Nota prévia:
Continuamos a publicar textos sobre as Quatro Democracias em Crise Profunda – a França, e aqui vos deixo mais um texto, o quinto, da autoria de John Lloyd, sobre este tema e em que se tem como central a ideia de que Marine Le Pen não representa a extrema-direita, não é a extrema-direita, longe disso. Do nosso ponto de vista, podendo-se e devendo-se falar de extrema-direita, os seus representantes estão sobretudo abrigados nos partidos Reconquête de Zemmour e no Renaissance de Emmanuel Macron.
Trata-se de textos com que se pretende clarificar a nuvem de fumo que paira sobre a situação política em França e sobre a natureza dos seus atores. Porque diabolizar um partido como o Rassemblement National de Marine Le Pen, pode significar erros de estratégia política que mais cedo ou mais tarde podem custar politicamente muito caro, porque com isso se pode estar a esconder atores bem mais claramente fascistas, como Renaissance, com quem a Nova Esquerda Popular se está agora a coligar e, ao fazê-lo, está a coligar-se com quem mandou disparar sobre os Coletes Amarelos e de modo a acertar-lhes bem nos olhos, ou seja, Macron, ou a coligar-se com gente como François Hollande – o homem que ajudou a criar Macron.-, o homem que destruiu o PS francês, o homem que ajudou e em muito a levar a França à situação trágica que está agora a viver.
Os últimos 4 textos que serão dedicados à França esclarecem bem o que acabamos de enunciar. A partir daí, cada um que tire as suas conclusões, e estas não serão agradáveis. Mas sublinhe-se que ao recusar adjetivar Le Pen de extrema-direita não podemos deixar de afirmar que é um partido da direita, mas curiosamente com uma forte base popular, possivelmente muito maior do que a que o PSF tem. Este é o verdadeiro problema que se deve equacionar para a França: porque é que o descontentamento social conduz as classes desfavorecidas para a Direita do espectro político e não para a Esquerda. Um problema semelhante é hoje bem visível nos Estados Unidos. Falência da Esquerda? Talvez. Uma coisa é certa, não vale a pena chamar a essas gentes os deploráveis como fez Hillary Clinton, ou os estúpidos como se fez em Portugal.
Curiosamente, não deixa de haver aqui similitude entre o que se passa em França e o que se passa em Portugal com o Chega que muito lentamente se desloca para o Centro, captando o forte descontentamento social, exatamente como fez Marine Le Pen.
Júlio Mota
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
4 min de leitura
França – Texto 5: Marine Le Pen não é a extrema-direita
Os militantes do Agrupamento Nacional [Rassemblement National] evitam o extremismo
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em 2 de Julho de 2024 (original aqui)

Será esta a semana em que a tão esperada onda de extrema-direita da Europa se abate finalmente sobre nós? À medida que os resultados da votação da primeira volta da França chegaram ontem, quase todos os meios de comunicação – da BBC ao The New York Times – publicaram histórias da vitória da “extrema-direita” de Marine Le Pen. Enquanto isso, precisamente no outro lado da fronteira na Bélgica, vieram os avisos do plano de Viktor Orbán para formar um novo pacto de “extrema-direita” no parlamento europeu. Junte-lhe o congresso do partido da “extrema-direita” da AfD no sábado, e temos tido alguns dias de grande ocupação destes movimentos.
No entanto, esses avisos tornaram-se ritualísticos e desprovidos de análise. Na verdade, há pouca “extrema-direita” sobre muitos destes movimentos. São eurocépticos, mas não defensores da saída do euro [EuroExiters]. Eles são hostis à imigração em massa (que governo não o é agora?), mas reconhecem que o grande declínio nas taxas de natalidade significa que eles estão presos à imigração em larga escala. Eles suspeitam do movimento LGBTQ+, mas em grande parte aceitam a homossexualidade. Os seus objetivos, da habitação à economia, são na maior parte difíceis de alcançar, mas se legalmente alcançados, nenhum deles é uma ameaça ao governo democrático.
Porque é que milhões seguem estes movimentos políticos? Enquanto esperava pelos discursos de Marine Le Pen e Jordan Bardella numa reunião do Agrupamento Nacional (RN) em Marselha no início deste ano, perguntei a um casal, M. e Mme Bodineau, esta mesma pergunta. Eles eram pessoas de meia-idade, alegres e felizes em falar. “É”, disse M. Bodineau, “porque ela fala a verdade. Ela fala por nós”. “Eu admiro-a”, acrescentou Madame Bodineau. “Ela é muito inteligente”. Perguntei se tinham pensado em votar em Eric Zemmour, o ex-jornalista que se colocou à direita de Le Pen. Madame Bodineau fez uma cara de rejeição: “Não, não, ele é um extremista!”
