Da ficção do que nos dizem os decisores da política económica ao que eles pretendem alcançar – um bilhete postal para os nossos dirigentes políticos lerem — Texto 1. A subida das taxas de juro: os bancos centrais a brincarem com o fogo. Por Politicoboy

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

13 min de leitura

Texto 1. A subida das taxas de juro: os bancos centrais a brincarem com o fogo 

Por Politicoboy

Publicado por  em 2 de Novembro de 2022 (ver original aqui)

 

Christine Lagarde em 2014, então diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se tornou depois presidente do Banco Central Europeu (BCE). © FMI

 

Apanhados de surpresa pela inflação, os bancos centrais norte-americano (Fed) e europeu (BCE) estão a aumentar as taxas de juro de uma forma frenética, na esperança de travar o aumento dos preços. O objectivo declarado é causar um aumento do desemprego e uma queda nos salários, como reconheceu o Presidente do Fed Jerome Powell. O risco é que a economia mundial seja mergulhada na recessão sem ser capaz de quebrar o aumento dos preços. De facto, tudo parece indicar que o aumento das taxas não poderá ter um impacto direto na inflação, cujas causas residem numa oferta insuficiente e não num excesso de procura. A ONU e Wall Street parecem agora considerar que a teimosia dos banqueiros centrais representa um sério risco para a economia global.

 

A 21 de Setembro de 2022, a Reserva Federal (Fed) aumentou a sua principal taxa diretora em 75 pontos base. Este foi o 7º aumento em menos de um ano, aumentando gradualmente a taxa diretora de 0,25% para 3,25%. Um nível não atingido desde 2007. Fala-se agora de um aumento idêntico em Novembro. Para além do valor da taxa de juro de agora, é a velocidade do aumento que é surpreendente. O Fed justificou esta nova política de contração monetária com a necessidade de controlar a inflação, que não mostra sinais de abrandamento nos Estados Unidos. Publicados a 13 de Outubro, os números de Setembro mostram um aumento de 0,4% no índice de preços, o que representa um aumento de 8,2% em relação a Setembro de 2021.

Na sequência do Fed, o Banco Central Europeu (BCE) também empreendeu uma política de aumentos de taxas que excedeu as previsões do mercado ao aumentar a sua taxa diretora em 75 pontos em Setembro, depois no mesmo montante em 27 de Outubro, contra o conselho da França e da Itália. O Financial Times observou assim uma tendência global para taxas mais elevadas observada em 20 dos principais bancos centrais. Com duas características importantes: a velocidade sem precedentes das subidas de taxas, e a determinação dos banqueiros centrais em continuar por este caminho o tempo que for necessário.

 

 

A ESCOLHA DO DESEMPREGO

Para compreender porque é que o Fed está a aumentar as taxas tão drasticamente, precisamos de voltar aos fundamentais dos modelos económicos que impulsionam a sua acção. O princípio básico da sua política monetária (ver o nosso artigo Inflation, aux origines de la doxa néolibérale) baseia-se no pressuposto de uma estreita ligação entre a taxa de desemprego e a inflação.

Segundo esta teoria, quando a taxa de desemprego é elevada, as empresas podem baixar os salários (ou conter aumentos), o que reduz o rendimento disponível das famílias, reduzindo assim o consumo e, em última análise, as pressões inflacionistas sobre os preços. Inversamente, quando o desemprego é baixo, os empregados são capazes de extrair melhores salários enquanto as empresas têm de oferecer salários mais elevados para recrutar pessoal. O rendimento das famílias aumenta, o consumo aumenta e os preços ajustam-se em alta. Haveria assim uma taxa de desemprego de equilíbrio, chamada NAIRU (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment), que manteria a inflação baixa e o crescimento económico decente. Em tempos normais, os bancos centrais tendem a ajustar as suas taxas diretoras para tentar manter o desemprego próximo da NAIRU. Isto é particularmente verdade para o Fed, cujas prerrogativas não se limitam a “assegurar a estabilidade dos preços” (como o BCE, que tem de visar uma taxa de inflação de 2%) mas também “manter o pleno emprego” e “moderar as taxas de juro de longo prazo”. De acordo com os seus modelos económicos, taxas elevadas penalizam o crédito e o investimento, levando a uma desaceleração económica e a um desemprego mais elevado. Em contrapartida, as taxas baixas devem facilitar o acesso ao crédito, ao investimento, ao consumo e, por conseguinte, ao emprego.

