Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (1/8). Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.

E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota  ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.

Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.

Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a primeira -, seguindo a própria estrutura.

 

FT


13 min de leitura

Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (1/8)

A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de fevereiro de 2025 [1]

 

Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento.

JMota

 

ÍNDICE 

1ª PARTE – Introdução                                                         

2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto                 

3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF 

4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país                        

5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta  

6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC           

7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril                                     

8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político                                                                                        

ANEXOS                                                                       

_______________

1ª PARTE – Introdução

Hoje faço 82 anos, penso ser tempo para um balanço, para um olhar para um passado em que grande parte dele está, enfim, já muito distante.

Dizem-nos que a memória é um dos ingredientes necessários para resistir e tentar mudar o estado das coisas, uma afirmação com a qual concordo plenamente. Considerando que o homem é também um produto das suas circunstâncias, da mesma forma que muitas das suas circunstâncias são depois um produto do próprio homem, aproveitemos então o que resta da nossa capacidade de memória para dissecar o que foram algumas das minhas circunstâncias de vida, e o que foi a minha luta contra elas quando estas me eram desfavoráveis, quando estas eram adversas ao que no meu imaginário se definia como o meu projeto de vida. Olhemos então de forma crítica para a nossa sociedade que gerava essas circunstâncias , para os meus 82 anos de vida, de uma vida que é ela própria um reflexo de cerca de 30 anos de fascismo, e de cerca de 50 anos a viver numa sociedade que procurava e procura ainda o verdadeiro sentido da Democracia.

Sendo um texto de memórias, e uma vez que publiquei recentemente um texto que retomava parte dessas memórias, intitulado Não me doutorei: uma tentativa de explicação, um trabalho que foi dedicado “a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. …”, retomo este mesmo texto para abarcar agora um sentido mais amplo de circunstâncias do que o texto acima referido, que visava apenas as circunstâncias diretamente ligáveis à questão do meu não doutoramento. Direi mesmo que o texto citado e este estão interligados e que o texto sobre o não doutoramento foi já escrito a pensar neste que agora aqui apresento.[2]

Muito recentemente o meu antigo colega de Faculdade e meu amigo de longa data, Boaventura Sousa Santos [3], mandou-me um email, referindo-se à questão do meu doutoramento. Respondi-lhe o seguinte: “Recebi o teu email e agradeço. Não comento o primeiro período e tentarei responder ao segundo”.

Neste email dizia Boaventura Sousa Santos:

Parabéns pelo trabalho notável de educação permanente de alto nível que tens vindo a fazer há anos. Prometeste que um dia me dirias porque não fizeste doutoramento. Espero.

Esta promessa vem desde meados dos anos 80, onde no seu gabinete no palácio dos Limas, enquanto Presidente do Conselho Científico, se falava sobre o meu futuro na FEUC. Falávamos sobre o facto de não me doutorar. Boaventura questionava-se sobre qual seria o travão que me estava a bloquear, pois só assim se entendia que o doutoramento não estivesse já feito. Na altura, e para meu espanto, Boaventura diz-me mais ou menos o seguinte: não entendo porque é não te doutoras. Não conheço ninguém tão desprendido da realidade material. Nem a comunidade religiosa X é como tu. (digo X porque não consigo lembrar-me do nome, mas penso ser uma comunidade religiosa da América Latina). Não sei já o que respondi, mas possivelmente tê-lo-ei feito com evasivas.

Curiosamente há aqui, como veremos mais à frente, um verdadeiro faro sociológico quando coloca a questão de eu viver no quadro de uma cultura religiosa e não sendo religioso.

Não me doutorei, esta é a realidade. Explicações possíveis são várias e nem sempre antagónicas. Elenco duas no campo do senso comum:

H1. Falta de nível intelectual para conseguir doutorar-me.

H2. Falta de motivação para vencer obstáculos académicos. Isto pode ser analisado por duas vias:

– Falta de capacidade de trabalho (H2a- versão forte)

e/ou

– Falta de interesse pela profissão de docente [H2b- hipótese versão fraca], em que a profissão seria então vista apenas como uma fonte de rendimentos. E a hipótese fraca tem um nome: alienação no trabalho.

Houve alunos que há décadas deram uma terceira explicação à pergunta que eles próprios faziam. Um dia recebo na minha caixa de emails uma sugestão: a de que consultasse o sítio Dias Riscados, uma vez que nele se falava longamente de mim.

