Eclipse – Maria Teresa Horta

 

 

 

 

Maria Teresa Horta  Eclipse

 

 

 

 

 

   No dia em que a mãe saiu de casa, vestida de shantung escarla­te e casaquinho cintado cor de marfim, levando consigo duas malas de cabedal depois de ter largado as chaves em cima da cama por fazer, cobertores revolvidos puxados para trás, deixando ver o len­çol de baixo ainda com a marca leve do seu longo corpo de porce­lana branca, houve um ciclone que derrubou a vida de todos.

 

É o inferno, imaginou Laura. A tempestade com o seu estrépito parecia vir das entranhas da terra, de onde também partia o bafo escaldante e um fumo denso, mais névoa ou negrume de cobrir o sol, num imenso breu ou estivesse cega e fosse preciso encontrar a saída do escritório, tacteando à volta, recorrendo ao instinto e à memória:

 

Nas paredes maiores estão as estantes até ao tecto, com as suas prateleiras compridas de madeira encerada, por onde ganhara o hábito de passar os dedos numa espécie de carícia breve, a supor as histórias dos romances que lhe eram proibidos, assim como as palavras dos poemas degustados com lentidão estremecida, perturbando-se se o primo mais velho lhe ia espreitar sobre o ombro, com o seu hálito quente, levando-a tropeçar nos versos. Mais adiante estava a mesa de canto D. Maria, com a floreira de rosas-damascenas, a moldura trabalhada de casquinha, o cinzeiro e a caixa da Vista Alegre, e do outro lado o relógio de pé alto, pêndulo de pre­cisão a trabalhar o tempo, numa regular monotonia entorpecedora.

 

Mas, aquela manhã chegara embrulhada em negror, que num rapidíssimo galgar se espalhara, acre como o enxofre, num lastro de tragédia, e o jogo de faz de conta da menina acabou por se transfigurar numa espécie de ficção assustadora.

 

A precipitá-la no abismo.

 

Assustada, ela estremeceu e tapou inutilmente os olhos de um azul líquido feito de lágrimas retidas, no instante em que a desor­dem começou a tomar conta de tudo à sua roda: primeiro foram as jarras dos gladíolos, as canetas, o tinteiro, os cadernos de capa de oleado e os livros do pai, que se soltaram, os discos, as gravuras, o lustre de cristal de Veneza, as figuras de biscuit voando como se tivessem asas; e em seguida as cadeiras, os candeeiros, as mesas, a secretária, e mesmo o seu banquinho de madeira com assento de palha entrançada, onde estivera subida à janela a espiar a mãe, que sem olhar para trás percorreu no seu passo dançante o curto caminho das pedras até à cancela de ferro entreaberta e alcançou a rua, cabelos louros ondulando nos ombros, um pequeno chapéu de fel­tro vermelho posto de lado.

 

Mais valia que ela tivesse morrido —, desejara malévola, vin­gativa, tornando a repetir numa zanga revolvida; — Mais valia que ela tivesse morrido —, choro oculto pelo novelo do seu fio de voz.— Isso não se diz da própria mãe —, repreendera-a a avó, a fitá-la com severidade. Sem rebuço ela insistiu, hostil, dando força aos senti­mentos ruins, impiedosa e fraca. E no entanto, era como se conti­nuasse na sua obsessiva vigia voyeurista, pela porta entreaberta do quarto onde ela se arranjava, agitada, esvoaçando meio-despida, o robe a adejar como uma asa, mostrando-lhe as pernas longas e esguias.

 

“Como uma garça”, lembrava-se de ter pensado, ao vê-la a hesi­tar entre o saia-e-casaco verde água que lhe realçava a pele alva de loura, e o vestido de shantung escarlate com o qual acabaria por sair, tendo como testemunha a filha, que por trás das vidraças lhe seguiu fascinada o andar dolente, tentando fixar-lhe para sempre a silhueta esquiva. Durante anos Laura acompanhara-lhe a indiferença, doendo-lhe o desinteresse aliviado, a alegria inconsequente, a imprevisíbilidade dos seus actos, alternando entre a ardência e a frieza, o entusiasmo e o desprendimento. Não se admirou, portanto, ao aper­ceber-se de que ela se vestia para partir, nem ao escutar o som dos saltos dos seus sapatos no mármore do patamar que dava para o jar­dim de gerânios, antecedendo a rua; limitou-se a subir para o banco junto da janela, de onde a observou a afastar-se.

