A Guerra na Ucrânia — “Acelera-se o ritmo para a construção do Novo Sistema Monetário Global com o Aquecimento da Guerra na Ucrânia”. Por Dr. Stephen Leeb

Atualização em 06/11/2022

Nota prévia:

Meus caros amigos e amigas

Vivemos um tempo estranho, muito estranho, com uma crise de subprime, imediatamente seguido por uma crise da dívida pública, a que se seguiu uma crise de covid, com sobreposição de tudo isto no espaço de uma década. De 2008 a 2021, foi assim. Adiciona-se um tempo de guerra que nos pode destruir a todos, ao qual se vai adicionar uma nova crise de covid, visível já no horizonte e que, como se isto ainda não chegasse quer-se agora adicionar uma crise de austeridade, com uma política monetária austeritária determinada pelo FED e pelo BCE e uma política orçamental austeritária desencadeada a partir da Alemanha [*] e que irá ser imposta pela Comissão Europeia.

Vivemos um tempo estranho em que ou os deuses estão loucos e isto é o mínimo que se pode dizer, se eles existem, ou então e na hipótese contrária, vivemos um tempo estranho em que tudo é permitido, a lembrar o livro Os Irmãos Karamazov” de Dostoiévski.

Um amigo meu, figura relevante durante décadas no sistema financeiro português, dizia-me o seguinte a caracterizar os tempos que correm: “fui durante anos guardador de cabras, hoje sou observador de cabrões“.

Por aqui, por este país à beira-mar pranteado, lamentamos as posições políticas do Presidente da República quer a recuperar politicamente um dos homens que mais enterrou o país, Passos Coelho, quer a atacar estrondosamente uma ministra do atual governo e essa não é garantidamente a sua função. Tem muitas testemunhas do que disse, foi o que ele sarcasticamente disse, e eu direi que tem muitas mais testemunhas da deselegância que assumiu. Inacreditável para um homem com a sua cultura, e a cultura tem como um dos seus predicados maiores, saber definir a sua posição de Respeito de cada um de nós face ao Outro, inacreditável para um homem que se quer sensível ao sentir dos que representa e nunca teve uma palavra crítica quanto ao Plano de Recuperação e Resiliência e aos seus timings, um Plano teoricamente estabelecido para servir estes últimos. Não me serve a explicação proposta por muita gente de que Marcelo não sabe lidar com uma maioria absoluta. Na minha opinião, o que temos é um Marcelo a patinar para um populismo bacoco ou para uma outra coisa igualmente má e talvez pior?

Neste país à beira-mar pranteado, lamento a perda recente de uma enorme figura política e universitária a quem o País e a Universidade devem muito, Adriano Moreira, e lamento também a saída da cena política de um homem de coragem, inteligente e honesto, e isto é um triângulo de qualidades cada vez mais raro de encontrar em política, lamentamos a saída de cena de Jerónimo de Sousa, um homem vindo do mundo do trabalho cuja estatura política se elevou a um tal elevado nível ao que desde há muito tempo já não estamos habituados. Do silêncio destas letras, eu, que nunca fui militante do PC, direi apenas: Obrigado Jerónimo de Sousa. Espero encontrá-lo nas ruas deste país e nas manifestações de rua para lhe dar um abraço.

Tudo isto para vos dizer que vos envio um texto estranho sobre o mundo estranho que estamos a viver, intitulado: “Acelera-se o ritmo para a construção do Novo Sistema Monetário Global com o Aquecimento da Guerra na Ucrânia”. Curiosamente, depois de o traduzir e ao querer guardá-lo na pasta de ficheiros dei-lhe instintivamente o título: “Perguntei aos deuses se isto é verdade”. Porque se é verdade o que nele factualmente está descrito, a definição do meu amigo sobre os tempos que correm bate certa, certíssima: vivemos um tempo de grandes cabrões.

