SINAIS DOS TEMPOS – Por José Fernando Magalhães (16)

 

 

Stephen King

A Escrita como Exorcismo da Imaginação Sombria

 

Nota metodológica

Este estudo não pretende formular qualquer diagnóstico sobre Stephen King enquanto pessoa, mas antes utilizar a sua obra como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre as funções psicológicas e sociais da literatura de terror. As considerações aqui apresentadas aplicam-se ao fenómeno literário em geral, não constituindo qualquer afirmação sobre este autor em particular.

 

A Hipótese Provocadora

A ideia de que certos escritores de terror, como Stephen King, poderão utilizar a escrita para canalizar impulsos ou fantasias perturbadoras, é uma provocação literária que nos obriga a pensar no papel da arte como válvula de escape psíquica. Não se trata de diagnosticar o autor, mas de explorar uma metáfora: a escrita como alternativa à acção, a narrativa como contentor de forças que, noutras circunstâncias ou noutros indivíduos, poderiam manifestar-se destrutivamente.

 

A Escrita como Sublimação

Na psicologia freudiana, a sublimação é o processo pelo qual pulsões potencialmente destrutivas ou socialmente inaceitáveis são canalizadas para actividades criativas ou socialmente valorizadas.

– King, ao escrever, pratica uma forma de sublimação. Os seus medos, ansiedades e fantasias de violência tornam-se literatura.

– O que poderia ser vivido como angústia ou impulso mórbido é transmutado em arte, em ficção que fascina milhões.

– A escrita, neste sentido, é um exorcismo simbólico: expulsa os demónios interiores sem que estes se manifestem no real.

– O próprio escritor reconheceu publicamente que a escrita funcionou como âncora durante períodos difíceis da sua vida, nomeadamente durante as suas lutas contra o alcoolismo e a dependência de drogas. Nesse sentido, a literatura não foi só sublimação de fantasias, mas também ferramenta de sobrevivência psicológica concreta, canalizando energias autodestrutivas para um acto criativo.

 

O Fascínio pelo Horror

A literatura de terror, desde Edgar Allan Poe a H. P. Lovecraft, funcionou sempre como um espaço de experimentação dos limites da mente humana.

– O autor inscreve-se nessa tradição, mas com uma marca própria; a fusão entre o quotidiano banal e o horror sobrenatural.

– O seu talento está em mostrar que o mal não é apenas externo, mas também interno, latente em cada ser humano.

– Ao fazê-lo, King não glorifica a violência; antes, expõe o seu mecanismo, permitindo ao leitor confrontar-se com o abismo sem cair nele.

 

Escritor vs. Assassino em Série

A comparação entre escritor e homicida compulsivo é instrutiva:

– Ambos lidam com fantasias intensas e perturbadoras.

– Ambos constroem narrativas: o assassino, na sua mente; o escritor, no papel.

– Mas há uma diferença essencial: o escritor cria mundos fictícios que libertam, enquanto o assassino destrói vidas reais.

Aqui, podemos evocar a teoria de Jung sobre a “sombra”: todos carregamos dentro de nós aspectos reprimidos e obscuros. O assassino é aquele que se deixa dominar pela sombra; o escritor é aquele que a reconhece e a transforma em arte.

 

As Limitações da Comparação

No entanto, convirá não levar a metáfora demasiadamente longe. A esmagadora maioria dos escritores de terror não apresenta tendências violentas, e a investigação criminológica demonstra que assassinos em série possuem características psicopatológicas específicas, como a ausência de empatia ou perturbações graves de personalidade, que não se relacionam com a criatividade literária. De facto, investigações mostram que pensamentos sobre viol<~encia são extraordinariamente comuns. A esmagadora maioria das pessoas já os teve em algum momento, desde fantasias de retaliação até cenários mais extremos. Estas fantasias não se correlacionam com comportamento violento real e parecem cumprir funções adaptativas, como o processamento de emoções negativas. A fantasia violenta é comum e não implica, por si só, qualquer perigo. O que distingue o escritor não é a existência dessas fantasias, mas a capacidade de as transformar em narrativa dotada de sentido estético e moral.

