Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (4/8).  Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Este extraordinário texto de Júlio Mota, testemunho de uma vida, de uma sociedade, de circunstâncias que são já passado, está permanente e totalmente virado para o futuro, para uma sociedade com extraordinárias mutações, mas que será incompreensível se ignorarmos as suas raízes. E, infelizmente, não são apenas os jovens de hoje, muitos dos quais ignoram esse passado, são também instituições de elite como são as Universidades, são também os políticos e o poder político que minimizam quando não mesmo ignoram o passado (e querem mesmo apagar um passado recente libertador como foi o 25 de Abril de 1974) e o caminho percorrido de retrocesso que nos trouxe à situação atual. Situação que em diversos aspetos relembra misérias e perseguições que não queremos ver repetidas, uma situação que dá sinais de esgotamento do regime em que vivemos, sem que seja claro para onde queremos ir. Um tempo gramsciano, diremos.

E neste quadro de incerteza, e de potenciais perigos que se adivinham, neste quadro sombrio e distópico, grandes responsabilidades devem ser assacadas a uma esquerda, e também a uma direita, que se arrogam de anti extrema-direita, mas que na sua prática política enquanto detentores, por largo tempo, do poder muito têm contribuído para o surgimento e reforço dessa mesma extrema-direita. Em muitos dos textos publicados no nosso blog, nomeadamente de Júlio Mota  ou por ele selecionados, se tem chamado a atenção para questões críticas que têm contribuído decisivamente para o estado de desorientação atual: redução do papel do estado social, com crescente privatização de serviços públicos essenciais, endeusamento dos mercados, enaltecimento desmesurado do indivíduo em desfavor do interesse coletivo, confusão entre direitos das minorias e direitos das maiorias, austeridade com crescente pobreza, crescente desigualdade da distribuição da riqueza, precarização do trabalho, tudo isto embrulhado em avalanches de informação, as mais das vezes manipulada, ou no mínimo enviesada, quer nas redes socais quer em canais públicos de informação.

Este texto do Júlio Mota, mais uma vez, tem a força e lucidez dos desafios que as suas reflexões sempre nos trazem e, como um seu amigo nos diz, tem “a mesma paixão pela (des)ordem do tempo que vivemos”.

Apesar de muito entusiasmante a leitura integral do texto, dada a sua notável extensão optámos por publicá-lo em oito partes – hoje a quarta -, seguindo a própria estrutura.

 

FT


12 min de leitura

Hoje faço 82 anos: um olhar para o que fui e para algumas das minhas circunstâncias (4/8)

A sociedade portuguesa em análise e na primeira pessoa

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de fevereiro de 2025

 

Dedico esta peça a José Veiga Torres, João Cravinho, Boaventura Sousa Santos e a um antigo aluno meu cujo nome não sei, por fazerem parte desta história. A todos o meu reconhecimento.

JMota

 

ÍNDICE 

1ª PARTE – Introdução                                                         

2ª PARTE – Da infância à adolescência e ao jovem adulto                 

3ª PARTE – De operário a universitário, de adolescente a jovem adulto e a aluno do ISCEF 

4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país                        

5ª PARTE – Do cristianismo ao Marxismo – a passagem à idade adulta  

6ª PARTE – De jovem adulto a professor no ISCEF e na FEUC           

7ª PARTE – A degradação atual do ensino, um espelho da evolução do país, um espelho da degradação do espírito de abril                                     

8ª PARTE – A ascensão da mediocridade às Universidades e ao poder político                                                                                        

ANEXOS                                                                       

_______________

(continuação)

 

4ª PARTE – Histórias de guerra e de amor ao país 

 

 

Destes últimos, dos que não morrem na guerra, mas morrem da guerra, vejamos dois exemplos emblemáticos: 1) o primeiro deles em que a ideia de fraternidade se sobrepõe à ideia hegeliana do Estado; 2) o segundo caso, em que ou se escolhe a ideologia fascista e a morte ou a liberdade e o direito à vida.

