Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime
Se não me encontrar num lugar, procure noutro,
Eu pararei em algum lugar à sua espera
“Song of Myself” de Walt Whitman
Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico
“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”
Herman Hesse
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8 min de leitura
Nota de editor
Devido à sua extensão publicamos este texto em duas partes, hoje a primeira.
Texto 8. O Declínio do Inconformismo (1/2)
Para onde é que foi parar a nossa capacidade de ser original
Publicado por
Experimental History em 28 de outubro de 2025 (original aqui)

As pessoas estão menos esquisitas do que costumavam estar. Isso pode soar estranho, mas dados de todos os setores da sociedade apontam fortemente na mesma direção: estamos numa recessão de inconformismo, uma crise de convencionalidade e de uma epidemia do mundano. O comportamento desviante está em franco declínio.
Eu não sou o primeiro a notar que algo de estranho está a acontecer — ou, na verdade, devo antes dizer que é a falta de algo de estranho que se está verificar. Mas, até agora, acho que cada pessoa apontou apenas para uma parte do fenómeno. Como resultado, a maioria concluiu que essas tendências são:
a) muito recentes e, portanto, provavelmente causadas pela internet, quando, na verdade, a maioria destas tendências começou a verificar-se muito antes;
b) restritas a um segmento da sociedade (arte, ciência, negócios), quando, na verdade, este é um fenómeno que abrange toda a cultura; e
c) puramente más, quando, na verdade, são uma mistura de pontos positivos e negativos.
Quando se reúnem todos os dados, percebe-se uma mudança drástica na sociedade que é, por um lado, miraculosa, fantástica e digna de um desfile comemorativo. E uma mudança que é, por outro lado, sombria, deprimente e carente de intervenção imediata. Observar esses eventos que marcam época também sugere, creio eu, que todos eles podem partilhar uma única causa.
1. OS DESCRENTES QUE DESAPARECERAM
Vamos começar por onde os dados são claros, abrangentes e negligenciados: em comparação com os seus pais e avós, os adolescentes de hoje são um bando de “santinhos”. Por exemplo, os alunos do ensino médio têm menos da metade da probabilidade de consumir bebidas alcoólicas do que tinham na década de 1990:
Eles também têm menos probabilidade de fumar, fazer sexo ou de se envolverem em brigas; menos probabilidade de abusar de analgésicos e menos probabilidade de usar metanfetamina, ecstasy, alucinógenos, inalantes e heroína. (Não estão os jovens a usar vape – cigarro eletrónico – agora em vez de fumar? Não: o uso de vaping também caiu de 2015 a 2023).
O uso da marijuana atingiu o pico no final dos anos 90, quando quase 50% dos alunos do ensino secundário relataram ter consumido pelo menos uma vez. Hoje, esse número caiu para 30%. Atualmente, os jovens são até mais propensos a usar o cinto de segurança.
Surpreendentemente, também é menos provável que levem uma arma para a escola:
Todas essas descobertas dependem de questionários, então talvez cada vez mais jovens estejam a mentir-nos cada ano que passa ? Bem, é bem difícil mentir sobre ter um bebé, e a gravidez na adolescência também caiu a pique desde o início dos anos 1990.
2. OS ADULTOS ENTRARAM NA LINHA
Os adultos comportam-se mal também com menos frequência do que antigamente. Por exemplo, as taxas de criminalidade caíram para metade nos últimos trinta anos.
Aqui estão alguns dados semelhantes da Irlanda do Norte sobre ‘incidentes de comportamento antissocial’, porque eles por acaso monitorizam esses casos:
Os assassínios em série, também eles, estão a decair.
Outra forma de comportamento desviante está a desaparecer: as pessoas parecem já não estar a entrar em seitas. Philip Jenkins, historiador das religiões e autor de um livro sobre o tema, relata que “em comparação com a década de 1970, a questão das seitas desapareceu quase inteiramente” [1]. (Dado que um aumento no número de seitas seria melhor para as vendas do livro de Jenkins, estou inclinado a confiar nele neste ponto). Não existe um conjunto de dados abrangente sobre a formação de seitas, mas Roger’s Bacon analisou seitas que foram abordadas num podcast popular e longo, descobrindo que a maioria delas começou nos anos 60, 70 e 80, com uma queda acentuada após o ano 2000 [2].
Crimes e seitas são definitivamente desviantes e parecem estar em declínio. Isso é bom. Mas é aqui que as coisas ficam surpreendentes: formas neutras e positivas de desvio também parecem estar a tornar-se mais raras. Por exemplo…
3. AS PESSOAS ESTÃO A PERMANECER NO MESMO LUGAR
Mudar-se de casa não é necessariamente uma boa ou má coisa, mas é um tanto estranho. Deixar a sua cidade natal geralmente significa deixar para trás a sua família e amigos, as instituições que a pessoa compreende, a cultura que conhece e, talvez, até a língua que fala. É preciso sentir-se um pouco “desajustado” para fazer algo assim em primeiro lugar, e tornar-se um estranho ainda o torna mais estranho.