Nele se dizia que eu não me doutorava porque me queria diferenciar de alguns doutoramentos que circulavam por aquela que foi já a casa de onde saiu gente altamente formada.

Na altura esta seria uma explicação sem qualquer sentido, mas se a questão se colocasse hoje, tê-lo-ia. Com efeito, sentir-me-ia muito mal colocado ao lado de catedráticos como Tiago Sequeira, Pedro Godinho ou Álvaro Garrido. os criadores da Nova FEUC; aliás, sentir-me-ia muito mal ao lado de pessoas que reduzem as matemáticas em Economia para metade do que antes era ensinado; na mesma linha, também me sentiria muito mal ao lado de pessoas que ou eliminaram disciplinas fundamentais, caso de Macroeconomia Internacional, ou passaram cadeiras fundamentais e que deveriam ser obrigatórias a opcionais, além de terem carga letiva menor, como é o caso de História do Pensamento Económico ou de Política Económica [4]; sentir-me-ia muito mal com gente que cria disciplinas feitas de nada como “Responsabilidade Ética e Sustentabilidade” ou “Soft Skills” (neste último caso antes uma disciplina semestral visando a que os estudantes ficassem de forma profissional a dominar o Microsoft Office); sentir-me-ia muito mal ao lado de pessoas que inventam uma disciplina como Projeto Integrador, a ideia de Daniel Traça da Universidade Nova, a valer por duas disciplinas, onde não há nada de significativo para integrar enquanto conjunto de saberes, e em que o seu programa varia de ano para ano; sentir-me-ia mal a estar ao lado de catedráticos que num curso novo, o deles, não introduziram duas disciplinas como a) Politica Comercial e Teoria da Integração Económica e uma outra que seria b) Economia da Integração Europeia, ambas as disciplinas obrigatórias, com carga horária condigna e apoiadas cada uma delas num ou noutro manual de qualidade, e estes abundam; Relativamente a estas duas disciplinas, hoje curricularmente disciplinas fundamentais, e sabendo que sobre estas matérias os estudantes em geral nada sabem de significativo, impõe-se-nos que sejamos, quanto ao seu ensino, contra os modernos métodos pedagógicos centrados na liberdade do aluno e que minimizam o papel do professor. As aulas destas disciplinas, talvez até como em todas as outras, terão de ser expositivas, lecionadas pelo professor e a este respeito devo repetir o que disse, por escrito, ao anterior Diretor da FEUC, Alvaro Garrido:

“os estudantes de hoje não dispõem de melhor formação do que os do meu tempo de final de carreira, antes pelo contrário, e, sendo assim, é para mim óbvio que a unidade Projeto Integrador está condenada a ser um fiasco, o que não posso nem devo acreditar dada a idoneidade dos seus responsáveis, mas não tenho outra saída senão pensar que vai ser um enorme fiasco. Sinceramente creio nesta hipótese.

Este princípio de presunção de autonomia do estudante subjacente à disciplina dita Projeto Integrador é o culminar de práticas pedagógicas em crescendo a que assisti quando saí da FEUC: os alunos a ocuparem o espaço de lecionação em substituição do professor. Hoje, mais ainda, penso que, com a degradação do ensino, um drama geral de que ninguém quer falar pois é politicamente incorreto, só há um tipo de aulas que se deve realizar: aulas em que a figura central volte a ser o professor, dialogante e mestre, e não basicamente o aluno, aulas clássicas, teóricas, práticas e teórico-práticas, mas aulas lecionadas com o cérebro, com a alma, com o giz e, de vez em quando, com o apoio de “powerpoints” ou ainda de qualquer outro meio de multimédia, desde que não se abuse destes. Falo aqui de aulas que não sejam meras reproduções de manuais, obviamente de qualidade, ou de outro tipo de textos, digitais ou não, mas sejam antes uma reconstrução pessoal do professor desses conteúdos, adaptando-os aos alunos que se têm e a pensar no que se pretende que eles devem ser [5]. Uma prática letiva como esta, significa uma outra visão do espaço de aula e da posição do professor dentro dela, em que se interage com a sala, via perguntas e respostas (ou contra a ausência destas) em oposição ao que se assiste hoje: alunos passivos, ou mentalmente ausentes, professores leitores de “powerpoints” e de costas voltadas para os alunos, e assim nos adaptamos aos alunos que temos”.