  1. A fraternidade sobrepõe-se à ideia hegeliana do Estado

Lembro-me de alguém que, em nome da solidariedade humana, andou fugido anos e anos, fugido ao sistema repressivo português e ao sistema democrático também. Uma curta história que vale a pena contar e contemo-la então.

Um oficial miliciano é colocado na Guiné. Aí entabula ligações com os homens do PAIGC. Sempre que havia um ataque e ele podia, avisa os elementos do PAIGC do que ia acontecer. Pouparam-se muitas vidas, quer do lado de lá quer do lado de cá e esta era a sua divisa. Um dia um elemento do PAIGC é apanhado. e recusa-se a falar até que leva com oito dias de prisão em estátua. Não aguentou e falou e denunciou o militar de que estou a falar, José dos Santos Branquinho. Este militar era meu conhecido não do café Nova Iorque, era mais velho que eu cerca de 12 anos, mas de Paris, onde o conheci como grande amigo da amiga com que eu ali estava naquela semana, Maria José Simões que veio para Paris fazer um estágio em medicina e na especialidade de oncologia.

Na sequência da denúncia, José Branquinho foi preso. Em situação de guerra declarada, ele seria fuzilado, mas de acordo com a posição política assumida por Salazar, não estávamos em guerra, logo não poderia ser executado. Veio preso para Caxias onde se comportou exemplarmente de acordo com as regras em vigor na prisão e tornou-se até “amigo” de dois oficiais (assim me foi contado).

Um dia adoece. É-lhe marcada uma consulta no Hospital de Santa Maria. No dia da consulta é acompanhado ao Hospital por dois oficiais. É visto pelo médico e depois de saírem do Hospital o José Branquinho sugere aos oficiais irem tomar café ao café Nova Iorque. E assim foi.

O café tem duas entradas e uma coluna de cimento ao meio, entre as duas portas. Pela parte de dentro nessa coluna estava instalada uma cabine telefónica das pequenas, de cor vermelha. Branquinho pede licença para telefonar. Telefona para a casa onde tinha deixado tudo antes de ir para a Guiné. Telefona e dizem-lhe que a senhora não está. Ele terá dito: não há problema, vou passar por aí, escolhe a camisola mais quente do meu armário e coloca-a na casa de banho.

Desliga o telefone. Volta para a mesa e toma o seu café. Relata então que precisa de ir buscar uma camisola ali muito perto do café Nova Iorque e pede que o acompanhem até à casa, onde entram os três. Chegados à casa, despe o casaco, tendo o cuidado de meter tudo o que era importante nos bolsos das calças e coloca o casaco em cima de uma cadeira. Tratou-se de um claro sinal de confiança transmitido aos dois oficiais que o guardavam. Já sem casaco pede aos oficiais que o deixem ir à casa de banho, onde está a camisola mais quente que tinha. A casa de banho dava para as traseiras e a casa tinha uma porta a dar para um parque nas traseiras, fora do alcance visual dos seus acompanhantes. Vai à casa de banho, pega na camisola quente e foge. Nunca mais ninguém o viu.

Nesse dia deambulou por Lisboa. A zona do Nova Iorque é cercada. Nada é encontrado. Se não estou enganado, houve um comunicado na televisão sobre um perigoso terrorista que tinha escapado às malhas da justiça. E é reproduzida a sua fotografia. Esse terrorista é procurado metro a metro, rua a rua naquela zona, ou seja, nas proximidades do café Nova Iorque e nada, nada. Isto faz-nos lembrar a primeira estrofe do poema Invenção do Amor de Daniel Filipe, em que aqui eu diria: invenção da liberdade, porque livre é que o Branquinho não ficou. Diz-nos o poema:

