As condições de quem manda – por João Marcelino

(Diário de Notícias – 20-08-11)

1. A reunião de Merkel e Sarkozy, esta semana em Paris, tem todos os condimentos de uma reunião histórica. Os optimistas acreditam, aliás, que possa marcar a refundação da Zona Euro, visão ainda demasiado arriscada e pautada talvez mais pela necessidade do que pela racionalidade dos factos concretos.

Em resumo, o que se passou foi que, perante os gritos necessitados de Grécia, Irlanda, Portugal, e até já de Espanha e Itália, ou seja de toda a Europa periférica e desregrada, a chanceler alemã e o Presidente francês disseram muito claramente que obrigações de dívida europeia ainda não, mas que talvez sim, no futuro, “se”.

E apresentaram condições!

Essas condições passam por mudanças profundas nos 17 países da Zona Euro que terão, antes, de assumir uma política fiscal comum, com um governo financeiro centralizado no presidente do Conselho Europeu, Van Rompuy. E, até lá, todos eles vão ter de iniciar publicamente a discussão que Cavaco Silva já ontem lançou em Portugal, não sei se mais como Presidente da República ou se também como economista, sobre as mudanças constitucionais que permitam impor limites ao endividamento e ao défice.

Merkel e Sarkozy exigem essa mudança concreta, acompanhada da harmonização das políticas sociais e do sistema fiscal, antes de, sequer, admitirem colocar as respectivas economias a respaldar a irresponsabilidade sobretudo exibida pelos países mediterrânicos, contra os quais se levantam vozes enérgicas a norte, nomeadamente a da Finlândia.

 

A diabolização dos mercados, ensaiada a sul, no entender dos dois países do eixo, não explica tudo o que aconteceu nos últimos anos. E temos de admitir que, necessidades à parte, não explicam mesmo. Ainda assim, o caderno de encargos do eventual federalismo financeiro é, pode dizer-se, tecnicamente exigente e politicamente duro e polémico.

 

2. Esta cimeira, que demorou semanas a preparar por duas grandes equipas de responsáveis alemães e franceses, mostra pela enésima vez, se necessário isso fosse, quem manda na União Europeia e na condução da Zona Euro.

 

Quando o momento é delicado, como aconteceu aquando do Tratado de Maastricht e em tantas outras ocasiões posteriores, os dois países, Alemanha e França, sentem necessidade de mostrar quais as verdadeiras funções tanto da Comissão Europeia de Durão Barroso como do Conselho Europeu de Van Rompuy.

Hoje, estando a Inglaterra de fora do euro, e Espanha e Itália afundadas nas suas aflições, a liderança política e económica alemã, a que a França sempre empresta algum charme, é ainda mais indiscutível como se provou na terça-feira em Paris.

 

Em Portugal, como noutros países, quem pretender ser uma espécie de Califórnia da Europa, com uma falência a dormir à sombra do trabalho de uma União Federal, tem de se adaptar às condições.

 

Por cá, aliás, vai ser interessante ver como o PSD de Passos Coelho se acomoda perante a visão do Presidente, Cavaco Silva, divulgada ontem na sua página pessoal no Facebook. Provavelmente, noutra dimensão, teremos aqui uma divergência parecida com aquela que no Governo anterior opôs Luís Amado (defensor dos limites constitucionais) a José Sócrates.

 

Em todos os 17 países do euro, esta discussão vai ter de se fazer.

 

O ministro Miguel Relvas convidou Mário Crespo para correspondente da RTP em Nova Iorque, diz o Expresso, jornal de referência do Grupo Impresa, o mesmo para o qual o jornalista (da SIC) trabalha. Bem… não terá convidado, dizem as “fontes oficiais”. Terá “sondado”. Claro, percebemos todos. E concluímos, incomodados, que provavelmente não há nada a fazer. Este primeiro caso visível é a marca de água do poder em Portugal, seja qual for o partido que o exerça: é demasiado pequenino e não resiste à tentação de se exibir. Uma pena.

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