CARTA DE BRAGA – “de feudalismos hoje” por António Oliveira

Estes tempos são surpreendentes e, ao mesmo contraditórios, pela qualidade dos argumentos usados –tanto pelas esquerdas como pelas direitas, atendendo aos escalonamentos ou efeitos de os assumir, em cada uma das partes– leva o cidadão normal, aquele que não frequenta Tiktoks nem Manhas, tenha dificuldade em se situar política ou emocionalmente, quando ouve, vê e lê, dias seguidos, notícias e imagens de mortes e destruições em série, em nome dos direitos humanos, de travar a fuga dos ‘sem nada’, desamparados e gente sem quaisquer hipóteses de saber o que significa a palavra ‘liberdade’, mas sempre seguindo lemas que são fabricados pelos musks e zuckerbergs de um lado e de outro, onde os protegem e pagam muito e bem.

O iconoclasta filósofo Santiago Alba Rico, está muito longe de perceber também o significado de ‘geopolítica’, termo hoje tantas vezes usado para justificar qualquer um dos lados, da mesma maneira que usam o termo ‘patriotismo’, que Samuel Johnson, escritor de ensaísta inglês, dizia ser ‘O último refúgio dos canalhas’, na linguagem dura e directa do século XVIII. E, aparentemente também eles andam à deriva, pois o antigo braço direito do eleito, um fulano que dá pelo nome de Steve Bannon, já se declarou contra Musk, a quem acusa de racista, aconselha a voltar à África do Sul, e até nem está só. 

Vem este intróito a propósito de um título –certamente não encomendado– num órgão de comunicação europeu, mas bem explícito, ‘Tecnofeudalismo: para um mundo de ricos e servos’. A seguir, sem subtítulo, está o modelo de governo a que dão impulso milionários como Peter Thiel, fundador do ‘PayPal’, Elon Musk e Mark Zuckerberg, e que relega os cidadãos a ‘servos, proletários e vassalos da nuvem’, para destruir a democracia.

E no parágrafo seguinte explica bem, ‘Os grandes magnatas de Silicon Valley são os novos senhores feudais, encarregados de articular a sociedade em volta das suas companhias, deixando os estados e as democracias para segundo plano, uma teoria pós-capitalista com grave consequências sociais: os cidadãos não têm voz e trabalham para os senhores, como no sistema feudal’.

Também aqui devia incluir Jeff Bezzos, mas ele só quer ser o primeiro a mandar em Marte –o problema está enquanto ele não for embora–;  mas há outros fulanos a ensinar todos estes multimilionários, Curtis Yarvin e Nick Land, uns ‘artistas’ que consideram a democracia um sistema de governo ‘decadente’ e incapaz de enfrentar os desafios económicos dos próximos tempos, aquilo que já é conhecido como ‘Iluminismo obscuro; é apenas uma tentativa de anular a ‘Dialéctica do Esclarecimento’, a obra de Theodor Adorno e Max Horkheinar, que analisa as relações existentes entre a natureza, a racionalidade e a realidade social, terminando com a afirmação de o mito já ser esclarecimento, segurando-se em nomes como Kant, Sade e Nietzsche.

Só que no sistema propagandeado por Yarvin e Land, os estados funcionariam apenas como corporações, e as decisões estariam orientadas exclusivamente por critérios de rentabilidade, livres das ‘cadeias’ da democracia.

Maarten Wolterink, ‘Carta Branca’

‘Le Monde’, 25.01.20

Mas convém não esquecer que desde há dois dias, o Presidente Musk, mais o Secretário do Estrangeiro Zuckerberg, se vão encarregar de, sem qualquer vergonha, de nos atascarem com mentiras e boatos a cada minuto, sobre a realidade que vivemos e enfrentamos, tudo em nome da ‘liberdade de expressão’.

Viva o caos! Viva!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply