AS MINHAS MEMÓRIAS – 4 – SINDICATOS – por Raúl Iturra

  

O inevitável aconteceu antes do esperado. Não era fácil andar pelas terras da família Ramón, sem encontrar um dia os proprietários. Assim foi. Andava pelos campos de manhã, com calor, e, para a minha surpresa, encontro a Maria Eugenia de Ramón com uma amiga a passear pelos jardins da casa, antes da canícula do sol de Colchagua, começar. Cumprimentei às Senhoras elegantes, perfumadas e cheias de jóias.

 

 Com arrogância perguntou-me o que fazia eu ali, a minha resposta foi curta e breve: A admirar o seu lindo jardim, que me faz lembrar o da minha mãe, especialmente esta linda rosa, a da paz, criada no fim da guerra mundial: velha como ela é: amarela por fora e vermelha por dentro, e forneci a minha explicação simbólica, ela gostou, a amiga também, e passamos a falar dos amores-perfeitos, narrando eu como a minha mãe ganhava todo os anos os prémios pela criação dessas flores.

 

Ficou um pouco surpreendida, perguntou que fazia eu em sítios tão secos e quentes no verão, fiz obnubilação de pensamento, ripostei que éramos estudantes da Pontifícia Universidade Católica do Chile e o nosso dever era catequizar: como deve saber, somos católicos, encontramo-nos na Missa dos Domingos. Começou a brincar com um anel de diamantes da sua mão direita e o colar de pérolas cultivadas do seu pescoço. A minha ideologia não resistiu e coloquei perguntas. Imagem Aldeia Rural Chilena, semelhante a Nancagua, estudada por mim em Janeiro de 1959 Quanto pagava aos seus inquilinos, porque as jóias que vestia permitiam salários altos. Calou, apareceu o marido. Se eu tiver sabido! Raúl de Ramón era ateu, socialista e mação, ter-me ia ajudado. Perante as queixas da sua mulher, agiu como marido e me expulsou do jardim: via-se na minha cara que eu era comunista e andava a sublevar aos seus trabalhadores formando sindicatos.

 

Confessou ter informadores, os seus homens de confiança, como o mordomo e o capataz, que tomavam conta das terras quando eles andavam em digressão artística. Era uma terça-feira. À noite, juntava aos inquilinos, Reuniam comigo num mato obscuro, no meio de álamos, essa árvore gigante, que não permitia ver ninguém. Eles apareciam embocados para ninguém saber quem concorria. No meio, havia muitos trabalhadores que passaram a ser os meus amigos, após saber que eu lutava por eles, recebiam na sua casa a luz do dia, bebíamos chá da erva mate, dentro de um cabaço Imenso trabalho tinha sido seduzir aos camponeses, especialmente as suas mulheres. Enquanto o marido não está em casa, elas não permitiam entrar ninguém em casa. Mas, a curiosidade mata a regra e queria saber de onde eu vinha, preparou um mate bebido ao pé da cerca divisória entre a privacidade e a vida pública. A minha persistência não arredava pé.

 

Nos primeiros dias, eu passava pela rua central todos os dias a mesma hora, as casas eram fechadas de imediato, mas essa persistência de estar ai todos os dias a mesma hora, e manhã, teve como resultado janelas que começaram a abrir, ainda mais, quando passei na beliche do meu velho amigo da barbas brancas, Don Celedónio Correa, de Santa Cruz, sendo a sua filha Ana Maria Correia, uma linda e jovem rapariga, quem me convidara todos os dias para o chá da tarde. Éramos bons amigos, partilhávamos confidências e foi uma porta aberta para as casas da aldeia. Eram pessoas de bem e gostavam o que fazíamos pelos inquilinos. Ana Maria, as vezes, ia comigo a pé até Nancagua, perto da sua casa. Mais um golo para despertar a curiosidade das senhoras camponesas, queriam saber se era a minha mulher, namorada ou prometida em matrimónio. Essa curiosidade levara um dia a pergunta fatal, onde trabalhava eu e se ajudava a minha família.

 

Contei que era da Universidade, que eles converteram em luvesiá. Contei que era uma casa imensa para converter estudantes como eu, em Advogados, Médicos, Veterinários e outras ciências. Nunca tinham ouvido essas palavras e foi assim como com Ana Maria, começamos a alfabetização, primeiro com gestos: uma casa muito grande com muitas outras por cima. Não acreditavam: e não caem? Passamos ao desenho e de ai, a palavra. Foi assim todo o mês. Tivemos uma grade surpresa, no segundo domingo desse mês e ano, a saída da missa estava a guarda civil para nos levar a cadeia.

 

E à cadeia fomos, pela acusação de ladrões e comunistas – era a época que esse partido estava proibido. O Senador pelo PC, Pablo Neruda, tinha sido banido do país. Seriamos os próximos? Um milagre aconteceu. O velho pároco da cidade de Colchagua apareceu a seguir a hora de almoço, insultou ao sargento que comandava a tropa que nos tinha apresado: o que anda fazer, seu caralho, apressar o melhor da nossa juventude, de famílias de alta alçaria, que só fazem bem a pátria? Saiba que eu sou Monsenhor de Amat e Junior, tetraneto do governador assim denominado, porque se não os larga, telefono de imediato ao Marquês Bulnes, e de certeza quem vai para a cadeia é sua miséria e colegas de bando…

 

O Marquês Bulnes, era denominado assim pelos seus apelidos e genealogia, mas era apenas o Ministro de Assuntos Internos do Presidente da República, Jorge Alessandri Rodríguez. Persistimos, ficamos mais duas semanas, ensinei aos meus colegas como se fazia trabalho de campo, ficando, finalmente, formado o sindicato, o primeiro sindicato de inquilinos ou jornaleiros rurais. A partir desse dia, até abandonar o Chile para as minhas pós-graduações na Grã-Bretanha, todos os verões levava estudantes a alfabetizar e organizar Sindicatos. Passei a ser o Presidente da Federação de Estudantes, o que ajudou imenso a Salvador Allende a triunfar nas eleições. O que começou à Mounieur e Maritain, acabou à Marx e Allende.

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