Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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A extrema-direita do Chega em Portugal: entre normalização e luta pela hegemonia
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, 14 de Dezembro de 2022 (original aqui)
Lusotopie: Durante muito tempo, Portugal foi visto como uma exceção na Europa, sem nenhuma extrema-direita no Parlamento. Mas em poucos anos, o Chega, partido de André Ventura, passou de um deputado para doze [n.t. nas eleições de 2024 elegeu 48 deputados]. Este partido tornou-se praticamente a terceira força política do país, nomeadamente nas eleições presidenciais. Como é que se explica esta rápida mudança?
Yves Léonard: Em primeiro lugar, temos de reinserir o Chega num quadro europeu e depois, evidentemente, temos de o “portugalizar”. O que é que significa o quadro europeu? Significa que há cerca de vinte anos começou um movimento que pode ser descrito como a banalização ou o aumento do peso da extrema-direita no campo político. O politólogo holandês Cas Mudde chamou a este fenómeno “desmarginalização”, ou seja, estes partidos estão a enraizar-se nas regiões, estão representados no Parlamento e são aceites por uma percentagem crescente da população. Em suma, seja qual for a designação dada, o fenómeno é mais ou menos o mesmo em toda a Europa: assistimos a uma proliferação de formações que adotam um discurso muitas vezes idêntico, com matizes nacionais, mas que tende a banalizar um certo número de discursos e de práticas que, ainda há vinte anos, eram alvo de fortes críticas. Trata-se, portanto, de um fenómeno geral, que acabámos de ver refletido em Itália, em particular, mas não só: estamos a vê-lo atualmente em Espanha, com a Vox, e estamos obviamente a ver com preocupação o que se passa em França e noutros países. Os exemplos são muitos. Neste contexto, o caso português foi um pouco excecional, uma vez que houve, se me permitem a expressão, um atraso no arranque para a direita. Por outras palavras, havia uma extrema-direita em Portugal, mas era totalmente marginal e passava despercebida, oscilando a cada dia que passava entre 0,3% e 0,5% em cada eleição. Era o caso do PNR (Partido Nacional Renovador) – rebatizado Ergue-Te em 2020 – que era o partido que se afirmava claramente como de extrema-direita. Isto até ao “estrondo” de outubro de 2019, quando André Ventura foi eleito para a Assembleia da República.
Então, porquê uma tal singularidade e, diria eu, um arranque tão tardio? Isso faz parte das questões que são complexas. As razões mais frequentemente invocadas são, evidentemente, o cordão sanitário – mas essa não é uma expressão muito boa – que funcionou relativamente bem, alimentada, em particular, por toda a retórica em torno do acontecimento do 25 de abril como elemento fundador da democracia e, ao mesmo tempo, como a pedra angular da Constituição de 1976. Esta forneceu uma série de salvaguardas que se têm mantido bastante bem ao longo de muitas décadas. Por isso, penso que foi em parte devido a este elemento essencial, a este enquadramento em torno do 25 de abril e da Constituição de 1976, que tudo funcionou.
