Ontem, no Público, Vasco Pulido Valente, na sua coluna de opinião, publicou um texto intitulado História de uma Crise, em que começa por afirmar que “O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A democracia portuguesa nasceu torta.”, e a seguir procura resumir (à sua maneira, claro), as razões porque Portugal está no impasse actual, e acaba, resumindo, desta maneira: “Foi, desde o princípio, uma incapacidade atávica de tratarmos de nós com um módico de inteligência e razão; e sobretudo como uma sociedade coesa com fins comuns”.
Discutíveis são todas as opiniões, e também as de Vasco Pulido Valente. Ao lê-las, é difícil não ter a sensação de que ele acha que está (estamos) perante um problema sem solução. Um problema que se arrasta desde há séculos, e que terá contribuído para que a democracia portuguesa nascesse torta.
A reflexão sobre as razões históricas do atraso nacional é importante. Antero Quental meteu ombros a essa tarefa, entre outros. O escritor e académico brasileiro Viana Moog (1906 – 1988), por exemplo, em Bandeirantes e Pioneiros (1954), procurando explicar as diferenças entre a evolução do Brasil e dos Estados Unidos, aborda uma série de aspectos, entre eles as razões da decadência de Portugal e Espanha. Citando o historiador inglês Tawney (1880 – 1962), refere o falhanço pelos dois países na adopção das regras do capitalismo, como “uma incapacidade para os assuntos económicos que parecia quase inspirada”. E a seguir considera ser incrível, do ponto de vista protestante e capitalista (como eram desde o século XVI a Inglaterra, os Países Baixos, a Alemanha, a Suíça), o que passou na Península Ibérica na transição da sociedade feudal pré-capitalista para a definitivamente capitalista. Conclui mesmo que parecia que Portugal e Espanha estavam apostados em ver qual dos dois praticaria maiores desatinos.
Na reflexão sobre o atraso nacional é necessário incluir a análise sobre a actuação dos grupos e classes dominantes ao longo da história. O livro Os Donos de Portugal, Cem Anos de Poder Económico (1910 – 2010), saído em 2010, de Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas, vai nesse caminho.
Nos nossos dias, o governo português, nos seus esforços de redução do défice orçamental, foi mais longe que o documento da troika, ao reduzir as remunerações dos funcionários públicos e as pensões e aposentações. Contudo, apesar da troika apontar para o fim das parcerias público-privadas, ainda não deu um passo nesse sentido. Também tem recusado taxar as grandes fortunas e as transacções financeiras. Parece notório achar que deve poupar o sector social formado pelos mais ricos.


João: o “Diário de Bordo” tornou-se para mim de leitura obrigatória, pondo-me sempre na linha do que está acontecendo, mesmo em dias em que não acompanho as notícias, um esteio com a dura realidade, acompanhado de reflexões que nos ajudam a centrarmo-nos no essencial. Obrigada. Beijos.
Obrigado eu, Clara, pelo teu comentário. É para mim um grande incentivo. Um beijo para ti.