CARTA DE BRAGA – “da guerra e dos livros” por António Oliveira

A guerra não é um país estrangeiro

Assim mesmo, mais simples seria impossível dizê-lo, deixou escrito numa crónica do DN, o poeta Luís Castro Mendes, explicando ainda, ‘O mundo ocidental instalou-se na guerra, como se voltasse, com alívio, à essencial natureza das coisas… mundo que responde talvez à nossa mais funda natureza’.

E vemos e lemos de uma guerra que se estende a todos os campos da actividade humana, mas, creio eu, nascida fundamentalmente do mundo das finanças e da economia, o maior de todos os campos de batalha, com generais saídos de uns quaisquer esconsos, a desenhar estratégias geoeconómicas mais ou menos realistas, tentando prever os movimentos dos inimigos a maior parte das vezes apenas baseadas em miragens ou ideologias– mas que os obrigam a ‘calafetar’ as movimentações a efectuar. 

Um problema de algum modo difícil de incrementar, pois num mundo construído pela imagem e pelo exibicionismo, a começar pelas redes sociais, tais generais não têm a vida facilitada, muito mais tendo saído de esconsos onde a ética e a civilidade não terão lugar privilegiado, dominados que são pelos ‘direitos’ da globalização. Aliás Albert Einstein também deixou escrito, há já muitos anos, ‘Os seres humanos não estão condenados, pela sua constituição biológica, a aniquilar-se e a estar à mercê de um destino cruel, infligido por eles mesmos; mas se tivermos em atenção como a guerra se soma à crise climática e à pandemia, quarenta e nove milhões de pessoas do Sul Global deste planeta, estarão em risco de não terem de comer e mais de cento e oitenta milhões em risco de vulnerabilidade extrema. 

Estes números constam de um relatório conjunto de instituições como a Oxfam Intermón, UNICEF, Acção contra a fome e Save The Children, salientando como, para além da guerra na Ucrânia, ainda temos o fraco rendimento das colheitas devido às alterações climáticas, os problemas económicos derivados da pandemia e à alta do preço dos combustíveis. Mas o mais angustiante é o facto de quase catorze milhões de crianças estarem a sofrer de desnutrição por causa desta crise global, a maior parte deles no continente africano. 

Ao escrever estas coisas, que vou sacando de fontes de informação diversas, tenho a perfeita noção de que as palavras não são inocentes, por estarem carregadas de poder apesar de até ser eu a escrevê-las, uma vez que, ao usá-las, se chama a atenção para o bom e para o mau, por poderem levantar emoções, incomodarem e, às vezes, até maltratarem. Mas as palavras  também nos pertencem e mostram o modo de olhar e estar na vida. 

O filósofo Séneca, figura capital do estoicismo romano e educador de Nero, defendia o sentido comum, a afabilidade e a sociabilidade, ensinando a aproveitar uma existência tranquila e feliz, mesmo quando o mundo parecia descontrolado, a dar ainda uma vida melhor aos outros, para diminuir ou acabar com o sofrimento emocional. Para Séneca, como para os estoicos, a virtude era a base da felicidade, pois até a adversidade nos oferece oportunidades. Mas apesar de só ter dado bons conselhos a Nero, acabou por ser condenado a beber cicuta, o que fez estoicamente.

Também Lao Tsé, o fundador do taoismo filosófico, que viveu quinhentos anos a.C., afirmava ‘Se estás deprimido estás a viver no passado, se estás ansioso estás a viver no futuro, se estás em paz estás a viver no presente’ e, para Thoreau, poeta, naturalista e historiador americano do século dezanove, ‘A felicidade é como uma borboleta; quanto mais a persegues mais te enganará; mas se prestares atenção a outra coisa, virá suavemente poisar-te no ombro’.

Nestes tempos, creio que em virtude da evolução do conhecimento humano, o melhor será tentar fazer o que tanto Steve Jobs como Albert Einstein, praticavam com a devida frequência; de acordo com o cronista onde fui colher esta informação, os dois praticavam o Não Tempo, qualquer coisa como atrever-se a ocupar o tempo linear sem fazer nada, estar sós com eles mesmos, mas com calma, com atenção total e consciente, sem stress e esquecendo toda a pressão; assim se acercavam do princípio do aborrecimento, com a finalidade de dar rédea solta à criatividade, sem terem necessidade de entreabrir a porta da meditação. 

Difícil, cuido eu, para quem se atrever a praticar tal coisa, é a concepção própria que temos do tempo, por termos sido educados a gerir-nos pelo tempo linear, um segundo atrás de outro e um minuto atrás de outro minuto, para nos ajudar a ter sempre uma perspectiva do que fazemos, mas nunca do que somos. Tão difícil, que até chamamos tempo a qualquer circunstância ambiental, como estar a chover ou a fazer calor. 

Mas, talvez para nos ajudar verdadeiramente, diz a escritora Elif Shafak, numa entrevista recente ao DN, ‘Para ter conhecimento, precisamos de diminuir o ritmo e ter cuidado com os dogmas, principalmente os nossos. O conhecimento requer livros, leitura sobre as várias disciplinas, jornalismo lento, análises aprofundadas, conversas matizadas, evitando julgamentos precipitados’.

E porque ‘a sabedoria requer que unamos a mente e coração’ acrescenta ainda Shafak, creio que todos os tempos são bons para procurar, comprar, ler livros e acreditar que o nosso fim não será o destino cruel para o qual até estamos a contribuir, por omissão ou alienação!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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