
A Cultura do Cancelamento e o Declínio da Liberdade de Expressão
Num tempo em que se proclama, quase ritualisticamente, a vivência em democracia, torna-se evidente que alguns dos seus pilares fundamentais se encontram corroídos, quais colunas antigas devoradas pela maresia, por práticas sociais e políticas que a esvaziam de sentido. A cultura do cancelamento, dispositivo sociológico e tecnológico recente mas de rápida disseminação, representa uma das manifestações mais inquietantes desta erosão da liberdade de expressão. A sua origem formal reside nas plataformas de redes sociais, templos modernos onde o discurso público se confunde com a catarse colectiva, e a sua raiz ética e moral remonta à ancestral ânsia humana de estabelecer e impor limites normativos. Esta dinâmica define-se como o acto de retirar o suporte social, profissional ou financeiro a uma figura pública, a uma marca ou instituição, devido a acções ou palavras consideradas inaceitáveis por um determinado grupo social.
A liberdade de expressão, outrora considerada um direito inalienável, vê-se hoje coarctada por julgamentos sumários e condenações públicas que não concedem ao indivíduo o direito à defesa nem à presunção de inocência. O paradoxo é flagrante. Os maiores criminosos beneficiam de garantias processuais e de um sistema judicial que lhes assegura o contraditório. Já as figuras públicas, sobretudo no mundo da investigação e do saber, são frequentemente alvo de acusações que se transformam em sentenças sociais irreversíveis, sem que lhes seja permitido o exercício do mais básico direito à resposta.
Por incrível que tal possa parecer, esta cultura nasceu da própria promessa da internet de democratizar a voz e dar poder a grupos marginalizados.
Este flagelo, alimentado pelas redes sociais e pela voracidade mediática, tem provocado danos profundos, não apenas na reputação dos visados, mas também na sua saúde psicológica e na sua integração social. A velocidade dos ciclos mediáticos e o imediatismo dos algoritmos transformaram o diálogo em escrutínio imediato e a justiça social em linchamento virtual. O espaço para a nuance, para o arrependimento ou a contextualização é subtilmente amputado. O cancelamento não é apenas uma forma de censura; é uma forma de ostracismo moderno, onde o tribunal da opinião pública substitui os dispositivos legais e éticos que deveriam reger uma sociedade verdadeiramente democrática.
Particularmente preocupante é o facto de o meio académico, que deveria ser um espaço privilegiado para o diálogo, o debate e a construção do saber, se ter tornado terreno fértil para este tipo de práticas. Em vez de promover o pensamento crítico e a pluralidade de ideias, assiste-se à imposição de uma ortodoxia ideológica que exclui, silencia e pune quem ousa divergir. Começam a surgir relatos de casos em universidades portuguesas onde a denúncia pública precede o apuramento factual, embora a documentação sistemática destes episódios seja ainda escassa. O padrão é, no entanto, claro. A velocidade da exposição nas redes contrasta com a lentidão dos processos internos de verificação. Ao abdicar do debate em nome da pureza ideológica, a universidade renega o seu próprio juramento de liberdade.
Importa, no entanto, distinguir situações onde a retirada de suporte é consequência proporcional de actos graves; casos de abuso, de fraude ou de crime. O problema surge quando este mecanismo é aplicado a divergências de opinião, a interpretações de textos, ou a declarações retiradas de contexto. É a confusão entre o criminoso e o controverso que corrói o debate público.
A Arquitectura do Cancelamento – Algoritmos e Visibilidade
As plataformas de redes sociais não são neutras. Os seus algoritmos privilegiam a indignação sobre a reflexão e o escândalo sobre a nuance. Um tweet de acusação tem mais interacção que um texto de defesa. A própria estrutura tecnológica incentiva o cancelamento. É mais fácil partilhar a denúncia do que ler a justificação. Twitter, Facebook e Instagram tornaram-se, involuntariamente ou não, máquinas de amplificação da fúria colectiva.
Estudos sobre “engagement” demonstram que posts com linguagem emotiva negativa (indignação, raiva) recebem duas a três vezes mais interacções que conteúdos equilibrados. Os algoritmos não foram desenhados para promover diálogos; procuram maximizar tempo de ecrã. E esse tempo aumenta com o conflito.
Mais grave ainda: a estrutura temporal das redes favorece a acusação. Uma denúncia com 280 caracteres é instantânea; uma defesa fundamentada requer tempo, contexto, nuance. Finalmente, quando a resposta surge, o ciclo de indignação já passou para outro alvo. A arquitectura não é neutra, é estruturalmente hostil à defesa.
Entre a Ética e o Dogma – A Narrativa dos Nossos Dias
A narrativa dos nossos dias tornou-se maniqueísta, oscilando entre a ânsia de justiça e a tentação de dogmas. Por um lado, o mundo exige mais ética e responsabilidade face a discursos de ódio e de injustiça, por outro, a solução encontrada tem promovido um pensamento dogmático que se recusa ao confronto de ideias.
A verdadeira ética do quotidiano, como a defendem liberais e humanistas, implica aprender a ver o outro com profundidade, não só para apagar o que nos ofende, mas para integrar a diferença. Se o nosso olhar se move ao ritmo dos algoritmos, perdemos a capacidade de ponderar antes de julgar.
A cultura do cancelamento, ao negar o espaço para o contraditório e ao promover a condenação sem julgamento, constitui uma ameaça real à democracia. É imperativo recuperar uma cultura de verificação e de escuta antes da sentença. As instituições, do jornalismo às universidades, devem resistir à pressão do imediato e garantir processos de apuramento que precedam a exposição pública, sob pena de se transformar a sociedade num espaço de medo, silêncio e conformismo.
O Paralelismo com a Realidade Portuguesa
Em Portugal, este fenómeno pode não atingir ainda a mesma escala institucional observada noutros contextos, mas as suas manifestações são já claríssimas e crescentes, especialmente no espaço digital e cultural.
O receio de reacções adversas nas redes sociais, uma espécie de condenação sumária social, leva à autocensura em meios académicos e jornalísticos.
O efeito mais pernicioso da cultura do cancelamento talvez não resida no que é patente, nos casos públicos e nas sentenças sociais, mas no que permanece subtil e invisível: a autocensura. Quantos académicos evitam a citação de textos clássicos? Quantos jornalistas recuam perante investigações sensíveis? Quantos investigadores omitem os seus resultados por receio da reacção colectiva? Esta retracção silenciosa do pensamento é impossível de medir, mas constitui o verdadeiro triunfo deste flagelo. Não há necessidade de censurar quando, pela vigilância constante, cada um se censura a si próprio.
Os exemplos de pressões das multidões digitais sobre humoristas, artistas e figuras públicas multiplicam-se, sempre que declarações ou conteúdos em obras são considerados ofensivos. Essas coacções promovem uma rigidez que, tal como a investigação a professores por citarem literatura, ameaça a liberdade e a sátira no discurso artístico e intelectual.
A nossa luta não se limita a ser contra a opressão externa, mas contra a nossa própria incapacidade de lidar com a complexidade e a pluralidade das opiniões. A narrativa dos nossos dias está a tornar-se perigosamente invariável.
A questão que se coloca é se ainda teremos instituições suficientemente fortes para resistir à tirania da velocidade, ou se a velocidade das redes acabará por ditar o ritmo do pensamento colectivo. Os sinais são contraditórios. Enquanto algumas universidades cedem à primeira pressão pública, outras começam a discutir protocolos de protecção da liberdade académica.
O desfecho está em aberto. E cabe a cada instituição, a cada cidadão, decidir se queremos sociedades que pensam ou sociedades que se limitam a reagir.

Infelizmente, muito verdadeiro…