 

O Presidente do Fed Jerome Powell reconheceu explicitamente que a sua política conduzirá a “um período prolongado de crescimento abaixo do normal” e “um afrouxamento do mercado de trabalho” – ou seja, uma recessão e vagas de despedimentos em massa.

Em termos práticos, esta teoria implica que uma política monetária destinada a reduzir a inflação deve necessariamente conduzir a um aumento do desemprego. Jerome Powell, o Presidente do Fed, reconheceu explicitamente este facto quando declarou que a sua política de aumento das taxas levaria a “um período prolongado de crescimento abaixo do normal” e “um abrandamento do mercado de trabalho” – ou seja, um abrandamento económico que poderia levar a uma recessão e a ondas de despedimentos em massa. O Fed indicou que visa uma taxa de desemprego de 4,4% no final do ano, um ponto acima da taxa atual e mais 1,2 milhões de desempregados. Estes números mascaram uma realidade social mais dramática de queda dos salários reais e de aumento da precariedade no emprego, para além do milhão de empregos destruídos.

A decisão assumida de aumentar o desemprego poderia ser justificada – até certo ponto – se fosse realmente um mal necessário: uma pequena parte da população perderia os seus empregos e algumas empresas iriam à falência, mas toda a sociedade recuperaria o poder de compra e a estabilidade financeira.

Em tempos normais, um tal “compromisso” parece difícil de convencer as populações, como reconheceu Olivier Blanchard, antigo economista chefe do FMI e influente macroeconomista, quando falou da “dificuldade de explicar a um trabalhador que é necessário que ele perca o seu emprego para combater a inflação”. A poder escolher, um trabalhador prefere geralmente manter o seu salário, mesmo que isso signifique um corte de 8% devido à inflação, do que perder o seu emprego. Ora, se uma recessão parece agora inevitável, nada permite assegurar que conduza a uma inflação mais baixa. Isto poderia deixar os trabalhadores de todo o mundo com a peste e a cólera: uma crise económica com tudo o que ela implica e uma inflação persistente.

TAXAS MAIS ELEVADAS NÃO GARANTEM UMA INFLAÇÃO MAIS BAIXA

Questionado pela Senadora Democrata Elizabeth Warren durante uma audiência sob juramento perante o Senado dos EUA, o presidente do Fed reconheceu que a sua política de subida das taxas não teria impacto no aumento dos preços da energia e dos produtos alimentares de base. E por uma boa razão: estes bens de consumo corrente têm aquilo a que os economistas chamam uma procura “inelástica”. Por outras palavras, o seu consumo é rígido. Qualquer que seja o preço, é difícil para o consumidor deixar de encher o depósito do seu carro com gasolina, deixar de se aquecer ou de se alimentar. Powell também foi forçado a concordar com Elizabeth Warren quando esta última lhe fez notar que as tensões na cadeia de abastecimento não desapareceriam com a subida das taxas. De facto, é difícil ver como é que a escassez de produção de componentes eletrónicos que estão a fazer abrandar a produção de certos bens manufaturados poderia desaparecer em resultado de uma queda da procura que resultaria ela do abrandamento económico causado por taxas mais elevadas.

Powell admitiu na altura que a sua política visava “flexibilizar o mercado de trabalho”, ou seja, evitar um ciclo inflacionário de salários-preços em que a inflação produziria salários mais elevados que viria alimentar o aumento geral dos preços.

Mas a teoria económica do “Nairu” na qual os seus receios parecem basear-se não é válida há anos [1], como observou o economista galardoado com o Prémio Nobel, Paul Krugman. Em 2019, Jerome Powell admitiu-o durante outra audiência do Congresso, perante a eleita socialista Alexandria Ocasio-Cortes. Antes de 2020, as baixas taxas de desemprego nos EUA, Alemanha, Japão e Grã-Bretanha não tinham conduzido a uma inflação significativa, apesar das políticas monetárias expansionistas dos respetivos bancos centrais.

