cresceram exponencialmente; mas os estudantes de escribas também foram ensinados que os rebanhos de gado e outras produções económicas materiais se afunilavam numa curva em S. É por isso que os juros compostos eram proibidos. Era também por isso que era necessário cancelar as dívidas periodicamente.

Se os governantes não tivessem cancelado dívidas, a descolagem do mundo antigo teria sofrido prematuramente o tipo de declínio e queda que empobreceu a cidadania de Roma e levou ao declínio e queda da sua República – deixando um sistema legal de leis pró-credores para moldar a subsequente civilização ocidental.

 

O que torna a civilização ocidental distintamente ocidental? Tem sido tudo um desvio?

A civilização não poderia ter-se desenvolvido se um Milton Friedman moderno ou um Prémio Nobel da Economia afim tivesse recuado no tempo e convencido Hammurabi ou o faraó egípcio a deixarem os indivíduos agirem por si próprios e deixarem os credores ricos reduzir os devedores à servidão – e depois usarem o seu trabalho como um exército para derrubar os reis e tomar o governo por si próprios, criando uma oligarquia ao estilo romano. Foi isso que as famílias bizantinas tentaram fazer nos séculos IX e X.

Se os rapazes da “livre iniciativa” tivessem tido o seu caminho, não teria havido cunhagem no templo ou supervisão de pesos e medidas. A terra pertenceria a quem a pudesse agarrar, embargar ou conquistar. O juro teria reflectido tudo o que um comerciante rico pudesse forçar um agricultor necessitado a pagar. Mas para os economistas, tudo o que ocorre é uma questão de “escolha”. Como se não houvesse necessidade absoluta – de comer ou de pagar.

Foi atribuído um Prémio Nobel económico a Douglass North por afirmar que o progresso económico hoje e, na verdade, ao longo de toda a história, tem sido baseado na “segurança dos contratos” e nos direitos de propriedade. Com isto, ele significa a prioridade dos créditos dos credores para a execução da propriedade dos devedores. Estes são os direitos de propriedade para criar latifúndios e reduzir as populações à servidão da dívida.

Nenhuma civilização arcaica poderia ter sobrevivido por muito tempo se tivesse seguido este caminho. E Roma não sobreviveu instituindo o que se tornou a característica distintiva da Civilização Ocidental: dar o controlo do governo e da sua legislação a uma classe credora rica que monopoliza a terra e a propriedade.

Se uma sociedade antiga o tivesse feito, a vida económica teria empobrecida. A maioria da população teria fugido. Ou então, a elite da Escola Thatcher/Chicago teria sido destronada. As famílias ricas que patrocinaram esta apropriação teriam sido exiladas, como ocorreu em muitas cidades gregas nos séculos VII e VI a.C. Ou, populações descontentes teriam abandonado e/ou ameaçado desertar as tropas estrangeiras prometendo libertar os escravos, cancelar as suas dívidas e redistribuir a terra, como ocorreu com as Secessões da Plebe de Roma nos séculos V e IV a.C.

Assim, voltamos ao ponto de David Graeber de que os grandes reformadores da Eurásia subiram ao mesmo tempo que as economias se tornavam monetizadas e cada vez mais privatizadas – uma época em que as famílias ricas estavam a aumentar a sua influência sobre a forma como as cidades-estado eram geridas. Não só os grandes reformadores religiosos mas também os principais filósofos, poetas e dramaturgos gregos explicaram como a riqueza é viciante, e conduz à arrogância que os leva a procurar a riqueza de formas que prejudicam os outros.

Olhando para o conjunto da história antiga, podemos ver que o principal objectivo dos governantes desde a Babilónia à Ásia do Sul e Ásia Oriental era evitar que uma oligarquia mercantil e credora surgisse e concentrasse a propriedade da terra nas suas próprias mãos. O seu plano de negócios implícito consistia em reduzir a população em geral ao clientelismo, à servidão por dívidas e à servidão.

Foi o que ocorreu no Ocidente, em Roma. E continuamos a viver no rescaldo disso. Em todo o Ocidente, o nosso sistema jurídico continua a ser pró-credor, não a favor da população endividada em geral. É por isso que as dívidas pessoais, empresariais, públicas e as dívidas internacionais dos países do Sul Global se têm vindo a acumular em condições de crise que ameaçam prender as economias a uma deflação prolongada da dívida e à depressão.

Foi para protestar contra isto que David ajudou a organizar o movimento Occupy Wall Street. É óbvio que não estamos apenas a lidar com um sector financeiro cada vez mais agressivo, mas que criou uma história falsa, uma falsa consciência destinada a dissuadir a revolta ao afirmar que Não Há Alternativa (TINA).

 

Onde a Civilização Ocidental seguiu o Caminho Errado

Temos dois cenários diametralmente opostos que descrevem como surgiram as relações económicas mais básicas. Por um lado, vemos sociedades do Próximo Oriente e asiáticas organizadas para manter o equilíbrio social, mantendo as relações de endividamento e a riqueza mercantil subordinadas ao bem-estar público. Esse objectivo caracterizou a sociedade arcaica e as sociedades não ocidentais.

Mas à periferia ocidental, no Egeu e no Mediterrâneo, faltava a tradição do Próximo Oriente de “realeza divina” e tradições religiosas asiáticas. Este vácuo permitiu a uma oligarquia credora rica tomar o poder e concentrar nas suas próprias mãos a posse de terras e propriedades. Para fins de relações públicas, alegou ser uma “democracia” – e denunciou qualquer regulamentação governamental protectora como sendo, por definição, uma “autocracia”.

A tradição ocidental carece efectivamente de uma política que subordine a riqueza ao crescimento económico geral. O Ocidente não tem controlos governamentais fortes para impedir que uma oligarquia viciada em riqueza surja para se transformar numa aristocracia hereditária. Transformar devedores e clientes numa classe hereditária, dependente de credores ricos, é o que os economistas de hoje chamam um “mercado livre”. É um mercado sem controlos e equilíbrios públicos contra a desigualdade, a fraude ou a privatização do domínio público.

Pode parecer surpreendente para algum historiador futuro que os líderes políticos e intelectuais do mundo de hoje tenham fantasias neoliberais tão individualistas de que a sociedade arcaica “deveria” ter-se desenvolvido desta forma – sem reconhecer que foi assim que a República oligárquica de Roma se desenvolveu de facto, levando ao seu inevitável declínio e queda.

 

Cancelamentos de dívidas da Idade do Bronze e Dissonâncias Cognitivas Modernas

Assim, somos levados de volta à razão pela qual fui convidado a falar aqui hoje. David Graeber escreveu no seu livro Debt que estava a tentar popularizar a documentação do meu grupo de Harvard de que os cancelamentos de dívidas existiram de facto e não eram simplesmente exercícios literários utópicos. O seu livro ajudou a tornar a dívida uma questão pública, tal como os seus esforços no movimento Occupy Wall Street.

A administração Obama apoiou a polícia a desmantelar os acampamentos da OWS e fez todo o possível para destruir a consciência dos problemas da dívida que assolam as economias dos EUA e estrangeiras. E não só os principais meios de comunicação social, mas também a ortodoxia académica circulavam as suas carruagens contra até mesmo a ideia de que as dívidas podiam ser anuladas e de facto precisavam de ser anuladas para evitar que as economias caíssem em depressão.

Essa ética pró-credor neoliberal é a raiz da Nova Guerra Fria de hoje. Quando o Presidente Biden descreve este grande conflito mundial destinado a isolar a China, Rússia, Índia, Irão e os seus parceiros comerciais eurasiáticos, caracteriza isto como uma luta existencial entre “democracia” e “autocracia”.

Por “democracia”, ele quer dizer oligarquia. E por “autocracia” significa qualquer governo suficientemente forte para impedir uma oligarquia financeira de assumir o governo e a sociedade e impor regras neoliberais – pela força. O ideal é fazer o resto do mundo parecer a Rússia de Boris Ieltsin, onde os neoliberais americanos tinham mão livre para retirar toda a propriedade pública de terra, direitos minerais e serviços públicos básicos.

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Notas

[1] David Graber, Debt: The First 5000 Years (Brooklyn, 2011):224.

[2] Piotr Steinkeller and Michael Hudson, eds., Labor in the Ancient World (Dresden 2015).

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O autor: Michael Hudson é Presidente do The Institute for the Study of Long-Term Economic Trends (ISLET), Analista Financeiro de Wall Street, Distinto Professor de Investigação de Economia na Universidade do Missouri, Kansas City. É o autor de Super-Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (Editions 1968, 2003, 2021), “and forgve them their debts” (2018), J is for Junk Economics (2017), Killing the Host (2015), The Bubble and Beyond (2012), Trade, Development and Foreign Debt (1992 & 2009) e de The Myth of Aid (1971), entre muitos outros.

A ISLET dedica-se à investigação sobre finanças nacionais e internacionais, rendimentos nacionais e contabilidade de balanço no que diz respeito a bens imóveis, e envolve-se também na história económica do antigo Próximo Oriente.

Michael actua como consultor económico de governos de todo o mundo, incluindo a China, Islândia e Letónia sobre finanças e direito fiscal.

 

 

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