Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise — Parte II : Texto 26 – Sobre a forma como estudei e como ensinei outrora face às Neurociências da Cognição de agora (5/5) .  Por Júlio Marques Mota

 

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

 

Parte II – A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir.

Escrever e ler são recíprocos. Ambos são necessários para que as crianças se tornem leitores e escritores fluentes

Autora anónima do sítio Learning for Life da plataforma Medium

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Nota de editor:

Com este texto encerra-se a parte II “A escrita manual e o desenvolvimento intelectual. Escrever é pensar, e pensar é o caminho para agir“ da presente série.

Dada a sua extensão editamos o texto em cinco partes, hoje a quinta e última parte.

FT


16 min de leitura

Texto 26 – Sobre a forma como estudei e como ensinei outrora face às Neurociências da Cognição de agora (5/5) (*)

Um texto autobiográfico

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em Maio de 2026

(*) O presente texto teve a revisão da ferramenta de IA, Claude Sonnet 4.6. Depois, este texto foi revisto pelo Manuel Ramalhete a quem devo o detalhe de duas notas nele colocadas e a quem agradeço a revisão cuidada do mesmo.

 

(conclusão)

 

ADENDA

Júlio Marques Mota

Coimbra, 27 de julho de 2026

 

O texto acima sobre a forma como estudei e como ensinei foi concluído por volta do final de maio. Neste mês de julho a minha mulher sugeriu-me que visse com ela uma reportagem sobre o engenheiro Duarte Pacheco o que fiz. Nessa reportagem conta-se um detalhe curioso: o engenheiro Duarte Pacheco era um homem de múltiplos afazeres, entre os quais estava a lecionação no Instituto Superior Técnico. E o detalhe era o seguinte: o relator da peça televisiva dizia-nos que o engenheiro Duarte Pacheco dava as suas aulas a partir de uma curta nota escrita numa espécie de pequeno bilhete, possivelmente um índice da aula. Ao ouvir isto lembrei-me de que havia uma falha no meu texto dito autobiográfico, pois não explicava um detalhe muito parecido com o que fazia Duarte Pacheco quando eu preparava as minhas aulas. Quando ia dar aulas levava como suporte para as mesmas um índice (sumário) escrito nas costas de um bilhete de elétrico, um bocado de papel na ordem de 4 a 5x2cm, se tanto. A equivalência com o Engenheiro Duarte Pacheco era apenas o detalhe do pedaço de papel, nada mais do que isso.

No meu caso, o que importa aqui salientar e o que estava por detrás desse papel: anos de estudo e não só. Na véspera de cada aula, eu escrevia à mão a respetiva aula, em folhas de papel A4 depois de cortadas ao meio, a partir do programa estabelecido. Sabia que por cada aula de 1 hora eram 8 meias folhas de papel A4 cortadas ao meio, por aulas de 1h30mn seriam cerca de 12-14 e por aulas de 2 horas seriam cerca de 20-22 meias folhas. A condição de base era serem escritas à mão e a um ritmo normal e de forma legível. Neste trabalho, ao contrário do que se poderia pensar, não há praticamente nenhum esforço de memória e o curioso de tudo isto era que depois de escritas, estas folhas não eram guardadas, eram a seguir simplesmente rasgadas e atiradas para o caixote do lixo. Hoje, temos uma explicação clara para tudo sito. O mapear a aula, para lembrar Horvath, o colocar lá, no sítio certo o que precisávamos de utilizar, partia da nossa base científica que estava lá, no sítio certo porque aprendida e apreendida de forma profunda- e estes termos a lembrarem Maryanne Wolf, entre tantos outros neurocientistas, mas o curioso seria o rasgar das meias folhas depois de escritas e antes da aula ser proferida. Seria um gasto de tempo absurdo? Penso que não. Seria memorizar a aula? Penso igualmente que não. E quem o tentou fazer, quando estive fora do país, simplesmente entrou em burnout. Penso que não eram aulas memorizáveis, antes pelo contrário, eram aulas que exigiam uma elevada concentração e uma capacidade de reflexão em tensão constante. Diria que este tipo de aulas se desenrolava a dois níveis – ao nível do registo de uma banda – o escrever à mão e em letra legível e, depois, ao nível do controlo do operador que tinha de raciocinar sobre este registo e em tensão e com controlo constante. Eram aulas que nos deixavam cansados.

