Este ano da graça, 2024, vai estar confrontado e dobrado ao peso das diversas consultas eleitorais, em muitos e importantes países do mostruário político internacional. Não me levarão a mal o uso deste termo –mostruário– para referir a classe política dos meandros do poder internacional, a que detém o poder, quase sempre ligado ao mundo da riqueza, seja qual for o continente para que se olhe.
Estamos no campo de domínio dos plutocratas –os que lenta, mas perseverantemente, se têm encarregado de ir minando os sistemas democráticos– mas que agora se vêm também acompanhados, ou emulados, por outras figuras e outros movimentos da direita mais extrema, tentando trazer acima práticas e regimes antigos, apoiados por poderes empresariais, económicos e financeiros, contando todos com a memória curta dos povos, devidamente ‘tratada’ com desinvestimento no ensino das humanidades e investimento na ‘sociedade do espectáculo’, comandado pelos ‘big brothers de bolso’.
Li algures, num jornal qualquer, haver uma realidade, não desprezível, nas democracias mais importantes deste nosso mundo, a do aumento da abstenção nos mais desfavorecidos, que o autor do artigo ligava à desconfiança das gentes em relação à eficácia das políticas, por não lhes oferecerem soluções concretas; e preguntadas sobre as sessões eleitorais, falam em ‘promessas’ e, até por isso, estarem já a perder o medo da extrema direita.
Não se pode negar que a ambição está profundamente ligada à condição humana, seja qual for a sua origem, mas tudo parece ter começado quando, explica Jean-Jacques Rousseau, o primeiro possidente pôs uma qualquer vedação num pedaço de terra e gritou ao mundo ‘é minha!’, acto e fala que não eram da essência nem da natureza da espécie humana.
A inerência à condição humana foi explicada por Bertrand Russell, pouco tempo antes de morrer, ‘O anseio de um amor, a busca do conhecimento e a dor insuportável pelo sofrimento humano’ a que acrescentou depois, ‘Este mundo está cada vez mais interconectado; devemos aprender uma nova forma de caridade e de tolerância, absolutamente vitais para a continuação da vida humana neste planeta. O amor é sábio, o ódio é estúpido’.
Com efeito, tudo o que agora se está a passar no mundo e os ecrãs nos mostram, seja qual for a sue origem, dá razão ao Ivan dos ‘Irmãos Karamazov’, quando Dostoiévski o põe a dizer e, depois, a perguntar, ‘A ciência toda não vale as lágrimas das crianças. O que faremos com o sofrimento dos inocentes? Como se pode alguma vez justificar o injustificável?’
Santo Agostinho no seu conjunto de ensaios ‘As confissões’ tem também uma pergunta que pode ser interpretada de duas maneiras, ‘Si ille et illi, cur non ego?’ (Se aquele e aqueles o puderam fazer, porque não eu?); Santo Agostinho apresenta esta pergunta como sendo uma moeda com duas caras –Se os bons puderam fazer bem, porque não eu? Mas os outros, os que roubam em qualquer situação, que mentem para se manterem no poder, os imorais, os corruptos, os que tudo fazem sem que nada se passe, porque não eu?
O empresário no mundo do ensino, Ruiz de Valbuena, que leva anos dedicado à tarefa humanitária e altruísta de ajudar a população mais desvalida do Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo parece ter a resposta para esta questão, ‘A única coisa que conta é a minha consciência, a única a que devo fidelidade, nem às amizades, nem à família, nem ao sursumcordam’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor



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