Carla, Nicolas, Giulia et l’instinct de survie, Gérard Courtois, Le Monde. Selecção, introdução e tradução por Júlio Marques Mota.

Nota de Introdução

 

Em Agosto passado  escrevi uma espécie de postal ao ministro da Economia enviado, e foi de facto enviado,  onde se afirma no contexto de crise em que vivemos :  

 

“Em Portugal, a situação, pode tornar-se igualmente explosiva, dada a forte crise em que vivemos, dada também a ausência de apoios institucionais adequados a nível da Europa e dadas as políticas ainda de mais austeridade que se avizinham a virem a ser aplicadas pelo governo a que o senhor ministro pertence. Quando a métrica da barriga se sobrepuser à métrica da ética, muita gente até agora calada pode deixar de ser mansa ou cobarde, para usar os termos de Domingos Rodrigues e o sistema pode vir a ficar politicamente fora de controlo. Uma situação que nem quero imaginar, mas dela francamente tenho medo.”


Estava longe de imaginar a cavalgada wagneriana para o  abismo, para o fascismo, que se estava afinal já a desenhar pela mão de Passos  Coelho com a tesoura de um ministro de Gaspar chamado, o das Finanças,  e de um outro que ignorante passa agora a ser considerado, o da Economia, secundados eles por um conjunto de homens dispostos a tudo para os mercados de capitais bem  servir. Os temores  são agora bem  nítidos e o medo instala-se. As pessoas e serão já muitas começam a estar privadas de quase tudo e ficarão com o novo Orçamento privadas de muito mais, possivelmente de médico até, pelo menos nas urgências e não só. Se é verdade que no Ministério da Saúde os cortes são  tais que põem em risco o funcionamento normal do Serviço Nacional de Saúde, se é verdade que as taxas  moderadores se irão aproximar das consultas privadas, é de supor que muita gente carenciada até de cuidados médicos adequados  pode ficar privada. Grave, empurrados para fortes desequilíbrios emocionais até desses desequilíbrios ficarão impedidos de se poderem tratar.  Muito grave, o que se está a passar. Da mesma forma que não entendemos que haja livros no ensino secundário a custar 50 euros ou mais, da mesma forma não entendemos que se possa subir o preço de uma ida ao médico e esta subida corre agora o risco de se tornar proibitiva, dados os cortes brutais no Serviço Nacional de Saúde, ou nas idas aos hospitais. . Não será  de estranhar  que os pobres a viverem no meu país e  neste serão cada vez mais se sintam encurralados, sem direito a ter direitos, nem sequer o de serem ajudados clinicamente a manterem-se direitos num barco que se afunda cada vez mais. Desequilíbrios possíveis, danos inimagináveis, era   também disto  e a isto que me referia  na carta ao ministro. De  situações equivalentes nos fala esta crónica vinda de França onde o mal não atingiu ainda a gravidade que aí  e aqui também querem a toda a força instalar.  Hitler terá afirmado que se os judeus não existissem teriam que os inventar porque seriam eles que iriam pagar as custas imediatas do regime por ele a criar,  e Passos Coelho por esta  via também poderá pensar que se não existissem tantos pobres então teriam que os criar para a crise poderem pagar. E estão a criá-los e estes estão já a pagá‑la.


Uma crónica, a que segue, que nos faz nisto tudo pensar. Simples, portanto os dados da equação. Os pobres deste país, e serão agora mesmo muitos mais, começarão a ficar completamente espalmados, sem  emprego, sem dinheiro, sem apoios sociais e com os preços de tudo, até a alimentação a disparar, estes vão viver uma vida de inferno  e de tal modo será que à face deste país, deste governo, das suas determinações, os vai  forçar a viver paredes meias com a miséria e também com a marginalidade. Esta, enquanto que individualizada, é passível de prisão, mas quando colectiva é  ela expressão de revolta e caminho possível para a  revolução. Mas uma coisa é certa: este governo , com este orçamento, com esta política, é claramente uma ameaça para a Democracia e é o caminho inverso que democraticamente devemos obrigar a seguir. Mas uma outra coisa é também certa: ou organizamos politicamente esta viragem ou será na rua  que ela será feita, que ela será estabelecida,   Chegados aqui, tudo é possível.  Nem quero imaginar.


Lembro aqui as palavras de Quatrepoint em Mourir pour le Yuan [1]?