 

Nada disto tem a ver com o espírito do Novo Curso de Economia criado por Tiago Sequeira, Pedro Godinho, Alvaro Garrido e outros, nem com as práticas educativas que possivelmente lhe estarão associadas. Que uma disciplina como Projeto Integrador, cuja função é integrar em trabalho dos estudantes, o que não lhes foi ensinado e ainda por cima a valer por duas disciplinas normais, é para mim uma vergonha; perceba-se então o que tenho estado a dizer quanto a sentir-me mal junto destes catedráticos modernos. Continuando sobre este tema, a referir-me ao que me faz sentir mal, direi ainda que me sentiria mal ao lado de catedráticos que deram equivalências ao desbarato, permitindo que muitos alunos tenham saído diplomados sem terem feito todas as disciplinas obrigatórias, seja no plano de curso velho seja no novo. Plano de curso por eles elaborado, diga-se. Exemplo caricato desta atribuição de equivalências, cientificamente sem qualquer sentido, é o caso que passo resumidamente a relatar: convenço um aluno que tinha abandonado o curso a reinscrever-se, porque não tinha sentido continuar a estar não licenciado quando lhe faltavam apenas algumas disciplinas. Devia pedir a reinscrição e fazer as disciplinas que lhe faltavam. Mais ainda: soube depois que tinha pedido a reinscrição no curso de Economia e que no dia a seguir a tê-lo feito recebe a informação de que estava licenciado! Claro que me sentiria muito mal ao lado desta gente, ao lado destes doutorados de agora, e o professor do ISCA (Instituto Superior de Contabilidade e Administração) [6] estaria agora certo, mas não na altura em que fez a afirmação que fez a meu respeito.

Sejamos francos, chame-se os bois pelos nomes. À luz da análise que acaba de ser feita sobre o novo plano de curso só posso dizer que me sentiria muito mal se vivesse rodeado de tantos doutorados que brilham pela incompetência mostrada na elaboração deste plano de licenciatura em Economia. Mas não só na elaboração do novo plano de licenciatura: esta incompetência mostrou-se também na organização dos planos de transição. Estes planos de transição foram uma verdadeira vergonha, atestando ou uma incompetência total ou uma desonestidade intelectual total ou até as duas coisas, é o que penso da comissão organizadora destes mesmos planos. Pessoalmente, inclino-me mais para a primeira hipótese de explicação dessa desgraça. Mas meu Deus, todos estes planos foram aprovados em Conselho Científico, Que direi eu então? Face aos dados acima descritos, e estes dados são confirmáveis de imediato, simplesmente direi: mantenho o que disse. Mas mais ainda: tendo em conta que alguns destes organizadores foram meus alunos, embora não de nota excecional na minha disciplina, mas de nota classificável entre a média alta e o bom, tal classificação levaria a que não os poderia chamar de incompetentes como escrevi.

Dizendo que mantenho o que escrevi, situo-me perante uma antinomia, para a qual preciso de encontrar uma explicação. E a explicação que encontro parece-me bem sustentada: a carreira docente tal como está estruturada leva a que cada docente tenha de tomar como objetivo principal não o que a sociedade exigiria dele como professor, mas sim o que ele precisa de fazer para se manter e progredir na carreira. Os ratings, as classificações a alcançar ou as penalizações a receber, estão lá a dizer que não pode haver desvios quanto ao objetivo a alcançar.

No processo de progressão são as competências adquiridas que se vão esfumando e substituídas pelas artes de viver bem em progressão de carreira. Se esta tese tem consistência, sinceramente penso que tem, podemos então afirmar que a progressão na carreira em vez de significar alargamento e aprofundamento de saberes, de competências, está sobretudo a ser um meio de desconstrução de competências adquiridas. A ser assim, perceber-se-ia porque é que se verificou essa vergonha nos planos de transição.

No meu tempo, e eu também fiz planos de transição, a pedido do Presidente do Conselho Científico de então, Boaventura Sousa Santos, isso não acontecia assim: era sempre salvaguardado a obrigação de fazer as disciplinas obrigatórias, sejam as do plano antigo ou as do novo plano de curso. Esse plano de transição teve uma particularidade bem especial: para salvaguardar o fundamental do conjunto dos dois planos de curso e para evitar a manta de retalhos que as opções provocam fez-se um plano de curso para cada aluno, desde o ano de entrada do plano novo até ao fim da sua licenciatura.