O rasgar das folhas tinha simplesmente a função de manter a independência do operador sobre esse mesmo registo e a não depender dele. Assim se entendem alguns factos relatados no texto, como por exemplo, as aulas teórico-práticas das 19-20 horas que eram reconstituídas no instante em que o aluno colocava a dúvida, há as minhas interrupções intencionais em aulas teóricos com questões levantadas a alunos, e depois retomava a aula teórica onde a tinha parado, há por exemplo, o engano de preparar uma aula de Economia Internacional e quando chego à sala e começo a lecionar Economia Internacional dizem-me que a aula é de Economia Marxista. Mudo de disco e passo a lecionar uma aula difícil de Economia Marxista, como se a tivesse acabado de preparar minutos antes. Isto só era possível, penso eu, porque a aula esta registada pelo mapeamento da escrita à mão.

Um outro exemplo curioso deu-se numa aula de Finanças Internacionais. Tratava-se do fim de um capítulo sobre taxas de câmbio efetivas, nominais e reais e estas eram mostradas na sua evolução, país a país, a partir de gráficos do BPN colocados estes em acetatos. Era a única matéria que era lecionada com acetatos. De repente, faltou a luz. Quase todas as aulas terminaram, mas a minha aula continuou. Disse aos alunos: bom, isto é o fim do capítulo. Não há luz, não há retroprojetor, passemos à matéria seguinte.

Tudo isto nos leva a poder dizer, mais uma vez, que situações deste tipo só terão sido possíveis porque as aulas estavam cá dentro, a lembrar de novo Maryanne Wolf. Anos depois deixei de escrever as aulas, bastava-me olhar para o programa e via os textos à minha frente, um pouco como nos explicou o médico anestesista Décio de Sousa. Dois exemplos: se desse a Troca Desigual só tinha de copiar os quadros numéricos criados pelo autor ou por mim, se assumia hipóteses diferentes de Emmanuel, o resto criava-se a partir de dentro, olhando para os quadros, um pouco como disse John Updike para quem escrever [ou falar] é apenas ler de dentro para fora. Um outro exemplo aconteceu quando fiz exame de Integração Económica em 1973, tendo do lado de lá, os professores Cidreiro Lopes, Elsa Ferreira e Abraão de Carvalho.  O professor Cidreiro Lopes criticou todo o nosso grupo porque não tínhamos incluído no nosso modelo os bens não negociados internacionalmente. Eu tinha comigo uma tese de doutoramento defendida meses antes em Tilburg por H.A.A. Thoben e sob a direção de Theo van de Klundert, escrita em holandês, onde o tema levantado pelo professor Cidreiro Lopes era analisado no quadro de um modelo equivalente ao nosso. Abro a tese, seleciono as páginas onde estavam a representação formal do modelo desejada e a correspondente representação gráfica, num modelo com cerca de 12-13 equações e digo: não estudámos essa hipótese por uma questão de extensão, mas está aqui a forma de tratamento dessa hipótese. E passo-lhe a tese. O professor olha com atenção e diz mais ou menos isto: mas que língua é esta? Não percebo nada! Está enganado, disse-lhe eu. Isso é matemática pura e simples e esta é uma linguagem universal. Basta perceber a “alma” do modelo, perceber a profundidade do texto que está subjacente às fórmulas assim como a do seu contexto, e a seguir percebem-se todas as equações que se lhe adicionem, se se salvaguardarem as hipóteses de partida [11]. É o que poderíamos ter feito no nosso trabalho com mais umas dezenas de páginas sem que com isso ganhássemos adicionalmente grande coisa. E ficámos por aqui.

Hoje diria, à boa maneira de John Updike, que lemos em profundidade o texto de Thoben e lido em profundidade isso significa então que o escrevemos de fora para dentro, significa que nos podemos passear por dentro do modelo, da mesma maneira que o fizemos com a Troca Desigual de Arghiri Emmanuel.