 

Pequeno chapéu de feltro vermelho a escorregar nas ondas do cabelo lustroso, detido apenas pelos ganchos invisíveis e a travessinha de tartaruga a aflorar-lhe a orelha de concha rosada. Alheia aos ventos uivantes que a sua fuga desencadeara.

 

Laura atirou-se para o chão no momento em que os objectos começaram por erguer-se em torno dela com enganadores vagares de levitação, para logo treparem no ar gelado, rodopiando perigo­samente, levados pela vertigem de um vento incontrolável, que no seu desatino ora os atirava para longe, ora os trazia até si e os devo­rava, desmesurado e punidor, usando a vergasta do medo. E ela escutou esse medo, o peitinho ferido por uma dor revolvida e absurda, os lábios secos, descorados e mordidos pela lâmina dos dentes. Imóvel, como se um sortilégio a prendesse e em simultâneo a invadisse pela devassa de menina culpabilizada, desamada e esquecida por falta de merecimento.

 

Ou de culpa merecida.

 

Tal como se sentira na obscuridade do corredor, a espreitar, pela fresta da porta, a mãe que fazia as malas: no fundo os soutiens de renda e as calcinhas de cetim, as camisas de noite e em seguida as meias de vidro, as blusas, os vestidos de seda e tafetá, e num canto o volume encadernado de “Madame Bovary”, como se fosse uma bíblia. O cofre das jóias, os boiões dos cremes, o rouge, os frascos de perfume com essências de lobélia, de narciso e de nardo, iam na outra mala, que ela fechou pensativa e pálida. A caixa do pó de arroz e a cigarreira de prata, guardou-as na carteira de verniz encar­nado, igual aos dos sapatos de salto alto muito fino, idênticos aos das actrizes que copiava, seguindo-as nas páginas das revistas e no écran dos cinemas.

 

Mais valia que ela tivesse morrido! — pensou, quando ela entrou no carro e partiu, sem sequer acenar a despedir-se. — Mais valia que ela tivesse morrido! — teimou com afinco, sabendo quan­to esse desejo lhe era interdito, mas não se arrependendo dele.

 

E foi nesse momento que Laura escutou pela primeira vez o rugido do temporal que irrompeu implacável, a sacudi-la, tomando-a e enregelando-a, chegando-se a ela, a envolvê-la e a empurrá-la, ansiando por guindá-la até ao tecto e dai às nuvens, de onde a sol­taria no espaço. Ao sentir-se atraída para o centro de onde provinha a voragem insondável, enrolou-se sobre si própria, tentando passar despercebida, culpando-se já do que estava a acontecer, desmerecedora de felicidade e sossego; mas desconhecendo o sig­nificado dessas palavras estranhas, diante das quais, contudo, se sentia incerta e insegura. Face oposta da obstinação destemida da mãe, da sedutora segurança do seu andar elegante, atenta em não ondear as ancas estreitas, desagradada ao sentir o pequeno chapéu de feltro a oscilar nos cabelos dourados, só então dando conta de ter-se esquecido de o prender com os pregos de pérolas e granadas que, na pressa de fugir, largara no tampo da cómoda.

 

Da janela de onde a vigiava, a filha viu-a hesitar um tudo nada, como se fosse virar-se ou mesmo voltar atrás, para logo se arrepender e com um ligeiro encolher de ombros continuar até ao carro preto estacionado rente ao passeio. E Laura distinguiu uma mão masculina, forte e tisnada, abrindo a porta para ela entrar, tanto o pulso moreno com o relógio de ouro a contrastarem com o punho alvo da camisa.