Neste trabalho, havia aqui duas exigências de base a satisfazer por quem fizesse esse trabalho: a do conhecimento global dos objetivos do plano de curso, e este objetivo era genericamente o mesmo nos dois planos, e os objetivos das disciplinas centrais para que o produto final fosse coerente e salvaguardasse o núcleo central do plano de curso. Nem imaginam o trabalho que isto deu, mas eram outros tempos, eram tempos de dedicação e de sentido de coletivo, tempos de missão diria eu, contra o que agora se passa, que são tempos de individualismo extremo e de carreirismo.

Curiosamente e face a muitas das minhas críticas, nunca me calei face ao que se estava a passar, o diretor da FEUC aquando da criação dos novos planos de curso, Álvaro Garrido, dizia-me que eu andava a escrever patetices, mas à luz de tudo isto pergunto-me sinceramente onde é que está o pateta desta história, se é que ele existe.

Vejamos um outro exemplo da situação da Universidade, e este espelhando uma outra realidade que não deixa de estar ligada à anterior: os doutorados de hoje sabem cada vez mais de cada vez menos – o que nos faz lembrar Niels Bohr [7] – e os polímatas são nas Universidades atuais uma raridade cada vez mais rara, passe a redundância! Por esta razão não me identifico com as práticas dos doutorados de hoje. E não me sentiria bem a conviver com eles.

Vejamos um exemplo concreto e bem elucidativo do que acabo de dizer. Em tempos uma aluna da Universidade Nova e do curso de direito económico, filha de dois grandes amigos meus, pediu-me se lhe dava umas explicações. Vinha à sexta-feira de Lisboa para Coimbra e partia domingo à tarde. Como estudante que ela era e como professor que eu era, ela entendia que eu devia saber igualmente de todas as matérias de economia. Num desses fins-de-semana as explicações eram sobre Microeconomia. Problema maior: como eu saberia igualmente de todas as matérias, eu não precisaria de nenhum manual nem de nenhum texto de apoio. Isto era falso, eram precisos os manuais ou os textos de apoio à disciplina. As explicações eram dadas a partir da solução dos problemas que os alunos tinham de resolver e que eram resolvidos por nós os dois na minha casa. Vejam só o que me era solicitado. Não era fácil.

Agora imaginem que não tendo tido a disciplina de Microeconomia, dispunha apenas como material para as explicações os exercícios práticos para resolver. E a explicação não era resolver os problemas das aulas práticas, era explicar a resolução, ou seja, era explicar a teoria subjacente ao problema em questão e o problema a resolver aparecia assim como a sua ilustração. Só assim é que se pode dizer que se está a ensinar. No caso presente, tinha duas soluções: ou mandava a aluna minha amiga para Lisboa, ou tentava ser útil, dado o tempo e o dinheiro já perdido pela mãe da jovem em questão. Decidi-me por esta última hipótese. Telefono a um professor catedrático responsável por esta disciplina e peço-lhe ajuda para o caso de ser preciso. Curiosamente a resposta deixou-me extremamente incomodado, já que foi, inexplicavelmente, a seguinte: tens de falar com os meus assistentes, eu apenas dou teóricas! Face a catedráticos destes, simplesmente direi: tenho vergonha. Hoje, muitos deles e de menos prestígio que o catedrático a que me refiro, dariam a mesma resposta.

Desenrascámo-nos bem. Tive duas dúvidas, uma de detalhe que um dos assistentes me tirou e uma segunda mais complexa que ele também não conseguiu resolver. Eu arranjava uma resposta matematicamente correta, mas esta solução implicava a utilização por duas vezes de equações do segundo grau e para mim era impensável que fosse colocado um problema destes com este trabalho e num exame para quem tinha apenas o nono ano, e feito há anos! Enganei-me, pois para os senhores da Universidade Nova as questões pedagógicas eram irrelevantes, e a prova de vinte valores saiu com um problema destes, e a valer 10 valores! Inacreditável! Foi o caos naquele exame. Teve que ser prolongado e por muito tempo mais. Reprovou quase tudo. Passou esta minha explicanda, creio que com a classificação de treze valores, e o filho do Jorge Miranda que tinha estado no ISEG e, portanto, tinha pelo menos a matemática do 12º ano.

