Diário de bordo de 8 de Abril de 2012

 

 

 

O nosso blogue assume-se como apartidário (o que não significa que todos os seus colaboradores o sejam). Queremos deixar claro que as opiniões expressas nos editoriais apenas vinculam a equipa coordenadora e, por vezes, somente o coordenador a quem, num dia determinado, cabe a missão de escrever este Diário de bordo. Na prática, se quiséssemos escrever editoriais que reflectissem o pensamento político dos mais de sessenta colaboradores, teríamos de optar pelo menor múltiplo comum – os nossos editoriais talvez apenas pudessem dizer – “Liberdade”.

 

Projectamos difundir um convite no sentido de todos terem oportunidade de escrever um editorial. Para já, todos podem, em comentários, ou em posts, discordar do que aqui se diz. Esta introdução serve de vacina para o facto de hoje falarmos de líderes partidários, concretamente de Francisco Louçã e de Jerónimo de Sousa e de ilações precipitadas que daí se poderiam extrair.

 

Consideramos Francisco Louçã um político sério, um dos poucos de que não é justo dizer-se que «são todos a mesma coisa». Há mais gente honesta, no Bloco de Esquerda, no Partido Comunista, no Partido Socialista e mesmo nos partidos de direita. Os políticos não são todos a mesma coisa – há quem esteja na política para servir e não para se servir e se governar.

 

Falámos de Francisco Louçã porque numa celebração do aniversário do seu partido, o coordenador da comissão política do Bloco de Esquerda, exigiu ontem a realização de eleições legislativas antecipadas caso Portugal venha a precisar de um “novo empréstimo”. Considerando que o Governo teve “uma semana vertiginosa”, Francisco Louçã afirmou que a política do primeiro-ministro Passos Coelho “é uma vigarice”, porque “aumenta o desemprego e a dívida”. (…) “É a democracia e não a vigarice que tem que decidir; democracia é decisão, decisão são eleições, é a escolha democrática de todos”.

 

O que surpreende, quer nestas afirmações de Francisco Louçã, quer noutras de Jerónimo de Sousa, é o contraporem o conceito de Democracia às práticas terroristas dos governos do bloco central – devendo dizer-se que este actual executivo está a mentir tanto com Sócrates (chama lapsos às aldrabices o que não as transforma em verdades) – Ora, este Governo e o de Sócrates foram eleitos democraticamente e estão a usar de prerrogativas que o chamado ”jogo democrático” lhes confere.

 

Parece haver uma confusão de bloquistas e de pecepistas. Esta democracia não implica a participação do povo nas decisões. É uma “oligarquia liberal” como lhe chamou Cornelius Castoriadis. Louçã, Sousa e outros é que estão a jogar o jogo errado. Novas eleições? Ou as ganha o PSD de novo ou as vence o PS de António José Seguro. O povo perderá sempre todas as eleições que se organizarem dentro deste sistema. O “jogo democrático” é jogado assim. Ou seja – as regras estão feitas para que seja a vigarice a triunfar e a Democracia a perder. Louçã e Sousa são homens inteligentes – devem saber isto.

 

Alguém nos explica por que razão insistem em jogar este jogo viciado?

2 Comments

  1. A democracia, embora bem intencionada, sempre teve um lado utópico. Porém, e fazendo meu o pensamento de Churchill, ainda não se inventou nada melhor. Mas há que ter a percepção de que actualmente está demasiado subvertida e ao serviço das máquinas do poder. Verdadeiramente, hoje o eleitor não tem escolha. Apenas decide em que nádega quer levar o pontapé.

  2. Caro Fernando Vouga:A frase de Churchill tem sido milhares de vezes repetida e, de certo modo, branqueia as perversões a que o conceito de democracia tem sido sujeito. A questão é – a democracia representativa pode ser considerada democrática – ou seja, será mesmo um governo do povo? No caso concreto – novas eleições, manipuladas pela imprensa amestrada, pelos opinion makers do costume, poderá derrubar o Coelho e pôr o Seguro no seu lugar. A mim não me parece grande ideia – substituir a peste pela lepra?

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