Espuma dos dias — As elites do Euro estão atoladas no mesmo de sempre e necessitam fazer algo diferente para trazerem a paz à Ucrânia. Por Ian Proud

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

As elites do Euro estão atoladas no mesmo de sempre e necessitam fazer algo diferente para trazerem a paz à Ucrânia

 Por Ian Proud

Publicado por  em 6 de Setembro de 2025 (original aqui)

 

 

Insistir no mesmo ciclo todos os dias nunca trará paz à Ucrânia.

 

Nas notícias desta semana, a coligação dos “voluntários” comprometeu-se a enviar tropas para a Ucrânia em caso de um futuro cessar-fogo. A UE enviou uma delegação a Washington DC para encorajar a administração Trump a tomar uma posição unificada sobre novas sanções económicas, contra a Rússia. O presidente Zelensky disse que apenas a pressão forçará a Rússia a ir à mesa de negociações. E o Secretário-Geral da NATO declarou que não cabe à Rússia decidir quem pode ou não aderir à aliança militar global.

Se isso soa familiar, as manchetes poderiam ter sido escritas em qualquer momento desde Março de 2025, quando a coligação dos “voluntários” foi formada. Remova-se a referência à coligação, e a manchete poderia ter sido escrita em qualquer momento desde o início da guerra.

A banda sonora repete-se. Todos os dias Ursula von der Leyen, Mark Rutte, Friedrich Merz e outros acordam para ouvir ‘I Got You Babe’ de Sonny e Cher nos seus despertadores de rádio e o ciclo recomeça, mais uma vez.

A principal diferença entre a vida real e o clássico do filme de culto de 1993 é que Bill Murray muda continuamente a sua rotina diária para conseguir o que quer, para ganhar o carinho de Rita, interpretada por Andie McDowell. A única coisa que não muda é o toque do despertador.

No caso da Coligação dos Voluntários e do Presidente Zelensky, o seu objectivo é forçar o Presidente Putin a recuar da sua exigência fundamental em relação à guerra da Ucrânia, de que a NATO obtenha qualquer tipo de apoio na Ucrânia. Infelizmente, ao contrário de Bill Murray, eles fazem a mesma coisa dia após dia na esperança de um resultado diferente.

A razão pela qual isto não vai funcionar é que Putin tem falado sobre o alargamento da NATO desde a Conferência de Segurança de Munique de 2007, há 18 anos. Vamos olhar para trás num horizonte mais curto de onze anos.

Em 2014, apenas oito meses após a crise na Ucrânia, o veterano correspondente da BBC John Simpson visitou Moscovo onde, entre outras coisas, entrevistou o porta-voz do Presidente Putin, Dmitry Peskov. Você ainda pode encontrar a entrevista on-line, e eu encorajá-lo-ia a vê-la [n.t. por ex. aqui].

Há duas passagens críticas de Peskov na sua entrevista.

Na primeira, ele disse. ‘Vamos continuar a torná-lo muito mais tenso, no que diz respeito aos nossos interesses nacionais. Quanto mais tempo os nossos interesses nacionais estiverem em perigo, mais tempo continuaremos a responder. Isso não significa que queremos uma guerra fria. Significa que queremos que os nossos homólogos compreendam que temos as nossas linhas vermelhas.’

A mensagem, em alto e bom som, era que, em face da pressão contínua para empurrar a Ucrânia para a NATO, o Presidente Putin continuaria a responder duramente para evitar que a sua linha vermelha fosse ultrapassada.

Essa posição nunca mudou nos 11 anos que se seguiram e não há qualquer evidência de que seja provável que mude.

Durante a entrevista de Simpson, ele [Peskov] continua dizendo: ‘gostaríamos de ouvir uma garantia de 100%, de que ninguém pensaria na adesão da Ucrânia à NATO.’

Avançando quase onze anos, Steve Rosenburg, da BBC, entrevistou esta semana Peskov à margem do Fórum Económico Oriental anual do Presidente Putin, em Vladivostok.

‘A principal razão do conflito foi a tentativa da NATO de se infiltrar na Ucrânia, pondo assim em perigo o nosso país.’

Chame-se a isso de pontos de discussão do Kremlin, queixas históricas ou exigências que ele não tem o direito de fazer. Mas, infelizmente para a Ucrânia e os seus apoiantes ocidentais, Putin mostrou-se disposto a ir à guerra para defender esta exigência única e goza do apoio político interno da Rússia para o fazer. Além disso, a Rússia tem bolsas de reservas financeiras e humanas muito mais profundos do que a Ucrânia, e os apoiantes ocidentais da Ucrânia mostraram-se progressivamente menos dispostos a compensar a diferença.

Na edição desta semana do Dia da Marmota [o mesmo de sempre], a coligação dos Voluntários anunciou um compromisso de 26 nações de enviar tropas para a Ucrânia para policiar qualquer acordo do pós-guerra. O Presidente Putin respondeu então a dizer que qualquer Ocidental, leia-se, tropas da NATO, na Ucrânia representaria ‘alvos legítimos’ para as forças armadas da Rússia.

Quem acredita que Putin está a fazer bluff vive numa caverna há onze anos.

Em todo o caso, a ideia em si é absurda e deve ser apelidada como tal.

A Ucrânia tem quase 900.000 militares ativos, aparentemente. Isso é mais do que o total combinado de militares ativos na Polónia, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. A Itália e a Polónia deixaram bem claro que não estão a enviar tropas para a Ucrânia. Friedrich Merz, que parece não ter pressa em acabar com a guerra, descartou agora o envio da Bundeswehr. A Grã-Bretanha tem estado a chupar os dentes de frustração para conseguir enviar até 10.000 soldados. E houve um grande zut alors [sinal de incómodo] dos franceses, que estão à beira possivelmente da sua terceira mudança de governo este ano [n.t. hoje, dia 8 de Setembro, caiu o governo do primeiro-ministro François Bayrou ao ser-lhe negado  voto de confiança pela Assembleia Nacional].

O que é que esta força de segurança faria, para além de encorajar o Presidente Putin a continuar a lutar?

As tropas estrangeiras na Ucrânia não representam um veículo para acabar com a guerra, representam um estratagema para manter a guerra. Isso pode servir os interesses de Zelensky e os de figuras desequilibradas do sistema europeu, como Kaja Kallas. Mas duvido que, dada a escolha democrática, a maioria dos cidadãos europeus concordasse que uma guerra mais ampla entre a NATO e a Rússia fosse uma boa ideia, dado o risco de uma escalada nuclear. E não menos importante, numa altura em que está longe de ser certo que as tropas dos EUA mobilizariam as suas forças terrestres convencionais para apoiar qualquer guerra.

No entanto, não tenha medo, a UE enviou outra delegação a Washington DC para tentar colocar o presidente Trump ao lado da imposição de novas sanções à Rússia. Isso, por si só, é irónico durante uma semana em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica vetou efectivamente a entrega dos bens congelados da Rússia. No meio de sinais de crescente preocupação entre os republicanos do MAGA de que os europeus estão simplesmente interessados em manter a guerra, Donald Trump faria bem em não estar de acordo.

Em vez de procurar aquilo que nunca será capaz de oferecer – o Presidente Putin recuando da sua linha vermelha de adesão da Ucrânia à NATO – a coligação dos Voluntários precisa de decidir o que quer para a própria Ucrânia.

Colocar as tropas da NATO na Ucrânia é a antítese das garantias de segurança, e atacar com sanções não trará Putin à mesa de negociações.

As garantias de segurança devem significar exactamente isso. Garantias das nações ocidentais para ajudar a Ucrânia no caso de um futuro ataque da Rússia.

Não há razão para acreditar que um acordo de paz que leve à neutralidade da Ucrânia resulte numa guerra futura, mas é importante que o povo ucraniano tenha esta garantia férrea.

Outra garantia de segurança deve ser a clareza sobre quando e em que condições a Ucrânia poderá aderir à União Europeia. O Presidente Putin disse que não se opõe a isso.

O verdadeiro desafio, suspeito eu, é que várias nações europeias estão longe de estar entusiasmadas com a adesão da Ucrânia. Existem várias razões para isso, entre as quais o grande custo, o impacto que isso terá sobre os subsídios que os membros existentes recebem, a necessidade de uma mudança estrutural e jurídica maciça na solução orçamental da UE que pode encorajar alguns membros – nomeadamente a França – a procurar a saída, e a agitação política interna maciça para as elites dominantes.

Já disse tudo isto em anteriores artigos. Às vezes, parece que acordo todas as manhãs às seis para Sonny e Cher de novo. Como diz Bill Murray no filme, ‘não há como este inverno acabar enquanto esta marmota continuar a ver a sua sombra.’

Quando acordarem amanhã, encorajo os líderes europeus a adoptarem uma abordagem diferente. Porque passar pelo mesmo ciclo todos os dias nunca trará paz à Ucrânia.

 

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O autor: Ian Proud foi membro do serviço diplomático de Sua Majestade de 1999 a 2023. Foi oficial superior da Embaixada Britânica em Moscovo de julho de 2014 a fevereiro de 2019, numa altura em que as relações entre o Reino Unido e a Rússia eram particularmente tensas. Desempenhou várias funções em Moscovo, nomeadamente como chefe da Chancelaria, Conselheiro económico-encarregado de aconselhar os ministros do Reino Unido em matéria de sanções económicas – Presidente do Comité de crise, Director da Academia Diplomática para a Europa Oriental e Ásia Central e Vice-presidente do Conselho da Escola Anglo-americana. Antes de Moscovo, Ian organizou a Cimeira do G8 de 2013 em Lough Erne, Irlanda do Norte, a trabalhar no 10 Downing Street. Em 2012, escreveu e lançou a iniciativa de prevenção da violência Sexual em conflitos (PSVI) de William Hague e, em 2011, organizou a Conferência de Londres sobre a Líbia, com a presença de Ministros dos Negócios Estrangeiros de 50 países e do Secretário-Geral da ONU. Em 2010, foi destacado para a província de Helmand, no Afeganistão, onde atuou como chefe de comunicações estratégicas. De 2003 a 2007 foi chefe da secção política da Embaixada Britânica em Banguecoque. Especialista em diplomacia e gestão de crises. (ver aqui)

 

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