DIÁRIO DE BORDO, 26 de Outubro de 2011


 

Parece que a União Europeia quer perdoar metade da dívida pública grega. O problema é que são bancos privados os credores de boa parte dessa dívida, e não estão para. E há três bancos portugueses entre esses credores, o BCP, o BPI e a Caixa. Eis-nos divididos: perdoar aos gregos seria conveniente (até para ver se nos perdoam daqui a uns dias), mas o dinheiro dos nossos bancos (nossos? Até parece o Angola é nossa. Alguém dá alguma coisa pela minha parte?) vai-se. Será mesmo de perdoarmos aos gregos, que dizem?

 

Consta que o Passos Coelho é contra o perdão à Grécia. Será que não vai pedir para Portugal o mesmo regime que parece que vão aplicar à Grécia? Se se confirmar, quando nos sentimos atrapalhados, podemos passar a dizer “vemo-nos portugueses” em vez de “vemo-nos gregos”. Não será bem por uma questão de patriotismo. É que neste caso há razões redobradas para atrapalhação.

 

De qualquer modo, esperemos que o Senhor Primeiro Ministro explique bem as suas razões. Entretanto, em França, o Nicolas Sarkozy (perdão, o Senhor Presidente Sarkozy), quer pôr o novel Fundo Europeu de Reequilíbrio Financeiro – FEEF a fornecer os fundos para a recapitalização dos bancos. Mas sem o Estado ficar com parte dos bancos, ou outro regime que se pareça. Estão a ver, nós pagamos, e os banqueiros vão jogar com os novos capitais. Parece que a única restrição que querem pôr aos banqueiros é não haver distribuição de dividendos sem o acordo do Estado. E já sabemos como é… fica escrito, mas depois se vê… Leiam a este respeito o artigo saído no Le Monde, do Georges Ugeux, que A Viagem dos Argonautas publica já a seguir, às 13.30 horas, traduzido pelo argonauta Júlio Marques Mota.

 

Os nossos militares estão a manifestar muita insatisfação com as medidas governamentais, a começar com a proposta de orçamento. Parece que não se poderá contar com eles, se se quiser entrar à Pinochet. Bem, o orçamento que nos querem espetar é do mesmo tipo do que foi imposto no Chile, quando o senhor general fez o que se sabe.. E o mentor é o mesmo: Milton Friedman. Já não está neste mundo, mas os sucessores abundam. Entretanto, há informações sobre a presença na Grécia da European Gendarmerie Force, criada em 2007, por cinco países, um dos quais Portugal.

 

Depois do ferro em Trás-os-Montes, do gás natural no Algarve, e de outras promessas, chegou a vez do ouro no Alentejo. Desculpem, mas, caramba, que fartura! E assim, no meio desta crise. Esperemos é que não seja como aqueles convivas, na festa, na Cidade e as Serras, que queriam extorquir umas massas ao Jacinto, e diziam que era para explorar rubis (perdão, seriam esmeraldas?) na Birmânia. E como o Jacinto hesitasse, perguntasse se havia estudos a comprovar a existência das esmeraldas, um dos convivas (com certeza já bem atestado), respondia: “Está claro que há esmeraldas!  Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!”

 

Só para navegarmos mais um pouco, na Visão da semana passada, o Pedro Norton, diz, na sua coluna de opinião, que “…convém perceber o seguinte: Portugal compete no terrível campeonato da credibilidade. Genericamente percebido como mais um laxista país do Sul, merece tanta condescendência por parte da Europa civilizada como a que nós, cubanos, temos pela Madeira de Jardim. Zero.” Oh Pedro, desculpe, mas se fosse assim tínhamos sempre os buracos tapados, tal como tapamos os do Alberto João.  

1 Comment

  1. O nosso homem autor do diário de bordo que a bordo nenhum de jeito nos consegue dar a mostrar, nos consegue levar, tais são as tempestades que ao seu leme se opõem e que a visibilidade nos estão do futuro a tirar, o nosso autor brinda-nos com este texto:Parte I deste nosso comentárioDepois do ferro em Trás-os-Montes, do gás natural no Algarve, e de outras promessas, chegou a vez do ouro no Alentejo. Desculpem, mas, caramba, que fartura! E assim, no meio desta crise. Esperemos é que não seja como aqueles convivas, na festa, na Cidade e as Serras, que queriam extorquir umas massas ao Jacinto, e diziam que era para explorar rubis (perdão, seriam esmeraldas?) na Birmânia. E como o Jacinto hesitasse, perguntasse se havia estudos a comprovar a existência das esmeraldas, um dos convivas (com certeza já bem atestado), respondia: “Está claro que há esmeraldas! Há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!”Apesar de me sentir esgotado a procurar perceber o sentido do mundo que me estão a impor e francamente a não conseguir encontrar nenhuma explicação aceitável a não ser um misto de maldade, de ignorância , de servilismo, de sadismo também dos nossos dirigentes, ao ler esta peça ainda tive a frescura de uma história me lembrar e que passo a contar, extraída de um livro que li há anos e que passo a reproduzir: “Busang ou a história da paixão pelo ouroO ouro, esta relíquia bárbara sobre a qual ironizava Keynes mas pela qual os franceses e os chineses têm uma desmesurada paixão , o ouro continua a suscitar os sonhos, a provocar as corridas para as florestas virgens ou para os valores de algumas bolsas canadianas. Mais prosaicamente, o ouro continua a matar desde o triunvirato de Crassus em que os Partas vencedores encheram a garganta de ouro fundido a um geólogo filipino, Michael de Guzman, em que a azarada queda de um helicóptero desencadeou o mais belo escândalo da história mineira e provocou a perda de 4 mil milhões dólares. É uma história curiosa que começa no país dos pesquisadores de ouro, neste Canadá onde reina ainda o espírito dos aventureiros e o mito da fronteira. A pesquisa em mina é aí uma actividade importante uma vez que o país se tornou , desde há alguns anos, num importante produtor de ouro, algumas das suas jazidas metálicas têm os custos mais baixos do mundo. Habitualmente, a fase de exploração é feita pelos “pesquisadores” de ouro, pequenas sociedades de capital-risco financiando os geólogos, algumas sondagens, e outros trabalhos de pesquisa. Uma vez uma jazidas descoberta e confirmada, esta é tomada em mãos por um verdadeiro operador mineiro, e a empresa inicial recebe royalties e dividendos: um verdadeiro jackpot nalguns casos. É assim, em geral, nas bolsas de Toronto, Vancouver ou de Alberta onde estas sociedades levantam fundos.

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