O mundo da infância -III parte. Laguna Verde, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

 

Largos anos das nossas vidas foram ai passados. Especialmente porque a mulher do engenheiro quis agradar ao seu pai e a terra da quinta foi usada para o mais lindo jardim que eu tenha memória, Havia três jardineiros para tomar conta das plantes, flores, árvores de frutas e um outro imenso olmo, que era, desde que eu me lembro, a nossa casa de brincar. Mais tarde, quando nessa casa não havia apenas avós de visita, pais permanentes e um unigénito, cheio de imaginação, cuidado pela sua melhor amiga, Irma Irene Ramírez Mella, ou a minha Irmita para mim. Estava sempre a cautela para eu não tropeçar, no cair da árvore imensa ou passear-me numa pequena carreta tirada por uma cabrita Foi ai que aprendi a partilhar a vida com irmãos que iam aparecendo após os meus quase quatro anos. Foi onde aprendi as minhas primeiras palavras para ler e escrever, ensinado pela mulher do engenheiro ou por ele próprio, sem dar por isso: sentava-me no seu colo e enquanto ele lia o seu livro, eu espreitava nos meus três anos, enquanto ouvíamos o eterno concerto em Ré de Tchaikovsky. Um dia qualquer a música foi encantadora e as palavras começaram a ter sentido, eram significantes, as entendia, mas letra por letra, não a frase inteira, e ia adormecendo no colo do engenheiro. Engenheiro que, enquanto lia, passava a sua mão pela minha cabeça de cabelo aloirado, levava-me ao meu quarto, acostava-me e até o dia seguinte, as 6 da manhã, eu dormia profundamente. Hoje em dia, com cabelo que passa de castanho a branco, ainda lembro esse acordar, era quando a casa começava a movimentar-se: hábitos de barco…

 

 

 

Passados quase quatro anos, comecei a receber revistas com desenhos animados e palavra que explicavam, a mulher do engenheiro começou a engordar, eu era muito novo para saber o que passava, sempre sentado na minha alta cadeira de bebe, talhada em madeira por um cunhado da mulher do engenheiro, onde já nem me sentava, me encavacava, era grande demais para essa peça do mobília, que, mais tarde na vida, serviriam para os outros que viriam como irmãos.  O engenheiro começou a pensar que devia aprender a ler e escrever, a aritmética, a história e outras ciências, e falou com a sua mulher para organizar os meus estudos em casa com uma preceptora paga por eles. Ao longo de um ano completo, entendia tão bem as frases, que me fora oferecida uma colecção de 15 livros, desde Charles Dickens até Julio Verne, passando por Louise May Alcot., Shakespeare, Marlowe, Daniel Dafoe, os de Dumas pai e outros Os devorava e tornava a ler. Era tanta a voracidade, que outra colecção fora-me oferecida, da época áurea do teatro grego, somente de quatro nos chegaram peças integrais, todos eles de Atenas: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes na tragédia, e Aristófanes na comédia. Suas criações, e mais referências de fontes secundárias como Aristóteles, são a base para o conhecimento do teatro da Grécia Antiga, e outros mitos gregos, chegaram a mim. O ensino continuava em casa e mais livros apareciam, como imãs e irmãos. Estes faziam tanto barulho, que eu me metia nos livros para não ouvir, num canto do imenso jardim, no meu quarto, em todos os sítios possíveis para não perturbar a minha leitura. Mal acabaram as minhas leituras e os irmãos começaram a aparecer, o meu imaginário começara a trabalhar: tinha informação e tinha irmãos que, apesar que apenas gatinhavam, tinham os seus papeis teatrais na minha fantasia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Busto de Eurípides, cópia romana de original grego do século IV a.C., Museu Pio-Clementino.