 

Instante esse que entreabriu a guarda da menina, oferecendo o seu flanco à lâmina da espada, fio de lápis-lazúli a desenhar nela uma incisão muito fina, fissura que a tornará vulnerável. Tão vulne­rável que, apesar de longe, a mãe estremeceu num pressentimento ruim, para logo mudar a expressão transtornada do rosto em riso leviano, por demais ciente de não gostarem os homens de mulheres melancólicas, de mulheres tristes. E atirou para trás os caracóis sol­tos, contente de o ter seguido na aventura. Cansada da inexistência árdua, menos bibelot do que aristocrata, vaticinada a um destino rasgado pelo brilho das grandes histórias de desespero e amor clan­destino; um dia ansiosa pela banalidade de Emma Bovary e no seguinte a preferir o drama de Anna Karenina.

 

Acabando por recusar a abnegação e escolher a fatalidade.

 

Hipóteses que Laura inventava enquanto se apercebia do defla­grar da tensão do final da manhã, entretanto transformada em ven­daval implacável; poderoso e veloz como uma águia e tal como ela, cruel e carnívoro, garras em riste para a pegar pela cintura de friso da sua magreza e a levar consigo. Mas, ela instintivamente esqui­vou-se, saltou do banco e rastejou a esconder-se entre o sofá de veludo e a parede, e aí se enrolou como fazem os bichos, a cara protegida pelo ninho dos braços, a cabeça apoiada nos joelhos de ossos salientes e miúdos a cheirarem ao verdete e ao ferro da esca­da de caracol de serventia às traseiras.

 

Escadas que balançavam um tudo nada no ar, degraus oscilan­tes onde então se refugiara, sentada ao início da tarde, entontecida e acuada, a aguardar que se acalmasse a violência da tarde.

 

– Estás a arder em febre! — afligira-se a avó ao encontrá-la, pondo-lhe a mão muito leve e esguia e fresca na testa escaldante, a empurrá-la de volta à amenidade da sombra, onde a deitou na sua cama a cheirar a madressilva, manta leve a acalmar-lhe os calafrios e a secar-lhe os suores. Mal se afastou julgando-a calma e ador­mecida, a menina correu meio despida e descalça, sabendo como encontrar o trilho do odor materno, que a guiou resvalando de man­sinho até ao quarto dos pais, onde ficou a tremer do lado de fora da porta, espionando pela estreita frincha os movimentos nervosos da mãe a preparar-se para abandonar a casa, que depois de ela sair a tormenta varreria, tão feroz como um animal predador escapado da selva.

 

– Mais valia que ela tivesse morrido! — pensara, consciente da heresia, do desaforo, mas igualmente da chaga aberta no senti­mento, num encantamento que já não queria para si. Um dia ouvi­ra dizer que “mãe é mãe, mesmo se for uma silva”… Mas ela recu­sava a silva, o silvo, a ortiga, o espinho. Na verdade, mais do queo tornado, Laura temia o espinho, pois não havia salvação se o espi­nho ficasse cravado na alma, sem antídoto para o veneno daninho. Recuando diante dos picos aguçados dos cactos, ou dos picos afia­dos das rocas das histórias de fadas más e madrastas desalmadas, a quem nenhuma menina escapava. Rasura a intrometer-se na feli­cidade que o abandono destrói sem piedade de nenhuma espécie. Desconhecendo qualquer frescor capaz de atenuar a mágua que a secura afiava, numa solidão sem apaziguamento.

 

– Mais valia que ela tivesse morrido… — confessará Laura mis­turando a ânsia com a reza, ajoelhada na capela do colégio do Sagrado Coração de Jesus, terço de madre-pérola esquecido na mãozinha suada, sob a vigilância severa das madres atentas ao cumprimento da disciplina, ao ensino do catecismo, à orações diá­rias das alunas deuniforme azul-cobalto. E ela por ali ficava quan­to podia, como se apesar de tudo esperasse um milagre no qual
nunca acreditara, porque ao deixar de crer, passara a dedicar-se com empenho a disfarçar a pequena assassina que nela tomara o seu lugar.

