LOUCURA – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Éramos seis portugueses e três africanos de língua portuguesa, todos jovens e antifascistas. Em Agosto de 1953 arribámos, um a um, a Paris. Reencontrámo-nos numa pensão do Quartier Latin onde pousava o chefe do grupo. Ele disse-nos que um avião militar romeno viria buscar-nos para o Festival da Juventude em Bucareste; e ainda que os romenos, para nos defenderem da PIDE, não iriam carimbar os nossos passaportes. Adverti:
 

– Mas os franceses carimbam na saída e na entrada. Onde estivemos, entretanto? Em Marte?

 – O que é que tu queres fazer?

 Contei o que queria e largaram-se a rir, até me chamaram louco. Gritei:

 – Pois viva a loucura! 

No dia seguinte avancei com o delírio. Fui à polícia francesa dizer que me tinham roubado carteira com dinheiro e passaporte, Mas apresentei-lhes o meu Bilhete de Identidade e informei-os que tinha entrado em França em tal dia e em tal posto fronteiriço. Telefonaram, confirmaram e foram depois comigo ao Consulado de Portugal requisitar um novo passaporte. Recebi-o e a polícia francesa nele carimbou a minha entrada legal em França. Com o novo passaporte fui a Bucareste e voltei a França.

 

Mas ao regressar de França a Portugal usei o velho passaporte, evidência de ter ficado sempre em França.

 

Dos meus oito companheiros, três não regressaram a Portugal. Quanto aos outros cinco, por sorte dois entraram sem problemas, mas três ficaram presos na fronteira. Viva a loucura!…

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