UMA CARTA DO PORTO – CONTO – Por José Fernando Magalhães (523)

 

 

CASO DE POLÍCIA, OU… 

– Caso de polícia ou qualquer outra coisa? – perguntei-me eu.

Há dias, pela manhãzinha, passeava-me deleitado pelo meu quintal, quando me apercebi de um manto considerável de pequeninas flores amarelas. Todas amarelinhas, pétalas e tudo, como umas pequeninas margaridas de uma só cor.

À falta de máquina fotográfica peguei no telemóvel e zás, fotografei.

Um largo sorriso aflorou-me os lábios normalmente apertados e duros, e o resto da caminhada pelas várias leiras do pequeno terreno foi mais compensadora que de costume. O meu olhar ficou mais acutilante e a minha percepção das coisas mais apurada.

AMARELINHAS

Vários afazeres, no entanto, não me deixaram voltar a pensar no assunto durante o resto do dia.

No dia seguinte, na hora da sesta e apesar do calor, voltei a dar a minha voltinha pelas leiras. Ao passar pelo sítio das florzinhas amarelas, nada. Nem uma! Ao invés, e no mesmo local, embora em número consideravelmente mais reduzido, lá estavam umas florzinhas igualzinhas às amarelas, mas de pétalas brancas.

Não, não podia ser!

Olhei melhor, nem uma amarela. Todas com pétalas brancas.

BRANQUINHAS

Fui ver a fotografia do dia anterior… Amarelas. Olhei para o chão… Brancas. Fotografei num ângulo semelhante.

As flores não mudam de cor daquela maneira. Não, de um dia para o outro.

As fotografias não mentem, acho eu. E lá estava uma com flores amarelas, outra com flores brancas.

O meu pensamento fervilhava. Um gnomo tinha vindo pintá-las à sucapa. Alguém as tinha cortado e plantado umas brancas em seu lugar. Elas realmente mudavam de cor sem ninguém saber.

Consultei livros, enciclopédias, computadores, fui ao google, perguntei a entendidos em botânica e, nada.

Já desesperava ao não entender o que se passava.

Será que de um dia para o outro eu tinha mudado de dimensão?

Haveria ali um portal e eu, inadvertidamente, tinha-o atravessado?

Não parei, durante horas, de pensar no assunto.

Hoje tive de lá ir, de novo pela manhãzinha.

Ao abrir a porta de casa… Surpresa! Lá estavam de novo as florzinhas amarelas. Lindas, viçosas, alegres.

AMARELINHAS

Foi como se tivesse levado um murro. Caramba, o que se estaria a passar?

Telefonei, falei, desabafei, mas ninguém me soube explicar o mistério e lá fiquei eu a tentar entreter-me com outras coisas e a não pensar mais no caso.

À hora do meio-dia e ao sair olhei inadvertidamente para os lados das florzinhas amarelas, como que a despedir-me delas. Não as vi. Foquei melhor o meu olhar, e lá estava uma ou outra, e… Muitas brancas.

Possa, caramba, que era aquilo?

Apressei o passo, quase corri.

As florzinhas brancas lá estavam radiosas, mostrando-se altivas no meio de algumas amarelas, fechaditas, como que a esconderem-se dos olhares e do calor do sol. Agachei-me, olhei-as, comparei-as e notei diferenças nas pétalas. As amarelas tinham um bordo rendilhado que eu não notara antes.

Caso de polícia, diferente dimensão, não. Tão somente a mudança de turno. Umas trabalham de manhã e as outras trabalham de tarde.

A natureza tem destas coisas!

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