Em segundo lugar, o elemento que me parece essencial para compreender esta emergência, simultaneamente tardia e súbita, é a desintegração dos partidos de direita. Em Portugal, o Partido Social Democrata (PSD), partido dominante da direita, alternou no poder com o Partido Socialista durante quarenta anos. Em outubro de 2015, o Partido Social Democrata encontrava-se numa situação bastante insólita: derrotado, mas não verdadeiramente derrotado nas eleições legislativas, procurava um novo horizonte e um novo rumo a partir da Geringonça, a aliança que tinha surgido à esquerda, com, como sempre neste partido, a procura de um líder carismático. Um líder carismático que Passos Coelho, primeiro-ministro até 2015, parecia encarnar. E por isso tinha de encontrar um novo horizonte. Foi exatamente neste contexto que surgiu o Chega. E porquê? Porque o Chega nasceu formalmente no início de 2019, portanto é um partido muito recente, mas obviamente que aqueles que o fundaram, incluindo Ventura, têm todos um passado. Mesmo que ele seja um jovem líder político, Ventura não vem do nada. E de onde é que Ventura vem? Vem precisamente do PSD, o Partido Social Democrata, do qual foi até 2017 uma das mais sólidas esperanças, ou pelo menos fortemente protegido até 2015 pelo então primeiro-ministro, Passos Coelho. É, portanto, um desertor de uma formação governamental de centro-direita, que migrou por múltiplas razões. Em primeiro lugar, lendo o mapa eleitoral e o que se passava na Europa, com uma abordagem bastante carreirista, como muitos – o seu alter ego espanhol Santiago Abascal, do Vox, praticava muito do mesmo -, decidiu dar o salto e deixar o PSD, que estava em crise e em declínio relativo. E tinha um trunfo extra na manga: queria reconquistar e absorver não só os votos do PNR, o pequeno partido de extrema-direita – mesmo que não fosse muito importante, o seu líder declarava que Ventura tinha vindo roubar no seu terreno -, mas sobretudo absorver os votos do CDS, o outro partido de direita, que, ao longo dos últimos trinta anos tinha capitalizado as questões de que o Chega se apropriaria, nomeadamente a recuperação do fundo saudosista, em relação ao passado colonial, a presença e o papel dos veteranos, dos retornados… … Em suma, foi o Chega que se apoderou da força eleitoral, se quisermos falar, do CDS, também conhecido como Partido popular. E o que se seguiu mostrou que a ação de Ventura funcionou, porque o CDS desapareceu do Parlamento nas eleições de janeiro de 2022.
É, pois, em torno destes elementos que se explica, em parte, a emergência tardia e súbita do Chega. E, de facto, é hoje a terceira força política. Temos de olhar para isto em retrospetiva: 7,5% nas eleições legislativas de 2022, mas uma perda de votos em comparação com os quase 12% obtidos por Ventura nas eleições presidenciais de janeiro de 2021. É evidente que, para André Ventura, estas eleições presidenciais eram um teste. Muito claramente, ele queria testar a sua popularidade pessoal e, como tem uma visão muito presidencialista, ou pelo menos a do homem providencial, era uma forma de se colocar em palco. E funcionou bastante bem, num contexto de taxas de abstenção muito elevadas para as eleições presidenciais do início de 2021, em plena crise pandémica. Felizmente, havia a candidatura de Ana Gomes, pelo que quase ficou em segundo lugar. Foi muito renhido e esse era o seu objetivo. Pertence a esse filão de líderes carismáticos e – para usar um termo de que não gosto muito, porque acho que é um conceito abrangente que nos afasta da realidade – populistas. Mas não creio que estejamos a fazer grandes progressos ao dizer isso, porque, no fim de contas, esse termo é demasiado vago, e voltaremos a esse assunto. É um líder carismático e jovem que, tal como os seus emuladores na Europa, utilizou de forma brilhante as redes sociais e tudo o que lhes está associado, os canais de notícias 24 horas por dia e as redes sociais. Domina mesmo a arte – como outros – de mobilizar as suas redes para os seus próprios fins e de saber criar um burburinho, como se costuma dizer. Por outras palavras, criar uma espécie de viralidade que funciona a seu favor. Não é exclusivo de Ventura e do Chega, é o que se observa um pouco por todo o mundo. Logo se evocará o Brasil, onde Bolsonaro fez o mesmo, utilizando as redes sociais como uma das suas ferramentas de conquista do poder, e isso quase o manteve no poder em outubro de 2022 porque a sua campanha nas redes sociais foi muito mais bem-sucedida do que a de seu concorrente Lula. Em suma, Ventura, sobre isso, é convencionalmente mestre na arte de compor com as redes sociais e os seus algoritmos. É a leitura, que considero muito pertinente, de Steven Forti, de inscrever este tipo de movimento naquilo a que chama os «extremas direitas 2.0 [1]». Forti desenvolveu uma leitura comparativa, principalmente à escala europeia, para mostrar a modernidade dessas extremas direitas, que capturaram essas novas tecnologias e as vergaram aos seus próprios propósitos.