Os milhares de milhões criados pelos bancos centrais permaneceram, com efeito, na esfera financeira, onde a inflação no valor das ações foi de facto observada. Além disso, os baixos níveis de desemprego nos países acima mencionados mascaravam uma maior precariedade do emprego e a explosão do trabalho a tempo parcial (excluindo o Japão). Além disso, tanto na Europa como nos Estados Unidos, a taxa de sindicalização está no seu nível mais baixo. Apesar do regresso da inflação, o equilíbrio de poder entre capital e trabalho permanece desfavorável aos trabalhadores, o que torna pouco provável o aparecimento de circuitos de preços-salários resultantes de um vasto movimento social. Vimos isto recentemente em França, onde apesar da enorme capacidade negocial, os trabalhadores das refinarias foram forçados a aceitar aumentos salariais abaixo da inflação face às empresas petrolíferas que obtiveram lucros recorde.

Se os salários estão a aumentar nos Estados Unidos, isso deve-se principalmente à política proactiva de Joe Biden e aos movimentos sociais isolados e descoordenados à escala nacional. Estes aumentos continuam modestos, muito abaixo do aumento da taxa de lucro das empresas e abaixo da inflação. Além disso, ao olhar para as tendências globais, a existência de um ciclo de preços-salários é apenas marginalmente observada em alguns países.

Mais de metade da inflação observada nos EUA será proveniente do aumento das margens das empresas.

Pelo contrário, existe um consenso crescente de que a inflação atual se deve principalmente à escassez da oferta causada pela recuperação pós-covid mal antecipada pelos produtores, as tensões nas cadeias de abastecimento, a guerra na Ucrânia, as condições climatéricas e uma estratégia consciente de muitas empresas para aproveitar a crise e aumentar as suas margens através do aumento dos preços. Nos EUA em particular, há inúmeros exemplos de CEOs que admitem publicamente que a inflação constitui uma desculpa perfeita para aumentar os preços. Acredita-se que mais de metade da inflação nos EUA provém de margens empresariais mais elevadas. Um editorial recente no Financial Times instou o Fed a admitir este facto em vez de continuar a aumentar as taxas em vão.

Todos estes elementos apontam para uma inflação causada por pressões de oferta, com a procura a não exceder as tendências observadas antes do covid. Isto implica que os aumentos da taxa Fed só podem agir muito indiretamente sobre a inflação, e provavelmente à custa de uma recessão severa.

O RISCO DE UMA GRAVE RECESSÃO PREOCUPA OS MERCADOS FINANCEIROS

O debate nos mercados financeiros é essencialmente sobre a velocidade dos aumentos das taxas e a capacidade do Fed de abrandar a economia sem causar demasiados danos. Powell fala de uma “aterragem suave”, sem convencer os mercados financeiros cada vez mais críticos. Como a revista Jacobin observou, o Citigroup e a Moody’s acreditam agora que uma recessão é o resultado mais provável. O UBS disse que era “particularmente digno de nota que o Fed admita o risco de uma recessão”. No Congresso, os diretores  dos principais bancos alertaram para este facto, com Jamie Dimond (JP Morgan) a dizer que “estas subidas de taxas causarão definitivamente uma recessão e um desemprego mais elevado”. O fundo de investimento Blackrock considerou as projeções do Fed demasiado otimistas, criticando ao mesmo tempo uma estratégia descrita como “arbitragem brutal” entre preços e salários que “causará uma ampla recessão”. Acima de tudo, Blackrock não vê como a subida das taxas conterá a inflação, que considera ser o resultado de um problema de oferta.

Para Wall Street, é um aviso aos seus clientes de que uma forte depreciação dos ativos financeiros está no horizonte, se o Fed continuar no mesmo caminho. E esta preocupação vai para além das bolsas de valores. O Banco Mundial temia que “os bancos centrais sacrificassem as suas economias à recessão para controlar a inflação”. As Nações Unidas alertaram para o facto de que as políticas monetárias correm o risco de “infligir danos maiores do que a crise financeira de 2008 e a pandemia covid-19 de 2020”.

Nos Estados Unidos, a taxa hipotecária média é agora superior a 7,5%, contra 3% em 2021. Esta é a taxa mais elevada em 22 anos e está a causar sérios receios de uma quebra no mercado imobiliário, com a procura a cair face a um crédito incomportável. Uma queda acentuada neste sector poderia ter repercussões económicas e financeiras dramáticas. Tudo isto para os resultados que ainda estão para vir na frente da inflação.