 

 

 

 

As maiores aventuras transcorriam na árvore de olmo, com os mais novos já capazes de andar. A irmã segunda, bem mais nova que eu, conseguia alastrar, nos seus dois anos, uma alcatifa até o pé da árvore e, cansada de tanto esforço, sentava-se com o seu vestido branco de Vilhena, herdado da minha roupa de  bebé, e a sua típica capota branca, de algodão e engomada. Cansava-se tanto, que mais do que uma vez a vi adormecer sentada, encostada na árvore; pedia a todos para não fazer barulho e assim recuperar do cansaço dos poucos metros que separavam o portal da casa da árvore. Era a pequena que eu mais adorava, quem andava sempre trás de mim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os anos de diferença que tínhamos, sendo um rapaz com muita imaginação, inventava jogos, fazia dela uma pequena adorável. Tinha, sim, medo aos cães e fugia quando o meu aparecia, entrava na sala e trás a janela de guilhotina, a baixava para estar mais certa. Com a outra pequena de apenas dez meses de diferença, certas e seguras no seu resguardo aplaudiam todas a brincadeiras que o cão e eu fazíamos. Apenas que um dia tive imenso medo porque o animal saltou sobre mim e deitou-me no chão de um caminho do jardim. Por ser o mais velho de todos, tive que aparentar que nada tinha acontecido e elas batiam palmas. O susto o guardara para mim: estava exibir-me e devia manter a alegria e o valor que os pequenos devem ter, como o engenheiro me tinha ensinado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Enquanto o irmão mais velho foge do cão, para admiração das pequenas pela sua valentia… e arrogância palavra que ainda nenhum deles entendia, mas que eram divertidas para brincar, elas fugiam dos perigos às que eram submetidas pelo mais velho dos irmãos. Adorávamos jogar no jardim da mulher do engenheiro, aprendemos a tratar as flores e plantas com respeito: não eram nossas, eram da mulher do engenheiro e cuidadas pelos jardineiros Galaz. Eram flores premiadas. Todos os anos abria uma exposição de flores na quinta que a família Vergara tinha oferecido à Cidade de Viña del Mar. A mulher do engenheiro exibia amores-perfeitos, rosas, alelis, uma planta muito perfumada e de variados colores, crisântemos e a sua famosa rosa da paz. Ganhava em todas as categorias, por más de 25 anos. A nossa ideia era, como filhos rebeldes, era que os prémios deviam ser partilhados com os jardineiros: eles tratavam das plantas, a mãe apenas dava ideias, trazia sementes de flores desde o estrangeiro por ideias de Juan Galaz, e ela era condecorada pelo trabalho de outros. Dos cinco que éramos, três nos rebelamos, em 1972, lembro bem, ele subia ao estrado para receberem os prémios juntos, sendo o chefe dos jardineiros convidado também ao cocktail do encerramento da festa. Lembro bem o ano, porque a bisavó dos meus netos por parte materna, alugava sempre uma casa perto da praia, para festejar a sua única neta, a psicanalista hoje, quando fomos ao Chile de Allende a investigar para a nossa Universidade Britânica. A exposição de flores era em Novembro. Em Setembro de 1973, nunca mais houve festa para parte da família, nos, o da Grã-Bretanha, por motivos universalmente conhecidos. Nunca mais tornei a por os meus pés na famosa Quinta nem vi as flores da Senhora do Engenheiro. Chile tinha mudado e nós, obrigados a mudar com eles. A nossa infância foi um paraíso, com nanas e ate um pequeno carro tirado por uma cabra, ao cuidado de Irmita. Presente de pai que conhecia bem o mundo. Esse carro é denominado Carro Cabra Cabriola, é um mito. A Cabra Cabriola é um ser imaginário da mitologia infantil portuguesa, mas também surge no resto da península Ibérica, foi depois levada para o Brasil pelos portugueses. A Cabra Cabriola é a personificação do medo, um animal em forma de cabra, um animal frequentemente de aspecto monstruoso comedor de crianças, um papa-meninos.

 

Mas nem todo era feliz nos anos 40 do Século XX e dentro da família havia tanta guerra como na Europa e na Espanha.

 

 

 

 

A família desunida por causa de guerra junta-se à Pater Famílias em procura de entendimento.

 

 

 

Os fundadores da família no novo continente, para debater quem tinha razão.

 

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