“Em todas as esquinas da cidade

nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros

mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e

detergentes

na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém

no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa

esperança de fuga

um cartaz denuncia [-nos assim como à a nossa ideia de fraternidade]

Curiosamente, o José Branquinho terá circulado por zonas mais ou menos de menos exposição e dorme essa noite num jardim, como um sem abrigo, abrigado com a sua camisola quente. Possivelmente entre outros sem abrigo, para não se fazer notar. É-me totalmente impossível pensar que ideias lhe passariam pela cabeça naquela noite, enrolado na sua camisola quente, sendo certo que se apanhado seria condenado a uma pena ainda maior. E tudo isto porque em nome da dignidade humana tudo fez para salvar vidas, vidas de pessoas que conhecia do lado de cá, vidas que não conhecia do lado de lá. Se fosse católico como quando tinha dezassete anos, eu diria que naquela noite a mão de Deus o livrou da maldade dos assassinos que controlavam este triste país de então, mas como o não sou e porque o não sou, direi que desta vez a sorte esteve do seu lado.

No dia seguinte, procura abrigo em igrejas por onde circula. Numa delas, em S. João de Brito creio eu, há uma senhora de idade que tropeça e cai. Ele ajuda-a levantar-se e a senhora, já velha, pesada e vergado pelo peso dos anos, pede-lhe o favor de a ajudar a descer os três degraus do adro da Igreja. Tem medo de cair. Branquinho, este, fica lívido, recupera o sentido da razão, acalma-se e ajuda a velhota. Situação caricata, a velhota tem medo, medo de cair e pede apoio, e a pessoa a quem pede apoio tem medo de ser preso ao apoiá-la. Ambos têm medo, ambas caminham coxos, ela coxa pelas pernas que já perderam a força da vida, ele coxo por causa da liberdade que lhe foi roubada. Nada acontece, felizmente. Pelo que depois me contou em Paris terá sido socorrido pelas gentes do PC. De resto era a única força política com capacidade organizativa para operações deste tipo. Penso eu que foi assim, aqui não quis fazer perguntas, como é óbvio, estávamos em 1971.

Mais tarde, e de forma indireta, quase que confirmei que terá sido mesmo assim. Cruzei-me por volta do ano de 2000 na casa de um grande amigo meu, Manuel Louzã Henriques, um ilustre militante do PC, em Coimbra, com um amigo deste de Lisboa. Falou-se, falaram dos pesados tempos de repressão e de prisão, veio à baila o nome de Branquinho e o à-vontade com que o visitante de Lisboa falou do assunto, deu-me a entender que o conhecia bem melhor do que eu. Hoje, é tudo gente que a vida já deixou, pois, as idades e as doenças são o que são. Resta um ou outro velho para falar do assunto, como é agora o meu caso e, desse ponto de vista, é obrigação nossa, seja relembrar aqueles que tanto sofreram com esses anos de chumbo, seja denunciar as situações que os levaram a esse sofrimento. De resto, é neste âmbito que se inscreve a publicação do presente trabalho.

Parte desta história é-me contada enquanto ele, o Branquinho, preparava um quarto para um cliente novo num hotel na Rue Vaugirard. Tive pena, muita pena de toda aquela história, os filhos do meu país, universitários muitos deles promissores quadros, a prepararem camas de hotel de três estrelas. Na altura teria como seu grande amigo em Paris o Luís Niza, irmão do José Niza e em Lisboa, curiosamente, um dos seus grandes amigos, era o Meneses que, enquanto estudante de direito, era alguém com quem eu me dava enquanto marçano na Praceta Afonso Lopes Vieira, por volta dos anos de 1959-1961. O mundo é mesmo pequeno. Tempos de chumbo estes, onde os pobres soldados morriam na guerra e os outros, os filhos da pequena e média burguesia que podiam, vegetavam no exílio da maneira a que eu estava a assistir.