Júlio Mota

[*] A confirmar o que digo, veja-se aqui o seguinte documento do governo alemão: “Proposed principles to guide the German government in deliberations on the reform of EU fiscal rules”. Um documento de 2022, bem esclarecedor

 


 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

18 min de leitura

Acelera-se o ritmo para a construção do Novo Sistema Monetário Global com o Aquecimento da Guerra na Ucrânia

 Por Dr. Stephen Leeb

Publicado por  em 31 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

 

31 de Outubro (King World News) – Dr. Stephen Leeb: O ritmo para um novo sistema monetário parece estar a acelerar. Quanto à sua forma, o ouro estará quase de certeza no seu centro, como o elemento-chave de um cesto de moedas ligadas através de uma cadeia de blocos. Recentemente, o World Gold Council, o grupo de comércio de tudo o que é ouro, sugeriu que o comércio de ouro fosse retirado de Londres e Nova Iorque e substituído por uma cadeia de blocos que monitorizaria todas as transações de ouro entre países e, provavelmente, entre indivíduos dentro dos países. O meu forte palpite é que as duas cadeias de blocos estarão ligadas.

Nada disto me surpreende, como saberão se tiverem lido o meu último livro, China’s Rise and the New Age of Gold. Surpreende-me, porém, a forma feroz como esta transição para um novo sistema monetário – que é essencial para um mundo ordeiro – está a ser combatida pelos EUA.

Eu esperava, talvez quixotescamente, que os líderes americanos se dessem conta de que a escassez de recursos é um problema existencial para a humanidade e que a distribuição de recursos está altamente inclinada em favor da parte sudeste do mundo. Uma tal tomada de consciência poderia levar os EUA a aceitar um novo sistema monetário como uma oportunidade para começar de novo, de fazer marcha atrás relativamente à trajetória atual, que creio estar a levar este outrora grande país para perto de um abismo.

Em vez disso, os EUA escolheram um rumo que está a infligir grande sofrimento à nossa economia e mesmo ao nosso exército outrora sem igual. Mas, na melhor das hipóteses, apenas irá atrasar a transição. E, na pior das hipóteses, levará a uma catástrofe monetária ou militar que pode ir até ao ponto de eliminar a humanidade do planeta. É quase como se algum poder superior estivesse a olhar para baixo e a dizer, está na altura de fazer algo para provar que merece habitar este maravilhoso planeta.

Acho doloroso traçar a nossa recente trajetória, tendo durante toda a minha vida acreditado na imagem dos nossos pais fundadores e nas liberdades sagradas da religião, do discurso, da imprensa, e muito mais. Mas, a meu ver, já não somos um país livre, uma vez que os nossos decisores se deixaram envolver na preservação do que já não existe, ao ponto de se tornarem escravos de uma fantasia.

 

Os EUA Estão a Perder Ambas as Guerras

Não sei dizer se os meios de comunicação social estão a mentir conscientemente sobre o que está a acontecer ou se acreditam nas várias narrativas que estão a ser rodadas pelos corretores de poder do país. O que parece claro é que estamos atualmente a travar duas guerras. Uma é uma guerra monetária, a outra é a guerra militar na Ucrânia. E estamos a perder ambas…

Além disso, está a tornar-se cada vez mais claro que estas guerras são as últimas que o Ocidente coletivo irá combater. Depois da Ucrânia, ficará claro que lutar pela unipolaridade é o mesmo que lutar pela destruição mundial.

Um ponto de dados que se destaca é a comparação do desempenho da economia dos EUA com o da Rússia. A diferença é tão gritante – a favor da Rússia – que nem mesmo as fontes mais pró-ocidentais, como o Economista, a podem encobrir. Num breve artigo na edição de 15 de Outubro, a revista mostra como foi difícil admitir a verdade, mas com uma relutância quase risível conseguiu fazê-lo.

O artigo começa: “Hoje em dia os russos não têm muito de que se vangloriar” e continua nesta linha por mais alguns três parágrafos. Depois vem o choque, no penúltimo parágrafo: “Apesar destes problemas, a recessão chegou provavelmente agora ao fim“. Citando as estatísticas da Goldman Sachs, que rastreia a atividade corrente como as compras, os transportes e outras variáveis que podem ser verificadas por satélites e outras ferramentas, concluiu que a Rússia emergiu de uma recessão, uma recessão que na realidade começou em 2021 e parece ter terminado no início de 2022.

Embora não dando números exatos, o artigo inclui um gráfico que sugere que ao longo dos últimos meses a economia russa tem vindo a crescer um pouco mais de 4%. Alguns diriam que isso é típico de um boom económico.