Esta é uma característica comum para muitos dos partidos estabelecidos: os seus partidários evitam o que consideram extremistas – qualquer um abertamente, ou suspeito de ser racista, antissemita, potencialmente violento – e apoiam partidos que são fortemente contra a imigração ilegal e críticos dos liberais extremos. Eles não rejeitam, no mainstream, toda a imigração: eles desejam que ela seja controlada.
Assim, na França, a grande maioria favorece o RN sobre o Reconquête de Zemmour!. Na Suécia, além disso, o grupo Alternativa para a Suécia, uma cisão da “extrema-direita” dos Democratas Suecos (SDs), tem um apoio mínimo para as suas propostas de deixar a UE e de acabar com o apoio à Ucrânia – duas propostas que os SD, fazendo parte da coligação no governo de centro-direita, rejeitaram.
Nada disso significa que não haja um pequeno número de partidos genuinamente de extrema-direita na Europa atualmente. O principal deles, o Alternativ für Deutschland (AfD) foi recentemente expulso do grupo Identidade e Democracia (ID) do Parlamento da UE depois de Maximilian Krah, o seu ex-líder no Parlamento europeu, ter sugerido que nem todos os membros da SS eram necessariamente más pessoas. Na semana passada, em resposta, o executivo da AfD decidiu formar um novo grupo parlamentar europeu. Vários de seus possíveis parceiros estão bem à direita: o antissemitismo, por exemplo, é um tema forte tanto na Nossa Pátria da Hungria quanto na República Federativa da Polónia. Quase todos são fortemente a favor de uma saída imediata da UE e têm laços estreitos com a Rússia. Tipicamente têm entre 4-7% dos votos, estes são realmente partidos de extrema-direita disfarçados de populistas.
Comparado com eles, a retórica usada para descrever a vitória na primeira volta do RN parece exagerada. Le Pen tem-se dedicado, ao longo dos anos e de forma mais enérgica nos últimos meses, a limpar a si mesma e o seu partido das manchas do seu pai, o antissemita apaixonado Jean-Marie Le Pen. Ela e Bardella agora propõem ser um par moderado em todas as coisas, com Zemmour como um extremista útil de quem eles visivelmente se afastam. Bardella, em particular, que se pode tornar o próximo primeiro-ministro da França, prometeu que o seu potencial governo lideraria políticas económicas “realistas” e “não enfraqueceria” a voz da França no exterior. Não é a linguagem de um radical que pretende abalar os fundamentos da política francesa.
Mesmo numa questão que divide a direita em toda a Europa, o RN pode ser visto a comportar-se de forma moderada. Outrora amiga – e beneficiária – do presidente russo Vladimir Putin, Le Pen usou um discurso na Assembleia Nacional em março para afirmar: “É a resistência heroica do povo ucraniano que levará à derrota da Rússia”. Se ela seguir a lógica de seu discurso, estará com Meloni e o líder dos Democratas Suecos, Jimmy Akesson, tornando-a a terceira e mais poderosa figura da Nova Direita – um termo muito melhor do que “extrema-direita” – para se alinhar com a NATO, os EUA e (a maioria) das democracias ocidentais.
Nada disso tem a ver com a “extrema-direita”. Estes políticos não são como Donald Trump, que repete as promessas de prender inimigos, purgar o serviço público e desafiar a constituição. Com exceção da AfD, a Nova Direita Europeia exibe a sua relativa moderação. Sim, tal como as ideologias tradicionais – socialismo, social-democracia, liberalismo, democracia cristã – elas diferem entre si nas suas posições com os eleitores de país para país. Mas estes movimentos políticos também têm uma ideologia restritiva: o nacionalismo democrático. Eles colocam fé nas escolhas – e, implicitamente, na moderação – do povo, e assumem que a nação continua a ser a unidade mais natural para a política.
Sim, estes partidos são conservadores em algumas coisas – como no que se refere ao fortalecimento da família – mas não são em outras. Se ele se tornar primeiro-ministro, por exemplo, Bardella planeia aumentar os padrões de vida da classe trabalhadora, reduzindo os custos e cortando os impostos para as empresas que aumentam os salários dos trabalhadores; isto é mais perto do socialismo do que o conservadorismo. Os extremistas, ao que parece, estão noutros lugares.
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O autor: John Lloyd [1946-] é um jornalista britânico, editor do FT, foi correspondente do Financial Times em Moscovo de 1991 a 1995. É co-fundador do Reuters Institute para o Estudo do Jornalismo na universidade de Oxford, e o seu próximo livro é sobre a ascensão da Nova Direita na Europa.(para mais info ver aqui e aqui)


