Espuma dos dias — Como é que a ganância fez da América um país pobre. Por Umair Haque

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

15 m de leitura

Como é que a ganância fez da América um país pobre

Como é que a América se tornou o mais novo país pobre do mundo – E o fascismo se tornou inevitável

 

 Por Umair Haque

Publicado por  em 22 de Janeiro de 2022 (original aqui)

 

 

Eis uma ou duas pequenas perguntas sobre a economia americana. Vou dar-lhe três palpites. Está pronto para a leitura?

A minha querida mulher é médica. Ela entrou em stress profundo a tratar pacientes Covid, e queria tirar um ou dois anos de dispensa de serviço e estar perto do seu pai já velho. Ela está numa situação de interrupção de serviço para fazer investigação. Agora ela está no melhor hospital da América, um lugar que é um nome familiar em todo o mundo. Recrutaram-na porque tem diplomas de algumas das melhores instituições médicas do mundo. Ela tem lá o seu próprio gabinete. Ela dirige uma equipa constituída por vários especialistas. Trabalham na investigação para salvar a vida das crianças.

Adivinhe quanto é que ela ganha?

Aposto que provavelmente adivinhou, qualquer coisa acima de 100 mil dólares, talvez 200 mil dólares por ano. Está – muito – enganado. Ela faz algo na região de 50.000 dólares. Parece-lhe muito? Pouco? Voltaremos a isso.

Agora adivinhe quanto é que os administradores do hospital ganham.

Talvez desta vez tenha adivinhado cerca de $150 mil ou $200 mil. Errado outra vez. Eles ganham na ordem dos milhões de dólares, todos os anos.

Este hospital é uma unidade “sem fins lucrativos”. Por que razão deveria o “administrador” de qualquer unidade sem fins lucrativos estar a ganhar mais de um milhão de dólares por ano? Quando as pessoas que estão a fazer trabalho real, o que significa estar a salvar vidas de crianças, e não apenas baralhar números em folhas de cálculo e obter uma bonificação, estão a ganhar uma fração disso?

Isto parece-lhe sensato?

Porque é que vos estou a dizer isto? Para que se sinta mal com a situação da minha mulher? Bem, talvez devesse, porque quando ela olhou para a injustiça destes números, ficou furiosa. Mas não é para que se sinta mal. É um exemplo – especialmente flagrante – do que realmente está a da cabo da América.

A ganância.

É impossível – completamente impossívelque o americano médio consiga pagar as suas contas. Posso dizer-vos isso como economista, um dos únicos realmente bons que a América alguma vez teve. Os americanos tornaram-se pobres porque a sua economia lhes falhou. Mas uma sociedade pobre não se pode dar ao luxo de muitas coisas. De coisas que importam. Como democracia, verdade, razão, bondade, decência.

As sociedades confrontadas com quedas repentinas para a situação de pobreza implodem no autoritarismo, exatamente como a América. A ganância deu cabo da América neste sentido, lato e profundo.

Mas os americanos ainda não compreendem, penso eu, quão extrema e fora de controlo está realmente a ganância na América – e como, paradoxalmente, ela deixou a sociedade cada vez mais pobre. Demasiado pobre para se dar sequer ao luxo de ser um país ou uma democracia funcional, no final, e por isso a América está simplesmente agora a implodir.

Façamos, primeiramente, um pouco de matemática, para provar o ponto de vista de que é impossível chegar sem dívidas ao fim de cada mês e depois vou falar um pouco sobre como o que é normal na América é completa e totalmente anormal quase em todo o resto do mundo inteiro.

O rendimento médio americano é de cerca de 35 mil dólares. É isso que milhões de americanos ganham. Para uma “família”, o que significa em estatísticas económicas, uma família de quatro pessoas, este rendimento sobe para cerca de 60 mil dólares.

É impossível, e quero mesmo dizer impossível, viver com esse nível de rendimento. Trata-se de um rendimento mediano mais adequado a um país pobre do que a um país rico. E vamos prová-lo.

Renda? A renda média para um apartamento era de $1124 mês em 2021. Isso é $14.000 ano. É metade do rendimento médio de uma pessoa gasto apenas pelo aluguer de casa. Agora temos… todas as outras despesas da vida. Comecemos pela outra grande despesa na América: os cuidados de saúde. O custo médio de uma família a pagar por cuidados de saúde era quase exatamente o mesmo: $1152. Bang. Mais $14mil. Este é o rendimento médio dos americanos, gasto apenas com renda de casa e cuidados de saúde.

Mas o leitor talvez ponha uma objeção – o meu empregador paga pelos meus cuidados de saúde. Ou talvez eu nem sequer queira cuidados de saúde (LOL, quer dizer que não pode pagar, eu percebo, nós voltaremos a isso). Claro – não vai fazer muita diferença no final. O americano médio gasta cerca de $1200 ou seja “saem-lhe do bolso” mesmo que estejam segurados pelo seu empregador – digamos $1500, porque isso é certamente um valor subestimado. Isso deixa-nos talvez com cerca de 14 mil de rendimento por ano para a pessoa média – e ainda não chegámos à maioria das contas para pagar.

É preciso um carro na América, para conseguir ir a qualquer lado. É preciso um seguro para isso. O pagamento médio mensal do carro é de 600 dólares. Vamos considerar para o seguro outros $100. São $700… por mês. Ou $8400 por ano. De repente, ficamos com cerca de $5 mil para cobrir tudo o resto que precisa na vida.

Água, eletricidade, combustível para pôr no carro. Internet. Um telemóvel. A fatura média da água é de cerca de 100 dólares por mês – bang, outros 1200 dólares foram-se – e agora estamos reduzidos a apenas cerca de 3800 dólares. Internet e um telefone? Coloque-lhes mais $100 por mês. Agora, estamos reduzidos a $2600. Eletricidade? Mais $100 por mês. Agora estamos reduzidos a apenas $1400. Custo médio anual da gasolina a colocar naquele carro? É cerca de $1100.

Agora, só lhe restam 300 dólares.

Mas ainda tem de se alimentar e vestir. Os seus filhos. Pagar por coisas aleatórias, como talvez um brinquedo aqui e ali, uma iguaria. Tenho a certeza de ter deixado muitas coisas de fora que não são remotamente um luxo – como pagar os empréstimos estudantis.

O que estou a tentar dizer já deve estar bem claro – até porque provavelmente já alguns dos que me estão a ler poderão estar a vivê-lo. Chegar ao fim do mês na América é completamente impossível. Não se consegue. O rendimento da minha querida esposa é tão baixo que nem sequer cobre as suas despesas – carro, viagens, um hotel de vez em quando, porque lhe é pedido para fazer horas extraordinárias regularmente.

O efeito económico de tudo isto está situado algures entre uma piada e uma vergonha. Estou a subsidiar esta instituição mundialmente famosa que paga milhões de dólares aos seus “administradores”, porque a minha mulher nem sequer é paga o suficiente para cobrir as suas despesas básicas de vida. Pense em como isso é ridículo. A razão pela qual esses administradores ganham milhões é porque estou efetivamente a pagar-lhes para empregar a minha mulher – depois de receberem uma parte da sobrefaturação por operações e medicamentos. Mas esta história não é pessoal – é social. Este tipo de economia – as pessoas não conseguem chegar ao fim dos mês com aquilo que ganham – é absolutamente fatal para uma sociedade.

Se não se consegue sustentar – uma sociedade inteira – então qual é o objetivo? Porquê dar-se ao trabalho de se licenciar, de ter um diploma de nível superior, de ter uma especialização? Porquê dar-se ao trabalho árduo da democracia? Porquê dar-se ao trabalho de confiar em mais alguém? Tudo em breve começa a desmoronar-se catastroficamente, e a sociedade deixa de existir [enquanto sociedade].

A América agora é um país pobre, e é por isso que está a desmoronar-se. Deixem-me explicar um pouco mais.

Mesmo que suba a escada social, e “compre” uma casa melhor, e um carro melhor, porque tem um rendimento ligeiramente maior, como é que isso é conseguido? Através de dívidas. A América é uma sociedade de gente endividada. Os americanos estão massivamente em dívida, em dívida pesada – e em dívida para toda a vida. Os americanos morrem endividados. Estas são formas de dívida que simplesmente não existem no resto do mundo – “dívida médica”, “dívida estudantil” – gerida por instituições estranhas e sinistras que também não existem no resto do mundo, como “perfis de crédito”.