Este desenrascar não surgiu por milagre. Reclamo-me de ser um neo-ricardiano de esquerda, portanto, adversário frontal dos neoclássicos, das ideias dos homens que criaram a microeconomia e só se pode ser adversário da teoria de alguém se se conhecer essa mesma teoria. E como crítico da teoria dominante, logicamente que conhecia essa teoria, mas tratada a um outro nível que não o nível lowbrow a que uma disciplina como esta necessariamente se situava do plano de curso de qualquer licenciatura. Aqui diria que os meus quadros mentais não estavam oleados para a resolução do tipo de problemas apresentados. Mas tenho muita pena, sabendo-se a teoria, chega-se à prática, mas a inversa não é verdadeira, pois saber a prática não é condição suficiente para se chegar à teoria. E foi o que aconteceu, chegou-se à prática.

Mas há algo de muito errado naquela resposta do meu colega catedrático, uma resposta que hoje seria banal em muita gente, o que ainda é mais lamentável. Pense-se nisso, pense-se então nos catedráticos que temos agora ou podemos ainda fazer o raciocínio inverso: partindo do que sabem os alunos à saída dos cursos, e como estes planos de curso são construídos pelos catedráticos de hoje, podemos inferir que catedráticos temos hoje.

Uma das causas para esta nova realidade é o sistema estar viciado na sua estrutura: o estudante na licenciatura não pretende estruturar conhecimentos, procura obter a média de licenciatura mais alta possível. Procura então as disciplinas de opção que lhe dão nota mais elevada. A consequência é que todas as disciplinas concorrem entre si à baixa para captar estudantes. Entra, a seguir, no mestrado, onde as opções abundam e faz a mesma coisa. Depois, afunila os seus conhecimentos com o doutoramento, exigindo-se-lhe que saiba muito, mas de muito pouca coisa [8]. Atinge o grau de doutorado e, depois, assume funções de comando em qualquer Instituição Universitária, mas sem qualquer experiência do que é o ensino. Mas pode comandar… Este foi o método desenvolvido por Alfredo de Sousa na Universidade Nova. Uma certa tarde, já comigo assistente em Coimbra, encontro-me com ele, à porta do ISEG, na rua do Quelhas. Estava Alfredo de Sousa a falar com Miguel Beleza. Cumprimentámo-nos e ele apresenta-me a Miguel Beleza mais ou menos da seguinte forma: este é o aluno a quem dei a nota mais alta de sempre. Com alguma ironia assinala depois, acima da tua! O Miguel Beleza olhou-me como um boi olha para um palácio. Não entendeu.

Foi uma conversa de largos minutos onde veio à baila eu não estar ainda doutorado. Com orgulho, dizia-me ele, na Universidade Nova o assistente entra por uma porta e sai imediatamente por outra para se doutorar! In and out, é o nosso sistema, dizia-me ele, com o Miguel Beleza sempre calado. E os resultados desse sistema agora generalizado estão bem à vista [9]. Na minha Faculdade tive alguns problemas de relacionamento pessoal porque me opus a que alguém saísse para doutoramento sem ter tido pelo menos dois anos de prática docente. Temos um problema semelhante em medicina: a sequência é a mesma, ou equivalente. Um estudante obtém o grau de licenciado. Passa à especialidade e sai especialista sem saber nada do que é fazer medicina geral. Mas isto é toda uma outra história.

Na nossa análise sobre as eventuais razões do meu não doutoramento, eliminemos a explicação dada pelo meu antigo aluno e assistente no ISCA porque na época isso não tinha qualquer sentido, estávamos na FEUC com doutoramentos de qualidade e, portanto, considerar que eu não me queria confundir com esses doutoramentos era impensável, era pura e simplesmente um absurdo. Curiosamente tem-no hoje e face aos doutorados de hoje, como exemplifiquei acima. Exemplos mais recentes, confirmam este meu ponto de vista. Quando uma faculdade, como a nova FEUC, aprova este ano, e para o cargo de catedrático em economia, alguém que não tem uma licenciatura em economia, tem um mestrado em economia financeira, Pedro Godinho, ou se aceita um candidato a catedrático na primeira reunião do júri porque preenche as condições de candidatura, o Professor Fuinhas, e se recusa na segunda reunião do júri porque não preenche as ditas condições (é ou não é) diríamos que a afirmação publicada no sítio Dias Riscados, se fosse dita hoje e face a muitos dos doutorados de hoje, essa afirmação teria muito sentido. Como são os novos tempos! Os jovens têm uma imaginação fértil, por isso é que são jovens e muitas vezes adivinham o futuro!