Esta é a história que me é contada em Paris em 1971. Dava prazer ouvir o José Branquinho dizer com enorme orgulho: ”por minha causa nunca ninguém morreu, nem do lado de cá, nem do lado de lá”.

Mais tarde, forma-se, chega a ser professor na Sorbonne, especialidade em Estudos Ibéricos. Com o 25 de Abril volta a Portugal e em plena Democracia é obrigado a fugir, de novo, porque tem um processo militar às costas de que não foi julgado e tem de ser preso. Dito de forma mais direta: corre o risco elevadíssimo de ser preso porque em democracia tem de cumprir a pena de que teria de cumprir se estivéssemos em pleno fascismo, como se fascismo seja igual a democracia, ou como se o fascismo ainda não tivesse desaparecido. Volta a fugir e terá sido a Maria de Lurdes Belchior, que o terá conhecido na Sorbonne, que terá intercedido junto das autoridades portuguesas para limpar o processo e deixar o Branquinho finalmente livre. Por fim, finalmente livre terá voltado a ensinar em Portugal. Morreu há cerca de 8 anos, de cancro.

Esta é uma história trágica diremos, uma história toda ela feita de um sentimento enorme, enormíssimo, de fraternidade humana. “Em tempo de guerra ninguém morreu devido aos meus atos, seja do lado de cá, seja do de lá”, dizia ele com orgulho, e escrevo-o eu, que o conheci, com igual orgulho.

2. ou se escolhe a ideologia fascista e a morte ou a liberdade e o direito à vida

O segundo caso mais dramático que conheço sobre os que não morrem na guerra, mas morrem da guerra, foi-me contado um dia, quando se falava a propósito dos passaportes que se perdem e se encontram. Uma conversa de pasmar, ocorrida há mais de cinquenta anos na casa de José Augusto Seabra, na região de Paris, onde jantei com ele, e onde conheci a mulher, Alzira, e os filhos. Espantou-me a pobreza das paredes brancas: nada a decorá-las.

 Seabra era na altura um homem de esquerda que mais tarde veio a ser ministro da Educação, pelo governo do PSD. Nunca mais me cruzei com ele. Falámos muito de Marx, do jovem Marx sobretudo, uma matéria que ele dominava bem tal como o seu orientador de tese Roland Barthes. Mas necessariamente a conversa viria a incidir sobre Portugal E aqui conta-me uma história de pasmar que passo a relatar.

Um jovem militar estava em formação militar num dado quartel, chamemos-lhe o oficial A. Quis embarcar num barco muito difícil de navegar e que se chama deserção. Tratou de tudo, não tinha dinheiro, pediu-o emprestado a um familiar, com a condição bem expressa de nada dizer ao pai dele, porque se o dissesse era certo e sabido que ele seria denunciado à PIDE pelo pai. O peso da ideologia fascista em toda a sua força estava ali, e não era muito diferente do peso que esta ideologia exercia sobre a minha prima Zabel. E não deve ter sido muito diferente com a família de José Augusto Seabra, pois este também organizou a sua fuga de Lisboa, onde o esperaria a guerra colonial, sem o conhecimento da família. Pelo que me foi relatado, o oficial A terá organizado tudo de forma que se corresse riso ZERO e terá mesmo arranjado passaportes “limpos” que o tornava legal logo que passada a fronteira entre Portugal e Espanha e até arranjou quem o levasse, a partir da passagem para Espanha, de carro até Paris. Entre Portugal e Espanha teria apenas que atravessar uma tapada de mato alto e na sua extrema havia uma estrada onde um carro estaria estacionado para os levar até Paris. Era curiosa a forma terna como esta história me estava a ser contada.

Limpo? O que quer dizer com isso?

Riu-se e diz-me: hoje isso seria imediatamente detetável. Na altura não. O passaporte era limpo de tudo o que era a escrita manual e rescrito com os dados do novo proprietário. Eram tirados os agrafos e a foto era substituída pela do novo proprietário. Depois levava os carimbos da PIDE e da Guardia Civil de Espanha. Ficava como novo?