Absurdamente, no entanto, a própria avaliação da revista é que, durante o ano, a economia russa irá decair 3%-4%. (Goldman Sachs não é citado como fonte deste absurdo). Já notei anteriormente que provas incluindo o rublo forte e a descida das taxas de juro da Rússia sugerem que a economia russa era muito mais forte do que estava a ser pintada no Ocidente. Mas fiquei surpreendido ao ler quão forte se tinha tornado, em contraste flagrante com as economias dos EUA e da Europa. Torna claro até que ponto a nossa principal arma monetária, as sanções, se tornou um bumerangue.

A forma como a guerra militar é coberta pelos meios de comunicação social suscita sentimentos ainda mais fortes de repugnância e incredulidade. A repugnância vem da ênfase na retidão, na moralidade de defender a Ucrânia – pintando-a como uma competição entre ucranianos decentes e uma Rússia maligna e terrorista, liderada pelo seu líder nazi, o indizível Vladimir Putin. (Um artigo recente no New York Times acusava os russos de bombardear civis em Kherson, uma cidade ocupada e controlada pela Rússia. A cidade, tal como mencionado abaixo, foi evacuada e está atualmente ocupada apenas por militares russos).

Se detetou sarcasmo no que leu, não está enganado. Certamente não vejo Putin como um santo. Mas também não o vejo como um monstro autocrático inclinado a destruir a civilização ocidental. Quando assumiu o poder em 2000, ele queria aderir à NATO e não era contra eleições democráticas na Rússia. Vale a pena ouvir entrevistas, disponíveis no YouTube, com Jeffery Sachs, o conceituado economista que dirige um instituto na Universidade de Columbia para a promoção do desenvolvimento económico e preside a um comité da ONU dedicado ao desenvolvimento mundial. No final da Guerra Fria, Sachs, trabalhando sob os auspícios da ONU e com as administrações dos primeiros Bush e Clinton, tinha a tarefa de transformar a Rússia e a Polónia em democracias. Foi bem sucedido com a Polónia, mas falhou com a Rússia.

Sachs deixa claro que enquanto os Estados Unidos estavam prontos para ajudar a Polónia, recusou-se a levantar um dedo para ajudar a Rússia. Antes da invasão russa da Ucrânia, Sachs suplicou a Washington que acedesse ao único pedido de paz de Putin, que era o de prometer que a Ucrânia nunca faria parte da NATO, algo que levaria a Rússia a ficar rodeada por membros da NATO e a situação a transformar-se numa imagem espelho da crise dos mísseis cubanos. Apesar da estatura e dos conhecimentos de Sachs, o pedido foi negado sem qualificações ou razões…

Em quase todas as situações é possível encontrar vestígios de humor. Em Outubro, realizou-se na Alemanha a Cimeira da Governança Progressista. A cimeira, que contou com uma introdução em vídeo do Chanceler alemão Olaf Scholz, reúne anualmente para exaltar os méritos de um mundo unipolar em que todos os países partilham os mesmos valores e retidão moral que definem os EUA. Não percebo bem como é que os neoconservadores e os neoliberais conseguiram unir-se sob a rubrica do “progressismo”. Mas eles conseguiram-no, e hoje a ala neoliberal é talvez melhor representada pela conhecida colunista e comentarista Anne Applebaum, que escreve para o Atlantic.

Liderada pelos EUA, a ajuda ocidental à Ucrânia ascende a um número um pouco tímido de 100 mil milhões de dólares e isto não acabou. De facto, os neoconservadores/liberais no Congresso querem acrescentar mais 50 mil milhões de dólares ao total antes das eleições a meio do mandato. Um resultado de toda esta ajuda é que o Ocidente ficou sem armas, literalmente. Os inventários de armas são tão baixos que todas as armas destinadas a mudar o jogo estão a ser substituídas por armamento cuja proveniência, em alguns casos, é a Segunda Guerra Mundial. Se achar isto difícil de acreditar, a fonte são comentários do Secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, bem como vários briefings do Pentágono.

Num grupo de discussão, surgiu a questão da razão pela qual o Ocidente já não entregava tanques modernos à Ucrânia, à qual Anne Applebaum acrescentou uma nova razão pela qual a Ucrânia está a perder tanto. Os seus comentários estão disponíveis no canal do YouTube, Progressive Zentrum.

