UMA CARTA DO PORTO – Por José Fernando Magalhães (619)

 

 

NÃO É A FOZ DO DOURO, MAS É COMO SE FOSSE!

 

O lugar onde vivo, ao contrário do de onde nasci, não é a Foz do Douro. É Lordelo do Ouro, numa pontinha Oeste onde me sinto como se fosse na Foz.

De quando em vez o nevoeiro chega até mim, trazendo o cheiro à maresia, e quando isso acontece as imagens do passado, de quando ainda se via o mar, ao longe, e os barcos a entrarem em Leixões, e o som da Ronca, agora quase inexistente e raramente audível, é para a minha Foz, para a minha rua do Monte da Luz, para o meu quintal já na rua de Gondarém, que me transporto.

Da janela do meu quarto, se me esticasse bem e focasse bem o olhar, via uma pontinha do Gilreu, enquanto conversava animadamente com o sapateiro que mesmo em frente trabalhava todos os dias nos sapatos dos outros, fazendo milagres. Da minha Janela também via a casa do Sr. Joaquim Lavadeira, na rua do Túnel, e se olhasse para cima, via a casa do primo António e da prima Zulmira, ele, primo direito do meu pai e que era o concessionário da praia de Gondarém. E que bem que me lembro do seu barco a remos com dois tons de azul e uma risca branca, e dos passeios que nele dei até perto do Gilreu.

Das escadas que da nossa cozinha desciam para o quintal, empoleirado num cano de água que nos invernos mais agrestes congelava, espreitava o Fontanário de Santo António. Por baixo dessas escadas havia uma arrecadação onde, nos meses de praia, as minhas tias e os meus primos e primas, vindos de Aveiro e de Paços de Ferreira, ficavam a dormir. A nossa casa era pequenina e não cabiam lá, mas sempre se arranjava um espaço, com as condições mínimas, para eles. Casa de banho, só havia uma, e servia para todos nós. Estávamos nos anos cinquenta e era assim a vida.

No meu quintal havia, sobre-elevado um tanque de água que servia para lavar a roupa e, nas festas de S. João, com umas tábuas grandes em cima, para colocar as travessas com as sardinhas que se iam assando num canto, e as canecas e os jarros para o vinho verde tinto que vinha de casa do meu avô paterno e que me era proibido provar.

Ao fundo do nosso quintal, numas casitas exíguas, viviam, um casal numa delas e uma velhinha na outra. Do casal quase não me lembro, acho que trabalhavam fora todo o Santo dia, mas da velhinha ainda tenho memória de ir até lá, às escondidas, comer iscas, que em minha casa não comia porque era bacalhau e eu  detestava bacalhau, o que enfurecia a minha mãe e me dava sermões sobre a pobreza da senhora e era feio ir lá comer-lhe o que lhe fazia tanta falta.

Pelo quintal, estreito e comprido, havia couves e alfaces e pepinos, e tomates, que o meu pai tratava, com desvelo, aos fins de semana, a par de jarros e roseiras e gladíolos e outras flores de que a minha mãe gostava e tratava.

O lugar onde hoje vivo, é um lugar privilegiado, tenho um parque privado nas minhas traseiras, cheio de árvores, e estou a meio caminho entre Serralves e o Parque da Cidade. Não poderia estar em melhor lugar. Só se lhe passassem a chamar Foz do Douro.

1 Comment

  1. Pois eu vivo na confluência territorial entre Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde mesmo em frente ao “Estádio Olímpico da Ervilha”. Tenho também muitas recordações da infância e da vizinhança que conheci e com quem convivi! Bons tempos.
    Sousa Lima

Leave a Reply