Lusotopie: Precisamente, a partir desta ideia de modernidade, qual é a relação de Ventura e Chega com a experiência ditatorial de Salazar e o Estado Novo? Como o senhor disse, o momento fundador da democracia é o 25 de Abril, essa rutura com o passado ditatorial. Será que vai beber dos valores e da memória do salazarismo ou tem uma relação ambígua com essa memória?
YL: Eu preferiria o segundo termo. Ou seja, é uma relação ambivalente, ambígua com a memória do salazarismo. Porquê? Porque, finalmente, Ventura vem beber neste passado ditatorial essencialmente de um fundo que lhe é favorável porque tem um eleitorado a lisonjear – evocava-se anteriormente este saudosismo, esta nostalgia do passado colonial, da grandeza e do relato nacional que Salazar havia exaltado. São temas em que ele se inspira com alegria. Ou seja, tem uma leitura bastante semelhante à de Salazar sobre o que ele chamava de «oito séculos de história nacional», e que só modifica de forma marginal. Por outras palavras, tem uma leitura muito providencialista deste passado, da história de Portugal, com os seus momentos de grandeza, evidentemente, identificados de modo paradigmático, à ditadura salazarista e também à expansão – «Os Descobrimentos» – e a uma certa parte da Idade Média, com a fundação do Reino e tudo o que contribuiu para criar um reino puro, autêntico, autenticamente português, ou seja, rejeitando à margem, ou expulsando no início do século XVII os mouros e os judeus, a ditadura salazarista dando os retoques finais, por assim dizer, a esta leitura. Ventura assume-a, inclusive na cenografia. Vê-se muito bem como ele se põe em cena regularmente. Recordo, durante a campanha presidencial de 2021, que tinha ido ao Castelo de Guimarães para proferir um discurso de inspiração salazarista para celebrar aquilo a que chama os «portugueses de bem», para celebrar antes de tudo esta exaltada narrativa nacional, em torno da grandeza dos castelos medievais e da influência do catolicismo, elementos constitutivos de uma narrativa que ele assume plenamente.
Mas, ao mesmo tempo, ele também tende a distanciar-se de Salazar e do salazarismo nas suas declarações. Ele afirmou várias vezes, se eu resumir, que “Salazar nos fez perder tempo”, “que ele perdeu o trem da modernidade”. E assim, de certa forma, ele perdeu uma série de coisas e, portanto, é inútil reivindicá-lo a todo o custo. E disse que, na altura das eleições presidenciais, não há necessidade de falar muito de Salazar, basta “ter um Ventura ao virar da esquina”. Então é uma forma de se distanciar; e distanciar-se também com bastante habilidade. Esta é uma maneira, como muitos dos seus emuladores à escala europeia, de não ser chamado de fascista. Ele rejeita categoricamente a qualificação de fascista, assim como o que se refere à extrema direita. Segundo ele, não é de extrema direita, não é da direita radical, é simplesmente um “português de bem” que quer defender o Portugal eterno, aquele que teria sido desrespeitado pela Revolução dos Cravos de 25 de abril e vítima daquilo que considera uma “desportugalização” de um país com cultura secular.
É, portanto, uma maneira bastante hábil de tentar desembaraçar-se de um passado incómodo. A pergunta foi feita no momento da formação de Chega. Ana Gomes, que foi candidata à eleição presidencial em 2021 à esquerda, tinha dito muito claramente que se interrogava sobre o facto de o partido Chega ter sido legalizado, ou seja, sobre o facto de o tribunal constitucional ter autorizado a existência deste partido, ao passo que sobre a sua natureza, o seu modo de funcionamento e as pessoas que o compõem – onde encontramos antigos salazaristas reivindicados como tais -, era problemático à luz da Constituição de 1976, que dispõe que nenhuma formação, associação política não se pode afirmar abertamente deste passado fascista. E assim, nesse sentido, a própria existência legal do partido Chega poderia surgir. Bem, a coisa foi finalmente desfeita e o Chega existe.
