As sílabas marginais/FUNDO DE VILA/Nelson Ferraz

 

 

FUNDO DE VILA

 

 

fundo de vila.

a casa. a velha varanda de madeira. as estradas. o mar verde das montanhas.

uma casa a envelhecer com rugas iguais às da figueira.

 

mais acima, os caminhos a cruzarem-se nos olhos que são coragem.

– por aqui? por ali? – perguntava-se o pai.

e o coração a puxar o pai pelos ombros.

 

fundo de vila.

agora, a casa nem sequer é uma fotografia.

ontem, quando as estradas semearam dúvidas: –por onde?

o pai partiu rumo à cidade grande onde quis ter uma pedra.

e teve.

 

o mar verde das montanhas onde o sol se põe sem sal

nunca deixou de chamar pelo pai. a infância enrouqueceu.

e a velha varanda de madeira nunca se cansou de esperar.

 

agora, a casa nem sequer é uma fotografia,

mas era o mundo inteiro quando foi preciso escolher

qual dos trilhos teria a luz que talvez faltasse para crescer.

e o pai a ter de decidir onde estar quando chegasse o outono.

 

no fundo de vila, os pássaros seriam sempre os mesmos

para o pai. mas o pai, não.

 

 

 

 

 

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