Pessoalmente costumava dizer aos alunos, e longe de mim saber o que eram então as neurociências da cognição, se é que essa expressão já existia, que as minhas aulas eram dadas com a mão (a mão que empunhava o giz para escrever as fórmulas e gráficos no quadro) com o cérebro que desenvolvia e explicava as fórmulas por ele deduzidas e os gráficos que nessa base eram construídos e com o coração, a posição dadivosa com que a aula era realizada com as suas paragens bruscas, com as  perguntas para o ar à espera de resposta,  Estamos a falar de coisas e atitudes que o tempo de agora eliminou- querem-se e fazem-se atualmente cretinos digitais em massa, como alunos, e  querem-se professores bem conformes e adaptados a esta nova realidade. Isto é bem mostrado com o que passou neste mesmo mês, com os exames nacionais e com a pressão sobre as operações digitais, e isto começa logo na elaboração das provas de exame, para que as provas possam ser classificadas item a item por professor a professor.

Como assinala António Guerreiro em o Público no artigo Os autómatos classificadores, editado em 24 de julho de 2026:

Para que a intervenção dos professores classificadores siga, no grau máximo possível, o modelo de actuação objectiva próprio de uma máquina que mede e quantifica, de acordo com os desejos alucinados dos gestionários, uma operação possibilitada pela logística da digitalização foi posta em prática: cada item da prova é separado de todos os outros e fornecido isoladamente ao professor classificador que, desse modo, nunca tem acesso à totalidade. Assim, para o aluno, cada item da prova é uma isolada “provação”. (…) Pode ser que este método seja aceitável nas disciplinas científicas. Mas nas disciplinas de ciências humanas é aberrante. Quem já foi professor de uma destas disciplinas sabe muito bem como muitas vezes suspende a classificação da resposta do aluno a uma determinada questão para perceber se as respostas seguintes confirmam ou desmentem a sua hipótese. Ao contrário do que pensam os gestionários, ter uma noção da totalidade é muito mais objectivo do que classificar parcelas. Mas como reconhecer isto se a máquina gestionária que governa a escola, chefiada pelo ministro da Educação, concebe o professor classificador perfeito como um autómato? Se o ideal é passar ao regime digital, então que a descontinuidade seja generalizada.

Devemos, aliás, perguntar por que razão não se levantou nenhuma contestação pública, por parte dos professores, a estes métodos das classificações por item. A razão provável é esta: os professores pertencem actualmente à classe dos subalternos. E os subalternos, como sabemos, não podem falar.” Fim de citação

Se o ideal [do Governo] é passar ao regime digital, diz-nos António Guerreiro, e tudo aponta para isso, percebe-se a monstruosidade desta política que passará talvez numa primeira fase por contratar classificadores externos, porque não, e depois utilizar classificadores completamente autónomos, autómatos, robôs, aquilo que era também lamentavelmente o sonho de João Costa do PS.

Esta é uma conceção estranha de ensino, o que torna ainda mais bizarro que se defenda o ministro que com a sua política talvez aspire ao desmantelamento do que levou anos a construir e que tão rapidamente está atualmente a ser destruído e em que o que passaremos a ter como consequência dessa política serão as ruínas já bem visíveis da Universidade de que tanto nos fala o professor Maestro de Barcelona [vd. Partes seguintes da presente série], entre muitos outros.

Com alguma ironia, a prática da pressão digital praticada talvez mereça depois um bom cargo na OCDE, uma vez que segundo o ministro Fernando Alexandre, é esta Organização que monitoriza o que se está a passar sob a sua alçada. Talvez seja assim, talvez não…   

 

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Nota

[11] É neste sentido que entendemos também os autores do artigo Contra a IA sem fricção quando estes afirmam: “O valor do esforço vai além da cognição. Exercer esforço pode ser desagradável, mas é frequentemente o sofrimento e a dificuldade que tornam a vida significativa. O esforço sinaliza que as nossas ações importam. Quando as pessoas trabalham para alcançar um objetivo, sentem-se mais competentes e valorizam mais o produto desse trabalho.”

 

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