 

“Se é nas ruas que a inversão é imposta, são pois os povos que dela se encarregarão. “Como o fizeram sempre na história, quando um grupo social, uma casta, uma oligarquia abusa dos seus  poderes. O drama é que estas revoltas, estas explosões sociais, concluem-se por vezes pelo pior. Depois de 1789,  veio o Terror. Depois dos mencheviques vieram os bolcheviques, depois de Weimar vieram os nazis”. E as semelhanças na crise de hoje com os anos 30 já são muitas.”


Felizmente temos a posição dos militares de hoje, ainda militares que em Abril de ontem as portas da liberdade abriram e que hoje essas mesmas portas não estão dispostos a deixar fechar,  conforme se mostrou com as declarações de Vasco Lourenço, o que nos dá algum conforto, sendo certo que a resistência a estas políticas tem que rapidamente começar a ser organizada. E aqui, deixem-me citar aqui um cartaz dos Indignados em Madrid, de que muito gosto:


When injustice becames law, resistance becames duty


De um cartaz de uma manifestação dos Indignados em Madrid

 

Júlio Marques Mota

 

 

Carla, Nicolas, Giulia e o instinto de sobrevivência


Carla Bruni-Sarkozy tem uma voz inimitável, suave, doce mesmo,  distante, ligeiramente  irónica, para explicar a quem a  quer entender  que o nascimento da sua filha, Giulia, é um acontecimento “banal” que não interessa verdadeiramente aos Franceses.


 

De tal modo  banal, mesmo, e rodeado  de tanta discrição de boa qualidade no  Eliseu  que  a esposa do chefe do Estado  só concedeu   quatro entrevistas desde há um  mês.  A  25 de Setembro,  foi  na emissão confidencial de Michel Drucker (“Vivamente ao  Domingo”). A  27 de Setembro, explicava em inglês a  Christine Ockrent, para a BBC, que “não há muito a dizer” e que “ muitas  mulheres esperam uma criança”. No dia  20 de Outubro, no dia seguinte ao do nascimento, a cadeia France  2 difundiu uma nova entrevista, realizada três dias antes no  Eliseu; e nesta entrevista precisa, de forma bem firme,  no caso de poder  excitar curiosidades sem sentido , que não tem mesmo nenhuma  intenção “em  apresentar a sua filha; isso  não tem nenhuma utilidade “.


Entretanto, por fim, a  1 Outubro, a senhora  Sarkozy concedeu  uma entrevista, exclusiva certamente, à Madame Fígaro.  Questionada  sobre saber se lhe levantava algum problema dar à luz uma criança no momento em que muitos Franceses se  preocupam  com a crise e o futuro, teve esta resposta, de bom senso: “Não penso que se faça uma  criança colocando-se a si-mesma questões. Assim acontece sobretudo  numa espécie de inconsciência feliz e é assim desde a noite dos tempos. “ Antes de acrescentar esta frase, da qual não se sabe se resulta  de uma elementar filosofia da existência ou se é o retrato esboçado do seu presidencial cônjuge: “Penso que o instinto de sobrevivência se manifesta  também com o desejo de criança.”


O instinto de sobrevivência! Este, a Nicolas Sarkozy nunca faltou. Mas vai-lhe fazer falta ainda muito mais  para enfrentar os seis próximos meses e  manter a  esperança da sua re-eleição. A sua filhinha,  Giulia, ajudá-lo-á  sem dúvida, como uma promessa de futuro e de longevidade paternal.


Para a longevidade presidencial, trata-se então de  um outro negócio. O hóspede actual do Eliseu vê o tempo ir-se embora implacavelmente sem que o chegue a controlar,  a inverter a tendência do pesado descrédito que o condena, sem que consiga atenuar  o martelar  incessante das sondagens que o condenam  ao insucesso, sem conseguir também a afrouxar a enorme pressão  de uma crise económica e financeira que lhe não deixa nenhuma tempo de descanso, mas da qual quer fazer a sua principal vantagem. O único, talvez, tão grande é o  “tsunami” a ameaçar o euro, a Europa e a França que eclipsa todo o resto.


De facto, cada intervenção do presidente quer-se, doravante, mais urgente, mais solene, ou mesmo , mais dramática. Para melhor elogiar a sua lucidez, o seu empenho,  a sua coragem; e, por contraste,  a inexperiência, a irresponsabilidade e  o irrealismo dos seus adversários e o principal de entre eles, em especial, François Hollande.