 

A Função Social do Terror Literário

A literatura de terror cumpre uma função social e psicológica:

– Permite ao leitor enfrentar os seus medos num espaço seguro.

– Funciona como ritual colectivo: ao ler King, partilhamos o confronto com monstros que são, afinal, metáforas dos nossos próprios fantasmas.

– A escrita de King é, não apenas uma terapia pessoal, mas também uma terapia cultural, já que nos ajuda a lidar com o indizível. Este processo lembra o conceito aristotélico de catarse, ao experimentar através da leitura o medo e o horror num contexto seguro, sabendo de antemão que podemos fechar o livro a qualquer momento, libertando-nos dessas emoções sem consequências reais.

 

O Horror como Espelho — Exemplos na Obra de King

Obras como Misery (1987) exemplificam perfeitamente este processo de sublimação. Ao narrar a história de um escritor sequestrado por uma fã obcecada, King não só explora fantasias de violência e controlo, como também trabalha o medo do próprio criador face ao poder devorador do público. Em It (1986), o monstro que adopta a forma dos medos mais profundos de cada personagem funciona como metáfora da sombra jungiana colectiva, aquilo que a comunidade reprime, mas que continua a habitar o subterrâneo da consciência.

Estes exemplos mostram que a literatura de King não é gratuita, mas sim um exercício de cartografia dos abismos humanos.

 

Conclusão

A hipótese inicial, King como assassino em série caso não escrevesse, revela-se, no fundo, uma metáfora sobre o poder da arte. A escrita é o lugar onde o imaginário sombrio encontra forma e sentido, evitando que se torne destrutivo. King não é um criminoso em potência, mas sim um exorcista da imaginação colectiva, alguém que nos permite enfrentar o horror sem que este se torne realidade. A sua obra mostra que o mal pode ser pensado, narrado, dramatizado; e que esse processo é libertador, tanto para o autor como para o leitor.

Em última análise, o que este exercício nos ensina é que a arte não é apenas entretenimento, mas também uma estratégia de sobrevivência psíquica. Sem ela, alguns dos impulsos humanos encontrariam, provavelmente, saídas mais sombrias. Com ela, transformam-se em beleza, em reflexão, em catarse.

Stephen King é, assim, a prova viva de que o horror, quando transmutado em literatura, deixa de ser ameaça e transforma-se em conhecimento. E é precisamente por isso que os seus livros nos fascinam. Porque nos permitem olhar para o abismo, e regressar intactos.

 

 

 

texto escrito com a ajuda da IA

 

HOJE

2 DE DEZEMBRO DE 2025

 

 

 

 

1 Comment

  1. Enquanto ia lendo, com a atenção devida, que as tuas Crónicas me merecem, parágrafo após parágrafo, repetidamente me perguntava.. quando será que a palavra/essência “Catarse” irá finalmente surgir??
    Com um misto de assumpção e alívio, eis que ela surge, escorreita e fluída, nos intervalos repetidos de um auto flagelar com palavras de autor, em busca de si próprio por caminhos penumbrosos e recalcados da mente, real ou imaginária.
    Expurgar os nossos demônios nesse exercício, é a libertação pela criação a que te referes, e poucos são os afoitos que cavalgam a sua besta desenfreada de criação, na busca infindável da sua própria essência!
    Com estas tuas assertivas e acutilantes Dissertações/Crónicas, fazes, no meu humilde entender, parte de uma pequena, mas poderosíssima legião, cujas armas buscam a apatia, e a cristalização acéfala de um rebanho cada vez mais numeroso de zombies culturais.
    Batalha longa e sem fim à vista, já que o inimigo visado aparenta se reproduzir a um ritmo deveras alarmante!!
    Abraço Zé

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