– 2 – HISTORIETAS
2.1 – Numa altura em que o nosso capitão tinha ido a Bissau e porque o Alferes Correia se encontrava de férias na Metrópole, eu assumi a chefia da Companhia. Durante a noite aparece-me no abrigo uma “alta patente”, muito esbaforida, alertando-me para o facto de estar eminente o ataque dos “turras” ao nosso aquartelamento, pois tinha visto no ar um “Boro Naice” que seguramente funcionaria como sinal para um ataque concertado.
Rapidamente contacto os sentinelas que, para meu espanto, referem não terem visto nada, o que foi corroborado por outros soldados que se encontravam acordados. Depois mais calmo e perante o bafo do visionário, conclui que o tintol deveria ter LSD. Só me apeteceu dar-lhe uma “tufada”.
2.2 – Volta e meia, aparecia no nosso aquartelamento um “foto-cine” que projectava um filme para distracção das tropas. Terminada a sua função e como não estivesse prevista qualquer coluna que o recambiasse, o indivíduo já começava a desesperar. Até que o Alferes Correia (estava na altura a comandar a Companhia) me propôs que levasse o dito a Galomaro no jipe do Comando. Perante o fascínio de dar uma volta a sério, lá me meti a caminho acompanhado pelo “Meirim” com a sua G3 e pelo “Mesquinhata” com o seu morteiro. Hoje arrepio-me ao pensar no perigo em que me constitui e os constitui (embora fossem voluntariamente) só pelo prazer de ter um volante nas mãos.
2.3 – O jipe do Comando tinha a deficiência (uns diriam característica) que se traduzia no facto de quando se virava totalmente o volante para a direita a direcção ficava presa. Um dia, aproveitando tal característica, pus o dito jipe a descrever círculos no campo de futebol, sem que alguém o conduzisse. Fui chamar o Semba para que este me explicasse este fenómeno paranormal. Após alguns segundos de verificação, saltou para o jipe impulsionado como que por uma mola, endireita o volante e grita: “Alfero, era demónio não, era volante preso”.
2.4 – Um soldado a partir de determinada altura desequilibrou, tornando-se extremamente agressivo chegando mesmo a apontar a arma a alguns colegas. Perante este quadro, o médico do Batalhão, Dr. Vítor Veloso, passa-lhe uma credencial para que se apresente nos Serviços de Psiquiatria do Hospital Militar. Qual não é o meu espanto quando passados 4/5 dias, o doentinho já se encontrava em Galomaro, vindo de Bissau e pronto a seguir para Dulombi. Assim que me vê, remata: “Oh meu Alferes, o médico que me atendeu era mais doido que eu” porquê? Retorqui. “Então não quer lá saber que me perguntou o que me apetecia fazer naquele momento. Disse-lhe que me apetecia deitar a secretária dele pela janela fora e o que me espantou é que ele se levantou para me ajudar o fazê-lo, pegando logo num dos bordos da mesa. Nunca mais lá ponho os pés”. Na realidade foi uma terapia espectacular, o moço nunca mais deu problemas.
2.5 – Como devem estar recordados, éramos frequentemente visitados por helis, quer para nos trazer frescos, quer para transportar algumas individualidades que nos visitavam. Certo dia, um desses helis estava com dificuldade em pegar. Perante este facto e como o Rosa, que era mecânico, estava a presenciar a situação, o nosso capitão disse-lhe, a brincar, para ir buscar a mala da ferramenta. Aquele tomou a ordem a sério e lá foi buscar a mala, sem que antes não dissesse “meu capitão, mas olhe que eu de helicópteros não percebo nada”. Claro, quando o Rosa chegou com a mala já o héli ia ao nível de Duas Fontes. Ficou-me na memória o respeito por uma ordem dada.
2.6 – Naquela fase final em que já não queríamos correr riscos, incumbiu o nosso capitão o Pelotão de Milícias de fazer um patrulhamento ao Vendu “qualquer coisa”. Passados alguns minutos de terem saído, ouvimos um tiroteio imenso. Logo aquele espalhafato nos pareceu “mise-en-cene”. Quando chegou o Pelotão ao aquartelamento, depois de algum aperto, o comandante acabou por confessar que não havia turra nenhum e que era só para fazer “ronco” e para puderem justificar uma quantidade de munições que tinham em falta.