Eu sempre imaginei que cada geração de americanos fosse mais propensa a mudar-se do que a anterior. Antigamente, as pessoas nasciam e morriam no mesmo código postal; agora, elas saltam de um lado para o outro do país, e até pelo mundo todo.
Eu estava totalmente errado sobre isso. Os estado-unidenses têm se tornado cada vez menos propensos a mudar-se desde meados da década de 1980:
E este efeito é impulsionado principalmente pelos jovens:
Hoje em dia, “o adulto comum vive a apenas 29 quilómetros de distância da sua mãe”.
4. A CULTURA ESTÁ A ESTAGNAR
A criatividade não é senão um comportamento “desviante” colocado em boa utilização. E ela também parece estar a diminuir.
Alguns anos atrás, analisei um conjunto de dados e descobri que todas as formas populares de arte se tinham tornado “oligopólios”: cada vez menos artistas e franquias dominam uma fatia cada vez maior do mercado. Antes de 2000, por exemplo, apenas cerca de 25% dos filmes de maior bilheteira eram prelúdios, sequências, derivados, etc. Agora, esse número é de 75%.
A história é a mesma na TV, na música, nos videogames e nos livros — todos eles foram “oligopolizados“. Como aponta Ted Gioia, ainda estamos a ler histórias em quadrinhos sobre super-heróis que foram inventados na década de 1960, comprando ingressos para espetáculos da Broadway que estrearam há décadas e ouvindo as mesmas músicas que os pais e avós ouviam.
Vê-se menos variação mesmo quando olhamos apenas para as novidades. De acordo com análises do The Pudding, a música popular hoje é mais homogénea e tem letras mais repetitivas do que nunca. Além disso, a capa dos romances agora parece-se com isto:
Mas espere, não deveríamos estar nós mergulhados em arte nova e inovadora? Todos os dias, as pessoas postam cerca de 100.000 músicas no Spotify e fazem o upload de 3,7 milhões de vídeos no YouTube [3]. Mesmo levando em conta a Lei de Sturgeon (“90% de tudo é lixo”), isso ainda deveria resultar em mais coisas boas do que qualquer pessoa seria capaz de apreciar em toda a sua vida. E, no entanto, críticos de arte profissionais estão a reclamar que a cultura estagnou. De acordo com a The New York Times Magazine:
Estamos agora quase na metade do primeiro quarto do caminho que provavelmente entrará para a história como o século menos inovador, menos transformador e menos pioneiro para a cultura desde a invenção da prensa tipográfica.
5. A INTERNET DEIXOU DE SER INTERESSANTE
Lembram-se de quando a internet era assim, como isto?

Essa era ficou para trás há já muito tempo. Dê um passeio pelo Web Design Museum e você notará imediatamente duas coisas:
- Todos os sites convergiram para a mesma aparência: elementos de design elegantes e minimalistas, com muitas imagens.
- A estética dos sites mudou muito dos anos 90 para os anos 2000 e 2010, mas não mudou quase nada de 2010 para cá.
Alguns exemplos:
Este mesmo tipo de homogeneização aconteceu nas partes da internet que os próprios utilizadores criam. Cada página do MySpace é uma mistura desastrosa; cada perfil do Facebook é idêntico, exceto pelas fotos. No TikTok e no Instagram, todos os influenciadores soam da mesma maneira [4]. No YouTube, cada miniatura de vídeo parece ter saído de uma única fábrica de conteúdo.
Sem dúvida, a internet ainda é basicamente um tubo bizarro que expele uma coisa estranha nova por cada dia que passa: Trollface, o Desafio da Momo, Skibidi Toilet. Mas repare que a “matéria-prima” de muitos desses memes costuma ter décadas de idade: super-heróis (décadas de 1930 a 1970), Star Wars (1977), Mario (1981), Pokémon (1996), Bob Esponja (1999), Pepe the Frog (2005), Angry Birds (2009), Minions (2010), Minecraft (2011). Lembra-se de há dez anos, quando encontraram um filme alemão com uma longa sequência do Hitler a gritar sobre algo e começaram a trocar as legendas para colocá-lo a exigir coisas diferentes? Pois é, eles ainda continuam a fazer isso.
6. HÁ MENOS TEXTURA NA ARQUITETURA
O mundo físico também parece cada vez mais “mesmista” [monótono, repetitivo]. Como é documentado por Alex Murrell [5], todos os cafés do mundo agora possuem o mesmo estilo boémio burguês:
Cada prédio de apartamentos novo é parecido com isto:
O jornalista Kyle Chayka documentou como todos os AirBnBs agora se parecem iguais. E até mesmo megacorporações riquíssimas trabalham em escritórios que têm esta aparência:

As pessoas costumam presumir que já não construímos edifícios interessantes e ornamentados porque ficou caro demais pagar a artistas para esculpirem peças em pedra e madeira [6]. Mas o pesquisador Samuel Hughes argumenta que essa história pelo lado da oferta não se sustenta: muitos dos adornos arquitetónicos que parecem precisar de trabalho manual podem, na verdade, ser feitos de forma barata por máquinas — muitas vezes com tecnologias que temos já desde algum tempo. Ainda somos capazes de construir prédios interessantes; nós apenas escolhemos não os construir.
