Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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Texto 4. A histeria fez descarrilar Kwasi Kwarteng
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em 4 de Outubro de 2022 (original aqui)

Sem dúvida que Kwasi Kwarteng esperava passar ontem de manhã a dar os últimos retoques no seu discurso na Conferência do Partido. Em vez disso, 10 dias depois de ter anunciado o seu plano de eliminar a taxa máxima do imposto sobre o rendimento, o Chanceler britânico viu-se a ser instruído num curso intensivo de macroeconomia do mundo real – e de histeria alimentada pelos media.
Assim que foi tornado público, a 23 de Setembro, o “mini-orçamento” de Kwarteng provocou uma venda em massa de títulos da dívida pública – títulos do governo britânico – e também viu a libra cair para um mínimo histórico em relação ao dólar. Depois, foi toda uma situação infernal que se desenvolveu: alguns analistas chegaram mesmo a dizer que a Grã-Bretanha estava a caminhar para uma completa “crise monetária” e começava a parecer-se com um “país de mercado emergente”.
A reação dos diversos quadrantes internacionais foi igualmente histérica. O FMI lançou um ataque mordaz ao governo britânico, enquanto Larry Summers, antigo Secretário do Tesouro dos EUA, considerou a política inglesa como sendo “totalmente irresponsável”. Falando para uma grande audiência, Jason Furman, antigo conselheiro económico de Barack Obama, escreveu: “Não me lembro de uma reação mais uniformemente negativa a qualquer anúncio de política, tanto por parte dos economistas como dos mercados financeiros, do que agora com a política do Reino Unido”.
Será que todo este alarido foi justificado? Estará o Reino Unido realmente em perigo de se tornar a próxima Argentina ou Zimbabué? E a reviravolta de Kwarteng ontem foi realmente necessária?
O mini-orçamento em questão consiste numa série de medidas económicas financiadas pelo défice destinadas a amortecer os efeitos da crise energética e a estimular o crescimento – nomeadamente um congelamento das contas de energia e vários cortes fiscais, por um custo total de cerca de 160 mil milhões de libras esterlinas. A maioria das críticas dirigidas a Kwarteng refletiu a opinião dos economistas ortodoxos: que cortar impostos é a política errada quando o desemprego é baixo e há pouca capacidade disponível na economia para um crescimento adicional não-inflacionista.
No entanto, apesar de toda esta agitação, de longe o maior compromisso no mini-orçamento foi encontrado noutro lado: o congelamento dos preços da energia, que deverá custar cerca de 60 mil milhões de libras esterlinas. De acordo com o grupo de reflexão Bruegel, o Reino Unido já é o país que mais fundos afetou para proteger as famílias e as empresas da crise energética – 7% do PIB. Embora mais possa e deva ser feito, isso é mais do dobro da média da UE (apenas a Alemanha anunciou uma medida de alcance semelhante).
Ora, pode-se debater se a limitação do preço da energia – que essencialmente equivale a um subsídio para financiar os lucros dos gigantes da energia com os dinheiros públicos – é a melhor forma de enfrentar a crise, mas se a alternativa for deixar penduradas as famílias e as empresas face a estes gigantes, que é o que a maioria dos países da UE provavelmente acabará por fazer, a abordagem britânica é claramente muito melhor.
Quanto às medidas do lado das receitas do miniorçamento, as maiores medidas não são os efetivos “cortes fiscais”, mas sim os não aumentos da tributação para a Segurança Social e do imposto sobre as sociedades (num total de 40 mil milhões de libras esterlinas). Em comparação com estes números, os cortes fiscais efetivos, tais como a supressão da taxa mais elevada do imposto sobre o rendimento, eram bastante triviais – pouco mais de £10 mil milhões. Tudo isto significa que embora os cortes fiscais fossem maus numa perspetiva distributiva, uma vez que teriam beneficiado sobretudo os ricos, numa perspetiva macroeconómica o seu impacto teria sido negligenciável, e a decisão de os reverter será igualmente negligenciável.
Mesmo sem os cortes fiscais, o congelamento dos preços da energia continuará a implicar um défice maior. Não é portanto a redução dos impostos que está em causa, mas antes o aumento do próprio défice que assustou toda a gente. Parece haver uma preocupação genuína entre os economistas ortodoxos e as instituições financeiras de que o mini-orçamento irá ameaçar a “sustentabilidade orçamental ” da Grã-Bretanha e possivelmente até causar uma entrada em incumprimento do país.
Mas a noção de que um aumento do défice coloca o Estado britânico em risco de insolvência é ridícula. Como todas as nações emissoras de moeda, o Reino Unido gasta efetivamente a criar dinheiro a partir do nada. Isto significa que nunca pode “ficar sem dinheiro” ou tornar-se insolvente. O facto de os défices orçamentais estarem normalmente associados à emissão de obrigações, e de estas serem normalmente compradas pelo sector financeiro privado, dá a impressão de que este último é capaz de exercer controlo sobre as despesas do governo, recusando-se a comprar as obrigações ou exigindo taxas de juro mais elevadas. Contudo, não é este o caso – porque o banco central pode sempre intervir para comprar as obrigações em si, fixando o rendimento ao nível que desejar.
