GUALDINO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 
  Lisboa, 1950, Café Chiado. Em cima da minha mesa um livro e um caderno de apontamentos. Estudo ou finjo que estudo. Levanto os olhos. Este Café é uma sala de estudo, é só mesas com estudantes, estão aí os exames. Ficamos aqui toda a manhã e consumimos apenas uma bica. Na mesa em frente um velho esguio, solitário, barbicha à duque de Guise, roupinha no fio mas distinção. É o Gualdino Gomes. No fim do século passado fez parte de uma tertúlia literária. O Eça de Queiroz não dispensava o seu convívio. Não sei porquê, o Gualdino nada escreveu. Ditos de espírito, essa foi toda a sua obra. Perecível, pois foram morrendo os que fez rir. Ou talvez não… Vejo que chama o criado de mesa, aquele que anda sempre a bufar e a coxear por causa dos calos.
 – Ó Pina, traga-me um galão e um queque, mas que seja fresquinho.
  – Ó Sr. Gualdino, os queques acabaram de chegar…
 – Também eu acabei de chegar e já tenho 90 anos…
 Numa outra mesa, mais afastada, um preto lê o Diário da Manhã. Na lapela, a cruz d’Avis. Olha de esguelha para o Gualdino. Não o suporta, vê-se. É o Machado, o angolano, o jornalista. Escreve uns artigos sobre o génio universalista dos portugueses, porque o Infante, isto e aquilo, o realejo do costume. É um ferro forjado, rosna-se. Ou seja: é um protegido do António Ferro, o patrão do SNI.
 Gualdino paga e levanta-se. Também se levanta o Machado que vai ao seu encontro, intercepta-o. Aponta-lhe a gola do sobretudo. Apregoa:
 – Ó Gualdino, você tem aqui um piolho…
 O Gualdino mira o piolho, real ou fictício. Com um piparote do dedo médio logo o dispara sobre o Machado.
 – Ah malandro, vais já desterrado para a costa de África!
 Fica o Machado entupido e a malta a rir.
 Começo a entender a afeição do Eça por aquele jovem de 30 anos que hoje já tem 90… E quando eu tiver 90, se vier a tê-los, alguém se lembrará ainda do Gualdino?
 
(in QUERENÇA EDITORIAL NOTÍCIAS – Lisboa, 1996)

 

1938 – À porta da Havaneza, da esquerda para a direita:

Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio da Costa

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