As Nações Unidas alertaram para o facto  de  que as políticas monetárias correm o risco de “infligir danos maiores do que a crise financeira de 2008 e a pandemia covid-19 de 2020”.

Nos Estados Unidos, a taxa hipotecária média é agora superior a 7,5%, contra 3% em 2021. Esta é a taxa mais alta em 22 anos e está a causar sérios receios de uma queda no mercado imobiliário, com a procura a afundar face a um crédito incomportável. Uma queda acentuada neste sector poderia ter repercussões económicas e financeiras dramáticas. Tudo isto para resultados que ainda se terá de esperar para ver na frente da inflação.

As Nações Unidas advertiram que as políticas monetárias correm o risco de “infligir danos maiores do que a crise financeira de 2008 e a pandemia covid-19 de 2020”.

 

Em Setembro, o índice de preços dos EUA subiu 0,4% em comparação com Agosto, enquanto o mercado de trabalho resistiu, embora a um ritmo mais lento de criação de emprego. Mas enquanto a economia dos EUA parece estar a suportar aumentos de taxas (com exceção do mercado imobiliário), a política do Fed já está a ter um impacto negativo no resto do mundo.

De facto, as suas subidas de taxas estão a causar uma apreciação espetacular do dólar em relação a outras moedas. Isto explica-se tanto pela atratividade dos bilhetes do Tesouro federal como pelo aumento da confiança na economia americana, que parece mais capaz de lidar com a situação económica enquanto exportador líquido de matérias-primas e energia (petróleo, gás, cereais, etc.). Se a valorização do dólar permite aos americanos reduzir o preço dos bens importados e ao mesmo tempo beneficiar mais dos seus ganhos inesperados de petróleo e gás, para o resto do mundo, os efeitos são problemáticos. O dólar continua a ser a moeda internacional de troca. Assim, a queda de 20% no euro aumenta mecanicamente o preço do petróleo em 20%, mesmo antes de ter em conta o aumento deste último. A libra esterlina também perdeu mais de 20% do seu valor em relação ao dólar. Por outras palavras, o FED está a exportar inflação para todos os outros países, tanto desenvolvidos como emergentes.

Para limitar este efeito, os outros bancos centrais seguiram a liderança do Fed, aumentando as suas taxas – entre outras coisas – para defender as suas moedas. Correndo o risco de provocar uma recessão nos seus respetivos países, sem conseguir conter a inflação. A 27 de Outubro, Christine Lagarde reconheceu que “a economia da zona euro deverá abrandar significativamente no terceiro trimestre (…) a recessão está no horizonte”. No entanto, justificou um novo aumento de 75 pontos de base ao dizer que “um abrandamento da procura reduzirá a inflação e a pressão sobre os preços, particularmente os preços da energia”. Declarações que são como o método “coué” [N.T. cura baseada na auto-sugestão], tendo o BCE admitido também que a inflação não se deveu a um aumento da atividade económica ou dos salários, mas é sim devida aos preços da energia e dos alimentos, que prevê que vão continuar a aumentar. Tal como com o FED, o Banco Central Europeu admite que não tem controlo direto sobre a inflação, ao mesmo tempo que aceita o risco de conduzir a economia para a recessão.

Esta política monetária estabelece um precedente histórico preocupante: nunca antes um banco central desistiu de apoiar os seus estados-membros em tempos de guerra. O conflito entre a UE e a Rússia vem juntar-se a muitas outras crises que requerem apoio monetário. Estes incluem a crise climática, uma recessão na Alemanha que já se instalou, e o aumento dos preços da energia que ameaça o tecido industrial europeu. No entanto, os estados da Zona Euro terão de financiar o seu esforço de guerra através dos mercados financeiros, a taxas crescentes devido à política monetária do BCE, que também está a pedir aos estados que reduzam a sua dívida. Todos os ingredientes estão agora reunidos para provocar uma violenta recessão.

Além disso, o aumento das taxas de juro reduzirá a capacidade do sector privado e dos governos para investir nas áreas essenciais da transição energética, adaptação às alterações climáticas e infraestruturas. O aumento do peso da dívida irá também reduzir a margem de manobra dos Estados e das autoridades locais em termos de políticas sociais, ou mesmo exigir cortes orçamentais drásticos nos serviços públicos e na proteção social. A França está tanto mais exposta quanto o governo Macron emitiu obrigações indexadas à inflação, uma decisão que é incompreensível, a menos que queira esvaziar o Tesouro Público para enriquecer os investidores privados, como admitiu implicitamente Bruno Le Maire perante o Parlamento.

