A Esquerda não oficial e a guerra na Ucrânia — Texto 10. A guerra na Ucrânia – a narrativa dominante e a esquerda anti-imperialista. Por Alain Bihr e Yannis Thanassekos

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Texto 10. A guerra na Ucrânia – a narrativa dominante e a esquerda anti-imperialista  

Alain Bihr e   Yannis Thanassekos

Publicado por  em 9 de julho de 2022 (original aqui)

 

 

Sob a pressão das suas contradições internas, a globalização do capital está a implodir, acumulando crises (económica, social, financeira, sanitária, ecológica) e precipitando o mundo para uma nova era de confrontos e guerras inter-imperialistas. A invasão da Ucrânia pelo imperialismo russo é o último sintoma desta reorganização do equilíbrio de poder entre os múltiplos polos imperialistas (EUA, UE, Japão, China, Rússia). E desde o início do conflito, a lavagem ao cérebro, que os principais meios de comunicação social e os intelectuais do sistema que para ela têm uma porta aberta, tem vindo a destilar uma histeria de guerra que asfixia o pensamento. Qualquer tentativa de explicar e compreender como chegámos aqui é imediatamente desqualificada, ou mesmo denunciada, como pró-russa ou cripto-russa, acusada de procurar circunstâncias atenuantes para a agressão russa. Infelizmente, uma parte da esquerda que afirma ser radical participa à sua maneira neste “estado de guerra” que está a apoderar-se das mentes das pessoas.

 

Uma narrativa unilateral

Já não basta reconhecer a responsabilidade primária de Putin pela eclosão da guerra e condenar veementemente a sua agressão imperialista. Não é suficiente exigir um cessar-fogo e a retirada imediata das tropas russas do território ucraniano. Não basta reconhecer o direito do povo ucraniano à autodeterminação e proclamar em voz alta a nossa solidariedade para com ele. Não é suficiente denunciar o regime absolutista do capitalismo russo. Não basta apoiar todos aqueles que na própria Rússia se opõem à guerra, correndo o risco da sua liberdade e das suas vidas. Não, não é suficiente.

Para se estar conforme com a narrativa dominante (pois é apenas uma narrativa e não uma análise refletida da atual situação geopolítica), é ainda necessário “satanizar” unilateralmente o autocrata russo, compará-lo ou mesmo identificá-lo com Estaline ou Hitler, se não com Ivan o Terrível. Ele, cujas agressões brutais na Chechénia, Geórgia e Síria já tinham sido conhecidas, ainda não tinha provocado tal alvoroço: é verdade que nessas ocasiões apenas massacrou caucasianos e levantinos, a maioria dos quais nem sequer eram cristãos!

Acima de tudo, esta mesma narrativa exige que fechemos os olhos e permaneçamos em silêncio sobre as estratégias e manobras do imperialismo americano, tanto na Europa como no Indo-Pacífico. Não devemos esquecer como, desde 1991, impondo a sua hegemonia aos seus aliados europeus, sujeitando regularmente a União Europeia aos seus diktats (entre os quais se incluem as vendas de equipamento militar a custos exorbitantes), os Estados Unidos estenderam a NATO até às portas da Rússia, integrando as antigas repúblicas soviéticas (Estónia, Letónia, Lituânia), sem excluir a possibilidade de integrar a própria Ucrânia numa data posterior, e sem esperar pela sua inclusão para começar a enviar equipamento militar ultramoderno, a treinar tropas e estacionar conselheiros militares e formadores para lá após 2014. E, claro, não interessa recordar as primeiras advertências sobre as prováveis consequências de um tal alargamento da NATO à Europa Central e Oriental. Tal como a advertência lançada em 1997 por George Kenan quando este alargamento ainda era apenas um projeto:

O alargamento da NATO seria o erro mais perigoso da política dos EUA desde o fim da Guerra Fria. É de esperar que desperte tendências nacionalistas, antiocidentais e militaristas na opinião pública russa; que reavive uma atmosfera de Guerra Fria nas relações Este-oeste e que conduza a política externa russa numa direção que definitivamente não corresponderá aos nossos desejos[1].