Respondendo a uma pergunta da audiência sobre a razão pela qual a Alemanha deixou de entregar tanques avançados à Ucrânia, disse ela: “Estive na Alemanha alguns dias, e é verdade que a questão dos tanques continua a surgir. E tenho-me perguntado porque é que eles não estão a ser entregues… há algo de mais profundo… isto não é exclusivo da Alemanha, temos a mesma coisa nos Estados Unidos e noutros lugares… queremos realmente que os ucranianos ganhem… estamos preparados mentalmente para que os ucranianos ganhem… como é que isso irá afetar as relações de poder… como é que irá mudar a Europa, como é que irá mudar o equilíbrio de poder… e particularmente desde a bem sucedida ofensiva de há várias semanas atrás essa possibilidade tornou-se mais real, acredito que a situação com os tanques está precisamente ligada a isto”.

Estes comentários soam como algo do Dr. Strangelove de Stanley Kubrick, o brilhante filme de humor negro sobre a Guerra Fria. O mais significativo é a confissão tácita da Applebaum de que as coisas não estão a correr bem para a Ucrânia na guerra. Mas dizer que os baixos inventários de tanques avançados nada têm a ver com isso é ridículo, e dizer que a psicologia – e ela invoca Freud no início da sua resposta – que não estamos psicologicamente preparados para a vitória – é, no limite, insano.

Supostamente não vamos fornecer tanques avançados devido a estes receios mas – pelo menos aqueles no Congresso que apoiam o ponto de vista da Applebaum – estão a procurar acrescentar 50 mil milhões de dólares em ajuda, evidentemente para aumentar o seu receio de ganhar. Entretanto, continuamos a ignorar a crescente miséria no nosso próprio país, com o financiamento adicional para a Ucrânia a reforçar certamente problemas já intransponíveis para o Fed.

Duvido que Freud ou qualquer outra pessoa tivesse uma resposta. Esta nova narrativa nasce do desespero. Posso facilmente imaginar que um terceiro considere este tipo de resposta totalmente irracional e limítrofe de um tipo de loucura que não impediria quase nada por parte do Ocidente para mudar a situação.

Desde os comentários da Applebaum, a Rússia tem visado com mísseis de alta precisão as infraestruturas energéticas ucranianas, deixando toda a rede elétrica em perigo. A ofensiva de sucesso de que ela fala está a ser invertida, uma vez que a Rússia mobilizou mais militares seus. E com os referendos, toda a operação da Ucrânia tem estado exclusivamente sob controlo militar russo, com as milícias em Donbas e outras regiões pró-russas da Ucrânia a responderem agora ao comando central russo. Pela primeira vez desde que a guerra começou, a Rússia tem tropas suficientes tanto para prosseguir os combates como para proteger os enclaves russos dos ataques civis dos ucranianos.

A minha própria ideia é que comentários como os de Applebaum deixaram claro a Putin que não se pode contentar com os seus objetivos originais, que eram a defesa das áreas de língua russa. Numa recente conferência de imprensa, ele foi pressionado sobre se pensava que a Ucrânia ainda seria uma nação depois da partida da Rússia. Disse que inicialmente o objetivo da Rússia era proteger as províncias de língua russa, e ficou por aqui na sua resposta. Putin, um advogado de formação e doutorado em economia, é conhecido pela sua precisão de discurso. Colocar os seus objetivos iniciais no passado pode facilmente ser visto como significando que quer não só o Leste da Ucrânia, mas também destruir o governo de Kiev. É de salientar que a Polónia já desenhou mapas que incluem que partes da Ucrânia ocidental irá obter…

A situação na Ucrânia está a tornar o Ocidente cada vez mais desesperado. Há rumores de todos os tipos a circular, e não há forma de distinguir entre as ameaças de um Ocidente desesperado e a forma como a Rússia está a responder. Os factos no terreno são tudo o que podemos dispor. Atualmente, duas cidades estão a ser evacuadas, a cidade russa de Kherson e a cidade ucraniana, Nikolaev. A Rússia diz que a evacuação de Kherson é temporária e está a ser feita para proteger os cidadãos de um ato terrorista numa barragem, o que poderia resultar numa inundação temporária mas perigosa de Kherson.

Até agora, a maior parte dos principais atos terroristas associados à guerra foram levados a cabo pela Ucrânia ou pelo Ocidente. Isto foi claramente verdade em relação ao ataque à ponte que liga a Crimeia a outras partes da Ucrânia, uma vez que não faria sentido a Rússia fazer explodir uma ponte estratégica utilizada tanto para operações comerciais como militares, o que fez com que a Rússia temesse outros ataques terroristas, tais como explodir uma barragem. Os civis em Kherson estão a ser largamente substituídos por tropas militares russas.