 

ISTO É INCOMPREENSÍVEL, A MENOS QUE SEJA ANALISADO COMO POLÍTICA DE CLASSE.

Nos EUA, a ação do Fed pode ser analisada como um esforço para proteger os detentores de capital da inflação, ao mesmo tempo que se quebra a capacidade do movimento laboral para obter melhores condições de trabalho. Greves e movimentos de sindicalização, ainda tímidos e confinados a certas grandes empresas e sectores industriais (transporte ferroviário de mercadorias, transporte rodoviário, Amazon, Starbucks…) já provocaram uma reação violenta do patronato. E os comentários de Jerome Powell sobre a importância de tornar o mercado de trabalho mais flexível são suficientemente explícitos. Em Junho, tinha afirmado que a relação de forças capital/trabalho era “demasiado favorável aos trabalhadores”, confirmando que a sua política monetária visa também reduzir a capacidade negocial dos sindicatos, e não apenas “baixar os salários para baixar a inflação”, como já tinha explicado em Maio. Contudo, os economistas do Fed acreditam que a política monetária de Powell causará uma grave recessão, de acordo com as revelações de  Intercept. Isto não impede  Powell de continuar a aumentar as taxas. Além disso, o Fed está sujeito a uma intensa pressão por parte de grandes bancos privados e confederações patronais, que tinham gasto milhões de dólares para obter a nomeação do Powell.

Mas para além do reflexo de classe, que também pode ser encontrado no BCE, a outra explicação para a teimosia em aumentar as taxas é a falta de alternativas aparentes. A menos que intervenham diretamente na economia, financiando iniciativas públicas destinadas a agir sobre as causas profundas da inflação (investimento em infraestruturas, na transição energética, etc.) e perante a relativa inação dos governos, os bancos centrais confiam no que sabem melhor: agir sobre a sua taxa chave. Por vezes sem acreditar, como o Financial Times observou. O principal jornal económico de referência relatou que Isabel Schnabel, uma das principais economistas do BCE, acreditava que os modelos do Banco Central Europeu já não eram válidos e que a subida dos preços seria sustentável, apesar da subida das taxas.

Olhar para outras formas de atuação poria em causa o modelo neoliberal, e. no caso do BCE, poria em causa a lógica dos tratados europeus. Portanto, qualquer que seja a forma como se olhe para ela, esta é uma política de classe. A inflação corrói os salários e a poupança. O aumento das taxas de juro permite que o capital seja melhor remunerado ao mesmo tempo que quebra o poder de negociação dos assalariados, mantendo assim os salários baixos. Mas as consequências desta estratégia poderão escapar ao controlo dos bancos centrais, causando uma grave recessão global, com todo o sofrimento que isto implica para as classes trabalhadoras de todo o mundo.

 


Nota

[1] N.T. Teoria das chamadas “variáveis estrela” que designam conceitos como “a taxa natural de desemprego”, “crescimento do produto potencial”, “taxa de juro real neutra” que não são diretamente observáveis, nem podem ser objetivamente determinadas, ou seja, não têm economicamente qualquer sentido. Mais se parecem com as estrelas celestes.

Como dizia o saudoso Edward Hugh, conselheiro do FMI, quanto à taxa natural de desemprego (também dita NAIRU), trata-se de uma variável não observável, estipulada à vontade de quem a quer utilizar. Sobre este tema, de novo na berra, veja-se a tese de doutoramento de Margarida Antunes, um texto já antigo, veja-se a nossa série de textos expressamente sobre a NAIRU publicada em A Viagem dos Argonautas (por exemplo aqui e aqui).

