NOITE E NEVOEIRO – 2 – por Carlos Loures

 

 

 

Jean Ferrat

 

Diga-se que a primeira vez que em Portugal se falou em Nuit et Brouillard , exceptuando os leitores dos Cahiers du Cinema, foi a partir  de meados dos anos 60 com a bela canção de Jean Ferrat, saída a público em Dezembro de 1963 num álbum da Barclay. Terá começado a ser conhecida em Portugal no ano seguinte.

 

Nuit et Brouillard, canção composta e interpretada por Ferrat, encerra uma história que só mais tarde conhecemos. Compreendemos que era uma homenagem à memória das vítimas dos campos de concentração. Porém, desconhecíamos que, ao mesmo tempo, se tratava de um drama pessoal. O Jean – Pierre  de que nos fala, era seu pai, judeu vindo da Rússia para França. Preso e depois confinado no campo de Drancy pelas autoridade francesas  foi, em 30 de Setembro de 1942 deportado para Auschwitz, de onde não regressou. A directiva Nacht und Nebel  foi assinada em 1941 por Hitler, estipulando que as pessoas que representassem ameaça para o Reich seriam transferidas para a Alemanha e desapareceriam sem deixar rasto e num total segredo.

 

A canção, que vamos ouvir em seguida, foi proibida na rádio e na televisão – por intervenção directa do Eliseu ou desaconselhada pelo director do canal de serviço público (ORTF) – um domingo, ao meio-dia, passou no primeiro canal, provocando escândalo. O disco foi premiado, foi um grande sucesso de vendas e significou para Ferrat o começo do êxito. Ouçamos Nuit et Brouillard . Preferi esta gravação ao vivo a outras, porventura mais perfeitas. Deve ser quase contemporânea do lançamento do disco.

 

 

Voltemos ao filme de Alain Resnais

 

O filme levantou também uma lebre que estava amarrada – as responsabilidades francesas em matéria de deportação e de colaboração com os nazis. A comissão de censura exigiu em 1956 a supressão de uma fotografia de arquivo onde se pode ver um gendarme francês de sentinela no campo de Pithiviers. Os autores e produtores do filme recusaram, mas acabaram por ser obrigados a retocar a fotografia, fazendo um enquadramento da foto que permitiu suprimir o característico boné cilíndrico do gendarme.

 

Por seu turno, as autoridades alemãs exigiram que o filme fosse retirado da selecção oficial do festival de Cannes de 1956, alegando que o filme punha em causa a reconciliação franco-alemã. Estive uns tempos em França no ano de 1959 e pude observar que a colaboração francesa com os alemães era um dado adquirido, sendo uma acusação recorrente das esquerdas; o ódio aos judeus estava ainda vivo numa parte da população. Num próximo artigo, falarei deste aspecto da questão.

 

Portanto, estas manigâncias e censuras destinavam-se a preservar o futuro. E, de facto, o filme de Resnais é mostrado aos alunos do ensino liceal. O tê-lo expurgado das alusões ao colaboracionismo, foi uma medida «acertada». Vejamos então a segunda metade.

 

 

 

 

 

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