Creio que o responsável do sítio eletrónico Dias Riscados era um assistente do ISCA que teria sido meu aluno e que, pelos vistos, nutria um enorme respeito pelas pressupostas minhas qualidades intelectuais. Cheguei a admitir que o autor do texto fosse o Luís Aguiar-Conraria, falámos de algo passado há mais de 20 anos. Não foi ele, disse-mo, sendo certo que hoje não lhe faria esta pergunta e exatamente porque os tempos são outros.

Dito isto, sublinho que discordo completamente da opinião expressa no sítio “Os Dias Riscados” (que eu não me doutorava porque me queria diferenciar de alguns doutoramentos que circulavam por aquela que foi já a casa de onde saiu gente altamente formada). Nunca fiz comparações com ninguém, nem isso me interessava. Portanto, se há razões para o meu não doutoramento elas terão de ser outras.

Restam-nos as duas primeiras hipóteses em separado ou em conjunto e as vias de explicação seriam então H1, H2a, H2b ou ainda: (H1+H2a) (H1+H2b) se quisermos alargar o campo de análise para percebermos porque é que não me doutorei.

Para muita gente a explicação é dada por uma qualquer destas hipóteses; é uma opinião e contra ela não tenho nada a opor. Foi assim que convivi, e bem, com os colegas que votaram contra a minha passagem a professor associado na FEUC. E nem sequer precisam de a fundamentar. Porém, tenho o direito de discordar dessa leitura, é próprio da Democracia, mas aqui, sendo contra a lógica do senso comum, devo fundamentar a minha discordância.

 

(continua)


Notas

[1] Agradeço ao meu amigo Manuel Ramalhete a revisão cuidada que fez deste meu texto, onde aceitei todas as sugestões propostas. Agradeço igualmente ao Francisco Tavares a segunda revisão feita a este texto e o arranjo editorial do mesmo. E garantidamente não foi um trabalho fácil nem para um nem para o outro destes dois revisores. Não deixo, porém, de dizer que se erros há, eles são da minha inteira responsabilidade.

[2] Por esta razão, mantenho a mesma dedicatória que no caso anterior, ao José Veiga Torres, Boaventura Sousa Santos e João Cravinho.

[3] Agradeço ao Boaventura Sousa Santos a sua disponibilidade e carinho com que acompanhou a escrita deste texto à medida que o mesmo se ia dilatando. Não sigo, porém, a sua sugestão para passar do texto a livro de memórias. Mas agradeço a ideia.

[4] Não devo deixar de sublinhar que é lamentável que Macroeconomia tenha sido reduzida e resumida a um só semestre. Sendo disciplina anual, permitiria outros desenvolvimentos nas disciplinas seguintes.

[5] Qualquer antigo aluno meu sabe bem que esta foi sempre a minha prática como docente, ou seja, lecionei sempre com o cérebro, com o giz, com a alma, ou, dito de outro modo, sem “powerpoints”. Direi assim que lecionei sempre com uma posição tão “dadivosa” quanto exigente face à ignorância dos alunos. Era, e ainda hoje é, a melhor forma de os respeitarmos. Este comportamento tem um nome: espírito de missão, em contraponto com o espírito de hoje que tem outro nome: espírito de carreira. E é com este último que se podem ter hoje muitos catedráticos com uma idade abaixo dos 50 anos.

Curiosamente, esta minha posição foi há tempos bem referenciada pelo meu antigo aluno, o Nina, um colega de grupo de trabalho em que estava uma outra das minhas alunas brilhantes, a ministra Ana Abrunhosa, aluna de licenciatura, de mestrado e minha orientada em tese de mestrado, quando o Nina, numa conversa com o Soares da Fonseca, se referiu à preocupação que eu tinha com o nível de cultura económica dos meus estudantes. Era simples o exemplo que o aluno referia: eu comprava o jornal Le Monde e, se achava que era importante que os meus alunos tivessem conhecimento de dado artigo, traduzia-o, não havia “internet” nem tradutores automáticos, pagava muitas vezes as fotocópias e distribuía-as gratuitamente nas aulas. Isto não se inscreve, naturalmente, em nenhuma linha de curriculum para progressão de carreira.

Ainda a propósito de Ana Abrunhosa, refiro aqui uma situação curiosa. Depois de ter passado a Economia Internacional (creio ter sido com 17 valores para o máximo dado até à minha saída que era 18) ela, que era a autora dos melhores apontamentos que já vi, foi à minha aula de apresentação da disciplina no ano seguinte falar do seu método de estudo e tornar disponíveis os seus apontamentos para todos os meus alunos, o que também não é habitual, mesmo naquele tempo, que ainda era um tempo de solidariedades.