Sim, ficava como novo e com os carimbos no passaporte podia-se circular por todo o lado menos na fronteira de saída de Portugal e de entrada em Espanha. Naturalmente tinham de ser utilizados bons branqueadores que não queimassem o papel e que limpassem tudo o que lá estava escrito. Era um trabalho de muito cuidado e que se deveria fazer pagar bem, muito bem mesmo. Estes artistas falsários corriam elevadíssimos riscos. Mas de quanto, isso também me escapa. Repare na situação que lhe estou a relatar.

Um amigo e colega militar do oficial A e do mesmo quartel quis também embarcar nesse mesmo barco, a deserção, e chamemos-lhe o oficial B. E refizeram o esquema de fuga para dois, sempre com o mesmo princípio: risco ZERO. Marcaram o dia da sua deserção e fuga em conjunto para França. Por triste coincidência, este oficial B foi escalado para oficial de dia, no dia da fuga. Pelo relato que ali me foi feito, na noite da véspera da fuga saíram e chegaram à zona de mato na fronteira. Correu tudo bem até que… era preciso passar a linha imaginária da fronteira espanhola, pois percorrendo algumas centenas de metros à sua frente e a corta-mato estaria uma viatura à espera deles na estrada para os levar a Paris. Chegado à linha imaginária na fronteira, o oficial B começa a chorar e volta para trás. Tem a liberdade ansiosamente procurada à sua frente e sem nenhum risco, treme, chora e recua, sabendo o custo elevadíssimo do recuo.

Que contradições haveria naquele momento e naquela cabeça, meu Deus! Este oficial B não poderia ser burro nenhum. Foi induzido pelo seu colega A, um tipo brilhante, e este não se iria arriscar numa jogada deste tipo, que valia uma vida, com um mentecapto mental. O oficial dito A terá seguido viagem para França. Instalado em Paris diplomou-se por uma Grande École o que atesta a sua qualidade intelectual e tornou-se alto-quadro numa empresa multinacional americana a ganhar muitíssimo bem. Pelo seu lado, o oficial B ficou travado não pela linha imaginária do mato em Espanha, esta linha não existe, foi travado pela linha bem real que tinha gravada na alma. Era um tipo inteligente.

Como se explica isso, pergunto eu.

Não sei, não consigo perceber. Voltou, chegou ao quartel e foi preso. Por sorte, ter-se-á aguentado bem e não implicou ninguém com o seu abandono da sua missão de oficial de dia, pois caso contrário, seriam os organizadores da fuga que seriam presos. Foi depois enviado para uma zona difícil da Guiné, enlouqueceu, regressou a Portugal e morreu a seguir. Mais um que não morreu na guerra, mas morreu da guerra. Terão sido muitos os jovens do meu país que foram destruídos pela guerra, mas não na guerra. E isto para não falar dos impactos sobre as respetivas famílias.

Escuto, olho para José Augusto Seabra e pergunto: que intensidade de sofrimento estaria aquele oficial B a sofrer quando decide recuar? Não consigo imaginar, disse eu. E a resposta dele, dada de forma evasiva, quase que me fez saltar do sofá onde estava sentado. Sabe, eu também fugi, eu também tenho saudades de Portugal e muitas. Às vezes isso dói-me tanto, tanto que vou até à fronteira de Espanha para ver o meu país, para respirar o ar do meu país, para sentir o cheiro do meu país, para sentir a luminosidade do meu país, para ver o céu azul do meu país, para ouvir o cântico dos pássaros nas arvores do meu país. Sabe, os países também têm cheiro e nós sentimo-lo, têm luz própria e nós vemo-la, têm som e nós ouvimo-lo. Não é por acaso que vários cineastas gostam muito da luz de Lisboa, por exemplo.