 

Mas ser uma sociedade devedora é aberrante. Não é normal. Pelo menos não no sentido de ser uma sociedade moderna e funcional. Porque significa que uma sociedade de pessoas assim é demasiado pobre para se permitir coisas como democracia, verdade, razão, sanidade, cuidados, bondade, decência, e assim por diante. Sim, é isso mesmo, e vou prová-lo em breve.

Primeiro, quero que compreendam como as normas da ganância produziram esta situação paradoxal de pobreza.

Voltemos à minha mulher por um momento. Quando ela se candidatou ao emprego, ficou chocada com o pouco que lhe ofereceram. Eu disse-lhe que a América é assim, e ela devia fazer uma contraproposta. Ela é uma pessoa nobre. Ela quer ajudar crianças, quer ajudar a curar pessoas. O dinheiro não lhe interessava. E ela não é uma negociadora muito boa – especialmente quando está zangada e contra  um ar misógino do outro lado da mesa. Eles ofereceram-lhe apenas 30 mil para começar, creio eu. Ela conseguiu subir este valor. Mas…

Veja como isto é… exploração? Quão vergonhoso isto é? Oferecer o mínimo possível a uma pessoa? Para fazer o trabalho que quer que elas façam…por si? Está a ver até onde se pode empurrar uma pessoa, quanta pressão se faz sobre essa outra pessoa, quanto as pode enganar. Talvez “enganar” seja uma palavra forte. Mas as pessoas que fizeram esta oferta mesquinha – nem sequer o suficiente para pagar coisas como comprar um carro, conduzi-lo para trás e para a frente e ter um lugar para viver – estavam a ganhar milhões.

Agora pensem nisto. Ali está a minha mulher com todos os seus graus e conhecimentos e paixão e assim por diante. Quanto vale tudo isto na América? Nem sequer o suficiente para continuar a viver. Então, imagine quão mau é para alguém que não tem todos esses graus? Apenas uma pessoa normal que, decentemente, só quer ser canalizador ou professor ou outra coisa parecida, não? Como é que isso faz uma pessoa sentir-se? Onde é que isso nos leva como sociedade? Quando enganar os outros é uma norma, quando nunca se pode ter o suficiente, quando nos propõem valores ridículos para viver e se têm do outro lado milhões e milhões, mesmo quando mais ou menos todos os outros têm muito pouco… será que uma sociedade pode realmente funcionar? Como vê, no Canadá ou na Europa, ela funcionaria bem – ofereceriam um salário decente com bons benefícios e assim por diante. A ideia de que não faz mal começar de um lugar de exploração seria considerada profundamente imoral e antissocial. Mas não na América.

Esse nível de ganância – o nível extremo, onde se é explorado o mais duramente possível e se sorri – é considerado normal na América. Não há nada de muito errado com isso. É, nesse sentido, uma norma social, é  apenas a “forma como as coisas são”, aceitáveis, até mesmo justificáveis.

Mas isto é profunda, total, completamente anormal em quase qualquer outra parte do mundo. Se um administrador hospitalar estivesse a ganhar 25 ou 50 vezes mais do que a média dos funcionários do hospital – milhões – seria um escândalo nacional na maioria dos outros países. As pessoas ficariam chocadas, e perplexas, e perguntariam coisas do género: “será que estão a desviar dinheiro? Então, como é que conseguiram ganhar tanto?”

Esta situação, obviamente, não diz respeito apenas a hospitais. Trata-se de tudo. A minha mulher, apesar de ser académica e médica com vários diplomas, é, neste trabalho, apenas uma qualquer, como se fosse imprestável. Ela é apenas uma mercadoria a ser explorada por uma classe de “administradores” e “executivos”, que são totalmente, absolutamente impiedosos no que toca à ganância. A sua ganância é literalmente desmedida e não consideram ganancioso ganhar milhões por não fazer nada de valor, apenas o consideram….normal. Sentem-se com direito a isso. Esta norma? Não existe em nenhum outro lugar do mundo, exceto talvez quando se trata de criminosos de guerra. Estas são palavras fortes, mas digo-as a sério. Mais uma vez, na maior parte do Canadá e da Europa, este nível de ganância seria literalmente bastante incompreensível.