Desde a crise financeira, e especialmente durante toda a pandemia, isto tornou-se uma prática corrente. De facto, praticamente todos os novos títulos emitidos para apoiar a economia durante a pandemia foram comprados pelo próprio Banco de Inglaterra. Isto é paradigmático da forma como os estados modernos se auto-financiam; e do facto de que os “vigilantes de obrigações” não terem qualquer poder sobre os governos emissores de moeda.
Portanto, em geral, um défice crescente não representa um problema para o Reino Unido. Na verdade, é uma coisa boa, na medida em que ajudará a amortecer a economia britânica dos efeitos da crise energética e do custo de vida. Também não há razão para acreditar que défices maiores, mesmo que “monetarizados” pelo banco central, irão alimentar ainda mais a inflação. Muito pelo contrário: se o governo pedir dinheiro emprestado para cortar a energia doméstica, é provável que isso reduza a inflação. A injeção de quantias tão elevadas de dinheiro na economia deverá também ter um efeito positivo no crescimento.
O problema é que tudo isto desafia completamente a ortodoxia económica, e é provavelmente por isso que os principais economistas estão a atacar o plano do Governo de forma tão veemente. Como Adam Tooze escreve: “O que os críticos do Reino Unido estão a desempenhar é o papel de porteiros, uma função, que está no centro do discurso da política económica de elite”. Isto não seria tanto um problema se não fosse o facto de a errada visão ortodoxa ser também partilhada por pessoas que, ao contrário dos economistas, têm um impacto direto na economia – os operadores financeiros. E isto pode levá-los a tomar algumas decisões muito más.
A recente venda de títulos em queda é um exemplo perfeito. Embora alguns operadores nos mercados financeiros e cambiais possam ter sido realmente motivados a descarregar as suas participações em títulos da dívida pública por receio de um incumprimento iminente, grande parte da venda foi na realidade uma tentativa de lucrar com o pânico através de uma prática conhecida como venda a descoberto – que consiste em vender um ativo financeiro que se não tem a um preço fixado na expectativa de que o seu preço caia depois para concluir a venda a descoberto , gerando assim um lucro para o vendedor.
Isto é, em última análise, o que os manuais de economia dizem que deveria ter acontecido: um défice mais elevado levará automaticamente a rendimentos mais elevados (e, portanto, a preços mais baixos), e assustar o governo através de uma liquidação convencerá os decisores políticos a aumentar ainda mais as taxas de juro. Infelizmente para os operadores nos mercados financeiros não é assim que as coisas funcionam no mundo real. No mundo real, apostar contra os bancos centrais é sempre um jogo perdedor. Eles sabem-no muito bem no Japão, onde é conhecido como a transação financeira de “criação de viúvas [1]“. (em inglês, widow maker)
É por isso que os operadores financeiros foram completamente apanhados desprevenidos quando, a 28 de Setembro, o Banco de Inglaterra anunciou que estaria a comprar um número potencialmente ilimitado de títulos do Estado, a fim de aliviar as tensões do mercado. Isto fez com que os rendimentos caíssem imediatamente e estabilizassem ao nível em que estavam antes de o mini-orçamento ter sido apresentado. – frustrando assim os planos dos especuladores.
Tem-se dito que a intervenção do BoE “salvou” o Governo das consequências das suas decisões imprudentes. Isto também é um disparate. O BoE estava simplesmente a cumprir o seu mandato – atuando como um emprestador de último recurso. Além disso, numa democracia, é perfeitamente normal que o Banco Central acomodasse as decisões orçamentais do governo. A outra opção é a situação na Zona Euro – onde se espera que os governos democraticamente eleitos façam o que os tecnocratas e os banqueiros centrais não eleitos lhes mandam fazer.
Tem-se falado muito do facto de que o BoE foi obrigado a intervir para salvar fundos de pensões que, de outra forma, teriam enfrentado “incumprimentos em massa”. Tudo isto parece bastante assustador, e foi utilizado para atacar o mini-orçamento – deixando entender que os títulos do governo em queda corriam o risco de desfazer em fumo as poupanças de milhões de pessoas. De facto, a quase falência dos fundos de pensões é inteiramente uma consequência da forma como os sistemas de pensões, como tudo o resto, se tornaram hiper-financeirizados.
Em termos simples, hoje em dia os fundos de pensões utilizam ativos seguros, tais como títulos da dívida pública, para angariar grandes quantidades de liquidez através de instrumentos financeiros complexos, que depois utilizam para prosseguir estratégias de investimento de alto risco. O problema é que se o valor das obrigações da dívida pública cair muito bruscamente, os fundos de pensões correm o risco de falência – que foi o que aconteceu na semana passada após o pânico das obrigações de dívida pública inglesa. O problema não é o mini-orçamento – o problema é a forma como temos permitido que os fundos de pensões joguem com as poupanças das pessoas.