Diga-se, há a narrativa nacional. Há esta maneira de se demarcar evidentemente da ausência de modernidade salazarista, e o seu corolário que, aliás, é uma forma de singularidade seja no Chega seja no Vox, à escala das extremas direitas europeias, na medida em que existe uma reivindicação bastante clara daquilo a que poderíamos chamar o ultraliberalismo. O que não era a marca registada de Salazar, mesmo que se encontrem nele elementos muito claros, e reivindicados como tal. Friedrich Hayek e outros vão colocar em destaque este neoliberalismo, inspirado por Walter Lippman desde o final da década de 1930. Claramente, há uma linhagem por trás disso, e que não é negligenciável. Mas não é sobre isso que Ventura joga, é antes uma reivindicação cheia de ultraliberalismo, muito distante do corporativismo salazarista. Portanto, sobre isso não há ambiguidade. Depois, por detrás da narrativa nacional e da encenação, da coreografia que utiliza, há também a evocação do tríptico «Deus, pátria, família», que era também uma das marcas de fabrico da propaganda salazarista. É, em suma, esta recuperação de uma ideologia e de uma visão organicista da sociedade. Ou seja, um nativismo que é realmente consubstancial ao Chega, onde temos os ingredientes habituais do estrito respeito pelas hierarquias sociais, de uma sociedade muito hierarquizada onde o determinismo do sangue, da família, da nação é essencial.
É, portanto, uma resposta um pouco de meias tintas sobre esta relação com o passado salazarista. Para concluir este ponto, estudei-o há alguns meses no contexto do cinquentenário da morte de Salazar [2]. Quando se tratou de comemorar o aniversário da morte de Salazar em julho de 2020, não para o comemorar, mas para o celebrar, para os saudosistas, organizou-se um comício no Vimieiro e em Santa Comba Dão, onde Salazar nasceu e onde está sepultado. Ostensivamente Ventura evitou estas celebrações. Ficou de fora. Por outro lado, havia alguns representantes do PNR, agora chamado ERGUE-TE, partido que se afirma de extrema-direita, alguns saudosistas ou antigos amigos de Salazar e uma associação que defende a sua memória. Mas Ventura tinha-se afastado habilmente para evitar, mais uma vez, ser identificado demasiado claramente com o este passado.
Lusotopie: Uma das primeiras saídas mediáticas que permitiu a André Ventura ser conhecido diz respeito aos Ciganos, e depois repetiu várias vezes afirmações estigmatizando-os. No Parlamento Europeu, criticou constantemente a deputada Joacine Katar Moreira, que era originalmente membro do partido LIVRE, mas que o deixou rapidamente. Ele disse que ela tinha que voltar para a África quando houve o debate sobre a retorno de obras de arte. Como é que as minorias e o racismo desempenham um papel no discurso e posicionamento de Ventura e do Chega?
YL: As primeiras armas de Ventura foram, por assim dizer, a estigmatização destas minorias. Mas não podemos esquecer o seu papel de comentador de futebol, que ele capitalizou muito bem, porque o futebol é uma grande caixa de ressonância em Portugal (ainda podemos vê-lo nas últimas semanas [3]). A sociedade portuguesa vive ao ritmo do futebol, por assim dizer, e ao tornar-se comentador desportivo nos seus tempos livres, adquiriu uma reputação e uma visibilidade importantes graças a isso. E, nomeadamente, por se apresentar como um benfiquista [4] assumido.
Mas, efetivamente, houve esta dimensão muito forte em torno da estigmatização das comunidades, nomeadamente a comunidade cigana, que desde muito cedo apontou como responsável por tudo. Basicamente, uma leitura bastante clássica do nativismo que é consubstancial ao Chega. Ou seja, esta dimensão do bode expiatório, que faz com que uma estrutura, um indivíduo ou um grupo de indivíduos sejam apontados e considerados responsáveis por absolutamente tudo.