Mas na América, é sistémico. E isto é o que fez da América um país pobre. Pense-se, não sei, na Amazon. Emprega exércitos de pessoas – que mal conseguem fazer pausas para ir à casa de banho, que são geridas até ao microssegundo por algoritmos. Ganham uma ninharia. Entretanto, Jeff Bezos é tão rico que poderia vacinar o planeta sozinho (alto: ele não o fez e nem nunca o fará). O Google é notório por enganar trabalhadores “temporários”, que são conhecidos por serem explorados intensamente em toda a economia. Os professores adjuntos mal ganham o suficiente para viver, e os professores são pagos como indigentes e depois é-lhes pedido que arrisquem as suas vidas durante o Covid.

A pessoa média na América tem sido completamente, totalmente desrespeitada pela economia de uma forma que uma sociedade moderna não vê desde a União Soviética ou da República de Weimar. Mas sabe o que aconteceu com estes países? Um deles caiu no fascismo nazi, e o outro caiu no autoritarismo.

Essa ligação entre a estagnação económica e o colapso social? Não é uma coincidência. Esta é a parte em que vos explico porque é que sociedades que se empobrecem a si próprias, como a América, não podem permitir-se coisas como verdade, bondade, decência ou democracia. Devia ser óbvio, no entanto, e aposto que muitos de vocês já o descobriram.

O que é que a minha adorável esposa não pode pagar, com o seu salário, que é basicamente inferior ao salário mínimo? Bem, ela não se pode dar ao luxo de contribuir para uma sociedade trabalhadora, funcional. Ela gostaria que todos tivessem cuidados de saúde, e ela teria definitivamente votado em Bernie Sanders ou Elisabeth Warren se os Democratas tivessem tido a coragem de os propor em vez de Biden. Mas isso não importa. Porque com um rendimento de 30 mil dólares, ou mesmo 50 mil dólares, não sobra o suficiente em impostos para pagar por uma sociedade funcional.

Não cobrimos os impostos no exemplo acima. Se o fizéssemos, o beneficiário médio a $30 mil pagaria ao governo $2.500. Isso ter-nos-ia colocado no fundo do vermelho – ainda mais fundo – no exemplo acima. Mas também teria tido um efeito secundário pernicioso, um efeito oculto. Isso não é um pagamento suficientemente grande para financiar uma sociedade trabalhadora como, por exemplo, o Canadá ou a Europa, feita de saúde pública, pensões de reforma, transportes, educação, e assim por diante. Simplesmente não é….suficiente.

Seria necessário tributar muito mais os ricos, muitíssimo mais, e limitar os seus rendimentos, mesmo que informalmente, através de normas que se oponham à ganância e a façam diminuir, que a coloquem em desprezo e desgraça, como acontece no Canadá e na Europa. Ou seria necessário cobrar à pessoa média cerca de 50% dos seus rendimentos – mas a 30 mil dólares, o que já não é suficiente para viver …bem, ficaria ainda com menos.

Não se pode ter uma sociedade moderna e funcional com estes fracassos, à maneira da economia soviética. A América está envolvida no que é conhecido como uma armadilha de pobreza. Precisa desesperadamente de se tornar uma sociedade moderna, mas não pode tornar-se uma sociedade, porque a pessoa comum não tem dinheiro para isso. Esta é a mesma armadilha em que a União Soviética se encontrava – e foi por isso que se desmoronou.

A democracia morre desta forma, como resultado da queda de uma nação na pobreza. Porquê? Pense até na minha mulher, a médica com elevado nível de formação científica . Quando ela chega a casa – sobrecarregada de trabalho, com pedidos para trabalhar aos fins-de-semana, dando-lhe pouca ou nenhuma folga, porque, lembre-se, ela é apenas uma simples funcionária, uma funcionária irrelevante, para este hospital mundialmente famoso – a última coisa para a qual ela tem alguma energia ou tempo real é para a vivência da democracia. Uma nação de pessoas nessa posição – sobrecarregada, mal remunerada, sem tempo livre – está demasiado desgastada, cansada e estressada para sustentar o exercício da auto-governação. É por isso que a democracia não consegue ganhar dinamismo nos países pobres, para começar. Ninguém se pode dar ao luxo de o fazer.