7. MARCAS? É MAIS … MARCAS BRANCAS, SEM PERSONALIDADE PRÓPRIA. É ISSO QUE VÊ, ISSO MESMO.
As marcas parecem estar a convergir para o mesmo tipo de logotipo: sem imagens, apenas palavras escritas em fonte sans serif que lembra um pouco a fonte Futura [7].
Uma análise das contas de marcas no Twitter descobriu que elas soam cada vez mais da mesma maneira.

A maioria dos carros são de cores preto, prateado, cinzento ou branco [8]:
Quando um consórcio britânico de museus de ciência analisou a cor dos seus artefactos ao longo do tempo, eles encontraram um aumento constante e semelhante em preto, cinza e branco.
(continua)
Notas
[1] Adoraria ler uma versão de Bowling Alone de Robert Putnam dedicada especificamente à morte dos cultos. Traçar pentagramas sozinho?
[2] Sempre que falo sobre o défice de cultos, as pessoas apresentam dois contra-argumentos. Primeiro: “O SoulCycle não é um culto? Os fãs da Taylor Swift não é um culto? Os Lububus não são um tipo de culto?” Acho que isto é um exemplo de mudança de conceito induzida pela prevalência: agora que há menos cultos, estamos a aplicar o rótulo de “culto” a cada vez mais coisas que são cada vez menos parecidas com cultos. Se a tua aula de spinning [n.t. exercício aeróbico intenso, realizado em grupo com bicicletas estacionárias, ao ritmo de música animada e sob orientação de um instrutor] te exigisse que vendesses todos os teus bens, abandonasses a tua família e te casasses com o instrutor, isso sim seria um culto.
Segundo. “As teorias da conspiração não são muito mais populares agora? Talvez as pessoas estejam a satisfazer todos os seus impulsos de culto no conforto das suas próprias casas, mais ou menos como as pessoas começaram a ir à igreja pelo Zoom durante a pandemia.” Isto é uma hipótese razoável, mas as evidências falam contra ela. Uma equipa de investigadores acompanhou 37 crenças conspiratórias ao longo do tempo e não encontrou qualquer alteração na percentagem de pessoas que acredita nelas. Também não encontraram nenhum aumento ou diminuição no número de pessoas que defendem um pensamento conspiracionista de domínio geral, como “Grande parte das nossas vidas está a ser controlada por conspirações tramadas em lugares secretos”. Parece que os cultistas mais fervorosos se tornaram uma espécie em vias de extinção, enquanto os teóricos da conspiração mais comuns são simplesmente tão prevalentes como sempre foram.
[3] Há algum ceticismo em relação aos números do Spotify, e os números do YouTube certamente também são duvidosos — uma grande parte desse conteúdo deve ser spam, duplicações, etc. Mas mesmo reduzindo esses valores em 90%, ainda teríamos uma quantidade impossível de músicas e vídeos.
[4] Segundo Adam Aleksic, o ‘sotaque do Instagram’ é o resultado de otimizar a sua fala para atrair e prender a atenção das pessoas. Para mais desenvolvimentos veja-se o seu novo livro.
[5] Veja-se o artigo de Brian Klaas, The Age of the Surefire Mediocre para este e outros exemplos .
[6] Ou talvez os teóricos da conspiração estejam certos e seja porque algum tipo de apocalipse destruiu o nosso conhecimento arquitetónico e as elites estão a abafar o assunto.
[7] Cracker Barrel tentou fazer a mesma coisa recentemente e foi tão perseguido/bombardeado na internet que trouxeram o logo antigo de volta.
[8] Note que estes dados são da Polónia, mas se procurar imagens de parques americanos nas últimas décadas em comparação com hoje, encontrará a mesma coisa.
O autor: Adam Mastroianni [1991 -] é um psicólogo social estado-unidense, licenciado em Psicologia pela Universidade de Princeton e Doutorado pela Universidade de Harvard. Atualmente leciona Negociação em mestrados. Escreve o blog Experimental History. O seu estudo incide sobre como as pessoas percebem ou percebem mal os seus mundos sociais, desde a pessoa sentada do outro lado da mesa até todo o país que as rodeia. Um fluxo do meu trabalho centra.se nas perceções erróneas que surgem quando as pessoas falam cara a cara. Recentemente, tem-se interessado pelas teorias sobre as pessoas e na percepção errónea da mudança no mundo ao seu redor. As pessoas pensam que a moralidade diminuiu-poderiam estar certas e, se não, por que pensam isso? As pessoas pensam que são muito diferentes dos seus avós-atribuem essa diferença a serem diferentes idades ou membros de diferentes gerações? Quando as pessoas tomam partido a respeito de um assunto, elas importam-se não apenas com o que as outras pessoas pensam, mas como essas opiniões vão mudando – sabem então elas como as opiniões realmente mudaram?






