Seabra, com o que acabou de me dizer isso deu-me uma ideia de explicação, disse eu.

Qual?

Olhe estou em Paris há cerca de três semanas. Mantenho-me cá mais uma semana porque veio a nossa amiga comum, a Maria José Simões, cuja amizade vem dos meus tempos difíceis de marçano, sinto que está levemente em baixo e quero estar com ela uns dias, fazer-lhe companhia. Mas repare: desde que cá estou praticamente não vi o sol. Isto faz-me andar um pouco tonto. Preciso da luz do meu país. E agora, o Seabra fala-me do ar, da luz, do cheiro, no fundo, fala-me de tudo o que em termos de meio ambiente pode fazer mexer as cordas sentimentais de alguém. Não terá ele oficial B tido medo de ficar despido? Despido das suas circunstâncias?

Despido? O que é que quer dizer com isso?

Bem, respondi eu muito calmamente. Passada a linha imaginária, é a sua língua portuguesa que ele perde, é a capacidade de sentir que ele mentalmente elaborou em mais de 20 anos de língua portuguesa que vai desaparecer, é tudo o que fez de memória sua que fica para esquecer, são as rotinas que mapearam a sua estrutura de reflexos condicionados e incondicionados que se esfuma, que desaparece. No limite é até a sua capacidade de amar uma mulher que rapidamente se reduz quando tudo isto desaparece e, meu caro, não se ama só pelo corpo, ama-se também pela alma, pelos sentimentos que a utilização afetiva da língua materna faz transbordar. No fundo talvez ele tenha sentido a perda de tudo isso, talvez se tenha sentido despido, nu face a si próprio e a todos os que ele pode pensar como sendo os outros, despido das suas circunstâncias. Ao imaginar a perda de tudo isto, talvez com a sua nudez tenha vivido intensamente o sentimento de vazio que essa perceção de nudez lhe impunha. Os humanos, tal como a natureza, têm horror ao vazio e face a esse horror, talvez ele tenha optado antes pelo abrigo, mesmo mau, que o recuo lhe permitia. Que seria eu sem as minhas circunstâncias, perguntava-se Ortega Gasset, talvez ele tenha feito essa mesma pergunta e talvez tenha sentido que a resposta é NADA. Talvez tenha sido o medo desse nada que o tenha feito recuar, mas não poderia esquecer o que nos diz Marx com a sua tese nº 3 sobre Feurbach de que o homem também é parte ativa na criação das suas circunstâncias, neste caso, criando outras circunstâncias:

“A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado.”

No fundo, o oficial B em nada estaria preparado para a guerra, é também o que isto mostra, mas mais, mostra-nos igualmente que lhe faltava a endurance que a lógica hegeliana nos dá, faltava-lhe perceber que o conhecimento também advém do sofrimento, é a sua matriz, desde que enfrente logicamente as razões que o produzem, faltava-lhe ainda perceber que o despir das suas circunstâncias e o seu abandono, ali, naquele mato e face à solidariedade bem viva e bem chapada na cara dos que o rodeavam, era também uma circunstância, uma circunstância que ele próprio criava, uma nova circunstância a poder gerar outras circunstâncias. É isso que Marx nos ensina com a tese nº 3 sobre Feurbach. Não o percebeu, lamentavelmente, e, por isso, tomou um caminho que afinal acabou por levá-lo à morte.

O José Augusto Seabra ficou pensativo e respondeu: talvez tenha razão, mas eu prefiro dizer que não consigo entender.

Pela parte que me toca e em conclusão deste relato, direi que senti naquela história contada pelo José Augusto Seabra, como senti na sua própria história, que foi apenas referida de passagem, que havia muita solidariedade no meio de tudo isto, na realidade dos passaportes que se perdem e se acham, dos acompanhantes que se arranjam e nos acompanham com riscos de vida e sem ser por dinheiro, dos dinheiros que se emprestam, às vezes sabe-se lá com que dificuldade, e sem garantia de retorno, havia nisto tudo uma solidariedade imensa que se alimentava de duas grandes correntes messiânicas ou quase messiânicas: a de Cristo e a de um certo marxismo, o que eu chamei anteriormente e no presente texto de as duas lentes de ver e de fazer o mundo, o nosso.