Retomar Kherson tem sido visto como um esforço de última oportunidade por parte da Ucrânia para fazer uma declaração militar, por muito efémero que possa ser. Vale a pena mencionar que a Rússia está bem encaminhada para retomar o território que a Ucrânia “ganhou” há várias semanas.

Por outras palavras, com ou sem ato terrorista, a Rússia pretende defender Kherson. Por outro lado, o presidente da câmara de Nikolaev disse a todos os cidadãos da cidade para evacuarem imediatamente e permanecerem afastados até que a guerra tenha terminado. Esta parece ser uma afirmação clara de que os russos estão a chegar e a chegar rapidamente. Nikolaev é importante em si mesma, mas ainda mais como porta de entrada para Odessa, cuja captura deixaria a Ucrânia sem um porto no Mar Negro e completamente bloqueada.

Uma vez que o desespero inerente à situação, espera-se, conduza a negociações, os russos embarcaram na captura do mínimo necessário para terminarem com uma Ucrânia que não represente qualquer ameaça para eles. Isso resultará, também, no controlo russo sobre grande parte da grande dotação de recursos naturais da Ucrânia. Nada é certo, mas neste momento o resultado mais provável é que a guerra terminará ou com a Ucrânia deixando de ser um país ou com a Rússia controlando as suas partes mais importantes.

 

Entretanto desenrola-se um cenário económico de pesadelo para o Ocidente

O Ocidente vê-se confrontado com um cenário económico de pesadelo que contribui para a nossa incapacidade de impedir o sucesso russo na Ucrânia. O Fed é impotente para combater a inflação se esta for causada por uma profunda escassez de oferta, seja de recursos naturais ou de mão-de-obra qualificada – e atualmente, temos ambos. Ainda assim, o Fed aumentou as taxas de juro muito acima dos níveis de outras grandes economias, ao mesmo tempo que se tornou num vendedor, e não num comprador, de dívidas a longo prazo. Esta política monetária restritiva e histórico levou a um dólar em alta, o que deixou outras moedas, especialmente o euro e o iene, em mínimos plurianuais. O rublo, apesar dos cortes nas taxas de juro russas, tem sido uma das poucas moedas a superar o dólar – prova da importância dos recursos. O yuan enfraqueceu, mas apenas o suficiente para que a China se mantenha um exportador altamente competitivo.

Se acrescentarmos a isto um endividamento recorde em todos os sectores da economia americana somos confrontados com uma variedade de potenciais círculos viciosos que poderiam paralisar a economia americana. Os problemas aqui são acentuadamente amplificados pelos problemas ainda mais difíceis que a Europa enfrenta. A queda acentuada do euro, por exemplo, torna praticamente incomportável para os europeus a importação de itens críticos dos EUA. Recentemente, os europeus queixaram-se que estavam a comprar GNL a preço muitas vezes superior ao preço do gás russo. Há uma ameaça constante de uma crise de liquidez envolvendo declínios descontrolados das obrigações americanas, e ganhos comensuráveis nos rendimentos, uma vez que investidores estrangeiros vendem obrigações para obter dólares muito necessários. Existe também o risco de ciclos de retorno negativos que poderiam enviar a economia numa espiral, como aconteceu em 2008, quando os preços da habitação entraram em colapso. E, como sempre, existe o risco de algum problema desconhecido que parece surgir de repente.

Qualquer tentativa séria de voltar a ter a inflação de regresso aos níveis observados durante a maior parte do século é um bilhete para entrar numa catástrofe. Há um nível de taxas de juro que levará à venda descontrolada de obrigações americanas, ou a uma queda massiva no setor do imobiliário na habitação, ou quem sabe em quê. Como já disse anteriormente, o período atual pode vir a assemelhar-se aos anos setenta sobre os esteroides. Nos anos 70, os nossos problemas resultaram de acontecimentos específicos que eram transitórios: o boicote da OPEP e a guerra Irão-Iraque. Não há nada de efémero nas carências atuais. Isto significa que o Fed enfrenta a dura escolha de uma Depressão com um D maiúsculo, ou uma inflação com uma tórrida tendência de subida imparável

Para o bem de todos – e isto significa os EUA juntamente com o resto do mundo – a única coisa que faz sentido é uma mudança na moeda de reserva mundial, do dólar para uma moeda que conduza ao tipo de disciplina que nos faz muita falta. A sua ausência, creio eu, é a causa fundamental de os EUA deixarem de ser um país talvez o maior de sempre, para passarem a ser um país sem qualquer ancoradouro e que se dirige para o desastre. O meu palpite é que uma nova era não começará com uma catástrofe, mas antes será anunciada por uma subida acentuada do preço do ouro. Quando o Fed e os bancos perderem o controlo sobre o ouro, isso assinalará que o novo mundo começou.