[6] Que seria responsável pelo sítio eletrónico, Dias Riscados, onde se dizia que eu não me doutorava porque me queria diferenciar de alguns doutoramentos que circulavam por aquela que foi já a casa de onde saiu gente altamente formada, como referido atrás.

[7] Físico dinamarquês (1885-1962).

[8] Esta lógica não irá mudar com o atual governo AD. Com efeito, o ministro Fernando Alexandre num artigo publicado pelo Público em 23 de dezembro de 2024 intitulado Mais autonomia e mais impacto das universidades e politécnicos – Atual sistema jurídico, em vigor desde 2007, é demasiado rígido. Um sistema binário que demarca de forma muito vincada a distinção entre universidades e politécnicos está ultrapassado. Escreve:

“Em 2023, ao permitir-se aos institutos politécnicos outorgarem o grau de doutor deu-se um passo importante no sentido da flexibilização do sistema e do reforço da autonomia das instituições. Esta mudança permitirá aos politécnicos desenvolverem estratégias mais baseadas em conhecimento científico, com mais impacto nas regiões. De facto, esta alteração mudou a essência do sistema binário, dando ao conhecimento científico uma centralidade que não tinha nas instituições politécnicas e aproximando o ensino politécnico do ensino universitário. Na proposta de revisão do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), o Governo propõe flexibilizar a oferta educativa das universidades e dos politécnicos, quebrando barreiras que limitam a sua capacidade de responderem às necessidades da sociedade, da economia e das regiões.

Mais autonomia e mais flexibilidade permitirão o desenvolvimento de um sistema e de uma rede mais diversificada, com mais concorrência e inovação, e também mais robusta, através da redução da elevada fragmentação existente”. Os sublinhados são nossos.

De acordo com a prática que temos vindo a assistir, a concorrência em Portugal exerce-se no sentido da baixa, ou seja, em breve teremos as Universidades a descer de nível para concorrerem no mercado de captação de estudantes. O termo que os neoliberais utilizam é serem mais atrativos. Ora quanto aos politécnicos impunha-se corrigir o tiro dos neoliberais do PS, deveria ser necessário reanalisar o modelo dos Institutos Politécnicas à luz da eficácia que tinham os antigos Institutos Técnicos do tempo de Salazar. Não tenhamos medo do termo. Recentemente estive com um engenheiro formado nesses antigos Institutos a quem contei que precisava de um serralheiro especializado e a resposta dele foi- “não há, não encontra. Deixámos de ter quadros médios de qualidade, deixámos de ter gente capaz de trabalhar com as mãos”. Corrigi imediatamente: não formamos cabeças capazes de fazer trabalhar adequadamente as mãos. Tem razão, respondeu. Um outro exemplo: um amigo formado no antigo Instituto Industrial concorreu nos anos 70 a uma Grande École em Paris e deram-lhe equivalência aos dois anos feitos no Instituto Industrial. Uma honra ao ensino técnico que na altura se fazia em Portugal. Estou, portanto, em desacordo total com o que nos diz o ministro quanto à evolução futura do ensino superior, onde tudo passa a ser igual, mas no sentido da baixa. e caminharemos do mal para o pior, tanto ao nível dos Politécnicos como das Universidades. Veremos.

A reforma do ministro Fernando Alexandre sobre o regime jurídico do ensino superior anunciada no início de fevereiro vai ser presente ao Parlamento. Pelo estrondoso silêncio que se ouviu até agora, penso que esta reforma irá passar na Assembleia com os votos do PS. Naturalmente assim, apesar de Pedro Nunes Santos, uma vez que este partido e o PSD terão sido os principais responsáveis pelo estado de degradação a que a situação do ensino universitário chegou e pelo silêncio que se tem feito e se continua a fazer à volta dele, como o demonstra também a reforma saída das mãos do ministro Fernando Alexandre. Digam-me quantos foram os professores que se têm manifestado de forma séria contra a crise do ensino na Universidade em Portugal? Só conheço um: Bacelar Gouveia. Lamento dizê-lo assim.

[9] De resto, isso é bem expresso numa greve havida na Universidade Nova. Nos cartazes dos estudantes durante essa greve lia-se: não queremos ser a melhor Faculdade do país pela sua alta taxa de reprovações!

 

 

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