 

“Há responsáveis políticos que não têm o ar de se darem  conta que as decisões esperadas nos próximos  dias   vão condicionar o futuro da Europa? O nosso destino joga-se nos próximos  dez dias “, declarava, a 18 de Outubro, no Eliseu, à  frente dos responsáveis da maioria. Ou este comentário, depois da  advertência dirigida pela agência Moody’s sobre a capacidade da França em  conservar a sua notação de  triplo A: as primários socialistas “estão desligadas completamente desta realidade”. Ou ainda a seguinte afirmação : “Os socialistas ocupam-se dos socialistas; nós devemos ocuparmo-nos  do conjunto dos Franceses.“


Traduzido pelo seu apoiante fiel  Claude Guéant, o ministro do Interior, numa entrevista ao Fígaro  este fim de semana, traduz-se no seguinte: “François Hollande  não tem a capacidade. Nicolas Sarkozy é um valor seguro.“

 

O argumento é simplista, certamente. Mas o campo Sarkozy não tem muitos outros e, por conseguinte, será repetido infatigavelmente nas próximas semanas. Poderá, no entanto, voltar-se contra os seus autores. Nicolas Sarkozy tem evidentemente razão em querer  sublinhar a gravidade da crise na qual está  mergulhada toda a Europa. Mas nada assegura que os Franceses o considerem  melhor armado para lhe fazer face. Por duas razões.


A primeira  é evidentemente que a sua credibilidade está  profundamente atingida. Desde há  três anos, quantos vezes se ouviu  o presidente orgulhar-se de ter sabido evitar o pior, antes de compreender que não foi nada assim; quantos vezes o viram, na sequência  de um G20 ou de uma cimeira europeia, colocar-se em salvador da Europa, ou mesmo do mundo, antes de  verificar no pior das hipóteses se tratava de  fanfarronada ou, no melhor dos casos, se tratava de uma forma  de tomar  os seus desejo pela a realidade.


A segunda razão é mais difusa, mas não menos determinante. Mobilizado, pela força das coisas, na  frente da crise, Nicolas Sarkozy permanece sem reacção e sem voz  na frente dos  mil e uns sintomas de uma sociedade cada vez mais tensa, enervada,  dividida  entre a depressão e a passagens para actos violentos.

 

Os exemplos? Preenchem as colunas “dos factos diversos” que são outros tantos factos sociais.  A  9 de Outubro, em Gard, um homem abate com dois tiros espingarda  um ladrão que tentava roubar plantas de cannabis , cultivados evidentemente em completa  ilegalidade no recinto do seu curral. A  13 de Outubro, um professor  de matemáticas imola-se  pelo fogo no tribunal do liceu Jean-Moulin  de Béziers (Hérault),  diante  dos seus alunos e dos seus colegas, na  hora do recreio. A  14 de Outubro, no espaço da  prefeitura de Cher, em Bourges, uma jovem funcionária da  polícia é morta,  de uma pancada  de sabre, por um professor de 33 anos a  quem acabava  de recusar uma licença de porte  de arma. A  15 de Outubro, em  Gennevilliers (Hauts-de-Seine), dois homens espalham  gasolina sobre um motorista de autocarros e tentam pôr-lhe  fogo, sem o conseguirem. A  17 de Outubro, um desempregado de 45 anos armado de uma pistola fictícia toma como  refém, durante três horas, a directora  da agência do Instituto de Emprego  do 11º bairro em Paris, assim  como o seu assistente; o homem deixou-se agarrar  finalmente sem violência.


Dramática série negra? Talvez. Mas que diz muito  sobre o estado de uma sociedade que duvida cada vez mais do que significa a expressão  viver em conjunto. De tudo isto  também o Presidente  “protector” que Nicolas Sarkozy julga ser deverá dar-se  conta. E não será na verdade o  mais simples. Como dizia a sua esposa na sua entrevista recente à França 2: “As pessoas têm dificuldades. É natural que tenham  o chefe do Estado como  responsável. “ Não se poderia dizer  melhor .


Gérard Courtois,  Carla, Nicolas, Giulia et  l’instinct de survie, Le Monde, 24 de Outubro de 2011.

 


[1] Jean-Michel Quatrepoint,  Mourir pour le Yuan ? François Bourin Editeur,2011.

 

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