Também não devemos esquecer que, operando no quadro da NATO mas em violação da sua carta, os Estados Unidos foram os primeiros a “retificar” as fronteiras internacionais na Europa, intervindo contra a Sérvia em 1999 para encorajar a secessão do Kosovo, em violação da legalidade internacional, uma vez que estava a operar sem um mandato das Nações Unidas. Também não devemos esquecer que, utilizando a NATO como instrumento ou operando fora dela, atacaram dois outros Estados soberanos, o Afeganistão em 2001 e o Iraque em 2003, mais uma vez em violação do direito internacional, cobrindo as suas agressões com enormes mentiras em ambos os casos (o alegado apoio dos Taliban afegãos à Al-Qaeda no primeiro caso, a alegada posse de “armas de destruição massiva” por Saddam Hussein no segundo). Também não se menciona a retirada unilateral em 2002 dos Estados Unidos do Tratado ABM (Anti-Balistic Missiles, limitando e regulando a instalação de mísseis antimísseis), um tratado assinado em 1972 com a URSS e confirmado nos anos de 1990 pela Rússia, bem como por todos os Estados pós-soviéticos. Esta retirada foi seguida em 2007-2008 pelo início do destacamento na Europa Central (nomeadamente na República Checa, Polónia e Roménia) de elementos da Defesa Anti-míssil (o “escudo” anti-míssil dos EUA) em flagrante violação da Acto Fundador NATO-Rússia assinado em 1997. E, nestas condições, não é necessário perguntar se, tendo em conta estes elementos, as autoridades russas não tinham alguma razão para se preocuparem com as intenções dos EUA, sem ser necessário invocar a sua lendária paranoia obssessiva.

 

Para campistas, campistas e meio!

Estas questões, e algumas outras, encontraram pessoas, organizações, líderes políticos e mesmo alguns governos (na América Latina: Cuba, Nicarágua, Venezuela) que afirmam ser obrigação da esquerda anti-imperialista colocá-las. Alguns chegaram ao ponto de justificar a agressão russa nesta base, enquanto outros se contentaram em sublinhar as responsabilidades ocidentais (e particularmente dos EUA) na génese desta guerra e consequentemente recusaram ser alistados numa cruzada anti-russa sob a bandeira das estrelas, quer a dos Estados Unidos quer a da União Europeia.

O facto de terem sido imediatamente atacados (verbalmente) e reduzidos a um silêncio mediático virtual pelo partido ocidentalista não nos surpreende, como é óbvio. O nosso espanto nasceu do facto de, entre os cruzados em questão, estarem membros da mesma esquerda anti-imperialista, criticando e acusando quer os que se colocam ao lado da Rússia nesta guerra quer os que têm em conta as responsabilidades dos Estados Unidos nesta guerra e que por isso mesmo não aceitam participar numa cruzada anti-Rússia, de caírem na eterna armadilha do campismo [2], que quer que o inimigo do meu inimigo seja, se não um amigo, pelo menos um aliado das circunstâncias.

Desta forma, estes críticos na esquerda anti-imperialista assumem que os defensores de uma ou outra das duas posições referidas contra os americanos estão a ser objetivamente cúmplices, se não mesmo subjetivamente, da agressão russa e de trair o povo ucraniano que luta pela sua libertação e autodeterminação. Além disso, alguns deles defenderam a necessidade de ajudar este povo através do envio de quantidades massivas de armas pesadas, defensivas ou mesmo ofensivas, o que na atual situação geopolítica só pode ser feito pela NATO. Este apelo tem sido amplamente ouvido: os estrategas ocidentais, os Estados Unidos, Grã-Bretanha, Espanha e mesmo a Alemanha, estão agora a inundar abertamente o exército ucraniano e as suas frações ultranacionalistas com armas cada vez mais sofisticadas. Isto irá certamente prolongar a guerra, com todas as suas baixas e destruição, e sobretudo, com o risco de desencadear uma tempestade de fogo: criando as condições para uma extensão e generalização do conflito, sob a forma de um confronto direto entre a NATO e a Rússia, com potenciais desenvolvimentos nucleares. Do mesmo modo, a iminente adesão à NATO da Suécia e da Finlândia, anteriormente neutras, só agravará uma situação já de si extremamente tensa.

Em suma, em termos de campismo, estes “anti-imperialistas” denunciam prontamente a palha que se colou no olho de alguns dos seus adversários, ao mesmo tempo que não reparam na trave que têm no seu próprio olho. Nem mais nem menos, dizem-nos para escolhermos entre um imperialismo dito “democrático” e “liberal” e um imperialismo autocrático e absolutista. E como na prática, no campo de batalha ucraniano, só o primeiro pode garantir a derrota do segundo, e portanto a liberdade da Ucrânia, a escolha seria automática. E nas suas análises, também ignoram deliberadamente a dimensão inter-imperialista do actual conflito, vendo-o apenas como o conflito de um jovem Estado-nação que se enfrenta com os objetivos e atividades imperialistas do seu vizinho. Para não mencionar que fecham pudicamente os olhos às tribulações internas deste jovem Estado-nação, cujas virtudes democráticas continuam por provar, ao contrário da sua aptidão para a corrupção, que nada tem a invejar ao seu grande vizinho agressor.