A comunidade cigana teve de lidar com declarações extremamente violentas de Ventura. E aqui alcançamos o objetivo principal que é captar a atenção, de criar viralidade nas redes sociais e nos media. Ele aproveitou-se de tudo isto para aumentar a sua audiência. E da mesma forma, sobre as propostas que foram feitas pela ex-deputada Joacine Katar Moreira, onde pediu claramente que ela voltasse ao «seu país de origem», indicando assim que ela não era portuguesa no sentido em que ele o entende. É o discurso bastante clássico que se observa à escala europeia. Em França, nomeadamente, isto foi muito desenvolvido pela Frente Nacional de Marine Le Pen em torno de uma supressão da binacionalidade. Mas, mais uma vez, é uma tradução de uma leitura nativista da sociedade.
Sobre esta questão do racismo, é aqui que se insere evidentemente um dos «legados» do salazarismo, a memória do passado colonial. É obviamente toda a impregnação longa, durável e profunda do chamado luso-tropicalismo. Ou seja, esta crença numa «colonização suave», onde a mistura, a mestiçagem seriam virtudes consubstanciais ao ethos português. Evidentemente, Ventura mobiliza toda uma retórica para, ao mesmo tempo, banalizar o passado colonial, normalizá-lo e dizer que foi uma colonização muito suave.
Ele tem, atrás de si, também, retornados, repatriados, ele tem veteranos, tantos clientes eleitorais quanto ele procura fidelizar. Mas há também todo este antigo fundo luso-tropicalista que sugere que, afinal, Portugal é, por natureza, um país não racista. Porque, desde há muito tempo, desde o Estado português da Índia em Goa até hoje, desde Albuquerque até à descolonização, Portugal teria sido como nenhum outro no mundo. Ou seja, não teria agido como as outras potências coloniais europeias. E assim, por esse meio, é claro, ele ter-se-ia encontrado completamente protegido e de alguma forma imune ao racismo. Portanto, joga muito nesta dimensão, nesta lâmina de fundo que consiste em banalizar um discurso de essência racista, mas que pretende não o ser, porque se diz representar uma «portugalidade» exemplar. Portanto, ele está constantemente a marchar sobre esta espécie de ambiguidade, sobre esta crença bastante partilhada em Portugal de que este é um país onde não há racismo. E a realidade, obviamente, é completamente diferente, e vários eventos nos últimos anos mostraram isso, às vezes de forma muito dramática. É o caso do assassinato em plena rua deste jovem ator, Bruno Candé, há dois anos, por um antigo combatente das guerras coloniais, que o abateu porque era negro e que lhe teria sinalizado para «regressar a casa» na Guiné. É sobre esta dimensão que Ventura joga, sobre esta ambivalência, tentando «descomprimir», senão banalizar um discurso que, de certa forma, só esperava por ele para ressurgir à frente do palco. Em traços largos, é o modus operandi de Ventura.
Trata-se de um fenómeno bastante geral, em primeiro lugar porque remete para aquele nativismo que é consubstancial a estes partidos de extrema-direita, mas também porque, em Ventura, há uma deficiência, se assim se pode dizer, suplementar em Portugal. Um dos combustíveis tradicionais de extrema-direita é a relação com a imigração. Ora, esta relação está um pouco alterada em Portugal, na medida em que Portugal é um país tradicionalmente mais de emigração do que de imigração. Ao contrário de outros países vizinhos, ele não enfrentou desde o início ondas de imigração tão grandes, embora tenham começado a ocorrer desde a década dos anos de 1990 vindos das ex-colónias africanas, da Europa Central e Oriental após a queda do Muro de Berlim e com as vagas de alargamento da UE. Em suma, tentou capitalizar sobre tudo isto, mas faltam-lhe, ainda assim, números quantitativos. É por isso que tende a maximizar o seu discurso sobre as duas vertentes que acabamos de evocar, a saber, as comunidades ciganas, todos aqueles que vêm dos confins da Europa às margens da «civilização cristã» e, por outro lado, todos aqueles que vêm – ele diria indevidamente incrustados em Portugal – das antigas províncias ultramarinas, das antigas colónias africanas. E assim, é deste modo que ele tenta escrever uma narrativa, definir a agenda, e, digamos, ganhar a batalha cultural. E sobre esta questão do racismo, ele realmente surfa nas crenças muito superficiais e erróneas do luso-tropicalismo.
