A Esquerda não oficial e a guerra na Ucrânia — Textos 2. “A Escondida saída da Crise da Ucrânia está bem à vista, à frente dos nossos olhos” e “Ucrânia: A desescalada e a negociação são a única forma de sair desta crise”.  Por Katrina Vanden Heuvel

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota 

12 m de leitura

Textos 2. “A Escondida saída da Crise da Ucrânia está bem à vista, à frente dos nossos olhos” e “Ucrânia: A desescalada e a negociação são a única forma de sair desta crise”  

 Por Katrina Vanden Heuvel


A Escondida saída da Crise da Ucrânia está bem à vista, à frente dos nossos olhos

Publicado por  em 6 de Fevereiro de 2022 (original aqui)

Publicado originalmente por  em 1 de Fevereiro de 2022 (aqui)

 

A crise sobre a Ucrânia torna-se simultaneamente cada vez mais perigosa e mais absurda. Há, no entanto, um vislumbre de esperança.

 

[7th Army Training Command / CC BY 2.0]

A crise sobre a Ucrânia torna-se simultaneamente cada vez mais perigosa e mais absurda. A Rússia juntou mais de 100.000 soldados na fronteira ucraniana, exigindo que a NATO não admita a Ucrânia e pare com a sua expansão a leste. Os responsáveis russos querem que essas exigências sejam respondidas imediatamente, mas o Presidente Vladimir Putin também diz que não vai fazer guerra.

A administração Biden avisa que se trata de uma “guerra iminente”, mas o presidente da Ucrânia diz à administração para se acalmar, que os falsos alarmes estão a prejudicar a economia do país. Embora o Presidente Biden, os seus dois predecessores, Alemanha e França, tenham deixado claro que a Ucrânia não é um interesse nacional pelo qual valha a pena lutar, a administração Biden recusa-se a dizer aos russos que não fará o que não tem intenção de fazer, mesmo correndo o risco de um conflito armado.

A guerra é inimaginável.

Os russos ganhariam qualquer confronto convencional, mas a um custo horrendo. Os ucranianos sofreriam baixas massivas  e a ruína económica. Se os Estados Unidos e a Europa impusessem as sanções que estão a planear, o povo russo sofreria, mas também os franceses e especialmente os alemães, uma vez que a Rússia fornece grande parte do seu abastecimento energético.

Na Rússia, Putin já está sob fogo por não ter tomado a região de Donbas oriental da Ucrânia em 2014, quando os militares russos poderiam ter entrado. Em Washington, Biden está debaixo de fogo por não ter sido suficientemente duro. Os falcões de ambos os lados vendem falsas analogias históricas e lições, assumindo que o outro lado vai recuar. A sua estratégia é baseada em fanfarronadas e em orações.

Haverá alguma saída para esta crise excessivamente perigosa? Talvez a única esperança seja o acordo de Minsk II, forjado em Fevereiro de 2015 entre a Rússia e a Ucrânia, mediado pela Alemanha e França, e aprovado pela União Europeia e pelas Nações Unidas.

O acordo apelava essencialmente a um reconhecimento da realidade jurídica. Garantiu uma Ucrânia independente no controlo das suas próprias fronteiras, com a saída dos “voluntários” russos, os separatistas desarmados e a saída dos militares ucranianos do Donbas. Prometia total autonomia para a região russófona de Donbas no seio de uma federação ucraniana descentralizada, inscrita numa constituição revista.

Samantha Power, então embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, disse no Conselho de Segurança em Junho de 2015, “O consenso aqui, e na comunidade internacional, continua a ser que a implementação de Minsk é a única saída para este conflito mortífero”.

Obviamente, o acordo previsto pelos acordos de Minsk II não se concretizou. O governo ucraniano recusou-se a avançar na autonomia do Donbas sem o desarmamento prévio dos separatistas. Os russos recusaram-se a retirar os seus voluntários; os separatistas exigiram primeiro os referendos e as alterações constitucionais antes do desarmamento. Os Estados Unidos recusaram-se a pressionar a Ucrânia a avançar com o acordo.

Minsk II é um compromisso. Como tal, requer escolhas difíceis por parte de todos os lados. Idealmente, o acordo seria acompanhado por um tratado entre a Rússia e os Estados Unidos e a Europa garantindo a neutralidade para a Ucrânia, semelhante à neutralidade forçada da Áustria desde os primeiros anos da Guerra Fria.