 

Sobre a questão nacional no contexto dos conflitos inter-imperialistas

Desde a Grande Guerra, a esquerda radical tem-se distinguido por uma abordagem muito mais complexa do que está em jogo nas guerras inter-imperialistas. Guardadas as devidas distâncias, existem elementos de semelhança na atual configuração conflituosa com o contexto histórico que precipitou a deflagração da Primeira Guerra Mundial.

Todas as guerras imperialistas reorganizam invariavelmente o espaço (terra, mar, ar) tal como invariavelmente redesenham as fronteiras de acordo com as zonas de influência das potências beligerantes. No espaço europeu, durante a Primeira e Segunda Guerras Mundiais, os territórios que pagaram o preço mais elevado pelos efeitos desta reorganização do espaço e das fronteiras foram os da Europa Central e do Sudeste, incluindo a Rússia. A mesma coisa está a acontecer hoje com a guerra na Ucrânia.

Todas as guerras inter-imperialistas trazem invariavelmente “interesses nacionais” para a linha da frente da história, enquanto subordinam o seu destino aos objetivos estabelecidos pelas principais potências imperialistas em conflito, que usam e abusam da sua pretensão de se constituírem como poderes protetores. Este foi o caso em Junho-Julho de 1914 com a Sérvia “apoiada” pelo Império Czarista, França e Reino Unido contra o Império Austro-Húngaro e o seu aliado alemão; com os países bálticos, Polónia e Ucrânia (já! ) apoiada financeira e militarmente pela França, Reino Unido e Estados Unidos contra a jovem República Soviética; a Polónia, em Setembro de 1939, (bem mal) defendida contra a Alemanha nazi e a URSS estalinista; a Coreia do Sul defendida entre 1950 e 1953 por uma coligação de Estados ocidentais e afiliados liderada pelos Estados Unidos contra a Coreia do Norte apoiada pelos seus “irmãos” no campo “socialista”, e o Vietname, cuja reunificação nacional terá oposto os mesmos dois campos

Da mesma forma, ao instrumentalizar a “questão nacional”, as potências imperialistas matam dois coelhos com uma só cajadada. A nível interno, afirmam a primazia dos “interesses nacionais” sobre os “interesses de classe” (a sacrossanta Unidade Nacional) enquanto a nível internacional, tomam como reféns as aspirações nacionais de autodeterminação dos povos para adquirir novos protetorados, novas zonas de influência, novos “espaços vitais”, sobre as ruínas destas aspirações. Esta mesma configuração ainda hoje está a ser jogada com a guerra na Ucrânia. O princípio da “autodeterminação dos povos” não é um artigo de fé não histórico. Deve ser sempre refletida à luz dos contextos históricos.

As palavras de ordem  anti-imperialistas elementares, “fazer guerra à guerra” e “transformar as guerras imperialistas em guerras civis” (isto é, guerras de classes), permanecem teoricamente relevantes e a sua exatidão foi confirmada na Rússia e no coração da Europa durante a Grande Guerra e perto do fim e depois da Segunda Guerra Mundial, foi confirmado na Jugoslávia, na Grécia, nas revoltas anticoloniais e revoluções na Ásia e África Hoje em dia, infelizmente, no contexto da guerra na Ucrânia, estamos longe, em todos os aspetos, de um tal contexto para esperar a possibilidade de uma tal radicalização emancipatória. Alguns ativistas radicais de esquerda que apoiam o envio maciço de armas pesadas e ofensivas à Ucrânia para infligir uma derrota ao invasor russo, afirmam que com estas armas teremos de facto “um povo em armas” que, galvanizado pela “guerra de libertação”, desencadeará uma dinâmica social de radicalização política contra os seus próprios “oligarcas” (essa é a denominação local para a alta burguesia! ) e contra os seus “protetores ocidentais” do momento – os EUA, a NATO, a UE – exigindo em particular a anulação da dívida ucraniana. Eles estão a sonhar! Outros, menos otimistas, sustentam que ao eliminar, ou pelo menos reduzir ao máximo a ameaça russa, uma derrota de Putin graças ao armamento do Ocidente, teria um duplo efeito positivo: por um lado, iniciaria uma desescalada da atual corrida ao armamento e, por outro, permitiria à União Europeia resistir melhor aos ditames da NATO. Mas também se pode argumentar o contrário: uma derrota russa daria vento às asas dos falcões do Pentágono na sua estratégia de restaurar a hegemonia do imperialismo americano – grandemente desvalorizada na sequência do seu fiasco no Iraque e no Afeganistão – ao ludibriar tanto a Rússia como a China no Indo-Pacífico (cf. o recentemente concluído tratado Austrália-Reino Unido-Estados Unidos, AUKUS).