Mas também existem águas mais escuras pela frente. O que é que morre a seguir, porque uma nação é demasiado pobre para se dar a esse luxo? Bem, o que morre a seguir são coisas como as que a confiança alimenta. Quando se trabalha a dar cabo dos ossos, por uma ninharia – e no entanto as elites ganham milhões por não fazerem nada de valor, apenas baralhando números, e sacando a sua parte, como os chamados “administradores” da minha mulher, como é que se poder ter muita confiança no sistema? É aqui que chegam os Trumpistas – e sobre este ponto, quem os pode culpar? A classe trabalhadora da América sente-se realmente traída. Foi abandonada aos predadores, pela ganância, ficou empobrecida, e como resultado, deixou de ter confiança na governação, nas instituições, no sistema, nas elites.

À medida que a confiança morre, o que acontece a seguir? As pessoas desistem da verdade, da decência e da bondade. Todos os outros se tornaram num seu rival, um inimigo, um concorrente, por uma pequena quantia de dinheiro, comida, rendimento, abrigo. As relações não se podem formar de tal forma. Os laços quebram-se. Desfazem-se.

Quando se está fora, a trabalhar e a dar cabo dos nossos ossos para nem sequer vivermos o suficiente, o que sentimos? Ódio. Raiva. Humilhação.

E procura razões. Para explicar algo. Porque razão cada um de nós não é ninguém, não é nada? Porque é que não importa o quanto se trabalha ou o quanto se é honesto, se acabamos humilhados, com o nariz moído na terra? Viramo-nos para o fanatismo. Fundamentalismo. Extremismo. Assim se chega ao colapso social, a um nível ainda mais fundamental: a radicalização.

O que querem os humilhados? A justiça, sob a forma de vingança. É neste ponto que está a classe trabalhadora da América. Estão à procura de sangue, porque querem vingança. Porquê isso ? Por terem sido, e continuarem a ser, humilhados, por tanto tempo, abandonados e esquecidos e deixados empobrecidos e sem esperança, e isto feito por pessoas menos honestas e decentes do que eles. Afundadas na pobreza – enquanto as elites, como “administradores hospitalares” e “lobistas” e “executivos ” bancários ganham milhões, milhares de milhões. São levados a canalizar a sua raiva para bodes expiatórios, por demagogos – porque a humilhação faz a sua mente deixar de funcionar de forma adequada. Tudo o que querem é vingança, porque essa é a única coisa que lhes dará sentido à vida, que os fará sentir que são importantes.

É assim que morre uma sociedade.

Foi assim que a América morreu.

Se eu questionar os “administradores do hospital” sobre a situação da minha mulher com questões do tipo: “hei, não têm vergonha disto? A minha mulher ganha uma ninharia por fazer um trabalho a sério, enquanto vocês ganham milhões para baralhar números e receberam boas comissões por isso ? E fingir que tudo isto é sobre a saúde das pessoas?” Vão olhar para mim como se eu é que fosse um louco.

Porque não é vergonhoso ser tão ganancioso na América. Mas deveria sê-lo. É-o no resto do mundo. É considerado uma falha moral, um sinal de que se é um ser humano defeituoso, de que algo está seriamente errado quando se faz isso. Ninguém quer ter nada a ver com quem faz isso. É-se motivo de chacota, um palhaço social, uma vergonha, um fracasso como pessoa humana.

Mas na América, não há problema em ser ganancioso, não é vergonhoso. É o que é ensinado nas escolas da Ivy League e justificado por ambos os partidos políticos. O problema é que a norma da ganância deixou a maior parte da própria sociedade humilhada. Porque os mais impiedosos e egoístas e gananciosos passaram por cima de todos os outros, desenfreadamente, até não restar nada sequer para viver. Entretanto, os empobrecidos que estavam reduzidos a pó, finalmente explodiram, a humilhação em busca de vingança.

Esta é a história interna de como a América morreu. Tudo o resto são apenas detalhes, na verdade. Pergunto-me, no entanto, se a América alguma vez conseguirá realmente compreender isto.

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O autor: Umair Haque é editor de Eudaimonia and Co, Bad Words, a book of nights, Leadership in the Age of Rage. Escreve sobre Economia, Liderança, Política, Cultura e outros.

 

 

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