Os ucranianos teriam de desistir das aspirações de aderir à NATO , e aceitar uma região autónoma de Donbas. A Rússia teria de concordar com a independência ucraniana e desistir de qualquer esforço para tornar o país parte de qualquer aliança dominada pela Rússia. Tal como Anatol Lieven do Quincy Institute observa, esta seria uma concessão importante: Putin considerou a adesão ucraniana à União Económica Eurasiática como essencial para neutralizar a União Europeia.

Qual é a alternativa? Apesar de toda a gritaria dos falcões da guerra, não há nenhuma à vista. Os russos já avisaram que o status quo não pode continuar. As sanções económicas não serão suficientes para forçar a Rússia a permitir que a Ucrânia faça parte do Ocidente. A Ucrânia não pode por si só retomar a sua região de Donbas. Nem os Estados Unidos nem outros países da NATO têm qualquer interesse em lutar pela Ucrânia. Mas a Rússia não pode anexar à força o Donbas, quanto mais a Ucrânia, sem custos devastadores para ambos os lados e para o conjunto da Europa.

Apesar de toda a sua histeria sobre a guerra iminente, é evidente que a administração Biden pensa que Putin está a fazer bluff, que não arriscará os danos económicos que as ameaçadas “sanções severas” imporiam. (por outro lado, também nem a Alemanha nem a França arriscariam.) Se isso for verdade, e Putin não agir, o resultado é a continuação da guerra de baixo nível no Donbas, sem fim à vista. A Rússia mantém a Ucrânia fora da NATO , não tendo a Ucrânia qualquer hipótese de desenvolver nem uma economia sólida nem uma democracia estável. E, claro, o perigo é que Putin enfrente uma pressão crescente por parte de fações mais beligerantes dentro da Rússia. É difícil imaginar porque é que isso deveria ser considerado uma vitória.

Em Paris, na semana passada, sete anos após o acordo de Minsk II, a Ucrânia e a Rússia realizaram uma maratona de conversações de oito horas mediadas pela Alemanha e França. Uma nova ronda de “conversações de Minsk” terá lugar em Berlim, na segunda semana de Fevereiro. Ao confrontarmo-nos com o pior confronto EUA-Rússia em décadas, não será tempo de os Estados Unidos se juntarem aos seus aliados para reavivar um caminho para um acordo que possa conduzir a uma paz estável?

 

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Ucrânia: A desescalada e a negociação são a única forma de sair desta crise

Publicado por  em 27 de fevereiro de 2022 (original aqui)

 

A GUERRA é uma tragédia, um crime, e uma derrota. Os cidadãos do mundo deveriam condenar a decisão do Presidente russo Vladimir Putin de abandonar o caminho da diplomacia, atacando e empreendendo “operações militares especiais” na Ucrânia. Estas acções violam o direito internacional e alimentam uma perigosa escalada de violência.

Devemos exortar todas as partes a cessar imediatamente as hostilidades, a desescalar e a procurar uma solução diplomática para mitigar o risco de uma guerra em larga escala e de um impensável conflito direto entre as duas maiores potências nucleares do mundo.

O caminho para a paz e resolução é que todas as partes da crise na Ucrânia procurem a resolução através de meios diplomáticos, respeitando o direito internacional e as fronteiras internacionais. As ações de Putin são indefensáveis, mas a responsabilidade por esta crise é amplamente partilhada. Muitos têm advertido repetidamente que a extensão da NATO às fronteiras da Rússia produziria inevitavelmente uma reação feroz e têm igualmente criticado a total rejeição por parte da NATO das propostas de segurança da Rússia, condenando a arrogância que leva as autoridades americanas a afirmarem que têm o direito de fazer o que desejam em todo o mundo, mesmo em áreas, como a Ucrânia, que são muito mais importantes para os outros do que para os EUA.

A expansão da NATO forneceu o contexto para esta crise – um facto frequentemente ignorado pelos nossos meios de comunicação social. Há um grau de irracionalidade e irresponsabilidade em oferecer a futura adesão à NATO à Ucrânia – quando sucessivos presidentes dos EUA e os nossos aliados da NATO têm demonstrado que não têm o mínimo interesse em lutar para defender a Ucrânia. Em vez disso, a exigência de Putin de que a Ucrânia permanecesse fora da NATO – essencialmente que o status quo fosse codificado – foi desprezada como violando o “princípio” da NATO em admitir quem quisesse.