É nesta lógica de solidariedades, pensadas, racionalizadas, sentidas, que se situa a minha questão das missas que o meu pai não queria mandar fazer. Essa lógica no meu caso é já o resultado da utilização destas duas lentes, alinhadas mais por instinto do que por consciência, a consciência disso adquiri-a depois, que se passa a história das missas que não se mandaram dizer ao padre. Uma tal posição, a de afirmar que mantinha a memória do meu pai através das missas não feitas, impunha custos para quem o dinheiro era um bem escasso, impunha sacrifícios. Mas, nessa linha eu sabia uma coisa, sabia que havia bem mais pobres do que eu e com esses o meu pai e eu próprio, éramos solidários. O encontro ocasional em Alpalhão atrás relatado mostra exatamente esse tipo de mentalidade, tanto a do meu pai, a de um não crente, e pela educação que me foi dada, como também a minha.

Refira-se que em 1965 estava já muito longe dos tempos de marçano, já tinha deixado calmamente Deus pelo caminho, pela injustiça do mundo que ele teria criado, já não escreveria 400 gramas de filosofia em vez de quatrocentos gramas de atum, facto que me fez pôr em risco o meu posto de trabalho, mas a ligação afetiva à mensagem mantinha-se. Parafraseando Hegel em Filosofia da História, eu diria que na base da utilização das duas lentes referidas, Marx e Cristo, a minha situação de precariedade daqueles tempos não foi a imersão estúpida num destino cego e sem horizontes que me abafasse, mas foi antes a fonte de energia que alimentava uma vontade humanamente quase impensável para escapar à marginalização social, a que de outra maneira estaria condenado pela origem de classe e pela situação de classe. Desde os 12 anos a viver sozinho na grande cidade, com os bolsos cheios de nada e um sonho quase impossível na cabeça, a trajetória mais provável seria a marginalidade.

 Na minha opinião de agora, os dois jogos de lentes referidos, o sentido de humanidade dado pelo cristianismo, e o sentido de classe dado pelo marxismo, assumidos de forma relativamente inconsciente nessa época, terão constituído as linhas de apoio que impediram essa queda mais que provável, mais que garantida. Dito na linguagem do marxismo moderna, digo hoje que se tratava de procurar, custasse o que custasse, o meu realinhamento dinâmico entre esses dois jogos de lentes, e este realinhamento terá sido depois solidificado pelos múltiplos afetos, pelas múltiplas ajudas de que beneficiei nessa trajetória de vida [23] e de que estou para sempre muito reconhecido. Concluindo, digo hoje que teremos tido aqui um processo mental equivalente ao que os marxistas chamam de alinhamento entre o em-si e o para si, à boa maneira de Lukács.

(continua)

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Notas

[23] Não poderei deixar de referir aqui três famílias que me ajudaram na precariedade dos rendimentos auferidos. São elas, os meus primos Maria Pinto e João Boleto na Rua Portugal Durão, Maria de Lurdes e João Pinto, na Rua Damasceno Monteiro, que a muito baixo custo me davam cama, mesa e roupa lavada, o que assim me permitia poder superar os custos fixos das minhas matrículas e refiro ainda a Dona Ema Oliveira e marido que me alugaram quarto perto do café Smarta e me trataram como sendo seu filho. Era o Portugal solidário, era a rede de afetos que a todos nos ajudava a sobreviver no fascismo, onde também entroncavam muitas das relações campo-cidade de que falarei depois, a que tenho o hábito de chamar os fios invisíveis de que se faz o pano com que se veste a sociedade.

 

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