Leia-se ainda o que nos diz Richard Fischer, Presidente do FED de Dallas ao perguntar: “Onde entra exatamente em jogo a política monetária neste mundo?” A sua ilustrativa resposta é: “A linguagem dos banqueiros centrais está cheia de termos sacrossantos como “hiato do produto” e “limitações de capacidade” e “a taxa natural de desemprego”, conhecida pelo seu acrónimo sucessor, “NAIRU”, a taxa de inflação não aceleradora do desemprego. Os banqueiros centrais querem que o PIB não ultrapasse o seu limite teórico, pois exceder esse limite durante muito tempo pode atiçar os fogos da inflação. Eles não querem pressionar a capacidade de produção da economia. Um fator chave da capacidade é a reserva de mão-de-obra. Existe [um artefacto dos economistas, um instrumento carregado de ideologia], uma contra-senha, conhecida como a curva de Phillips, que postula que para além de um certo ponto demasiado emprego estimula a procura de maior remuneração, com eventuais consequências inflacionistas para toda a economia. Até há pouco tempo, os cálculos econométricos das várias limitações de capacidade e hiatos da economia dos EUA baseavam-se em pressupostos de um mundo que já não existe”. Fim de citação.

Sublinhe-se a expressão: os bancos centrais atuam de acordo com “um mundo que já não existe”. Veja-se original aqui e o Relatório Anual do FED de Dallas de 2006- Globalizing the Knowledge Economy (disponível aqui).

 

3 Comments

  1. Fiquei confusa, mesmo! Claro que nada sei de economia e finanças, a minha iliteracia nesta área é enorme. Tive de voltar atrás várias vezes só para confirmar que tinha lido bem. Se se admite “que as políticas monetárias correm o risco de “infligir danos maiores do que a crise financeira de 2008 e a pandemia covid-19 de 2020” (só para citar uma das afirmações) como é possível prosseguir este caminho? Só sendo economista é que se entende? ou nem isso? A nota final também deu-me que pensar. Há muitos “chavões” incompreensíveis para o comum dos mortais e usados por isso mesmo mas também para ” tapar o sol com uma peneira”, como se diz cá no norte, pelo que entendi. Obrigada por estes trabalhos!
    Méri Almeida