 

– A tua mãe é maluca —, irão dizer-lhe mais tarde, mas ela nunca virá a entender, se as pessoas achavam que a sua mãe era louca ou a acusavam de leviana e adúltera. Lembra-la-á, isso sim, cintilando à medida que ia cedendo para acabar seguindo o trilho da paixão, deixando atrás de si um imenso rasto de desmorona­mento, como se depois da tormenta uma onda gigantesca rolasse ávida, a arrecadar o que encontrara de mais precioso.

 

E rolando sobre si mesmo o furacão não se acalmava, sibilante e desvairado, a construir o casulo à sua volta, e nele a menina-larva, ínfima, menor. Angustiada ao ficar diante do eterno enten­dimento que fizera das duas: a mãe, um pássaro colorido e emplu­mado, e ela, uma mosca que a tempestade assassinaria de bom grado; sem comparação possível no comparável uma da outra, “tu minha ilharga e pensamento escuso, no temor e no júbilo, tu meu afago mesmo se não me afagas, tu meu outro eu e idêntico lado”… Dividindo-se Laura entre o encantamento e o desprezo, demasiado pequena para tão desmesurada tarefa e intenso julgamento ou desa­tino camuflado de perda.

 

“Tu minha perda, tu minha pedra”.

 

Olhos secos e fechados tentando olhar por trás das pálpebras de pétala descida, ou por entre os dedos peganhentos de vómito, de saliva e ranho. Não, não havia mais lágrimas para ela chorar, nem socorro que podesse aguardar, embora sem esperança ou ape­sar do seu avesso. Abandonada e inquieta, desarticulada, fugaz e igualmente feroz.

 

A ignorar as vozes.

 

A avó encontrou-a de borco e desacordada no chão do escritório, com a lividez da morte, a boca entreaberta num soluço calado, as mãos emaranhadas uma na outra por cima da cabeça, num inexpli­cável e misterioso gesto de defesa.

 

E depois de voltar a si, continuou ausente e muda, alheada, olhar azul-hortense fito no absoluto nada.

 

– Inconsciente… — diagnosticou o pai que era médico, e estava interessado em que ela fosse considerada vítima do abandono materno, exasperado de nela reconhecer traços da mulher que o abandonara. — Sai daqui menina, que me fazes lembrar a tua mãe! – repeli-la-á mais tarde, ao vê-la aproximar-se em busca de cari­nho, como os animais.

 

– Catatónica, quem sabe… — acrescentou evasivo, à cebeceira da filha para quem nem olhava.

 

No entanto, ela levantou-se pela calada da noite, as tranças des­manchadas ao longo das costas, olheiras a ensombrarem-lhe o rosto, insistindo em dissimular o corpo débil que, com acinte, cola­va à escuridade através da qual passava com jeito de assaltante, tentando disfarçar o sopro que era a sua respiração mínima, e ilu­dir o roçagar dos pés nus, deslizando silenciosos no soalho encera­do. De braços estendidos para a frente como se fosse sonâmbula, mas afinal cuidadosa, andar aplicado, temerosa de que o negrume onde mergulhara iludisse a percepção que o seu corpo possuía dos poços, dos precipícios, das quedas de água, das armadilhas que as trevas sempre guardaram no fundo limoso e lodoso das cisternas.

 

Pelas palmas de ambas as mãos juntas e abertas em leque per­passou um levíssimo tremor de apreensão, de quem pretende trans­portar, preservando, o pouco que resta de si, delicado e frágil. E à medida que ia fluindo, Laura curvava-se mais e mais um tanto, na protecção do que levava unido ao peito, na concavidade tépida cria­da pelo gesto imóvel que os dedos sustinham, sem brechas, sem esquinas, nem aspereza de nenhuma espécie: um pequeno coração rubro a pulsar sobressaltado. Idêntico a uma rosa de sangue.

 

Tremeluzindo na cerração do eclipse.

 

 

Maria Teresa Horta

 

Lisboa, 2 de Março de 2008

 

 

(in O Prazer da Leitura, Teorema)

 

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