Para os neoconservadores/liberais, estes tempos podem parecer tempos sombrios. Para mim, representam um tempo em que podemos escolher cooperar com países que agora vemos como inimigos, no quadro da nossa atual visão do mundo, que é mais uma narrativa fantástica do que a realidade. Especificamente, participaríamos em duas grandes organizações, uma das quais surgiu no início do século e a outra na década de 1970.

Estas organizações são a Organização para a Cooperação de Xangai (acrónimo em inglês a SCO) e o conjunto de países ditos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul). Os seus membros, juntamente com os países que se candidataram à adesão, dão-lhes uma massa crítica em termos de população global, área terrestre global, e, por uma larga margem, dimensão económica. A China e a Rússia são membros de ambas. Os membros atuais e os que se candidatam à adesão vão da Turquia ao Irão, à Arábia Saudita e aos EAU e provavelmente outros que ainda não foram citados.

O maior dos dois grupos é a SCO, cujo objetivo é o crescimento económico e a segurança para proteger esse crescimento. O que é verdadeiramente importante nesta organização é o facto de ter reunido países com religiões, políticas e culturas completamente diferentes, mostrando que unir para a segurança e crescimento económico não significa comprometer a soberania de um país. O Paquistão e a Índia aderiram à SCO nos anos 90. Embora ambos os países tenham formas democráticas de governo, o Paquistão é um Estado muçulmano e a Índia um Estado hindu. Estas diferenças levaram a conflitos intensos, incluindo a tomada relativamente recente pela Índia de um grande pedaço de Caxemira, enquanto os muçulmanos na Índia têm cada vez menos direitos que os hindus.

Depois há o Irão e a Arábia Saudita, ambos quase certos de se tornarem membros.

Embora ambos os países sejam autocracias, dificilmente são amigos. Incluindo os EAU, que se candidatam a membro, a SCO incluirá em breve quatro membros da OPEP+, membros que fornecem pelo menos 70% da produção petrolífera dos cartéis. Não é irrealista pensar ver as relações desgastadas, se não quebradas, entre os sauditas e os EUA como prova de quão importante pode ser a cooperação.

Voltando à Europa, tanto Scholz na Alemanha como Macron na França planeiam viajar para a China em Novembro para reuniões individuais com Xi Jinping. Não faço ideia do que está na agenda, mas não me surpreenderia se as discussões incluíssem possíveis formas de aderir à SCO. Afinal de contas, a Turquia, que se candidata à adesão à SCO, é membro da NATO, embora não faça parte da zona euro. Além disso, num novo mundo, o euro – e esperemos que o dólar – fará provavelmente parte de uma nova moeda inclusiva que provavelmente estará sob os auspícios da SCO ou dos BRICS, talvez com a ajuda do FMI.

Pode haver outra razão convincente para que a França e especialmente a Alemanha estejam a considerar reforçar alianças com parceiros comerciais importantes fora dos EUA. Parece quase certo que os EUA tiveram um papel importante no ataque aos oleodutos Nord Stream, um ato terrorista que é um dos maiores alguma vez cometido por um ator estatal. O facto de um membro de uma aliança ter cometido tal ato terrorista contra outro membro é notável. Evidentemente, tornámo-nos tão obcecados pela Rússia e pelas ameaças à nossa hegemonia que não pararemos por nada, incluindo ações horríveis destinadas a tornar os aliados mais dependentes de nós.

A destruição de uma grande secção do gasoduto deixa provavelmente a Alemanha permanentemente dependente de fontes de energia muito mais caras do que anteriormente e aumenta o já elevado potencial da Alemanha para perder grande parte da sua base industrial. Os preços competitivos da energia são críticos para manter uma vantagem de fabrico, por mais qualificada que seja a sua engenharia. O resultado seria tornar a Alemanha mais dependente dos EUA do que nunca.