Claro que a empatia pelo sofrimento do povo ucraniano que luta, se autoorganiza e resiste à brutal agressão russa é absolutamente justificada e legítima, mas não se deve permitir que a subjetividade se interponha no caminho da distância e da compostura necessárias para qualquer análise, mesmo no calor do momento. A hipertrofia do otimismo da vontade e a hipotrofia do pessimismo da razão conduzem demasiadas vezes, se não sempre, a um amanhã desastroso, ao colapso das ilusões. Nas condições atuais e mesmo naquelas que irão surgir se a guerra for prolongada, há uma maior probabilidade de que a lógica das forças ultranacionalistas ucranianas (muitas vezes subestimada) prevaleça do que a lógica das forças emancipatórias que uma certa esquerda radical europeia espera.

 

O que fazer?

Tendo em conta o acima exposto, e sem ficarmos de modo algum impressionados com as exigências de alinhamento com as posições ocidentais, propomos que a esquerda anti-imperialista que opera no quadro dos Estados ocidentais adote as seguintes posições e faça campanha para:

– Exigir a retirada de todas as forças russas de todo o território ucraniano, tal como definido pelas suas fronteiras internacionalmente reconhecidas.

– Reafirmar o direito de todos os povos (nações, nacionalidades, minorias nacionais, etc.) da região à autodeterminação (a assumir qualquer forma política que escolham) através de um processo democraticamente organizado e controlado internacionalmente, dentro de um quadro que não ameace nenhum deles.

– Exigir a retirada dos nossos respetivos Estados da NATO (isto aplica-se em particular aos Estados europeus) e a dissolução desta última, que foi sempre uma máquina para fomentar guerras em benefício do imperialismo norte-americano nele alistando os seus aliados europeus.

– Denunciar o envio de armas para a Ucrânia como uma séria ameaça para a manutenção da paz mundial. Denunciar como igualmente perigosos os programas de rearmamento que foram anunciados na Europa Ocidental (e especialmente na Alemanha) desde o início da guerra.

– Apoiar todos os indivíduos e movimentos na Rússia e na Ucrânia que lutam contra a guerra atual e que fazem campanha pelo regresso à paz. Isto inclui tanto os desertores russos como os ucranianos.

– Exigir um regresso à mesa de negociações, para promover a paz e não a guerra. Defender a criação de um novo tratado pan-europeu, uma nova arquitetura de segurança europeia incluindo a Rússia, no âmbito da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa (ou qualquer outro quadro adequado) e sob a égide das Nações Unidas.

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Notas

[1] Citado por David Teurtrie, «Ukraine, pourquoi la crise?», Le Monde diplomatique, février 2022, página 8. George Kenan (1904-2005) foi o homem que concebeu a politica da contenção («endiguement» em francês, ou containment) do chamado comunismo soviético sob as administrações Truman (1945-1953) e Eisenhower (1953-1961). Ninguém o pode acusar de russofilia.

[2] Nota de tradutor: Campismo: O campismo no movimento comunista refere-se à tendência para reduzir uma situação política a um confronto entre dois campos imperialistas, e muitas vezes para se alinhar com um destes campos. Como problema conexo está a questão de saber se, num confronto entre duas potências, um lado é progressista em comparação com o outro.

 


Os autores

Alain Bihr [1950-] é um sociólogo francês que se identifica como comunista libertário. Começou a sua carreira docente como professor de filosofia do ensino secundário. Concluiu então com sucesso a sua tese de doutoramento e foi nomeado maître de conférences em sociologia na Universidade de Haute-Alsace. A 1 de Fevereiro de 2002, a secção 19 do Conselho Nacional das Universidades qualificou-o para as funções de professor universitário. Foi nomeado professeur des universités na Université de Franche-Comté e, como investigador, tornou-se membro do Laboratoire de Sociologie et d’Anthropologie também na Université de Franche-Comté (LASA-UFC). É autor de numerosas obras sobre as ciências sociais e a antropologia das ciências sociais. É autor de numerosas obras sobre o socialismo e o movimento operário. É também um dos co-fundadores e editores da revista À Contre Courant. Escreveu várias obras polémicas durante a década de 1980 e é também conhecido pelo seu trabalho sobre a extrema direita francesa (em particular sobre o chamado Front National) e sobre o negacionismo (dirigiu um importante colectivo intitulado Négationnistes : Les Chiffonniers de l’histoire, 1997). As suas últimas obras têm lidado principalmente com o capitalismo. (consultado em wikipedia, aqui)

Yannis Thanassekos foi director da Fundação Auschwitz-Centro dde Estudos e documentação. Foi colaborador científico no Instituto de Sociologia da Universidade Livre de Bruxelas. Foi dirigente do Grupo Marxista Internacionalista (de tendência trotskista) na Bélgica, grupo que se dissolveu em 1980. É autor de várias publicações sobre a história e memória dos crimes e genocídios nazis.

 

 

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