

Uma guerra é uma coisa bem simples, se se reduzir a isto: desconhecidos tratam de matar outros desconhecidos, num ambiente tão disforme, que todas as mortes estão permitidas e, ‘salvo raras excepções, nem se podem dizer homicídios nem assassinatos’, escreve e diz na Cadena Ser, a jornalista Leila Guerriero, que já passou por vários e grandes órgãos de comunicação, desde a saída da sua Argentina natal.
Não sei se os tais desconhecidos têm noção da importância da quantidade descomunal de ‘fitas’ que cinemas e televisões passam sobre tal assunto, mas, mesmo assim, acredito que muitas das cinquenta e seis guerras activas agora no mundo, poderão ser ou não motivados por isso, ou serão apenas meros ‘serviços’ dos autocratas que as ‘desenham’, por ambições políticas ou financeiras.
É muito difícil entender como um cidadão de um qualquer país vítima de tal desgraça, abandone tudo para se entreter a apertar gatilhos ou botões, a despachar desconhecidos para um outro mundo, que ninguém ainda conseguiu descrever como é! Só que também não é fácil obter a verdade de alguém que usa o medo da gente de um local ou até geral, pela imprevisibilidade das suas acções e reacções, porque um autocrata não tem necessidade de qualquer requerimento ou autorização, para determinar o que decida. E olhe-se para este mundo, neste mesmo momento, e veja-se em cada, ‘a altura, o tamanho do cinto, ou o número das botas’; nunca será por essas bitolas, mas sim pelo tamanho da guarda pessoal, dos desfiles, das procissões e demonstrações, do que acontece aos seus rivais (mesmo caseiros), e até das imagens dos seus gatilhos e botões.
‘Mas as crianças, Senhor, / porque lhes dais tanta dor?!…/ Porque padecem assim?!…’, perguntava-se Augusto Gil na ‘Balada da Neve’, vindo a público em 1913, e referia apenas o frio da neve. Mas nestes dias, passados que são mais de cem anos, a representante das Nações Unidas para a violência sobre as crianças, afirma seca e duramente, ‘Como as crianças não votam, a violência contra elas não consta das agendas políticas’.
E os números, divulgados a 9 de Novembro, são estarrecedores –de acordo com a Unicef, em cada quatro minutos morre uma criança, menino ou menina, por um acto de violência– e cerca de 90 milhões sofreram episódios de pederastia. O custo directo ou indirecto de tudo isto, representa cerca de 11% do PIB dos países, e ‘O impacte duradouro que todas estas violência têm sobre a criança é gigantesco’.
Mas mais próximo do que discute todos os dias, o veterano jornalista internacional da Cadena Ser, Antonio Martín, escreve no passado dia 18, ‘A Rússia assassinou uma criança cada 36 horas, nos mil dias da invasão da Ucrânia’ e, pelo menos, 659 crianças caíram pelo fogo do exército russo, de acordo com os dados da Unicef. Mas outras, cerca de 1750, ficaram feridas com as bombas que foram lançadas nas casas, escolas e nos quase 1.500 centros educativos, danificados pelo fogo do exército russo. As autoridades ucranianas apontam também para cerca de 2.000 que teriam sido enviadas à força para a Rússia, onde se lhes perdeu o rasto, por falta de informação de Moscovo.
E de acordo com James Elder, o porta-voz da Unicef no Líbano, ‘há centenas e centenas de milhares de crianças violentamente deslocadas das suas casas’, a procurar refúgio nas escolas agora que começaram as chuvas e o inverno, adiantando no passado dia 19, ‘há mais de 200 crianças mortas e 1.100 feridas só nos últimos dois meses’.
A terminar estes números, com algumas considerações pessoais, transcrevo algumas das frases feitas por Luis Moreno Ocampo, o primeiro Procurador Chefe do Tribunal Internacional de Haia, numa entrevista ao ‘La Vanguardia’:
– Se está proibido o homicídio, tem de se proibir a guerra
– Há 30 países que não reconhecem o Tribunal!
– Mas são 123 membros. Somos a maioria. Acontece que os EUA não aceitam que alguém lhes imponha leis, e em Israel a ultradireita move o governo. O Procurador actual está muito activo em Israel e na Ucrânia.
– Mas continua a matar-se nessas guerras!
– A nossa existência, a do Tribunal de Haia, demostra que as regras existem. Não se pode bombardear à vontade um país inteiro e matar indiscriminadamente. É um crime, e se o investigam, já é um grande passo.
– O Tribunal não julga na ausência do acusado: serva para alguma coisa, pedir a sua prisão?~
– Tanto Putin como Netanyahu ficaram furiosos, quando o Tribunal ordenou a sua captura. Não é irrelevante, embora não haja ainda uma polícia internacional capaz de os deter. Mas Khadafi morreu, Al Bashir ficou preso no Sudão e Gbagbo da Costa do Marfim, preso pelo Tribunal. Afinal algumas das sentenças cumprem-se. Muitos ainda querem usar a guerra para ter poder, mas a história deve tornar-nos optimistas. Acabámos com a escravatura e o colonialismo. Porque não poderemos acabar um dia com a guerra? Por que não começar com os criminosos de guerra, um por um, no Tribunal de Haia?
Talvez quando se atingir um consenso universal em volta do aforismo de carácter universal de Juan José Millás, um grande jornalista e escritor daqui ao lado; aforismo para não esquecer, agora nestes tempos de sonhos imperiais, ‘O problema não é levar uma besta dentro, mas ser incapaz de a controlar. Tudo se pode imaginar, nem tudo se pode fazer’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor