CARTA DE BRAGA -“do frio e de pessoas” por António Oliveira

 

No dia 25 do passado Janeiro, abri um jornal digital onde se salientava, logo na primeira página, ‘Um anticiclone sem precedentes, provoca temperaturas de Verão em Janeiro, que quase batem 20 recordes’ e explicava a seguir que as características de tal fenómeno impedem a entrada de ar frio e nuvens, como não se registava no mês de Janeiro há, pelo menos, 50 anos.

Aqui, nesta cidade de Braga, estamos ainda essa Primavera antecipada e os seus efeitos, por ter endoidado flores e florações, mas já me avisaram, citando rifões antigos, para não me fiar muito nos tempos já neste mês e bem depois, Março, Marçagão, manhã de Inverno, tarde de Verão o que, a juntar à sempre presente humidade, deverá fazer de cada noite um lugar paradisíaco, ainda mais se voltar o tal frio que ficou retido no anticiclone.

Mas e, aparentemente, há lugares não muito longe, onde a situação não terá sido bem assim, pois ouvi, há umas semanas, uma pessoa contar na mesa do café, quase ao lado daquela onde estava, como o filho bem se queixava do frio e disse, baixando o tom de voz, ‘Papá, quero estar na escola, por lá estar sempre quentinho!’, uma frase a revelar uma realidade extremamente penosa para ele e, de certeza, para todos lá em casa, apesar de aquele ‘papá’ denunciar a pertença àquela classe média em desaparecimento gradual, e nem sempre paulatino.

Não tive de desviar o olhar, por ele estar sentado mesmo à minha frente e, só por isso, tive oportunidade de ver como, discretamente, chegou um lenço aos olhos e, então sim, olhei mesmo para o lado! Nem sequer fiquei a saber qual a terra onde aquilo se teria passado, mas nem me importei, pois não há nada mais triste que ver a dor nas palavras dos outros, não poder fazer nada para a minorar ou afastar e, ali, nem podia meter-me numa conversa onde nem sequer participava, e por só a dar ideia de uma dispensável e desprezível bisbilhotice!

Li, uns dias depois, a transcrição de um despacho da Direcção Geral de Energia e Geologia, ‘Estima-se que em Portugal entre 1,8 a 3 milhões de pessoas estejam em situação de pobreza energética, das quais entre 609 mil e 660 mil se encontram em pobreza energética severa’ o que significa que pertencem a ‘agregados familiares em situação de pobreza cuja despesa com energia representa +10% do total de rendimentos’, e que acumulam a ‘situação de pobreza monetária ou económica’, com a impossibilidade de manterem as suas casas em condições de conforto térmico.

Uma situação que já me levou a divagar sozinho ou acompanhado pelos meus caros e respeitados cronistas de jornais com origens diversas que nem sequer conheço, alguns com grande pena minha por neles buscar e encontrar amparo e solidariedade de ideias, e até partir para outros campos, onde o desamparo e abandono também marcam uma assinalável posição, pois não entendo como alguém pode usar e investir capacidade científica para descobrir formas da matar mais rápido que todos os outros, sabendo também e, ao mesmo tempo, de situações como as contadas acima e muitas outras, com milhões de pessoas em situação bem pior.

Assim como não entendo que pessoas como Musk, Bezos, Zuckergerg ou Bates, se enfronham em disputas pelo controlo das tecnologias que avançaram muitíssimo mais rápidas que a condição humana a deles também, por acaso mas a fazer, diz o historiador e cronista Pedro Angosto, que não passem de ‘reminiscências do passado que contribuíram para tornar o mundo menos habitável, menos justo e mais propício ao controlo total por uma minoria mais voraz, cínica e desalmada’.

Mas não posso terminar esta Carta sem uma aportação breve de Eduardo Lourenço, nascido há quase cem anos, ‘O homem é, por essência, alguém que vive dos seus sonhos; o problema nasce, creio eu, quando alguma coisa falhou na ‘construção’, e a pessoa se apresenta ‘com defeito de fabrico’, a ver pelos trumpasmileisboçalnarosboriswildersorbans e outras prendas que por aí ambulam, só à procura abocanhar algo! Nem sem sempre é fácil lidar com eles, como a História demonstra bem. Mas quem quer saber de História hoje, quando há milhões de ecrãs que eles mesmos comandam que fornecem séries e sequências de ‘bonitas’ estórias, em continuum!

Também não acredito que possam servir para o menino que só queria o quentinho da escola. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 
 

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