Este texto é dedicado ao silêncio e à revolta de todos os meninos e meninas que vivem no barulho dos maus-tratos.
Os meninos e as meninas sem voz.
Um minuto de silêncio por uma criança desaparecida, um minuto de silêncio por uma criança maltratada, pela comunidade educativa, porque esteve doente e, como um herói invisível, venceu a malignidade que tentava ocupar todo o seu frágil corpo, um minuto de silêncio por todas as crianças que são excluídas e difamadas porque a Natureza não conseguiu domar a toxidade.
Um minuto de silêncio por todos os meninos e meninas que têm desenhado, não numa folha de papel, mas no seu corpo, a nódoas negras, a pancada que os pais lhes dão.
Um minuto de silêncio por todos os meninos e meninas que se escondem quando o pai chega bêbado a casa, um minuto de silêncio pelos meninos e meninas que não têm afeto. Um minuto de silêncio pelos meninos e meninas que nasceram porque a lei da reprodução assim o quis.
Chega de um minuto de silêncio! Peça-se um minuto de barulho, feito com os gritos destas crianças, para que os adultos acordem de um poder assente no estatuto etário, de condição familiar.
Muitas, demasiadas, crianças enchem rios e mares com as suas lágrimas, gritam, num silêncio, mais alto que o ribombar dos trovões. Estes meninos têm um poder enfraquecido pela condição de serem crianças.
A infância incomoda, é exigente, precisa de atenção, de respeito, de proteção, de afeto…
Por mais bolas de futebol que as suas mãos pequeninas cosam, por mais minério que os seus corpos franzinos tirem das minas, por mais nódoas negras que tentem esconder no corpo e na alma, por mais fotografias que a World Press possa exibir de crianças com fome, sozinhas, assustadas, a infância não lhes morre, há sempre um sorriso que nunca é captado pelas máquinas fotográficas, um sorriso íntimo de esperança.
Porque será que a imagem da infelicidade é mostrada ao mundo a uma velocidade maior do que a da luz, que a imagem da criança agressora perdura e perdura até alguém dizer é preciso mais autoridade, é preciso baixar a idade da responsabilidade civil para que os adultos abanem a cabeça e pensem, confortavelmente, que agora eles vão ver como é!
Já se esqueceram que é em casa, na família, que todas as crianças se refugiam no colinho da mãe, que ouvem as palavras sabedoras dos pais, os conselhos e contos dos avós, a proteção dos irmãos mais velhos?
Não há escola que substitua esta concha de afetos, laços afetivos que se estabelecem dentro e que extravasam para fora da família
Os meninos e as meninas sem voz são, quantas vezes, vítimas caladas de outros meninos e meninas (bullying?) que, também sem voz, se fazem valer dos pés, das mãos, das palavras ditas em forma de ameaça, de insulto ou de troça.
Meninos e meninas sem regras, causam o desconforto, por vezes insuportável, nos outros tão frágeis quanto eles próprios, têm medo de se defenderem “não lhe bato porque ele vai chamar os amigos”. Estas vítimas passivas são incómodas, são choramingas, queixinhas, afastam-se e não dão nas vistas quando estão em grupo.
Sou professora de profissão, pessoa de condição, que revolta sinto quando vejo as pessoas, crianças ou adultos, serem tratadas sem o mínimo respeito pelos Direitos Humanos, pelos Direitos da Criança; que andamos nós a fazer, não nos podemos satisfazer só com o direito à indignação!