São elementos em construção e, em poucos anos, conseguiu, de certa forma, colocar não no centro do discurso político, mas, pelo menos, lançar, nomeadamente em relação às direitas políticas, mais do que uma perturbação sobre uma questão, que, até então, o CDS, nomeadamente, tinha contido por diversos meios, com clientelas eleitorais, sem cruzar certas linhas vermelhas como o Chega. Por último, a situação demográfica – diminuição da natalidade e envelhecimento da população – bem como o aumento da imigração – hoje superior à emigração, com o dobro dos imigrantes desde 2019 e 750.000 estrangeiros em situação regular contabilizados no final de 2022 -, estas evoluções poderão dar origem a problemas para os próximos anos na lógica do Chega.
Lusotopie: No início, falou do quadro europeu e, nomeadamente, do desenvolvimento da extrema-direita a nível europeu. Há também um outro quadro que pode ser relevante, que é o quadro lusófono, com o que aconteceu e está a acontecer no Brasil, com a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, que, evidentemente, se baseia num fundo também de extrema-direita, com a própria história do Brasil. Quais são as conexões e as ligações que podem existir entre Chega e Bolsonaro no Brasil, em termos de ideias, em termos de circulação de dogmas e, talvez, de recursos?
YL: Em termos de fundo ideológico comum, por assim dizer, há correspondências óbvias. Quando se fala do tríptico «Deus, pátria, família», que foi efetivamente usado de maneira um pouco diferente, mas promovido pela propaganda salazarista desde a década de 1930, a sua fonte de inspiração é encontrada precocemente no Brasil, porque afinal é um slogan que vem do Brasil. E em Bolsonaro há empréstimos, voluntários ou involuntários – com ele é sempre muito difícil dizer -, mas finalmente, muito claramente, há uma retórica e um fundo comum com esse discurso salazarista, embora, pelo que sei, nunca terá mencionado claramente o nome de Salazar e o passado salazarista. Mas atrás está a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado, todas essas componentes que são partes constitutivas do discurso de Bolsonaro. O que, de outra forma, foi galvanizado, mas inspirador para Ventura, foi obviamente esta versão do discurso tropicalista de Bolsonaro e o sucesso que ele encontrou, porque, da mesma forma que no início Ventura se afirmava claramente simpatizante de Salvini na Itália, ele veio a encontrar em Bolsonaro, por um lado, a vertente tropicalista de um discurso que lhe assentava bem e em Trump, nos Estados Unidos, uma utilização das redes sociais e das redes de informação como fonte de inspiração.
Foi sobretudo a nível destas três figuras – Salvini, Trump, Bolsonaro – que se cristalizou o discurso, a prática e as ideias de Ventura. Nos métodos, em parte do discurso nativista, há correspondências estreitas. Depois, não sei se há fontes de financiamento vindas do Brasil, ao contrário das equipas que cercaram Trump, as de Steve Bannon que se interessaram de perto pela experiência de Ventura, convidado por Trump nos Estados Unidos e que tem alguma audiência em redes na direita-alternativa e nos trumpistas. Depois, do lado do Brasil de Bolsonaro, as fontes ideológicas estão bastante próximas, com a mesma vontade de fixar a agenda política, com essa viralidade das mensagens. Mas a recente eleição de Lula deveria rebater os mapas e privar Ventura de uma referência, se não mesmo de um modelo.
Lusotopie: Pode-se considerar que, na questão do racismo, Portugal continua a ser uma exceção na Europa? Recordo a manifestação em que Ventura anunciava «Portugal não é racista» e interrogo-me sobre a adesão: em que medida as pessoas que aderem a este partido continuam realmente a acreditar que Portugal e eles próprios não são racistas? E a segunda coisa é mais sobre a questão do género: quando você olha também para este partido e as manifestações, você só vê homens. Pode-se ver também aqui uma exceção de Portugal?