As provas do papel dos EUA começaram quase imediatamente após o ataque com um tuit do proeminente político polaco Radoslaw Sikorski, que desempenhou muitos papéis para múltiplos governos dentro da Polónia, incluindo o de ministro da Defesa e de Estado. Atualmente é um membro do Parlamento Europeu. Os polacos, para dizê-lo suavemente, não têm fortes laços históricos nem com a Rússia nem com a Alemanha, os países que financiaram esta importante peça de infraestrutura vital.

Ao mesmo tempo, Sikorski tem relações estreitas com os EUA, ou pelo menos com um estrato que alguns considerariam o estado profundo. A sua esposa, que vive na Polónia, é Anne Applebaum, uma das principais neoconservadoras/liberais e uma figura central na definição da missão dos EUA de espalhar a “democracia” pelo mundo. Isto não é prova de que Sikorski teria qualquer conhecimento especial sobre o evento, mas é altamente sugestivo. O seu tuit, que apresentava a água a brotar no oceano como o fez após o ataque, foi legendado: “Obrigado U.S.”.

Mas há mais do que apenas este tuit. Inicialmente, a explosão foi atribuída à Rússia. Mas aquela peça de propaganda, de que a Rússia iria explodir a sua própria infraestrutura, era demasiado ridícula. Depois, duas cassetes ficaram disponíveis. A primeira, antes da invasão russa da Ucrânia, foi de uma conferência de imprensa na qual o Presidente Biden disse sem rodeios que os oleodutos Nord Stream deixariam de estar operacionais. Quando lhe perguntaram como poderia ele ter tanta certeza, ele respondeu qualquer coisa como “eu sei, é tudo”.

Esta peça de potencial maldade (um eufemismo para o terrorismo) foi então ecoada por Victoria Nuland, que partilha uma influência comparável dentro da narrativa dos neoconservadores/liberais, como Anne Applebaum. Finalmente, houve a recusa da Suécia, em cujas águas o ato terrorista foi cometido, em dar à Rússia acesso a informações da sua investigação, cujos resultados não divulgaram.

Finalmente, no que poderia ser a pista mais importante à luz da reunião do próximo mês entre Scholz e Xi, foi a declaração da Alemanha de que conhecia os culpados mas que, devido a preocupações de segurança nacional, não divulgaria a informação. Não é de admirar. A destruição destes dois oleodutos pelos EUA, talvez com alguma ajuda, não é uma ação que se esperaria de um aliado, mas sim de um inimigo. As preocupações de segurança nacional poderiam basear-se em receios sobre o que os EUA poderiam fazer a seguir.

Embora não aceite apostas sobre a Alemanha ou qualquer outro país da zona euro quanto a aderir ao SCO, isso não é tão rebuscado como se poderia supor. A decisão, que acaba de ser comunicada, de permitir que Cosco, o gigante dos transportes marítimos da China, assuma uma participação de quase 25% no porto mais importante da Alemanha, que foi impulsionada por Scholz apesar da forte oposição no seio do governo alemão e por muitos líderes europeus, pode ser um sinal de que num futuro não muito distante, a Rússia deixará de ser o único membro europeu da SCO. Mais uma vez, o canário mais provável na mina de carvão que sinaliza o fim da unipolaridade será o ouro.

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Dr. Stephen Leeb [1946-] é um economista americano autor financeiro, gestor de património e editor de uma família de boletins informativos de investimento. Presidente e Director de Investimento da Leeb Capital Management – Stephen Leeb é um prolífico autor, consultor de investimento e gestor de dinheiro que tem vindo a analisar os mercados financeiros há mais de 40 anos. É conhecido pela sua presciência em ligar os pontos entre tendências ocultas ou negligenciadas – macroeconómicas, científicas e geopolíticas – e em descrever com precisão as implicações do investimento, indo muitas vezes contra a sabedoria convencional. É autor de nove livros sobre investimento e tendências geopolíticas, incluindo o seu livro mais recente, China’s Rise and the New Age of Gold: How Investors Can Profit from a Changing World (2020, McGraw-Hill Education). É fundador e editor da premiada carta de investimento The Complete Investor, publicada pela Capitol Information Group, uma editora financeira sediada em Washington, D.C.. Stephen é director de investimentos da sua própria empresa de gestão de fortunas sediada em Nova Iorque. É licenciado em Economia pela Wharton School of Business, mestre em Matemática e doutorado em Psicologia pela Universidade do Illinois.

 

 

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