Um tom similarmente funesto acompanhou os diversos avisos sobre uma “crise cambial” em que a libra supostamente continuará a depreciar-se cada vez mais até que se torne tão inútil que o Reino Unido será forçado a ir de chapéu na mão como um pedinte ao FMI. Mas não é provável que isto ocorra. Os países que deixam flutuar a sua taxa de câmbio, como o Reino Unido, não podem experimentar uma crise cambial no entendimento tradicional do termo – a menos que tenham grandes passivos externos numa moeda estrangeira. Como Paul Krugman observou, essa foi a história para a Ásia nos anos noventa, a crise argentina de 2001, e é parte do problema na Turquia agora. Mas isso não se aplica ao Reino Unido, cujos passivos externos são esmagadoramente denominados em libras esterlinas. E é por isso que, após a intervenção do Banco da Inglaterra, o valor da libra já voltou ao nível que era antes do pânico.
Em primeiro lugar, por que razão a libra caiu ? Isso deveu-se às mesmas razões que a venda massiva dos títulos da dívida publica inglesa: medos infundados sobre o défice, tentativas de pressionar o governo a recuar e, em primeiro lugar e acima de tudo, especuladores na City e em outros lugares na esperança de lucrar com a depreciação da libra. Como disse um operador da City : “Tínhamos a certeza absoluta de que a libra iria cair. Claro que vamos apostar contra a libra. Isso é o que fazemos. [2]“
O problema é que, ao contrário dos mercados de títulos, as opções do governo são mais limitadas quando se trata de debelar a especulação monetária futura. Uma opção seria o Banco da Inglaterra sustentar a libra comprando-a em mercados de câmbio, mas isso requer grandes quantidades de reservas externas, que o Reino Unido não tem.
Outra opção seria aumentar as taxas de juro. Afinal, parte da fraqueza da libra esterlina é simplesmente o resultado do aumento dos diferenciais de juros em relação aos EUA, que está a subir as taxas de juro de uma forma irresponsável que está a causar problemas para o resto do mundo, uma vez que os bancos centrais são forçados a aumentar as taxas de juro para travar a saída de capitais. No entanto, o aumento das taxas de juro não irá reduzir a inflação que é inteiramente impulsionada por fatores do lado da oferta – nomeadamente a crise energética e os estrangulamentos da cadeia de abastecimento – mas irá quase certamente causar enormes dores à economia, especialmente ao mercado imobiliário, que já se encontra em dificuldades. (Até a ONU está agora a apelar aos bancos centrais para que parem com o aumento das taxas de juro).
Portanto, é uma coisa boa que o Banco de Inglaterra continue a recusar-se a aumentar as taxas de juro. Afinal, a libra tem vindo a deslizar em relação ao dólar há mais de um ano, indicando que esta parte de um ajustamento a longo prazo poderia realmente ajudar a Grã-Bretanha a avançar para uma economia menos dependente de importações e mais autossuficiente.
No final, a melhor opção para as autoridades do Reino Unido poderia ser aceitar que há pouco que possam fazer, a curto prazo, para controlar a inflação que é em grande parte induzida pela oferta, parar de tentar evitar que a libra caia em nome de uma política de “libra forte” mal concebida (que foi o que levou o governo a dar uma resposta errada à crise de 1976) – e concentrar-se antes na proteção de pessoas e empresas através do aumento das despesas governamentais.
Isto pode ou não ser inflacionário. Mas a alternativa – ceder à pressão do mercado para aumentar as taxas de juro e controlar o défice – é quase certo que será pior.
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Notas
[1] Nota de Tradutor. Segundo a Investopedia, “no mundo dos mercados financeiros, um investimento chamado widow maker é um investimento que resulta em perdas grandes e potencialmente devastadoras. Pode também referir-se a uma aplicação financeira que resulta numa perda para praticamente todos os que o experimentam. No uso coloquial, um investimento widow maker, em tradução à letra é um fabricante de viúvas, refere-se a tudo o que tenha o potencial de matar alguém rapidamente.
[2] Nota do tradutor. Como noticiou o Evening Standard, um operador em bolsa afirmou ter ganho para os seus clientes “muitos milhões” após ter apostado contra a libra ao ouvirem Kwasi Kwarteng entregar o seu mini-orçamento na sexta-feira. O operador em bolsa telefonou para a estação de rádio LBC e disse:
“Sabíamos o que iria acontecer assim que começámos a ver a apresentação do mini-orçamento. Tínhamos a certeza absoluta de que a libra se iria afundar. Claro que íamos vender a libra a descoberto. Isto foi o que fizemos”.
O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).