YL: Então, sobre essa questão do racismo, há pouco eu tentei desenvolver, mas é muito difícil, porque se refere a essa parte, sempre muito difícil de avaliar, de uma forma de inconsciente coletivo, de representação que as pessoas têm de si mesmas. Não sei qual é a parte de sinceridade e a parte de cegueira. Eu evocava anteriormente esta crença finalmente amplamente partilhada, de longa data, sobre «as virtudes do luso-tropicalismo». Uma parte das elites está impregnada dessa crença e uma parte da população está convencida disso. E isso coloca um problema, evidentemente, em relação à leitura deste passado colonial, que ainda hoje constitui um problema em Portugal, sobre a relativa inocuidade deste passado. Apesar de tudo, estou bastante impressionado com a predominância final desta leitura, que continua a ser assim, ainda que haja, nomeadamente nas ciências humanas, muitos trabalhos que vão contra essa visão, que mostram bem essa realidade. Há também questões que são postas em causa por um ou outro ator político, já aqui nos referimos à deputada Joacine Katar Moreira, que apontou, durante o seu mandato, algumas coisas. Mas não foi tão seguida, foi até colocada em dificuldade, fragilizada. Então, verifica-se, há sinais de mudança. Há também o olhar internacional sobre esta relação renovada com o passado colonial e esta questão do racismo, com, nomeadamente, as Nações Unidas, que diligenciaram uma comissão que recentemente se deslocou a Portugal e que mostrou precisamente toda a parte dessas crenças bastante vãs numa singularidade, numa excecionalidade portuguesa. Assim, há questionamentos sobre esta matéria. A história académica apoderou-se dela, a antropologia, finalmente, muitos trabalhos são produzidos hoje. Mas há, em pano de fundo, esse perigo de um discurso, digamos à Zemmour, que uma pessoa como Ventura tem estado a desenvolver, isto é, um romance nacional fantasmagórico, sem grande relação com a realidade histórica. Um discurso que seduz uma parte da opinião que, por várias razões, não tem o conhecimento ou a vontade de aprofundar, em suma, permanece numa leitura muito superficial, esta forma simplista «de história da França – aqui de Portugal – contada às crianças».
Sobre a questão do género, o Chega é realmente um partido muito masculino. Isto remete para uma visão muito patriarcal, da dominação masculina, emprestada à lógica do «viver habitualmente» salazarista. Ao redor de Ventura, há poucas mulheres, exceto algumas jovens que estão lá para dar o sinal de mudança, se é que não é apenas um efeito de poeira para os olhos, «para inglês ver». Mas é um partido que se apoia efetivamente numa organização muito masculina e com um eleitorado ou representantes maioritariamente masculinos. É o reflexo de uma parte da sociedade, realmente machista, onde a participação das mulheres é relativamente reduzida, como o que um Trump veicula além-Atlântico.
Lusotopie: Como se insere o Chega na rede europeia de extrema-direita? Quais são as principais analogias e singularidades, especialmente em relação ao seu vizinho ibérico Vox?
YL: Em relação a essa inserção, pois que já falámos sobre Bolsonaro, Trump e Salvini, apenas completar para dizer que existem algumas características comuns claramente identificadas. Como disse na introdução, faço minhas as análises de Steven Forti a este respeito. Considero muito pertinente designar sob o termo «extremas direitas 2.0», para evitar alguns discursos bastante vãos e que podem afastar-nos da realidade, sobre os conceitos de fascismo e de populismo, nomeadamente. Dois escolhos a evitar, porque podemos andar em círculo muito tempo em torno da sua definição e da sua plasticidade. Então, por trás das semelhanças e da inserção do Chega e Ventura nessas redes de extrema-direita, há a questão do identitarismo e do nativismo, que estão realmente no centro – e eu intencionalmente uso esses termos. O nativismo, portanto, e um nacionalismo de relativo isolamento, que são uma das chaves para se reapropriar da soberania nacional, por vezes criticando o multilateralismo, mas sem se ir demasiado longe no caso do Chega, porque existe uma dimensão europeísta em torno da captação dos fundos comunitários que continua a ser vital para Portugal; a reivindicação também de uma modernidade totalmente tecnocrática, passando, simultaneamente, pela aceitação da Aliança Atlântica e pela afirmação de valores muito conservadores sobre a família e os costumes, um pouco parecido com o ”molho italiano” no modo Meloni, o que se poderia qualificar de «tecno-soberanismo» [5]; uma islamofobia que está subjacente e bastante presente no Chega, portanto a condenação, como se falou, dos imigrantes como fator de perturbação; um anti-intelectualismo muito preponderante, à imagem dos outros movimentos de extrema-direita; essa ambivalência que evoquei em relação ao passado da ditadura; a vontade, evidentemente muito forte, de fixar a agenda política.