Um resultado imediato foi o de encorajar a irresponsabilidade paralela na Ucrânia. O Presidente Volodymyr Zelensky prometeu aos eleitores, quando concorreu à presidência da Ucrânia em 2019, que iria prosseguir um caminho para a paz e acabar com a guerra no Donbas. Contudo, ao tomar posse, o seu governo recusou-se a implementar as disposições dos Protocolos de Minsk de 2015 – assinados pela Rússia, Ucrânia, França, Alemanha e UE – que essencialmente teriam garantido a soberania e integridade territorial ucranianas em troca da neutralidade ucraniana.

Agora, infelizmente, as ações ilegais da Rússia vão animar os falcões e os armamentistas de todos os lados. Os estrategas de poltrona já apelam à duplicação do orçamento militar dos EUA, para agarrar a “oportunidade estratégica” de sangrar Putin na Ucrânia, enquanto pressionam os europeus a construir as suas forças militares.

No meio dos tambores da guerra, não devemos perder de vista o horror humano que se seguirá, as deslocações em massa, o impacto das sanções não só sobre os russos mas também sobre os cidadãos na Europa, nos Estados Unidos, e noutros locais.

Os ucranianos no Leste já estão a sofrer. Se a Rússia ocupar as repúblicas separatistas, ver-se-á confrontada com conflitos e revoltas perpétuas, alimentadas pelos EUA e pela NATO. E se tentar ocupar toda a Ucrânia, poderá enfrentar uma guerra de guerrilha prolongada, muito mais dispendiosa do que a derrocada soviética no Afeganistão. As sanções “punitivas” do Ocidente irão prejudicar a Rússia, os oligarcas, e os russos comuns – mas também a Europa, os Estados Unidos, e todos aqueles da economia global. Os preços do petróleo – que já subiram mais de 100 dólares por barril – são um prenúncio disso. Uma Guerra Fria reavivada e mais perigosa devastará os orçamentos domésticos aqui e na Europa – e os recursos e a atenção necessários para enfrentar pandemias, a crise climática, e a desigualdade que debilita fortemente as nossas sociedades .

O que é necessário não é uma corrida às armas e às fanfarronices beligerantes, mas um regresso a intensas negociações – na ONU, na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, e entre os signatários dos Protocolos de Minsk. É tempo de reconhecer que subsistem opções que, se prosseguidas de boa fé, poderiam levar a atual crise a uma conclusão pacífica.

A crise pode e deve ser finalmente resolvida por uma declaração de neutralidade ucraniana e pela retirada das forças russas das Donbas. Para esse efeito, devemos aplaudir a contenção demonstrada tanto pela França como pela Alemanha, e apoiar particularmente os esforços do Presidente Emmanuel Macron para pôr fim à crise. A NATO ou a OSCE poderiam tomar a iniciativa valiosa de abrir negociações para a criação de uma nova arquitetura de segurança resiliente na Europa, que envolva a Rússia em vez de a ameaçar, e tranquilize os seus vizinhos em vez de militarizar as relações. Isto poderia incluir, sensatamente, o fim da expansão da NATO e um regresso às Forças Convencionais na Europa e aos tratados sobre Mísseis Balísticos Intercontinentais.

O Presidente Biden deve reconhecer que os interesses americanos na Ucrânia nunca serão superiores aos da Rússia; os EUA e a NATO não podem e não vão ganhar uma guerra no terreno contra a Rússia no seu próprio quintal; é pouco provável que as sanções prevaleçam e podem de facto prejudicar a economia americana.

Devemos instar o Presidente Biden e a sua administração a encorajar e, se necessário, ajudar a facilitar o árduo mas necessário trabalho diplomático que está a ser levado a cabo por Paris e Berlim.

 

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A autora: Katrina Vanden Heuvel [1959-] é a diretora editorial de The Nation e é presidente do Comité Americano para o Acordo EUA-Rússia (ACURA). Escreve semanalmente para o The Washington Post e é frequente comentadora de política dos EUA e internacional em Democracy Now, PBS, ABC, MSNBC e CNN. É autora de Voices of Glasnost: Interviews with Gorbachev’s Reformers (1990), em colaboração com Stephen F. Cohen; editou A Just Response: The Nation on Terrorism, Democracy, and September 11, 2001 (2002); editou Taking Back America: And Taking Down the Radical Right (2004); autora de Dictionary of Republicanisms: The Indispensable Guide to What They Really Mean When They Say What They Think You Want to Hear (2005) e de The Change I Believe In: Fighting for Progress in the Age of Obama (2011). É licenciada em Ciências Políticas e História pela Universidade de Princeton.

 

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