FUNDO DE VILA
fundo de vila.
a casa. a velha varanda de madeira. as estradas. o mar verde das montanhas.
uma casa a envelhecer com rugas iguais às da figueira.
mais acima, os caminhos a cruzarem-se nos olhos que são coragem.
– por aqui? por ali? – perguntava-se o pai.
e o coração a puxar o pai pelos ombros.
fundo de vila.
agora, a casa nem sequer é uma fotografia.
ontem, quando as estradas semearam dúvidas: –por onde?
o pai partiu rumo à cidade grande onde quis ter uma pedra.
e teve.
o mar verde das montanhas onde o sol se põe sem sal
nunca deixou de chamar pelo pai. a infância enrouqueceu.
e a velha varanda de madeira nunca se cansou de esperar.
agora, a casa nem sequer é uma fotografia,
mas era o mundo inteiro quando foi preciso escolher
qual dos trilhos teria a luz que talvez faltasse para crescer.
e o pai a ter de decidir onde estar quando chegasse o outono.
no fundo de vila, os pássaros seriam sempre os mesmos
para o pai. mas o pai, não.