O que demarca um pouco o Chega dos outros partidos é, por um lado, a sua relação com a questão económica – evoquei há pouco o ultraliberalismo, reivindicado pelo Chega como o Vox em Espanha. E, por outro lado, esta relação, por natureza complexa, com o fenómeno migratório – o Chega obteve uma pontuação elevada no círculo eleitoral dos portugueses na Europa durante as últimas legislativas – e à imigração em Portugal. Por fim, há que ter em conta a vontade expressa recentemente por Ventura de tomar posição no mundo sindical, projetando criar uma federação, «Solidariedade», inspirando-se aqui no Vox, em Espanha, para lutar contra a social-democracia e contra uma unidade sindical ancorada à esquerda desde a revolução dos Cravos. Para além de uma dimensão política evidente e clientelista, Ventura pretende assim reforçar a sua base em sectores profissionais prioritários, como os polícias, os médicos e os professores [6].
Por último, há que recordar que Ventura tem uma grande plasticidade nas suas relações com uns e outros, acolhendo tanto, quando estava em campanha, Marine Le Pen em Lisboa, como estabelecendo laços com outros que não estão exatamente na mesma linha. Em suma, por enquanto, ele está numa fase de ascensão em que procura, antes de mais nada, assegurar a sua hegemonia à direita, em relação, nomeadamente, a uma nova formação como Iniciativa Liberal que conta com oito deputados na Assembleia. E então, finalmente, através dessa banalização do seu discurso, ou seja, essa capacidade de incorporar uma forma de respeitabilidade usando uma gravata, o desafio para ele é conquistar e atrair na sua esteira uma parte da direita portuguesa atormentada por uma crise de liderança persistente. Olhando para o lado de abstencionistas desencantados em relação a um sistema político certamente «resiliente» – os dois terços do eleitorado continuam a votar nos dois principais partidos de governo, principalmente o PS e, em perda de velocidade, o PSD -, mas onde partidos como o CDS e o PC declinam, enquanto o número de abstencionistas não pára de crescer.
Mesmo que o autoritarismo de Ventura comece a ser seriamente apontado no próprio seio da sua formação, mesmo que a normalização de um discurso «de agarra tudo» possa afastar dele os seus simpatizantes mais «antissistema», vê-se bem que o seu projeto está longe de estar condenado ao fracasso.
Notas
[1] Forti, S., 2021, xtrema derecha 2.0. Qué es y como combatirla, Madrid, Siglo XXI. Ver também https://legrandcontinent.eu/fr/2022/06/14/extreme-droite-2-0-de-la-normalisation-a-la-lutte-pour-lhegemonie/
[3] Esta entrevista realizou-se quando se desenrolava o Campeonato do Mundo de futebol no Qatar, no outono de 2022.
[4] Apoiamte do Sport Lisboa e Benfica, clube de Lisboa, o clube que tem o maior número de apoiantes no país.
Yves Léonard [1961-] é um historiador francês, especialista sobre Portugal. É membro do Centre d’histoire de Sciences Po e investigador na Universidade de Rouen-Normandie. Aluno da ENA, é licenciado em História pela Universidade Paris IV-Sorbonne e doutorado por Sciences Po. (para mais info ver wikipedia aqui)