    1. Cara leitora e amiga
      Mais uma vez agradecemos a sua contribuição e interesse, que muito nos anima no trabalho que desenvolvemos.
      Sem querer dar lições a ninguém, quando se trata de textos de economia e de um tema cortante como é o caso, todos nós devemos reconhecer que temos estado sujeitos a fortes manipulações, para aceitarmos de mãos dados o que os nossos decisores nos querem impingir. Isto baralha ainda mais a compreensão de qualquer texto. E quando não se é de economia pior ainda.
      Num texto recente escrevia eu: Vivemos tempos difíceis e tão difíceis que nos é praticamente impossível descortinar o que será o amanhã, nosso, dos nossos filhos, dos nossos netos.
      Antes de mais uma questão metodológica. Quando se estuda um texto partamos do princípio de que sabemos pouco ou nada do que nele está escrito. Devemos lê-lo, pensar nas passagens que nessa primeira leitura não percebemos e, em cada uma, pensamos nela. Por cada dificuldade encontrada, fazemos assim e se a esclarecermos, tudo bem, se não a esclarecermos, passamos à frente mas não desistimos de ler o texto., Continuamos em frente e faz-se o mesmo em cada frase que não se percebe. Se o problema de entendimento da frase depende do conhecimento que se não tem de dado conceito procura-se no Google alguma explicação e depois continua-se. Exemplo: vejo no texto a expressão “taxa natural de desemprego” Não sei o que isto quer dizer. Paro a leitura, coloco a expressão no Google, encontro a explicação e volto ao texto, a lê-lo. Por fim, ao terminar a leitura do texto, teremos percebido, imaginemos, 40 a 60 por cento do seu conteúdo. Chegados ao fim, deixamos o texto parado dois a três dias e voltamos a lê-lo de novo. A percentagem de perceção do texto pode subir para 60 a 90 por cento. Já não está mal.
      Quanto ao seu texto, tem de perceber, ao contrário do que lhe dizem, que vivemos numa sociedade composta por classes sociais e de grupos sociais dentro de cada uma delas. Uma sociedade de conflitos de interesses. O Estado seria então o espaço em que geriam estes conflitos mas não é. O Estado é hoje um órgão de poder, o mais importante ao serviço da classe dominante. Veja o escândalo que se passa com a renovação de contratos de habitação. Ou aceita um valor à margem da imposição legal, o contrato é entre partes, senhorio e inquilino, entre iguais muito “desiguais”, ou chegado ao fim não tem renovação de contrato. Dizem-lhe que a liberdade da rejeição é do inquilino! Que faz o Governo? Nada. Mas tudo isto deriva da lei da habitação criada no tempo da Cristas, lembra-se, no tempo duríssimo da Troika. Teve o governo Costa a coragem de revogar essa lei? Não. Ao contrário, permitiu que quarteirões inteiros de Lisboa fossem vendidos aos fundos de investimento, na sua maioria estrangeiros e são esses que o governo mais parece empenhado em defender-. Lamento ser duro.
      Veja ainda o papel do Estado nesta matéria de arrendamentos habitacionais: o Estado estipula um valor de aumento da renda de casa a cargo do inquilino e vai subsidiar o senhorio em x por cento devido à inflação. Minimizar as perdas para o capital, é o que isto quer dizer, mas olhe lá: fazem o mesmo para quem trabalha? Compensam-no pela perda do poder de compra criada pela inflação? Fazem-no com quem trabalhou uma vida inteira e vê agora minado o seu poder de compra? Não, os trabalhadores e os pensionistas é que têm de pagar os custos da inflação.
      Veja-se em França. Há neste momento o descaramento de fazer emissões de obrigações de dívida pública indexadas à inflação. Fazem o mesmo com quem trabalha ou com quem é reformado?. Não, quando estes se manifestam nesse sentido, o mesmo governo manda contra eles a polícia de choque armada até aos dentes. Note que cerca de 60 por cento dessas obrigações vão imediatamente para o mercado financeiro, é aí que está o dinheiro imbuído de poder!
      Podíamos continuar mas não vale a pena. Pergunta: “como é possível prosseguir este caminho?”
      No seu humanismo, no meu, no de muita gente isto é simplesmente inadmissível, mas é possível, vê-se, porque a ganância do capital é o desprezo pelo que é humano. Sempre foi assim.
      Quanto ao pior que o Covid o autor logicamente refere-se ao desgaste económico de quem trabalha não ao número de mortes. O Covid definiu-se, nesta matéria, pela impossibilidade de trabalhar, em nome do bem público, a saúde pública, a recessão de agora define-se pelo desejo do grande capital em criar desemprego em massa para fazer baixar os salários reais de quem trabalhou ou já longamente trabalhou e aumentar o valor acionista: os dividendos e os juros de capital. Em suma, quer recuperar os lucros perdidos com o Covid e com a crise anterior. É neste sentido que se deve perceber a atual política dos bancos Centrais. Acompanhe a série sobre este tema mas passe por cima de um texto intitulado O ENIGMA DA INFLAÇÃO: esse é basicamente para economistas.
      A resposta vai longa, fiquemos por aqui mas não hesite em nos questionar quanto tiver dúvidas e não deixe de ler, de refletir sobre o seu mundo, que é o nosso também.
      Júlio Mota

      1. Muito obrigada por esta resposta tão detalhada. O que me aconselha foi o que fiz, por isso andei para a frente e voltava atrás, e tanto tempo me levou a ler o texto! Quanto a pesquisar no google ou noutros sítios (livros, bibliotecas) tive a felicidade de ter tido um pai que, (desde muito nova) sempre que lhe perguntava “o que quer dizer isso?” me dizia “vai buscar o dicionário/enciclopédia” mesmo que estivéssemos à mesa, onde eram os únicos livros permitidos (fui privilegiada, sim, vivi rodeada de livros). Nunca perdi o hábito de pesquisar. Sou curiosa e espero manter-me assim até ao fim dos meus dias. Nos meus verdes anos (antigo 5o. ano do liceu) quis matricular-me na alínea de economia! Foi-me dito por alguém da família “isso não é para mulher! Quando ia para a faculdade de letras (nunca acabei o curso) ainda o meu pai me perguntava se não seria melhor voltar atrás – ele lá sabia! só nunca soube daquela conversa com uma familiar. Só anos mais tarde (já mãe de dois filhos) fui para enfermagem (3 anos) e mais tarde mais dois anos de especialidade. Senti-me profissionalmente realizada. Desculpe-me o tempo que o faço perder com coisas que nada interessam. Mais uma vez muito obrigada pelo seu trabalho e continue, por favor, a ajudar-me (nos) a ajudar-nos a refletir. Bem haja. Méri Almeida

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